sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Duas Sumbes

Banco na beira da praia, ideal para relaxar tomando uma brisa fresca
Ela é uma capital de província com jeitão de cidadezinha do interior. As ruas são seguras, apesar de escuras à noite, e não há trânsito pesado. Ninguém tem água encanada. Todos são abastecidos por caminhões que enchem seus tanques diretamente no rio. Não se sabe quantos habitantes tem, mas não podem ser muitos, pelo menos na Sumbe colonial. Sim, porque existem duas Sumbes no Kwanza Sul.

O parque dos Namorados, na descida do morro...
...que separa a cidade da praia

Uma é formada pelas antigas construções deixadas pelos portugueses, muito bonitas e bem cuidadas, mas em número reduzido.
A sede do governo provincial, de frente para o mar
Ruas limpas e tranquilas, sem trânsito, típicas das cidades pequenas
Os fundos do governo provincial, a partir do morro que separa a praia do resto da cidade

Estão lá, na marginal com um calçadão repleto de palmeiras, onde ficam três bons (e um decadente) restaurantes, e no centro que vem passando por renovação.
Árvores com flores à beira-mar...
A marginal ladeada por palmeiras...
A entrada de um dos restaurantes fiches da marginal
Existem quatro opções de hotel e, como no resto de Angola (com exceção de Lobito), nada tão excepcional em termos de qualidade, apesar dos preços serem compatíveis com os das melhores redes hoteleiras internacionais. Uma noite em qualquer um dos quatro hotéis do Sumbe custa USD 150.
O Ritz Hotel: preço de cidade grande
A praia é mesmo bonita, a cor do mar no fim de tarde é impagável. Mas nem todos têm coragem de se aventurar nesse azul profundo, porque também não existem redes de esgoto em Sumbe, então, parece que a água é meio suja. Não posso afirmar, porque decidi ser cauteloso.
A praia é fiche, mas há dúvidas sobre a qualidade da água
Tomar sol é tranquilo, o problema é entrar na água depois

A outra Sumbe é a que mora nas casas de tijolos marrons, feitos da terra local e que se confunde com as montanhas em que está encarrapitada. É mais frenética do que a Sumbe dos cartões postais, mas como é da mesma cor da montanha, se confunde com a paisagem.



As casa feitas de tijolos de barro já viraram paisagem

Quem partiu em 1975 e nunca mais voltou?

O Diário da África lançou essa questão ontem, em seu sítio, e a Casa abre suas portas ao projeto de encontrar antigos moradores de Angola, de qualquer nacionalidade, que partiram daqui em 1975 e nunca mais voltaram.

A idéia é abrir espaço para revelar lembranças desta terra ainda muito viva na memória daqueles que partiram para nunca mais.

Eu sei que essas lembranças estão por aí, guardadas entre os segredos mais bem conservados.

Deixo aqui os links para os comentários de um leitor que esta semana nos escreveu num post de abril, sobre a partida dos portugueses, e para a nostalgia que a querida Migas despertou - especialmente da Kandanda - com seu post sobre o Uíge.

Se você partiu e nunca mais voltou, entre em contato conosco deixando um comentário ou escrevendo para casa_de_luanda@yahoo.com.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dona Fina


Dona Fina Calumbo não sabe quantos anos tem. Nunca comemorou um aniversário, porque não conhece o dia do seu nascimento. "Já vivi muito tempo, minha filha", explica, sem ligar para datas.

Ironicamente, ela dedica sua vida aos nascimentos. Parteira tradicional há muito, muito tempo ("não sei falar em anos, minha filha..."), faz de 10 a 12 partos por mês. Eu, com minha mania ocidental de transformar tudo em números, faço uma conta rápida e concluo que ela já deve ter trazido ao mundo mais de 4 mil bebês (chutando por baixo...).

Moradora de um bairro rural na periferia de Saurimo, na Lunda Sul, Dona Fina acorda cedo para ir à lavra. Às vezes nem bem chegou de volta à casa já tem uma grávida esperando para dar a luz. E aí, Dona Fina? "Aí lavo as mãos, boto um pano na cabeça, faço uma oração e vou. Estou sempre pronta, essa é minha missão.

Até o ano passado, ela e as outras dezenas de parteiras tradicionais da região recebiam luvas, sabão e bacia para garantir a higiene do parto e protegê-las contra o HIV e outras doenças. A ONG que patrocinava esse projeto saiu de Saurimo em 2007 e desde então as parteiras tem de arriscar suas próprias vidas ao fazer seu trabalho. O governo diz que não tem dinheiro para continuar o projeto, mesmo sabendo que as parteiras são responsáveis por mais de 90% dos partos da região.

Dona Fina não desiste. Segue confiando nas mãos lavadas, no pano na cabeça e na oração. E assim vai criando aniversários, sem nunca ter comemorado o seu.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Casa de Luanda no BOBs 2008

Visitantes e moradores desta Casa têm um motivo especial para festejar: a Casa de Luanda é finalista em duas categorias no The BOBs 2008, um prêmio para blogs da Deutsche Welle.

Entre 8.500 indicações, a Casa foi nomeada entre os 11 finalistas de duas categorias: Melhor Blog, no qual somos o único sítio em língua portuguesa entre os finalistas, e Melhor Blog em Português.

Quem quiser votar, pode acessar o site do prêmio.

Parabéns a todos!

domingo, 26 de outubro de 2008

Angola contra a Pólio

Caso 1 - Quarta-feira passada, município de Kakolo, a 150 quilômetros de Saurimo, na Lunda Sul.

O formador acaba de passar duas horas explicando a uma classe de mais de 40 voluntários as regras da vacinação. Angola elegeu 2008 como o ano da erradicação da poliomielite. Este fim de semana aconteceu a terceira fase da campanha neste ano. Toda a criança de 0 a 5 anos deve receber duas gotas da vacina contra a pólio.

Para aproveitar a mobilização, o Ministério da Saúde decidiu aplicar também doses de vitamina A e de albendazol para matar os parasitas que atacam as crianças. É aí que começa a confusão, porque as doses mudam de acordo com a idade.

O formador organiza um exercício. O primeiro voluntário, na frente da classe, começa a explicar:

- A pólio deve ser aplicada a crianças de 0 a 3 anos...

O formador interrompe para dar mais uma chance: Qual a idade?

- Ah, quer dizer, de 0 a 6 meses.

Duas horas depois, o jovem não havia conseguido registrar a informação mais simples de todas. Isso acontece porque os vacinadores são recrutados entre estudantes que se apresentam para ganhar uma camiseta, um boné e 7 dólares de refeição por cada dia de campanha.

Os jovens, apesar de freqüentarem a 8ª e 9ª classes, demonstram uma dificuldade muito grande para entender as regras básicas da vacinação. O problema não é do idioma, porque o formador é angolano. É da capacidade de compreensão dos alunos mesmo.

Por que o pessoal da saúde não é envolvido na campanha?, pergunto ao formador. Não teríamos gente suficiente, ele diz. Em Kakolo, são 15 equipas de três vacinadores, seriam 45 pessoas. E só existem 30 enfermeiros.

Mas porque os enfermeiros, então, não são chamados a liderar as equipes, mesmo que os outros dois fossem estudantes? Eles estariam mais preparados para evitar dosagens erradas.

- Os enfermeiros? Eles não aceitam participar sem ganhar extras. Por isso temos de recorrer aos estudantes.

Caso 2 – Sexta-feira, município de Saurimo, 8h30, início da campanha.

A campanha deveria ter começado às 7h30, mas uma hora depois os 450 vacinadores da cidade disputam, no pátio do hospital municipal, as camisetas e os kits de vacinas. Reina a desorganização.

Uma equipe finalmente parte para um bairro. Casa escolhida, um menininho de 4 anos vai receber a dose de pólio, o vacinador tira o frasco da geleira de isopor, abre o lacre. Pega o conta-gotas e... O conta-gotas não serve no frasco.

Os kits foram montados com o lote novo de vacinas e o lote de dosadores comprados na campanha do mês passado. Os frascos são diferentes, os dosadores não servem. É impossível aplicar a vacina.

Claro que não se pode condenar a campanha toda por estes dois exemplos de uma província. Mas saí com a impressão de que Angola ainda vai ter de lutar por muitos anos contra a Pólio.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Debaixo dos telhados de amianto...

Estão paredes de pau-a-pique das casas simples erguidas no meio de jangos amplos, delimitados por cercas artesanais de galhos de árvores, com muitas mangueiras carregadas de frutas, mamoeiros grávidos de mamões maduros. E com muitas crianças alvoraçadas gritando "amigo, amigo" e respondendo com uma explosão de gargalhadas inocentes a um simples aceno de mão do branco que virou sensação por enfrentar a pé o sol das Lundas nas ruas largas e sem trânsito da simpática Saurimo, a cidade diamante.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A cidade diamante

Vista do alto, pela janela do avião, Saurimo brilha.

O lugar se auto-proclama cidade diamante por sediar a capital da província de Lunda Sul, onde estão enterradas as maiores jazidas de diamante de Angola.

Do alto, porém, Saurimo brilha mesmo por seus telhados de amianto sobre as casas de pau-a-pique.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Só um parêntesis...

E pronto, deixei cair a minha capa de super-mulher. Hei-de recuperá-la mas, nos próximos tempos confesso que vou andar com o chamado “medinho”. Pois é, após 2 anos de Luanda, de Cazenga e de Mulemba. Depois de Boavista e porto pesqueiro, com tudo de mau e podre que se pode imaginar. Depois de deixar admirados alguns homens, por andar de carro sozinha em certos sítios considerados perigosos e para onde eles não iam sozinhos. Depois de ter noção que andava com uma sorte do caneco. Eis que sofri a minha primeira tentativa de assalto, em plena cidade, às 10h da manhã. No meio do trânsito confuso de uma rotunda. Com dezenas de carros à minha volta, a escolhida fui eu. O método foi o mesmo que o F. descreveu à uns tempos. Com o portátil e a carteira no chão do carro. Com o telemóvel ali ao lado. Com o relógio no braço esquerdo e o anel na mão esquerda. O bandido deve ter ficado atordoado. Frustrado. Confuso. Deve ter pensado que perdera as suas capacidades de persuasão. Ou então, a cara de mau. Depois de tentar abrir a porta e dar alguns murros no vidro. Depois de abrir o casaco, para mostrar sei lá eu o quê. Depois de dizer “dá tudo o que tens”. O que fez a garota? Ignorou. Olhou para ele com cara de paisagem. Por sorte não abriu uma nesga de vidro e disse: quê? Ou então: vai lá à tua vidinha e deixa-me ir à minha, que já se faz tarde. Ou ainda: sai do meio da estrada que ainda te atropelam, pá. E porquê que a garota fez isto? Porque não sabia que um assalto era assim. Porque só depois juntou as situações. Murros no vidro – mostrar casaco – dá tudo o que tens. Tudo isso só fez sentido, depois. Quando já tinha saído do meio da confusão. Quando percebi que tinha escapado a um assalto, graças à minha cara de ai-não-me-chateies-que-hoje-é-sexta-feira-e-eu-ando-bué-cansada. Aí, a capa de super-mulher caiu e as lágrimas saltaram. Aí, desejei estar em casa. Na minha casa, em Portugal.

A programação segue dentro de momentos. Preciso pensar e olhar para coisas bonitas e esquecer esta m*rda de manhã. Vamos lá fechar o parêntesis e continuar com a viagem ao Uíge.

O dilema de Nina

Nina é a moça que trabalha lá em casa. Tem 28 anos, um filho de 10 e outro de 8. Separada do pai das crianças, mora com a mãe no São Paulo. É Testemunha de Jeová, muito tímida e quietinha. Quando nos conheceu, ficou admirada por pedirmos para que não nos tratasse por senhor e senhora. Nina estranhou: "Vocês me tratam como igual a vocês!"

Ontem Nina pediu para sair mais cedo. Precisava ir à escola do filho. A professora anda a faltar muito, aparece só três vezes por semana. A escola é da Igreja Católica, de graça, e a professora ameaçou os alunos: vai reprovar aquele cuja mãe reclamar aos padres. Nina achou um absurdo e foi lá ter com a megera. Hoje, voltou com a seguinte história.

- A professora quer gasosa.
- Como assim, quer gasosa? - perguntei.
- Aqui é assim. No hospital do governo, que é de graça, se tu não dás uma gasosa, ninguém te atende. É assim em tudo. Se as mães derem gasosa, ela vai todos os dias.
- Você falou com os padres?
- O padre está viajando, muito difícil.
- Mas ela pediu a gasosa assim, na cara-de-pau?
- Não, ela disse "os alunos não conseguem aprender, dão muito trabalho, tás a ver? As mães também não colaboram, não fazem assim nenhum agrado à professora, a mãe do William mesmo, por exemplo, nem pensa assim em dar um cartão de saldo* à professora."

Nina está contrariada, mas no seu jeito tímido, não explode. Ela Não sabe como resolver a questão. Você, o que faria no lugar da Nina?

* Cartão de Saldo: é a recarga de créditos no telemóvel. Virou uma versão moderna da gasosa. Muitos conhecidos já relataram ter pago policiais com cartão de saldo por não terem kwanzas para a gasosa.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O que é que Cabinda tem?

Tem céu cinza de chuva toda manhã, quando o único colorido vem dos guarda-chuvas que desfilam abertos pelas ruas.

Tem chuva de verdade, mas às vezes o dia termina com sol bonito.

Tem mais verde, muito verde, especialmente se você sai da cidade sede do município.

Tem um pouco de congestionamento, mas nada comparado a Luanda.

Tem uma estátua enorme do finado papa João Paulo II numa praça à beira-mar, de costas para a praia (que é pra não ver a beleza da mulher cabindense em fato de banho).
Tem mulheres com roupas bem coloridas, que misturam o fiote ao português.



Tem praças bem cuidadas, com palmeiras, chafariz e arcanjos dourados num centro renovado.

Tem também a imensa maioria da população vivendo em casas muito pobres e em condições precárias pelo resto da cidade e nas comunas.

Tem dois terços de todo o petróleo de Angola, mas às vezes as gasolineiras passam até uma semana sem combustível nas bombas.

Tem Congo por todos os lados, menos a Oeste, onde tem o Oceano Atlântico.

Tem estradas para a República Democrática do Congo e para o Congo, mas não tem ligação por terra com Angola.

Tem um grupo separatista forte, a Frente para Libertação do Enclave de Cabinda, FLEC, que o governo jura que está desarmado, mas que continua atuante na região da floresta do Mayombe.
Tem motorizadas coloridas circulando por toda a cidade, que ajudaram o MPLA a vencer também aqui a eleição de setembro (com 62,77% dos votos, muito abaixo do resto do país).

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O que trouxe do Uíge #1

Parti de manhã bem cedo, com destino ao Uíge. Reformulo: parti de madrugada e, regressei à noitinha. A distância entre Luanda e Uíge é de cerca de 320kms. 320kms para cerca de 5/6 horas de condução. Cruzamos a província do Bengo com destino à província do Uíge. Curvas e mais curvas. Subidas e descidas. Mais curvas. E mais subidas e descidas. A estrada é perigosa, para quem não conhece. Em relação à qualidade... Bem, não sou propriamente a melhor pessoa para falar disso porque, seguia-se crítica na certa. Como alguém comentou neste post, “abrem-se estradas com os métodos do passado”. Não posso confirmar uma vez que a estrada se encontra praticamente concluída. Agora o carrossel de lombas e lombinhas numa estrada tão recente, indicia qualidade inferior... Oras, oras migas. Ficou prometido que só falavas do que de bom, encontraste na viagem! Além do mais, devagar se vai ao longe. Retomando.
A paisagem é magnífica! As árvores despedidas de folhagem. Em alguns casos, a paisagem vista da janela do carro, parecia um cenário montado para um filme do Tim Burton. Assustadoras árvores gigantes, interrompem o céu branco-cinza.
A selva. Os homens de catana na mão. Em dois casos, percebi que, a caça ainda fazia parte da subsistência dos habitantes. Um homem com um felino às costas, já morto. Para comer na certa. Um galinha selvagem, já morta também. Por diversas vezes pensei nos meus lamentos. Na minha falta de água. Na minha falta de luz. Ali não havia nada. Havia vida mas, não havia século XXI. E de cada vez que vejo isto, que vejo felicidade, que vejo dificuldades mas, sobreviventes, penso em como sou injusta e queixinhas.
A estrada rasga a serra. A paisagem muda de preto e branco em poucos quilómetros, para um verde intenso. A floresta densa, as plantações de bananas, de abacate. Os aldeamentos sucedem-se com meia dúzia de casas. Se é que lhes posso chamar casas.

A serra trará frio, no próximo post.

sábado, 11 de outubro de 2008

Angola: versão cuti-cuti #1

1. Porque ultimamente eu ando de mau-humor (e o meu nome do meio é Garfiled).
2. Porque Angola tem muito de bom, para mostrar (e sem tem... então aos Domingos, é que tem).
3. Porque eu ando cansada, é certo. Não será por acaso que a média para expatriados, é de 2 anos no país... (aos outros, a minha vénia).

4. Porque quando criticamos para o mal, de forma ligeirinha, as coisas ganham mais piada (confessem lá se é ou não verdade, mesmo na vida real).
5. Porque apesar dos meus textos, eu gosto de cá estar e também sei ver as coisas cuti-cuti do país e das pessoas (óculos cor-de-rosa, para que te quero).


Vou deixar o mau humor lá fora e mostrar nas próximas publicações o que de melhor encontrei na viagem ao Uíge!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Semana Greg Salibian




Foto: Greg Salibian

O Beco do Eloi

Das fendas das portas e janelas nas paredes de blocos ventavam panos coloridos, desses que só em África ventam das fendas de portas e janelas nas paredes de blocos.

O sol lá fora castigava, o dia ia ao meio. Estávamos perdidos havia mais de duas horas nas nuvens de poeira que subiam do chão do Cazenga. Fui parar ali, filmadora na mão, para acompanhar o trabalho de ativistas na luta contra a VIH-Sida, ou o HIV-Aids, como chamamos no Brasil.

Finalmente encontramos o lugar que procurávamos, mas não havia mais panos coloridos a ventar pelas fendas onde também não existiam portas e janelas. As casas eram caves ocas de humanidade, cavernas modernas construídas com blocos e cimentos para abrigar os restos daqueles seres excluídos dos pequenos prazeres da vida normal.

Mulheres alheias de tanta liamba e biricoca, com as caras partidas nas brigas da noite passada, lábios rompidos, poucos dentes na boca, apertavam os corpos deformados em decotes e pequenas bermudas. Corpos que deveriam parecer atraentes para clientes que pudesssem pagar 300 kwanzas (4 dólares) para sarrar.

As ativistas já conhecem essas trabalhadoras do sexo. Tentam atrair-lhes a atenção, distribuem preservativos, mostram num pênis de madeira a forma correta de colocá-los, mas os olhares estão perdidos na noite eterna dessa vida sem ternura, sem esperança.

Eu já andei muito por este mundo, cinco países só em África, seis na América Latina. Nunca havia visto sítio mais triste do que o Beco do Eloi, no Cazenga.

Preocupação legítima

Tou mesmo a ficar preocupado, depois da goleada de oito a um, que o M deu na oposição, eu esperava, para além de uma limpeza séria do balneário, que os novos e velhos governantes, apresentassem uma nova linguagem (e um programa para o quadriénio que aí vem com pés e cabeça), diferente dos discursos, mais que esfarrapados a que nos habituaram num passado recente. Até parece, que só mudaram a data dos discursos, pois o "papo", é o mesmo. Vamos fazer isto e aquilo, vamos acabar com a miséria e a fome do "nosso povo"; escolas, vão aparecer como o kisonde; casas para os pobres, vão ser milhões; condomínios e prédios altos a rendas proibitivas, nunca mais; corruptos, fora(?); justiça para todos; polícia na rua disciplinada, acabou a era da gasosa; água e electricidade em todos os bairros, acabou o tempo dos geradores; mais hospitais e saúde para todos no ano três mil. Já estou cansado de escrever tantas realidades, como eu já disse, aqui há uns tempos, "estou farto de realidades, o que eu quero são promessas". Se os discursos fossem flores, Angola era um jardim.

Era uma casa muito engraçada

Província Uíge - Outubro 2008

"Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bôbos, número zero.”

Vinicius de Moraes

Ser Angolano é...

Insultar a condutora que lhe faz sinais de luzes e um gesto com a mão significando “passe, passe”, quando já se está no meio da estrada. É que, sinais de luzes, utilizam os reis da estrada que dizem: hey mundo, eu uso sinais de luzes porque vou levar tudo à minha frente... qual aspirador, qual tractor.

E também...

Aproveitar o aceno da condutora, em sinal de agradecimento por ter dado aquela “vaguinha” na fila, para dizer um “olá tudo bem”... É que isto de se agradecer no trânsito não é normal e, se ela acenou, com certeza me achou fofo.

"Em Angola, sê angolana" mas, eu já não tenho pachorra para ir às aulas como-se-comportar-como-angolana...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Semana Greg Salibian



Fotos: Greg Salibian

Dois minutos de Angola

Mais uma sessão de cinema na Casa de Luanda! Desta vez, um curto webdocumentário sobre educação. Divirtam-se!


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Semana Greg Salibian


Foto: Greg Salibian


Momento de Tensão

O enorme jipe tenta estacionar em 45 graus numa vaga em que sua largura não cabe e, com isso, pára o trânsito da Major Kanhangulo, na Baixa, quase em frente à ONU, às 10h30.

Dois carros nos separam do que está a manobrar. Todos irritados com a demora, a buzinar, quando um rapaz trajando camisa azul para fora das calças, mochila nas costas e boné na cabeça se aproxima do carro à nossa frente.

Eu e o A., do Diário da África, assistimos a cena toda. O rapaz começa a esmurrar a porta, o vidro. Ameaça tirar uma arma da cintura. A moça ao volante do carro se assusta, deita para o lado, mas não abre a porta. O gatuno está nervoso, ela também. Não sei se é intencional, mas ela acelera o carro e bate na traseira da caminhonete que estava parada à frente.

Foi o que a salvou. Os dois ocupantes da caminhonete saltaram para ver o estrago - que, afinal, não aconteceu - e o gatuno resolveu fugir. Saiu caminhando calmamente e passou bem ao lado do meu vidro, como se nada tivesse acontecido.

Se fosse no Brasil
Seria pior, eu sei. Ele jamais teria tentado uma assalto desse tipo se não estivesse verdadeiramente armado. E a resistência dela teria resultado em disparos e a provável morte da vítima. Mas, não se iludam, caros angolanos: é para lá que Luanda caminha se as autoridades continuarem a fechar os olhos a fingir que a criminalidade não existe.

S. Paulo e Luanda

Oi, gentes paulistanas
Chegado ao aeroporto de Guarulhos, depois de dez horas de voo, enfrentei uma chuvada daquelas iguais a Luanda, com muita trovoada, igual aos meus tempos de criança, em Malanje. Depois foi o trânsito infernal, julguei que estava no Rocha Pinto, aqui vi, que S. Paulo e Luanda em questão de trânsito, empataram. Bom, um pouco mais ordeiro e civilizado, nestas paragens, não têm os candongueiros nem meninos a vender de tudo nas ruas, salvo,aqueles que vendem ginguba torrada e quentinha na Avenida Paulista, agora bem melhor do que há quatro meses atrás, pois acabaram as obras de restauro. Fiquei no hotel FASANO, na zona dos Jardins. à noite, ainda pensei ir ao Teatro de Maria Della Costa, mas o sono e o fuso horário não permitiram, mais a chuva e o frio. Chegou a Primavera, mas o Sol, esse, escondeu-se, não sei se com medo das eleições autárticas, que estavam quentes, Marcia e Kassab, vão ao segundo "tour". Alckmin, apesar de andar a fazer propaganda com a mulher e a filha nas ruas ficou com a medalha de bronze. Quem andava todo contente no Estado de S. Paulo era o vosso Presidnete, Lula da Silva. Também não sabia que havia aqui problemas com o lixo, discutem-se os "lixões", pois aterros e mais aterros já não suportam tanto lixo. Felizmente, não se vê nas ruas, como em Luanda. S. Paulo é mesmo grande, tem mais habitantes que Angola inteira, muitos museus e teatros, as pessoas são bastante simpáticas, como todos os brasileiros, evidentemente. Todo o mundo fala de reenvidicações de terras, sobretudo os Quilombolas e o problema do grampeamento dos telefones dos ministros está a dar grande maka. Fui visitar os centros do Morumbi, Ibirapuera, El Dorado e Iguatemi, que fazem do nosso Belas Shopping uma loja de bairro. Fui beber umas chopes ao Bar Muralha, Brahama e outros que não me lembra o nome. Fiquei a saber do grande amor dos angolanos pelos caméricas, pois o seu recente Consulado, em S. Paulo, está localizado na Av dos Estados Unidos. Ainda experimentei o sorvete Rochinha e fui comer aos restaurantes Rodízio "Vento Aragano", gaúcho e como todos os sítios gaúchos, o dono é alemão. Fui ao Porto Robaya comer peixinho e ao português "Antiquários". Ainda tive tempo para ver o Obama da Baixada Fluminense a discursar no Rio, pela televisão, claro.Concorre às eleições com o nome patenteado de Barack Obama. Estive no Sírio-Libanês e realmente, médico brasileiro é outra coisa, você entra a morrer e sai com o moral elevadíssimo, não é só o tratamento, é também a forma de conviver com as pessoas, seja médico assistente, seja professor catedrático. Não sendo a primeira vez que vou a S. Paulo, a verdade é gostei. Estamos juntos. Kandandu para vocês

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Semana Greg Salibian




Chicala, Ilha de Luanda

Foto: Greg Salibian

A tranquilidade de Lobito

Lobito, a poucos quilômetros da cidade de Benguela, abriga o maior porto do sul de Angola. Isso lhe gera uma riqueza que está refletida nas ruas bem cuidadas, nos passeios sem buracos, nas fachadas renovadas dos edifícios.

O fato de ter um porto movimentado não a transforma, porém, numa cidade tumultuada de gente. Na Restinga, ao contrário, a sensação é de se estar numa cidadezinha pacata de litoral. As ruas têm poucos carros, as pessoas caminham tranqüilamente pelas ruas, sentam-se nas praças para tomar gelados, as crianças brincam nos parquinhos infantis, tudo iluminado por um lindíssimo sol de fim de tarde.

A praia da restinga é linda e quem quiser descansar das mazelas de Luanda com estilo, pode se hospedar no charmoso Hotel Terminus, na beira da praia, por módicos USD 240 por noite. É um preço alto, sem dúvida, mas se considerarmos que qualquer pensãozinha mal-construída custa USD 120 em Luanda, o Terminus é uma pechincha.

domingo, 5 de outubro de 2008

A despedida de Greg

Ilha do Cabo, Luanda . Foto de Greg Salibian

Cota 50 era o único angolano naquele encontro de brasileiros e deu o tom do que sentia, assim que me cumprimentou, com o seguinte relato:

– Quando eu era prisioneiro dos portugueses, durante a guerra colonial, o que eu mais sofria era com as despedidas. Os soldados vinham do Tuga fazer a tropa aqui, nós formávamos grandes amizades, mas depois de um ano eles voltavam deixando uma saudades do caraças.

Aquela reunião era a despedida de um grande amigo não só do Cota, mas de todos nós. Enquanto escrevo este texto, o fotógrafo Greg Salibian atravessa o Atlântico com destino ao Rio. Bilhete só de ida.

Quando o assaltaram há duas semanas, os gatunos levaram, junto com lentes e flashes, a liberdade de Greg trabalhar. A empresa que o contratou considerou importar equipamento novo dos Estados Unidos, mas isso demoraria mais do que o tempo que Greg ainda tinha para ficar em Angola. Seu contrato era de três meses e terminaria em novembro.

Assim, decidiram indenizá-lo em dinheiro, pagar o mês que faltava, e lhe dar o bilhete de volta mais cedo. Um final feliz para o caso do assalto, mas triste para todos os que com ele conviviam por aqui. Em apenas dois meses, Greg aprendeu a enxergar uma beleza angolana que a maioria de nós leva muito mais tempo para perceber.

Em homenagem, esta Casa realizará esta semana uma exposição de imagens que ele deixou antes de partir. E continuará, claro, com as portas abertas para que ele continue a publicar, sempre que quiser, as saudades que vai sentir de Angola.

O nascimento de Carlos Unene

Me chamara a atenção aquele miúdo tristonho, filho de uma das alfabetizadoras do curso. Enquanto a mãe assistia a aula, ele ficava ali fora comendo terra e lambendo pedrinhas.
"Dona Miquelita, qual o nome dele?".
"Triste".
"Não, Dona Miquelita. O nome..."
"É mesmo esse, formadora... O miúdo se chama Triste"
"O que é isso, Dona Miquelita? Por que a senhora dá um nome desses pro seu filho?"
"É que ele nasceu mesmo assim, triste, desgraçado. O pai só quer saber da irmã mais velha".
"E qual o nome dela?"
"Felicidade".

Parece piada de mau gosto, mas é sério. Pedimos pra ela contar a história pra câmera, e a prova está no vídeo do post aí embaixo, filmado e editado pelo F.

Depois de muita conversa, Dona Miquelita aceitou mudar o nome do miúdo, desde que eu o batizasse...

Eu queria uma palavra em Umbundo (língua local), e achei que Unene (forte) cairia perfeito. Ela ainda não estava satisfeita. Queria um nome português. Resolvi então abençoar o pequeno Unene com o nome da pessoa que mais admiro no mundo. E assim Triste virou Carlos Unene, xará do meu paizinho e com a força dos que vivem de plantar sorrisos e mudar destinos.

sábado, 4 de outubro de 2008

Uma história triste

Quando criamos esta Casa, nossa intenção era publicar centenas de pequenos web documentários sobre a vida em Luanda. A sensação de insegurança em Luanda, porém, nos impediu circular livremente com a filmadora. Até hoje, publicamos praticamente um único filminho feito por nós, sobre as Tranças de Luanda.

Em Benguela, essa sensação de insegurança não existe. Portanto, a filmadora voltou a funcionar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Baía Azul

O alcatrão serpenteia por uma paisagem de montanhas secas. Tudo é ocre, parece que estamos a cruzar um deserto. Na época das chuvas, ficarão todas verdes, explica-me o moto-taxista que me leva na garupa.

Num entroncamento da estrada, bem defronte a uma imensa montanha, entra-se à direita e depois de mais algumas curvas, subidas e descidas, chega-se à estrada de chão. Mais alguns metros e surge essa maravilha da foto abaixo.


A foto dispensa explicações maiores para a origem do nome do lugar... Mas é bom avisar: o que tem de azul, tem também de fria essa água. (Lembra da Corrente de Benguela, que estudávamos na escola? Explica tudo.)

A Baía Azul é um vilarejo de casas montadas numa falésia. Parece ter parado no tempo, com algumas vivendas antigas desgastadas pela maresia e pelos anos. E lá pelas tantas, caminhando pela areia branca, encontrei esse velho caminhão, que já perdeu a conta do tempo em que se deixou morrer diante da beleza azul dessa baía.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mais Benguela

Como eu havia citado aqui ontem, seguem as fotos do Banco Nacional e do Governo Provincial com a luz favorável. E também algumas outras pra vocês conhecerem um pouco mais de Benguela.

Sede do Banco Nacional de Angola em Benguela
O Palácio do Governo Provincial
Esplanada do restaurante GMX, à beira-mar
Mais esplanada do GMX
Uma rua principal, numa tarde de terça-feira

E uma praça florida, bem no meio da cidade