quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Pra matar a saudades do sotaque...

E também da ingenuidade do humor angolano, publico aqui um vídeo enviado pela querida Kianda. É de um quadro de humor da TPA.

video

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ora, podia ser a bananinha ou o maracujázinho. Mas não, é a moranguinha. E parece que ficou sem roupinha para vestir, em Angola. E diz ela, que vai ao "shopping mais próximo para comprar alguma roupa". Não pude deixar de rir com esta "notícia". A catraia, apesar de viajar pela segunda vez a Angola, vai descobrir que só há unzinho. A sortinha é que, a ver pela indumentária, vai gastar poucos kwanzas. Vai, vai!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pequena galeria de saudades d'Angola

31 de dezembro de 2008, 18h, Barra do Kwanza
Uma canga e um país inteiro do outro lado
Caos e metamorfose, ou vai ser gauche na vida
"Os telhados de Paris" nunca mais serão os mesmos
Na Ilha do Cabo, na primeira reunião de Condomínio
O dia em que comemos tudo o que há de melhor nesse país
Isso sim é cerveja, o resto são secos e molhados
Daria tudo para saber onde foi parar o telhado desse imóvel
Aí pára tudo que eu quero descer...

domingo, 13 de setembro de 2009

Mutamba, Mutamba, vai Mutamba, Mutamba...

Todas as tardes, quando o relógio marcava 17h, olhávamos uns pros outros e dizíamos, imitando a língua do Kota Beleza: "numa altura em que já estamos com fome, gostava imenso de ir à Nilo". E então descíamos os 5 lances de escadas pútridas e fétidas, alcançávamos a Rua Key Katyavala e nos embrenhávamos no meio das candongas, cujos "cobradores", com a bunda de fora sempre gritavam, em alto em bom som, principalmente depois de ver a tatuagem colorida na panturrilha da Branquela de Angola, vestida em vestidinhos diáfanos:

--Mutámba, Mutámba, vai Mutámba, Mutámba...

E aí imitávamos o sotaque, abrindo a vogal "a" até não querer mais. A Ju era a que mais sabia imitar.

-- Mutámba, Mutámba...

Eu nunca soube o que era Mutamba, como não sei o que é Kinaxixe, Ingombotas, Maianga...

Hoje fui no Bosque dos Namorados, aqui em Natal, e me deparei com um restaurante que homenageia o bairro luandense. A dona me explicou que o nome refere-se a uma planta, nomeadamente a Guazuma umifolia, plantada bem ao lado (foto abaixo).

Vocês sabiam disso?

-- Mutamba, Mutamba, vai Mutamba, Mutamba... escuto até hoje os candongueiros dizendo isso...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Diante da dor dos outros - há 9 anos

Jovens americanos fazem pequenique enquanto o WTC pega fogo: Hannah Arendt, Norman Rockweel e um médico paulista em choque pela perda do filho

Terá sido verdadeira essa situação ou não passa de uma montagem? A foto é do alemão Thomas Hoepker, que estava dirigindo seu carro quando a cena chamou sua atenção, na fatídica manhã de 11 de setembro, há exatos 9 anos. Ele levou três anos para publicá-la. Por incrível que pareça, lembra as cenas bucólicas pintadas pelo americano Norman Rockwell.

Volta à memória à pergunta: onde estávamos naquele momento? Eu, na sala de um médico paulista cujo filho estava num dos elevadores do World Trade Center e com quem ele falara há coisa de meia-hora. As torres desabaram com ele dentro.

Um horror estar à frente da dor dos outros, como eu estive, bem diferente da indiferença mostrada nessa foto - se ela for verdadeira.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

pobres dos nossos ricos

A maior desgraça de uma nação pobre
é que em vez de produzir riqueza,
produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.

Na realidade, melhor seria chamá-los
não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente
tem dinheiro. ou que pensa que
tem.
Porque, na realidade, o dinheiro é
que o tem a ele.

A verdade é esta: são demasiados
pobres os nossos “ricos”.
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é
propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.

Não podem, porém, estes nossos endinheirados
usufruir em tranquilidade
de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser
roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam
por lançá-los a eles próprios na
cadeia.

Necessitavam de uma ordem social
em que houvesse poucas razões para
a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças
a essa mesma desordem (...)
MIA COUTO

Para quem deseja passar férias no Brasil

Na imagem, a malha aérea da Tap a partir de Lisboa

Olhaí, para quem, a partir da Tuga, quer conhecer ou voltar a visitar o Brasil até março. TAP com preços "óptimos", pelo menos na vinda! Não, a Casa de Luanda não tem o patrocínio da TAP. O post é só dica de amigo.

TAP faz promoção de voo a 359 euros para o Brasil
Os turistas portugueses poderão voltar intensamente a viajar para o Nordeste brasileiro, destino que está caindo na preferência lusitana. É que uma grande promoção oferecendo tarifas reduzidas para o Brasil está sendo preparada pela TAP. Os voos de Lisboa e Porto para todos os aeroportos brasileiros custarão 359 euros, para a vinda, com todas as taxas incluídas. A campanha é válida para viagens entre 01 de Novembro e 31 de março de 2010, reservadas até 30 de setembro.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

E por falar em Baião...

Acabo de ler, de uma enfiada só, neste feriado de 7 de setembro no Brasil (independência? que independência?), a Branco de Quintal, do nosso querido amigo Fernando Baião, também morador desta casa. Crônica afiadíssima do que está a passar neste dias, é leitura obrigatória para todos aqueles que pretendem entender um pouco mais sobre Angola profunda. Não sei se é possível encontrá-lo ainda na Chá de Caxinde, que o editou - este me foi presenteado pelo próprio autor -, mas vale tentar. Para os mais curiosos, vai aqui um trecho, que publico sem a prévia licença do autor, na esperança de que não se aborreça.

"O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado egripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupas de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece."

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O dia em que Maysa cantou em Angola

Uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos chamou-se Maysa. Ela cantou, como ninguém, com sua voz única, a tristeza, os amores mal resolvidos, a "fossa", sentimento do qual ganhou o título de musa. Era uma fadista da época do bolero e nascimento da Bossa Nova. Nada pode ser mais triste - e mais bonito - nesse mundo do que ouvir Maysa cantar Ne me quitte pas, canção que, depois que ela executou no Olympia, em Paris, ninguém nunca mais lembrou que um dia tivesse sido cantada por Jacques Brel.

Pois bem, por esses dias, assisti à minissérie que a TV Globo levou ao ar sobre a cantora "na altura" em que arrumava as malas para deixar Luanda, em janeiro desse ano. Um ano antes, tinha lido a biogafia Maysa, Só Numa Multidão de Amores (Ed. Globo), escrita pelo querido amigo, jornalista cearense Lyra Neto.

Pois não é que Maysa apresentou-se em várias cidades de Angola, em fevereiro de 1969? Eu tinha esquecido esse detalhe, até que a minissérie me reavivou a memória e fiquei imaginando: como terá sido isso?

Contactei o autor do livro e ele me autorizou a publicar o trecho que conta a passagem de Maysa por Luanda e pelo Lobito. Meu Deus!, quão revelador é o trecho, sobre vários aspectos: como a elite angolana se divertia, como os brasileiros nunca sabem mesmo nada de Angola e como a imprensa daquela época noticiou o fato.

Leiam com carinho o trecho abaixo. Para além do estilo delicioso do autor, trata-se de um panorama monumental da Angola de 1969, cinco anos antes de tudo mudar, para sempre. E, como cantava Maysa, talvez sem saber, para os "retornados", "O Meu Mundo Caiu..."

No final daquele ano, ainda em Lisboa, Maysa foi convidada para uma experiência inédita em sua carreira: cantar na África acompanhada do Thilo’s Combo, o grupo musical lusitano que estava fazendo uma revolução musical na terra do fado, agregando elementos do jazz e da Bossa Nova às sonoridades locais. O cachê não era lá grande coisa, mas ela não estava em condições de exigir seu peso em ouro. Durante um mês, de meados de janeiro até a segunda quinzena de fevereiro de 1969, enfrentaria uma maratona de shows em boates, teatros e clubes de Angola. “Em breve, teremos a magnífica cançonetista que o Brasil perdeu”, festejou o jornal angolano O Comércio.

Ao descer do avião da tap em Luanda e ser indagada sobre o que esperava do público africano, foi bem sincera: “Não tenho a mínima idéia. Não conheço a África nem sei muito sobre o seu povo”. A respeito disso, Maysa calculou que ela e os africanos estariam mais ou menos empatados. Eles também não deveriam saber nada sobre aquela cantora brasileira que colocava os pés pela primeira vez no continente. A desconfiança cresceu quando, ainda no aeroporto, precisou explicar a um jornalista do Diário de Luanda que os estilos da Bossa Nova e do iê-iê-iê, dos quais ele ouvira falar vagamente, não tinham nada a ver um com o outro.

Mas o repórter é que estava mal informado. Por força da influência econômica e cultural da metrópole sobre a colônia – Angola só conquistaria a independência de Portugal seis anos depois, em 1975 – os luandenses sabiam, sim, quem era Maysa. Tanto que, duas semanas antes da chegada, ela era capa da revista Notícia, principal publicação do país e que vivia sob a mira da rígida censura angolana. “Maysa vem a Luanda”, dizia a chamada. Lá dentro, uma entrevista feita pela jornalista Edite Soeiro, a primeira mulher a exercer a profissão no país, constantemente convocada para prestar esclarecimentos aos censores, por causa dos textos que escrevia e das calças compridas que teimava em usar.

Edite entrevistou a cantora em Lisboa, quando a turnê em Angola foi confirmada. Sem dúvida, as duas se entenderam bem, pois a conversa rendeu oito páginas da revista. Incentivada pela jornalista, Maysa soltou o verbo: “Canto para botar pra fora o que tenho dentro de mim. Explico: ‘Botar pra fora’ é uma expressão feia, mas que se usa muito lá no Brasil. Tudo bem, posso substituí-la por outra, mais fácil de entender por aqui: vomitar. Canto para vomitar todas as coisas que estão em mim, que me saem pelos olhos, pelos dedos, pela boca”.

Se soubesse da repercussão que teria a turnê no país, em vez de providenciar uma mala extra para guardar recortes de jornal, Maysa teria levado a Angola um contêiner. Depois de cantar com casa cheia no Cine Avis, de Luanda, viajou 740 quilômetros ao sul, por terra, até chegar em Lobito, onde se apresentou em outro cinema apinhado de gente, o Flamingo. O sucesso foi tão grande que os luandenses mandaram-na chamar de volta, agora para atuar em um cine ao ar livre, na periferia da cidade. O N’Gola, que cobrava preços populares, transbordou de gente que queria ver Maysa. “A seu jeito, o público do N’Gola é exigente. Assobia, pateia e grita quando não gosta do que está vendo”, advertiu o jornal O Comércio. “Esperamos que o subúrbio compareça em força neste encontro que o porá frente a frente com um dos expoentes máximos da canção brasileira”.

Maysa gelou. Temeu que se repetissem ali as cenas do Maracanãzinho e se preparou para o pior. Mas foi aplaudida calorosamente. “A assistência entusiasmada obrigou-a a ficar um pouco mais e a aplaudiu de pé, fato inédito naquela casa de espetáculo suburbana”, registrou a revista Noite e Dia, de Luanda. Maysa ficou sensibilizada ao ver que, ao contrário do que ocorria com o público dos festivais no Brasil e das boates de luxo de Copacabana, os freqüentadores do cine N’Gola, mais habituados a assistir a comédias pastelões e filmes baratos de capa-e-espada, faziam um respeitoso silêncio enquanto ela cantava. “Se é verdade que a cidade gostou de Maysa, a cançonetista parece ter-se deixado enamorar pela cidade”, disse o Diário de Luanda na edição de 12 de janeiro de 1969, dia da sua última apresentação no país. “O adeus desta noite poderá significar apenas um até breve. Oxalá assim aconteça”, desejou o jornal.

Contudo, Maysa nunca mais voltaria à África. Não só isso. Até mesmo seus dias de Europa estavam contados. Ela só retornaria a Madri rapidamente, para cobrir os móveis de casa com lençóis brancos. Por obra do acaso, um encontro que tivera em Lisboa, antes da viagem a Angola, seria responsável por mais uma reviravolta em sua vida.


Lyra Neto, in Maysa, Só Numa Multidão de Amores, Ed. Globo, São Paulo, 2007