domingo, 31 de agosto de 2008

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Prostituição

Luanda não é Surabaya, na Indonésia, a cidade das prostitutas, mas para lá caminha. Ali têm quase nove mil prostitutas recenseadas, na nossa terra, haverá muito mais?. De certeza que sim, apesar de não haver qualquer registo. Lá, em Surabaya estão confinadas aos bordeis e ruas de determinados bairros. Em Luanda, é vê-las por tudo que é canto:Marginal, Baixa de Luanda, bairros periféricos, discotecas, nos carros, mercados (Roque Santeiro e outros), resumindo, em toda a parte, de manhã, de dia e de noite. Kitatas (prostitutas) de baixa renda a concorrer com kitatas de luxo. Talvez, contando a odisseia de uma rapariga angolana, ficaremos a conhecer melhor o fenómeno.
"Katiana tinha 16 anos e estava em recuperação de um segundo aborto que correu muito mal. Vivia em casa de um tio e ficou grávida de um namorado, ainda disseram que tinha sido o próprio tio, mas ela desmentiu. Este levou a moça, ao Bairro dos Kilombos, emViana, a um posto de saúde cujas instalações não tinham as mínimas condições de higiene e onde se faziam toda a sorte de consultas, inclusivé, até operações cirurgicas, bem como abortos a bom preço. Um senhor com bata branca, com ar de conhecer do ofício, nome de origem francesa, mediante o pagamento adiantado de 200 kwanzas, iniciou a operação para interromper a gravidez. Mas tudo correu mal, forte hemorragia que teimava em não parar. Felizmente, o tal senhor que se dizia médico, teve o bom senso de pegar na rapariga e levá-la a uma Maternidade do Estado. O estado era grave, mas conseguiu salvar-se.
Viemos a saber do primeiro aborto, contado pela própria, feito numa clínica de coreanos que actuam às claras, apesar da legislação em vigor, condenar o aborto clandestino com prisão que pode ir de dois a oito anos de prisão maior. Foi um militar que a levava muitas vezes a passear à ponta da Ilha no seu jeep que lhe pagou esse aborto. Dizia que queria casar com ela, que mulher virgem, em Luanda, era coisa rara, e só casaria com mulher que lhe desse a virgindade. Ela cedeu, uma tarde, ali mesmo nos areais da praia ao pé do Farol. Mas, quando mais tarde, lhe disse que ficou grávida, o homem assustou-se, levou-a aos coreanos e nunca mais apareceu. Saíu de casa e para sobrviver, virou prostituta de rua. Andou uns tempos a bater o corredor Marginal/Ilha de Luanda, correndo os riscos que a profissão acarreta, clientes que não pagavam e ainda davam surras muito fortes. Foi levada por clientes para a Fortaleza de S. Miguel, chamada "Fortaleza do Sexo"; bateu também o parque do Miramar, quando estava em obras, a quem deram o nome de Maitre Beye e que devia tapar os olhos e dar saltos no túmulo, sempre que um carro entrava dentro dos taipais que cercavam o dito jardim, tais eram as orgias sexuais que ali se passavam, dentro e fora das viaturas. Chegou mesmo a ser levada um dia por um policial para a zona do Mausoléu, onde com a conivência de um guarda, lhe trataram da saúde. Outra vez, a moça, na Ponta da Ilha, onde muita gente já chama a "O Ponta da Fodélia", tal é a quantidade de gente que ali vai para "tchacar", enquanto aguadava por um cliente, três jovens com a ameaça de uma faca, a arrastaram para os pontões e a violaram várias vezes, tendo sido, em seguida, espancada violentamente. Ainda chegou a pensar arranjar um protector, mais conhecido por chulo, mas desistiu da ideia, voltou para casa do tio, arranjou namorado fixo, como vimos, engravidou outra vez, abortou e o namorado fugiu."

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Tempo de Antena

A Rádio Nacional de Angola resolveu o dilema de como distribuir a cobertura eleitoral entre todos os partidos que disputam a Legislativa do próximo dia 5.

No noticiário da manhã, ela intercalava uma reportagem (4 a 5 minutos) de alguma atividade do MPLA com outra (2 minutos) de outro partido. Era uma do MPLA, uma da oposição, outra do MPLA, outra da oposição, e assim por diante.

Entre as notas da oposição, duas davam conta da adesão de membros dos respectivos partidos citados, no caso a Unita e a PSD, que haviam se bandeado para o MPLA.

E que ninguém ouse acusar a RNA de tomar partido, pois não.

domingo, 24 de agosto de 2008

Racismo em Angola

Temos vindo a constatar um aumento do racismo em Angola, sobretudo na cidade de Luanda. Não é só com o aproximar das eleições, o seu crescimento tem vindo a sentir-se desde as primeiras eleições em 1992. Brancos e mulatos angolanos têm vindo a ser hostilizados, sobretudo pelos colegas de trabalho que desejam o lugar de chefia que ocupam, sem que para o efeito tenham as aptidões necessárias. Na rua, são olhados com desconfiança, "vai para a tua terra, seu tuga, kangundu da tuji" ou " vai para a terra do teu pai, seu mulato". Os expatriados levam pela mesma bitola, não escapam aos insultos, ameaças. Para a população em geral, todos os brancos são ladrões. Como não podem se virar contra o poder instituido há que descarregar a sua frustação na côr da pele do outro. Nos musekes, temos muito demagogo, a insuflar os ânimos das populações contra os brancos que nos vêm tirar as nossas riquezas, todos vivem bem, têm água, luz, carros e o nosso Povo, tem o quê? A nossa esperança é que depois das eleições a coisa passe a serenar, os ânimos acalmem, mas se não se fizer mais pelo bem estar das populações, aumentando a qualidade de vida da maioria do povo angolano não sabemos onde esta onde de racismo vai parar.
Há uns anos atrás tinha escrito uma crónica, onde referia que quinhentos anos de opressão a um povo são difíceis de apagar. A nível da intelectualidade as diferenças tendem a atenuar-se, a diluirem-se mais facilmente, mas nas populações a integração é mais complicada. Por muito que se queira ou explique, o branco é sempre olhado como parente do antigo colono. Dizia, eu, que esperava que o tempo conseguisse fazer esquecer tudo isto e a verdadeira harmonia entre estas duas raças fosse possível a médio prazo, a curto prazo era mais o meu desejo, mas uma coisa é gostar e outra é acontecer. Pelo andar da carruagem, parece que, nem a longo prazo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Kixiquila

Funciona assim. Um grupo de amigos, ou vizinhos, ou colegas de trabalho, se une numa espécie de cooperativa informal com um objetivo comum. Todos aceitam dar na mão de um deles um percentual alto do salário do mês. A cada mês um deles recebe a bolada para satisfazer o objectivo comum. Vamos a um exemplo concreto.

Quatro amigos querem comprar carros no valor de 6 mil dólares. Eles se unem e três deles dão 1.500 dólares ao primeiro, que compra o carro este mês. No mês seguinte, quem recebe é o segundo e assim sucessivamente, até que todos comprem os próprios carros.

Se um deles pegar o dinheiro, comprar o carro e depois falhar na hora de pagar, o pau come. Mas parece que dificilmente acontece quando organizado entre amigos.

É uma prática tão comum que, no escritório, todos os angolanos já fizeram pelo menos uma vez na vida.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Banana Angolana X Banana do Resto do Mundo

Na linha de nacionalismo que começa com B e termina com E, com um URRIC pelo meio, como disse a Migas no post abaixo, vale a pena dar uma lida nesta pérola. Foi publicada num grande jornal de circulação diária em Luanda. Quem não souber qual é e ficar realmente interessado no assunto, pode clicar neste link.

Com vocês, a reportagem de alto da página de economia de hoje:

Consumidores preferem banana de produção local

Os consumidores angolanos preferem a banana produzida localmente, numa altura em o mercado angolano regista a presença de múltiplas variedades de banana, cujo diferenciador principal é a origem, conforme afirmou o director do Programa de Desenvolvimento Agrícola e Financeiro (ProAgro Angola) e director da Clusa.

“A maioria dos consumidores nacionais prefere a banana proveniente das plantas locais” - afirmou Estêvão Rodrigues. Apesar disso, continuou, a banana importada, principalmente da África do Sul, constitui uma séria concorrente. “Para conseguir bons resultados nos mercados interno e externo, os produtores nacionais devem apostar fortemente numa estratégia que privilegie fornecimentos de alta qualidade a tempo, aos preços mais baixos”.

Por exemplo, explicou, “ao pensarmos estender o mercado da banana do Vale do Cavaco à SADC, é preciso ter sempre presente que a banana produzida em Moçambique pode chegar à África do Sul a um preço mais competitivo do que a banana produzida em Benguela. Assim, para competir, o produtor benguelense deve aumentar a produtividade investindo em tecnologias adequadas para, em vez de obter, por exemplo, 25 toneladas por hectare, conseguir 50 toneladas de boa qualidade por hectare, que poderão ser escoadas de forma regular para um mercado garantido”.

Segue por muitas linhas mais, acreditem. Mas vou poupá-los do maravilhoso tratado bananeira.

E eu, que nem sabia que a nacionalidade da banana que compro pelas ruas, devo declarar, como expatriado: prefiro a banana das zungueiras.

Vai-te embora Satanás!!!

Eu sou uma pessoa discreta. Não aprecio discussões com gente que não conheço. Mesmo que sejam discussões sobre temas banais. Muito menos quando as discussões incluem temas mais ou menos quentes. Um destes dias, numa conversa entre conhecidos e desconhecidos, a personagem era nitidamente pró-Angola. Nada contra, tendo em conta que ou era angolana (branca) ou já cá tinha estado em criança. Ou então, era a defensora das causas impossíveis. Digamos que me inclino mais para a última. O tema era: Angola não precisa de expatriados. Não precisa ou não quer expatriados. Nem percebi muito bem qual das duas, a alminha defendia. Sim. E juro que não é uma das minhas brincadeiras. O tema era mesmo esse, tendo à frente mais de 10 expatriados nas mais diferentes áreas. Haja coragem! Ora, calma como sou (e porque parece que não se deve contrariar malucos) bico calado e fiquei a ouvir os argumentos. Ah, e fiquei também a contorcer-me para não rir às gargalhadas, deixando apenas escapar um daqueles sorrisinhos marotos pelo canto da boca. Então vejamos: os argumentos da mente iluminada eram de que Angola fornece um nível de formação muito elevado. Aqui há prática. Em Portugal é tudo teoria e o pessoal lá não percebe nada. Quem diz Portugal, diz outro país cujos cursos não incluam começar a trabalhar na área, ao fim do primeiro ano. E, para reforçar a ideia, a mente iluminada ainda fez questão de começar por um exemplo fabuloso. A medicina. Sim, aqui a medicina é muito avançada porque eles, devido à falta de médicos no país, começam desde cedo a praticar. Medo. Muito medo. Ao fim de um ano de aulas já praticam os ensinamentos em pacientes reais. Ora, o que é que eu posso dizer, perante uma afirmação destas? Ia dizer-lhe: ah sim? Então e quando tu estás doente, deixas-te tratar por um desses alunos num qualquer hospital público? E os pobres coitados que não têm dinheiro para as clínicas privadas, como tu, acharão divertido ser tratados por um aluno borbulhento do 1º ano da faculdade? Ora, eu não gastei a minha beleza com estas perguntas mas, houve quem gastasse. Mas, não ainda contente com este exemplo maravilhoso, decidiu falar nos engenheiros civis. Oh yeah! Mais uma vez, não podia ter escolhido melhor. Ou não estivessem na mesa uns três (ou mais), representantes dessa espécie maldita. Vai-te embora satanás! Bico calado, como sempre, lá ouvi as suas (mais uma vez) brilhantes explicações. Ora, a “inteligência”, bem via que em Portugal os cursos eram todos teóricos. Via, porque vivia ao lado de uma faculdade com esse curso. E acrescentava: ah, eles aprendem a calcular pilares e mais não sei quê e depois na prática, não percebem nada. Ainda estou para aqui a pensar sobre o facto de ela “ver”, porque morava ao lado da faculdade. Será que lá na terra as casas e faculdades são em tendas? A modos que a tenda dela ficava mesmo ao lado da tenda da disciplina de mecânica dos solos. Ou então, será que as aulas são registadas por altifalantes, daqueles que o Manel das farturas usa nas feiras para chamar a clientela? Eu até arriscaria dizer que, na terra dela devem ser todos engenheiros civis, porque eles bem vêm as aulas lá na faculdade. E assim sendo, é bem capaz que muitos dos que cá andam, tenham tirado o curso através dos tais altifalantes. Pelo meio também acrescentou que a polícia é muito melhor treinada do que os de Portugal pois muitos tiravam as formações nos Estados Unidos. Ai é? Eles afinal aprenderam nos EUA? Eu vi logo que a culpa das gasosas era do Bush! Só podia ser!!
Brincadeiras à parte, eu fico mesmo contente com estas afirmações completamente desprovidas de inteligência (isto, para não mencionar aquela palavra que começa por “b”, acaba em “e” e tem urric pelo meio). Oh, se fico. Até porque, ainda à pouco tempo andamos à caça (sim, este é o melhor termo que posso utilizar, face à dificuldade para encontrar a espécie) de engenheiros civis angolanos. E eis que, para além de aparecer a módica quantia de 3 exemplares à entrevista, um tirou o curso em Portugal (vá lá, também andou por Inglaterra, pode ser que lá comecem ao fim do primeiro ano a construir prédios de vinte andares, pontes e barragens) e o outro tirou o curso no Congo. O terceiro nem sei porque acabamos por contratar os dois primeiros. Hã, e então? Será que não precisam de expatriados? Assim sendo, vou já fazer as malas e rumar para outro país onde precisem de mim porque parece que Angola, seguramente não precisa de engenheiros civis (e consta que de médicos também não).

* A autora não tem conhecimento sobre a veracidade das afirmações desta mente brilhante, sobretudo relativamente aos alunos de medicina, isto é, se praticam com doentes reais os ensinamentos obtidos logo após o primeiro ano de curso. Não tem conhecimento também, do nível de formação das faculdades angolanas, nas diferentes áreas.
* E não. A autora também não se acha a última coca-cola do deserto. Considera apenas que, o país não tem quadros suficientes para responder ao desenvolvimento actual e, se não fôr um português, há-de ser um brasileiro, sul africano, filipino, espanhol, etc, etc, etc.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Para a querida Migas


Porque eu sei que ela tem (ou tinha) uma empregada que gostava de dividir com ela as biricocas; porque ao fazer esta foto, lá na Barra do Dande, eu lembrei deste post que uma vez ela colocou lá no MCG; e, finalmente, para lembrá-la de que estamos combinando há tempos de compartilhar algumas destas com mais a Menina de Angola, o X., o A. e todos os amigos blogueiros.

Chuva Indesejada

Laura e Linda eram moças de bem com a vida. Ambas com filhos. Laura casada, com uma bebé. Linda, separada com dois filhotes. Nos meus primeiros tempos de Angola, cheguei a ficar umas semanas no escritório onde elas trabalhavam. Fora os chefes, era risota e converseta a tarde toda. Na certa. Um dia, contavam sobre a aventura da época das chuvas. Bem, esse ano foi fatal para muitas famílias. Algumas pessoas morreram e muitas ficaram sem casa.

Laura contava que a água entrou em casa. A bebé foi sentada na mesa. Depressa, a água foi subindo e a bebé foi sentada em cima da televisão, pousada em cima da mesa. Aquela primeira mesa onde a bebé foi sentada. A Laura continou a contar, sem nunca chorar ou mostrar qualquer expressão triste. Foi sorrindo até dizer que em certa altura, já não conseguia sentar a filha em mais lado algum, pois a água continuava a subir.

Linda era uma angolana alta. Alta e bem consitituída. Eu que sou uma garota alta, ao lado dela sentia-me uma anã, magrela. Linda contou, na mesma tarde, que os táxis não chegavam agora ao bairro dela. E para chegar a casa, teria de atravessar um curso de água que se formara pelas chuvas. Dizia ela que agora, os táxis eram outros. Alguns moços, atravessavam as damas às costas. Para que as damas não se molhassem. Andavam de calções, o dia todo a troco de 50 ou 100 kwanzas. Já não lembro bem. Num vaivém margem-margem. Troca de dama. Dá cá 50 kwanzas. Mais uma dama. Linda ria à gargalhada contando a hilária situação e queixando-se do preço exorbitante que eles cobravam. Maldosamente, pensei para mim que a Linda não era uma cliente desejada. Os moços deviam fugir dela ou então cobrar mais caro. Concerteza.

Às vezes esqueço-me e sofro por tudo o que todos os outros que não precisam de umas cavalitas para chegar a casa sem lama, sofrem. Mesmo tendo conhecido a Laura e a Linda.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Carta às garotas com viagem para Angola

Imaginem um país machista. Um país onde os homens têm a certeza que são bem sucedidos nas suas investidas. Parece-me que, aquando a entrada no país, para além do carimbo no passaporte, recebem uma espécie de “manual de sobrevivência masculina”. Manual esse que, nenhuma mulher conseguiu pôr a vista em cima, até ao momento. Creio que Angola tem uma espécie de “poção” da paixão que os leva a serem atrevidos e desinibidos. Mesmo, o mais tímido dos tímidos. Não é escolhida nacionalidade. Também não é escolhida idade. Comecemos pelo asiático. Homem com mais de 50 anos, de careca não assumida. Cantor de karaoke com talento especial para dedicar músicas sobretudo substituindo “Sweet Caroline” por “Sweet alvo a seduzir”. Politicamente correcto, a fugir para o tímido até. Mas, na hora de convidar para jantar, não está com meias medidas e o discurso é: vou-te buscar às 6h para irmos jantar. Solução? Agradecer o convite e declinar. Afinal, somos livres para escolher, certo? Ora, ora! Existe também o português que, por facilidade da língua, será o pior deles todos. Não escolhe cor nem nacionalidade. Idade, já é capaz de escolher mas, adiante. Ao fim de algum tempo, acho que nem as angolanas os aturam. Falo nas angolanas que os servem em restaurantes ou as que para eles trabalham. Não há paciência que resista e, até eu fico com vontade de entregar um “manual de sobrevivência femina” às garotas, para que possam responder aos atrevidos. Porém, nem só as angolanas são os alvos. A última tirada de um desconhecido, por sinal do Norte como eu, saiu mais ou menos assim: “n’um” há “dubida” que as mulheres do “Nuorte” “som” as mais bonitas, carago. “Bê-se” bem nesta mesa". Concluiu com um “o que eu gosto dessa raça”. Primeiro, fiquei a saber que tenho raça. Raça do Norte, parece. Segundo, percebi que este é o tipo de piropo que se adapta a qualquer local. Naquela mente existirá certamente a raça do Norte ou do Sul. A raça brasileira ou angolana. A raça de Benguela ou do Soyo. Solução? Fitar o guardanapo à nossa frente como se lá estivesse a passar o último episódio da nossa série de tv favorita. Finalizar com um “pois” e um sorriso. Existem também os tímidos. Aqueles tão tímidos que usam os nossos cartões profissionais para nos mandarem poemas e declarações com palavras como “inebriado” e “encantado”. São persistentes, mesmo após serem claramente ignorados e, não receberem qualquer e-mail de volta. Depois de serem convidados a desistir e a deixar de usar o e-mail profissional para fazer amizade com a tal garota que os deixa “inebriados” e “encantados” percebem a asneira que fizeram e assumem o erro. Envergonhados até. Caso tenham usado o seu nome verdadeiro, rezam para nunca serem apresentados à tal garota. Por fim, existem os angolanos. Manhosos com as angolanas mas mais comedidos com as estrangeiras. Os mais desinibidos podem mandar piropos como: ai se esta fosse a mãe dos meus filhos, deixava-a espancar-me até à morte. E ficava viúva e com os filhos orfãos, portanto. Há também os que dizem: ai branca, te quero. Ou ainda, se eu pudesse esta “mulhé” era minha. Podem também contar-nos a sua vida, após os primeiros cinco minutos de conversa, sem nada lhes ter sido perguntado. Dizem a profissão, para que possamos perceber que se trata de um homem trabalhador e com “posição”. Um bom partido, portanto. Desistem quando ignorados ou se dissermos que somos casadas.
Em qualquer um dos casos, podem rir-se caras amigas mas, sempre para "dentro". Nada como a descrição, a roçar a antipatia, para que os galanteadores indesejados desistam. Aos que não perceberem, um abraço e um queijo e um até loguinho vai fazê-los perceber. Concerteza.
Ah, mas tudo muda de figura se o galanteador vos interessar. Aí, acho que já não preciso dizer nada.

sábado, 16 de agosto de 2008

as seitas religiosas ,em Luanda

O território angolano está a ser invadido por inúmeras seitas que praticam o exorcismo em crianças, acusadas pelos pais e parentes próximos de serem feiticeiras. Para além dos maus tratos e queimaduras em grande parte do corpo de que essas crianças são vítimas, também já houve mortes. São seitas que vêm dos países a norte de Angola, que se instalam nos bairros maioritariamente habitados por pessoas oriundas daquelas regiões. Aproveitam-se das condições miseráveis em que vivem essas pessoas e sobretudo do desagregamento familiar existente. Têm nomes esquisitos, tais como, Missão Evangélica Fraternidade da Fé Espantosa(MEFFE), Missão Evangélica do Monte de Deus ou Igreja Profética Verdadeira do Mundo. Os pseudos pastores dizem que não recebem nada pelo tratamento, "pois se de graça recebem,de graça devem dar, o nosso pagamento virá do céu". Aproveitam-se da fraqueza humana e ainda gozam.
Perguntei a uma crente cristã, o que pensava disto e ela referiu que a culpa é do diabo. Aqui em Angola o diabo tem muita força, é preciso rezar, rezar e rezar.Veio com os russos e instalou-se de pedra e cal, e a partir daí, a luta entre o bem e o mal tem sido violenta. Aproveitou para me falar de uma seita que existe lá para os lados do Kazenga Grande, cujas sessões e rezas são feitas com todos os crentes nus, homens, mulheres e crianças, da meia-noite até de madrugada. Devem estar possuidos pelo demónio, dizia a minha crente, tapando a cara cheia de pudor.
Já não bastava a proliferação das Igrejas Universais e Manás que levam milhões através dos dizimos e as mesquitas muçulmanos que começam também a aparecer em força no meio dos nossos musekes e a raptar as nossas crianças para servirem de escravos nos seus países.
Já temos de tudo em Angola e agora aparece o tal diabo a entrar a sério nas nossas casas.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Redes Sexuais - HIV

video

Para ver. Ouvir. Tornar a ver e ouvir. Depois pensar. Muito.

* Cortesia da minha amiga M.J. (enviado por e-mail)

Enjoy!

Em Maio último, recebi um e-mail de um antigo Professor da Faculdade que dizia: Não foste tu que uma vez pensaste em fazer o mestrado em Itália? Pois pensei. Oh se pensei! Mas o rumo mudou e agora estou aqui. No mesmo e-mail, enviou-me um link muito engraçado. Claro está que, depois de ver os primeiros minutos só consegui concluir: Eh lá, mas eu já estou em Itália! Fica aqui o link para que possam perceber do que falo (sobretudo nas questões relativas ao trânsito).

http://tcc.itc.it/people/rocchi/fun/europe.html

Ao Prof. R.S., meu mestre: Digamos então, que ando em estágio, ok?

Duck: o Angolano rico sem dinheiro

Um dia já escrevi sobre o Duck. Eu gostava daquele garoto. Era bem-humorado, com uma boca enorme e uns dentes brancos, brancos. A pele muito negra fazia crer que não era Angolano. Mas era. Angolano de Malanje. Um dos Portugueses que trabalhava com ele chamava-o de carvão. Ele respondia: diga, água de feijão… Água de feijão, contou-me ele, por ter a cara vermelha e, assemelhar-se à água do feijão vermelho cozido. Eu ria-me. Achava justo, a troca de apelidos. Dava para perceber que o Duck não gostava de ser tratado de carvão. Quase sempre, eu ouvia as suas conversas calada. Mas um dia, falavam sobre um filme Angolano e eu mostrei interesse pelo tema. Ficou prometido ele emprestar-me o filme dele, pirata como convém, para eu ver e se gostasse, ele comprava um para mim. Para mostrar aos amigos de Portugal, dizia ele. No dia seguinte, o filme estava comigo. Depois de o ver, ele perguntou-me se eu tinha gostado. Quando lhe disse que sim, ele respondeu: então fique com ele. E não aceitou o meu dinheiro. O Nando, um colega dele dizia: Eu já lhe tinha dito, o Angolano é rico sem dinheiro. E eu achei engraçada a expressão.
O Duck, era também o garoto que comprava o mata-bicho. Os outros começavam a trabalhar e ele, ia com o seu caderninho onde registava os pedidos, comprar o mata-bicho dos colegas. Era o shop boy, dizia o Nando. O mata-bicho nunca era igual. Sanduiche de frangalhada, bife com cebola, omolete. Quase sempre acompanhado por uma gasosa. Um dia pergunto-lhe: então conta lá Duck, o que vai ser o mata-bicho de hoje? Frangalhada - disse ele, acrescentando – quer ajudar? Confesso que não percebi logo. O Duck, estava disposto a partilhar a sua sanduíche de frangalhada comigo. Agradeci e confesso que fiquei feliz pelo gesto. Como dizia o Nando: O Angolano é rico sem dinheiro.

* O filme, levei-o para Portugal e vi com alguns amigos nas férias de fim-de-ano 2007/2008. Todos gostaram de ver e, segundo eles, poder ter alguém a explicar certas expressões usadas cá, era essencial. A língua é a mesma mas, nem sempre usamos as mesmas expressões.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Bigamia Burguesa Angolana

Numa viajem para um país europeu, embarcou no avião um dirigente já bastante doente, que ao chegar perto do destino, marchou, check-in só de ida.Depois das complicações burocrática no aeroporto, o corpo ficou em câmara ardente numa das salas da embaixada. E aí começou a maka.
O homem estava casado com uma e vivia amigado com outra, com filhos de ambos os lados. Uma dizia que era ela quem lhe aquecia a cama e por isso tinha o direito de ficar para as condolências sentada no sofá preparado para o efeito. A outra, dizia, que nem pensar, ela era a primeira e papel passado, mãe dos seus filhos legítimos e se agora não lhe aquecia a cama era porque essa kitata da tuji (prostituta de m....) o tinha seduzido, gritando em pleno gabinete do embaixador que a tipa abria a dibanga ("abria as pernas) para todo o mundo. O embaixador viu-se aflito para resolver tão delicado assunto, tanto mais que estavam para chegar altas individualidades para homenagear o corpo do falecido.
Depois de muitos gritos e xinguilamentos à mistura, estiveram quase a chegar a vias de facto, ainda voaram umas estenções de cabelos brasileiros, conseguiu o diplomata parar o escândalo, prpondo e foi finalmente aceite, que uma ficaria a velar o morto das nove às doze e a outra das quatorze às dezassete horas. Já viram a complicação que dá ser adepto da bigamia para os que cá ficam a aguardar a sua vez?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Estamos juntos, ya?

Ya, estamos juntos. Mas não o suficiente para eu confiar nos vizinhos que habitam o mesmo prédio que eu e juntos cuidarmos da área comum do edifício.

Ya, estamos juntos, mas não a ponto de eu pensar no peão que tenta atravessar a estrada e parar para que ele possa cruzá-la, já que ninguém mais lhe dá passagem.

Ya, estamos juntos. Menos na hora em que eu trafego pelo acostamento para furar o congestionamento, cortando a frente de todos os meus irmãos que estão parados no trânsito.

Ya, estamos juntos, mas desculpa lá se eu estou com pressa e vou mesmo furar esta bicha, porque pouco me importo com as dez pessoas que nela estão também têm seus afazeres e compromissos.

Ya, estamos juntos, claro que estamos juntos. Por isso tenho certeza que você nem vai ligar se eu parquear a minha viatura na entrada da sua garagem e ignorá-lo quando você vier me pedir para tirá-la porque, afinal, não tenho mesmo onde parquear.

Ya estamos juntos, mas nem por isso vou deixar de lavar minhas latas e pincéis de tinta na cisterna de 10 mil litros em que você e a a sua família armazenam a água em que se banham, lavam roupas, loiças e usam para cozinhar...

Ya, estamos juntos, mas não me venha me pedir passagem no trânsito porque precisa mudar de faixa, ou porque vai entrar na próxima rua à direita, porque eu não vou mesmo deixá-lo entrar e se você insistir vamos colidir e aí eu parto a sua cara!

Ya, estamos juntos, sim. E já estou a chegar, eu sei que marquei consigo, estou no trânsito, estás a ver? Chego logo.

Ya, estamos juntos. Mas agora você já me pagou metade adiantado, vou chupar bué de biricocas e nunca mais apareço para continuar o serviço para o qual me contratou.

Ya, estamos juntos, amigo. Mas cada um por si. E a ganância e o egoísmo por todos.

domingo, 10 de agosto de 2008

Em contagem decrescente

Sempre vi as eleições em Setembro de forma positiva. Optimista de que os episódios de violência do passado não voltarão a acontecer. Qualquer um é unânime em concordar que o país precisa de paz para prosseguir com o crescimento económico, desenvolvimento, qualidade de vida dos cidadãos. Talvez este último seja o objectivo mais “esquecido”. Contudo, o acontecimento aproxima-se. 5 de Setembro foi a data escolhida e qualquer um está com muita expectativa. Angolano ou estrangeiro.

Vivo num condomínio em que sou a única estrangeira. Todos os outros vizinhos são negros, pertencentes a uma classe que eu não consigo identificar. Não são ricos nem pobres. Mas também não são classe média. Eu diria que são mais pobres do que ricos, segundo os meus padrões. Mas, são ricos o suficiente para terem água nos reservatórios, gerador, carros e comida na mesa. Num dos últimos fins-de-semana, houve festa numa das casas do condomínio. Ao que parece, um aniversário. Arrependi-me da minha opção em ficar em casa, nessa noite de Sábado. A festa prolongou-se até de madrugada com o DJ a esmerar-se na escolha das músicas. Para meu desespero já que tinha decidido ficar em casa para dormir cedo. Depois de chegar das compras, por volta das 10h da noite, vi que no meu lugar de estacionamento tinha outro carro. Não pedi para tirarem mas antes, para darem um “jeitinho” (à boa maneira do Norte) para que pudessem ficar os dois. O meu e o do convidado. O convidado, nitidamente bêbado, mandou-me esperar e voltou à festa, supostamente em busca da chave. Minutos depois, tinha-se esquecido do meu pedido e já dançava junto com os outros. Consegui resolver a questão de outra forma mas, confesso que não gostei da atitude. Esta história ilustra a minha verdadeira preocupação. Não tenho dúvidas que as eleições vão dar lugar a muita bebedeira, festa, comportamentos exagerados. E isso preocupa-me. Se até agora nunca tinha sentido desconforto por morar num local onde a minha casa é a única de “brancos”, nessa noite percebi que as “biricocas” podem desencadear episódios desconfortáveis mesmo em locais onde nos sentimos bem.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cartão sem crédito

Eu não sei bem as razões desse fenômeno (embora saiba que a guerra, claro, está entre elas) da falta de confiança no próximo.

Tudo em Luanda é pré-pago. Telemóvel, só de cartão. Pós-pago é privilégio para companhias e olhe lá. TV a cabo, Internet, a mesma coisa. Assina-se o contrato e paga-se adiantado por três meses. Depois desse prazo o serviço é cortado e você é obrigado a voltar lá e pagar por mais três.

Aluguel, só com um ano de adiantamento. Sem direito a arrependimentos, porque se você decidir mudar por qualquer razão, adeus dinheirama.

A prova definitiva da crise de confiança está espalhada em outdoors pela cidade: o primeiro cartão de crédito pré-pago de Angola. Funciona assim: você tem de carregar o cartão (com valores entre 100 e 1.500 dólares) antes de sair gastando.

Fiquei a pensar. Se vou ter de levar o dinheiro no bolso ao caixa do carregamento, por que mesmo eu faria um cartão desses? Não seria mais fácil usar o dinheiro a cada compra?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O dia em que Dorotéia conheceu o mar

Ela entrou para a família faz pouco tempo, mas já conquistou seu espaço no nosso coração. Teve um breve período no hospital, para um check-up (ela é velhinha, tadinha). Mas depois mostrou todo o seu vigor e prestou valorosos serviços na mudança para a casa definitiva.

Por isso, este fim de semana, Dorotéia ganhou uma folga e decidiu conhecer o mar.


O destino escolhido foi Cabo Ledo e para chegar até lá, Dorô teve de vencer alguns quilômetros de estrada.

O esforço, porém, foi recompensado. Vejam a cara de alegria da Dorô de frente para a praia.

Depois de um passeio na areia, uma pausa para um café e uma água água.


E Dorô ganhou a estrada novamente, porque afinal, tinha de voltar para Luanda.

No caminho, porém, ela arrumou tempo para assistir ao pôr-do-sol no Miradouro da Lua.

P.S. - Não façam troça dessa cicatriz na fronte, que mais lembra uma antena de rádio. A pobre Dorô é uma heroína, lutou a guerra. Daí veio essa marca da qual nunca se livrou, porque não tem dinheiro para ir ao Brasil fazer cirurgias plásticas.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

assédio sexual

Fala-se muito agora de assédio sexual em tudo o que é lugar, ministérios, bancos, empresas de qualquer dimensão, hospitais e clínicas, até nas multinacionais e ongues. Nas escolas
é um escândalo nacional , abres as pernas ou não passas de ano. Arranjar emprego para mulher honesta é uma dificuldade tremenda. Os próprios maridos ficam assustados quando as suas mulheres vão prestar provas. É uma praga que assolou o país e ninguém põe cobro a isso. Já alguém escreveu que, as relações entre mulheres e homens estão a deixar de ser numa base de afectividade para serem uma troca de favores sexuais. Não há nenhum director, chefe de departamento, dono de empresa que não queira saltar em cima das jovens que se candidatam a um emprego. Virou um flagelo, já poucos lugares existirão que não tenham sido contagiados pelo vírus do assédio sexual. Será muito difícil encontrar um antídoto para este mal, na medida em que, os problemas sociais, afectam a maior parte da população. As mulheres têm que sustentar os filhos e frequentemente, maridos desempregados, são obrigadas, nas maior das vezes, a ceder. Grande parte das mais jovens são ingénuas e vão na onda, acabam por ser apanhadas na rede. Tanto umas como outras, calam-se, não denunciam os assediadores, o que torna mais complicado combater a situação vigente.A s denúncias seriam importantes para se formarem processos disciplinares nas empresas e serviços públicos e até, poderem ser levados à justiça, os mais depravados.
O angolano parece que nasceu para sofrer, 500 anos com o colonialismo às costas, a SIDA a fazer estragos, junto com a tuberculose, a cólera que não nos deixa e a malária que demora a nos deixar, a mosca tsé-tsé às portas da capital e agora esta pandemia que é o assédio sexual.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Vida de Proteção

António pegou no batente às 8h de domingo. Deveria ter sido rendido por outro Proteção às 17h, mas o colega não apareceu. Ontem à noite, quando chegamos em casa, ele continuava lá, vigilante.

Agora pouco, já depois das 8h - hora em que deveria ter chegado outra rendição - António continuava lá. A P. fez uma sandes de queijo e foi perguntar a ele, afinal, quando seria substituído.

Ele não sabia. E estava a receber as refeições pelas quais, conforme reza o contrato, a empresa que o contrata é responsável?

Não. A empresa dá dinheiro para que eles comprem as refeições. Como ele achou que ia passar apenas o dia de domingo no posto, não levou dinheiro, porque poderia comer à noite em casa.

Aí a rendição não apareceu e ele ficou 24 horas sem comer e sem nos dizer nada.

É dura a vida de Proteção.

Piada pronta

Lembram-se daquele senhor proteção que matou o camundongo? Sabem como ele se chama?

Bambi.

Eu sei, a palavra deve ter algum significado em alguma das línguas nacionais, aliás, se alguém souber, pode me esclarecer, ficarei feliz em saber.

Mas, desculpa lá, não resisti à piada pronta.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Óbito em 3 actos

O Fernando Baião já falou sobre o óbito aqui nesta casa e eu, não pude adiar mais escrever sobre este tema. Não posso, porque esta manhã o óbito tinha direito a reportagem e eu não posso esquecer-me de recordar isto mais tarde. Passo a explicar. Quase todas as semanas, vejo sair do Hospital Josina Machel, alguns candongueiros com o falecido atrás, familiares e amigos sentados ao lado. Regra geral a porta das traseiras vai aberta e, depressa eu tento ultrapassar o hiace azul e branco porque, confesso que é coisa que não me agrada nada, logo às 6h da manhã. Mas eis que hoje, o óbito tinha direito a reportagem! Um dos “convidados” trazia uma câmara de filmar e, fazia o resgisto da manhã cizenta desse dia triste. A situação foi bem cómica! Depressa imaginei que, uns dias depois, a família reunia-se para ver o filme, obviamente com musiquinha triste de fundo e, recordariam aquele triste dia! My god! Eu juro que até sou uma garota compreensível e que entendo quase todas as tradições do angolano. Mas este tema é algo que me faz uma confusão tremenda e, não consigo encontrar o interesse em captar a imagem de um dia tão triste e que, qualquer um deles devia preferir apagar da sua memória. Mas será o óbito, nos dias de hoje, sinónimo de tristeza ou, motivo de festa?
Há quem diga que sim. O Alfredo, um dos moços que trabalhou comigo dizia que já existiam óbitos com DJ. Que eu já sabia que os óbitos eram locais para se rever familiares e amigos, comer e beber e, quem sabe, arranjar uma cara metade, isso eu sabia. Mas óbitos com DJ??? Ok, já é algo muito à frente para a minha cabeça.
Há também os que tentam mostrar que produzem um bom óbito. Assim parecido com os casamentos. Há quem se esforce (isso em todo o mundo) para produzir um grandioso casamento mesmo que isso, signifique uma dívida familiar. E nunca se pode deixar de fazer o tal casamento na quinta porque, a prima também o fez. Não pode ficar atrás, né? Pois bem, em Angola, esta “regra” também funciona com os óbitos. Certo dia, uma vizinha decide deitar a água de lavar a louça na rua. Mesmo ao lado, celebrava-se um óbito e, depressa os familiares do falecido discutiram com a vizinha “lavadora de louça” e acrescentaram: ela tem é inveja do nosso óbito. Quê??? Inveja? Não que eu seja uma garota invejosa mas, se há coisa que eu não invejo mesmo é, a morte nas famílias dos outros!!!

Tudo isto pode, ou não ter uma explicação. Há quem diga que, o angolano sofreu muito com a guerra e que, por as mortes serem tão frequentes, fazer do acontecimento uma pequena “festa”, traria talvez menos dor aos familires próximos. Sei que, para mim, a morte de alguém vai sempre significar tristeza e saudade. É sempre um golpe duro, mesmo que não seja familiar ou amigo próximo. Talvez a garota cresça e possa ver menos tristeza nestes momentos mas, sinceramente, prefiro continuar a pensar assim. Por agora.