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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Só um parêntesis...

E pronto, deixei cair a minha capa de super-mulher. Hei-de recuperá-la mas, nos próximos tempos confesso que vou andar com o chamado “medinho”. Pois é, após 2 anos de Luanda, de Cazenga e de Mulemba. Depois de Boavista e porto pesqueiro, com tudo de mau e podre que se pode imaginar. Depois de deixar admirados alguns homens, por andar de carro sozinha em certos sítios considerados perigosos e para onde eles não iam sozinhos. Depois de ter noção que andava com uma sorte do caneco. Eis que sofri a minha primeira tentativa de assalto, em plena cidade, às 10h da manhã. No meio do trânsito confuso de uma rotunda. Com dezenas de carros à minha volta, a escolhida fui eu. O método foi o mesmo que o F. descreveu à uns tempos. Com o portátil e a carteira no chão do carro. Com o telemóvel ali ao lado. Com o relógio no braço esquerdo e o anel na mão esquerda. O bandido deve ter ficado atordoado. Frustrado. Confuso. Deve ter pensado que perdera as suas capacidades de persuasão. Ou então, a cara de mau. Depois de tentar abrir a porta e dar alguns murros no vidro. Depois de abrir o casaco, para mostrar sei lá eu o quê. Depois de dizer “dá tudo o que tens”. O que fez a garota? Ignorou. Olhou para ele com cara de paisagem. Por sorte não abriu uma nesga de vidro e disse: quê? Ou então: vai lá à tua vidinha e deixa-me ir à minha, que já se faz tarde. Ou ainda: sai do meio da estrada que ainda te atropelam, pá. E porquê que a garota fez isto? Porque não sabia que um assalto era assim. Porque só depois juntou as situações. Murros no vidro – mostrar casaco – dá tudo o que tens. Tudo isso só fez sentido, depois. Quando já tinha saído do meio da confusão. Quando percebi que tinha escapado a um assalto, graças à minha cara de ai-não-me-chateies-que-hoje-é-sexta-feira-e-eu-ando-bué-cansada. Aí, a capa de super-mulher caiu e as lágrimas saltaram. Aí, desejei estar em casa. Na minha casa, em Portugal.

A programação segue dentro de momentos. Preciso pensar e olhar para coisas bonitas e esquecer esta m*rda de manhã. Vamos lá fechar o parêntesis e continuar com a viagem ao Uíge.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ser Angolano é...

Insultar a condutora que lhe faz sinais de luzes e um gesto com a mão significando “passe, passe”, quando já se está no meio da estrada. É que, sinais de luzes, utilizam os reis da estrada que dizem: hey mundo, eu uso sinais de luzes porque vou levar tudo à minha frente... qual aspirador, qual tractor.

E também...

Aproveitar o aceno da condutora, em sinal de agradecimento por ter dado aquela “vaguinha” na fila, para dizer um “olá tudo bem”... É que isto de se agradecer no trânsito não é normal e, se ela acenou, com certeza me achou fofo.

"Em Angola, sê angolana" mas, eu já não tenho pachorra para ir às aulas como-se-comportar-como-angolana...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Como tirar-me do sério # 1

O que realmente “guardam” os seguranças? Os bancos, as empresas ou casas que lhes pagam os salários ou, o meu carro? Desde que moro na cidade tenho de explicar aos guardas do banco do lado que eu não vou dar 200 TODOS OS DIAS. Dou ÀS VEZES, como lhes explico. Ora uma vez dou a um. Ora outra vez dou a outro. Diziam eles que havia muitos bandidos, naquela zona. Ya... e eu, sou o monstro das bolachas. Por vezes, quase que preciso pedir desculpa por ter o meu carro estacionado à porta do prédio. E explicar que hoje, não vou dar nada. Já dei anteontem. Ora, tentar explicar isto, é tarefa difícil. Ao mesmo que dei 200 kwanzas anteontem, explicava hoje que não lhe daria todos os dias e que já lhe tinha dado anteontem. Além do mais o M. tinha dado ontem. A cara de rambo em cuecas mantinha-se à espera de que eu sacasse de 200 kwanzas e lhe desse, já agora, com um abraço e um beijinho.
Eu: Já te dei anteontem 200 kwanzas. Não tenho hoje. Hoje não dou.
Guarda, com cara de rambo em cuecas: ah?
Eu: Já te dei ANTEONTEM 200 KWANZAS. HOJE NÃO.
Guarda, com a mesma cara de rambo em cuecas: onde, onde?
Eu: ANTEONTEM. ANTEONTEM. ANTES DO DIA DE ONTEM.
Guarda: Onde, onde?
Eu, com cara de sapo cocas com vontade de espancar a miss piggy: HOJE NÃO.
E fui à minha vidinha. Acrescente-se isto ao facto de ainda não serem 7 horas da manhã e eu estar mesmo capaz de cuspir fogo ao rambo em cuecas que acha que eu sou mãezinha dele. Luanda cansa. E hoje, ainda nem comecei o meu dia e, já estou cansada.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

agora, em Angola...

Estrada de Cacuaco, periferia de Luanda

Menina toma banho à noite no “Hotel Cave”, conjunto de casarões em ruínas ocupado por moradores carentes, na Mutamba, centro de Luanda.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Agora, em Angola

O fotógrafo Greg Salibian iniciou, no fim de semana passado, uma exposição virtual permanente com imagens que representam a Angola que ele enxerga. Daí para receber um convite para morar nesta Casa de grandes kambas, foi um nada.
a
Agora, na Casa de Luanda, Greg Salibian:
a

agora, em Angola...

vítima de mina terrestre

agora, em Angola...

av. Comandante Valódia, centro de Luanda, 18h20

agora, em Angola...

Elisio, técnico de som, na União Nacional dos Artistas Plásticos,
Largo da Portugália,
centro de Luanda

agora, em Angola...

R. Rey Katyawala, saída do centro para a periferia de Luanda.

Histórias de Supermercado

Parte I
O homem angolano, simpático e falador pergunta à moça:
Homem - quanto custa cada pão.
Moça - tem de pesar.
O homem coloca dois pães no saco. Eram o equivalente a pães de água, com aspecto rústico, compridos. Cada um, daria uns 3 pães pequenos.
A moça pesa e diz o valor.
Moça - são 1030 kwanzas.
Homem - hã? Estás a brincar comigo?... Ok, desta vez deixo passar.
A moça, nas calmas, demora no troco e o homem reclama. Estava com fome.
Arrisco dizer que o homem teve vergonha de negar porque eu estava ao lado. Confesso que também já caí nessa “roubada” e, tal como ele, também tive vergonha de recusar. Ahahah Mas 1030 kwanzas por dois pães??? É de aproveitar todas as migalhinhas!!!
Nota: 1000 kwanzas são cerca de 13 dólares ou 10 euros.

Parte II
Na saída, sou abordada por um garoto. Bem pequeno. Menos de 10 anos. Quer dinheiro para comprar pão. Converso com ele.
Eu: mas não devias estar na escola?
Ele: sim, mas a professora está doente.
Eu: hummm...
Aproximam-se mais três, a pedir o mesmo: dinheiro para o pão. Continuo com a sacola na mão, a caminhar para o carro.
Eu: e tu, também és pequeno. Não devias estar na escola?
Ele: eu vou. É só às segundas.
Eu: hã? Só às segundas?
Ele: sim.
Eu (entre-dentes): deves aprender muito...
De regresso ao carro, eles esperam que eu dê o “dinheiro para o pão”. Fecho a porta. Cuidado com os dedinhos, acrescento. Dou-lhe dinheiro para o pão. Várias notinhas. Eles, de sorriso rasgado e aos pulos dizem: obrigada, mãezinha. Já com o carro em andamento, vejo que contam as notas para dividir por todos. Espero que já tenham aprendido a dividir. Mesmo só com aulas às segundas-feiras.

Eu não costumo dar dinheiro a estes garotos que assim arranjam uma boa desculpa para fugir aos deveres da escola. Mas, estes eram tão pequenos, sujos e magrinhos que não havia como recusar. Angola tem definitivamente de encontrar solução para as crianças, para os deficientes pela poliomielite e para os “malucos” que passeam pela cidade, sem destino, sem casa, sem nada.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Agora entendi porque o trânsito hoje estava tão bom...

"Governo decreta tolerância de ponto

Luanda - O Governo angolano decretou tolerância de ponto na quarta-feira, 3 de Setembro, último dia da campanha eleitoral para as legislativas de sexta-feira próxima.

O despacho divulgado pelo Governo, nos órgãos de Comunicação Social, estipula que a tolerância de ponto abrange todo o país, não contemplando os trabalhadores que laborem em regime de turno.

O Conselho de Ministros, entretanto, havia já decretado tolerância de ponto em todo o país no dia das eleições legislativas, 5 de Setembro.

Fonte: Angop"

Moço, será que dá pra decretar essa tolerância eternamente?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Não há bela sem senão

Eu ando feliz. A sério que ando. Pois a minha mudança de casa vai trazer melhorias para a minha vida em Luanda. Mas, não há bela sem senão. Isso eu ja sabia. Ter água, luz, segurança, sossego, privacidade são factores difíceis de reunir numa só casa. Uma das coisas que trouxe da outra casa, foram os meus vasinhos com ervinhas aromáticas. Nas minhas últimas férias, providenciei uns saquinhos de sementes e trouxe para plantar por cá. No total, plantei 5 espécies: rosmaninho, salsa, cebolinho, tomilho e oregãos. Comprei os vasinhos em plástico cá. Baratinhos, baratinhos. Após duas noites na nova casa, os vasinhos já andam certamente por outra morada. Deixei-os fora da porta e das grades das janelas. Depois da minha cara de bambi angustiado, o meu querido M. perguntou-me: porque achas que tens grades nas janelas? Ok. Eu sei que não será escolha do arquitecto do tempo colonial. Mas, os meus vasinhos? Tão pequenos, tão insignificantes, tão despidos. Sim, porque as ervas aromáticas nem sequer tinham dado um ar da sua graça. O que eu via eram umas ervitas pequenitas e nem conseguia perceber se eram os filhotes das aromáticas ou, daninhas parvas. Mas a mim tinha-me dado gosto ter plantado e agora ver nascer alguma coisa. Mesmo que eu não soubesse o que era. Humpf. É a vida. Fico sem saber, a razão de terem levado os meus vasinhos mas arrisco nas seguintes opções:
1. Foi pelo valor? Nãããã... Mas então os vasos custaram 30 Kwanzas cada!

2. Foi por curiosidade? Para saberem o que era teriam de fazer uma análise profunda, lá em casa deles?
3. Foi para entregar à polícia? Será que pensam que sou vendedora de ervas ilegais, daquelas que se fumam?
4. Foi por maldade?
5. Foi uma espécie de praxe para os novos moradores do prédio?
6. Foi por prazer? Por vício? Para lixar o pula?
À uns tempos em Caboledo, depois de o M. virar costas para abrir a carteira e pagar aos pescadores, o moço disse-lhe: pode estar à vontade, isto não é Luanda. Há gestos insignificantes que me fazem pensar que por vezes, isto é muito mais complicado do que me parece. Ainda se fosse algo caro, que pudessem vender e fazer dinheiro, ficava chateada mas, compreendia. A sério de compreendia. Ainda se fosse uma plantação de bananas, de alfaces ou batatas, também compreendia. A sério que compreendia. Agora uma merdita que nem sequer eu sabia bem se algum dia me iria dar utilidade! Quanto mais a quem os levou, que nem deve saber do que se trata. Desculpem-me os leitores que consideram que estes episódios também acontecem noutros países mas eu, definitivamente inclino-me para a última opção: é já vício e, deve dar um prazer danado, roubar o pula. Ao senhor ladrão de vasos um conselho: vá regando com frequência mas sem encharcar, ok?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Advinhe qual era o partido?

Esta é da série "acredite se quiser".

Resolveram fazer, no fim de semana, um comício lá onde Judas furou as meias (sim, as botas ele perdeu muito antes), que por acaso é também o lugar onde habita este signatário. Montaram palco para o show, barraquinhas, bandeirinhas e aí descobriram que o Posto de Transformação da região não dava conta de iluminar a praça onde seria a festa.

Como resolveram o impasse? Desligaram a energia de metade do bairro para garantir a festa.

Resultado: minha casa está sem luz desde sexta-feira. O comício foi no sábado, mas como os técnicos não pretendiam trabalhar no fim de semana, desligaram já na sexta.

Só devem religar hoje. Ah, essa democracia...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Banana Angolana X Banana do Resto do Mundo

Na linha de nacionalismo que começa com B e termina com E, com um URRIC pelo meio, como disse a Migas no post abaixo, vale a pena dar uma lida nesta pérola. Foi publicada num grande jornal de circulação diária em Luanda. Quem não souber qual é e ficar realmente interessado no assunto, pode clicar neste link.

Com vocês, a reportagem de alto da página de economia de hoje:

Consumidores preferem banana de produção local

Os consumidores angolanos preferem a banana produzida localmente, numa altura em o mercado angolano regista a presença de múltiplas variedades de banana, cujo diferenciador principal é a origem, conforme afirmou o director do Programa de Desenvolvimento Agrícola e Financeiro (ProAgro Angola) e director da Clusa.

“A maioria dos consumidores nacionais prefere a banana proveniente das plantas locais” - afirmou Estêvão Rodrigues. Apesar disso, continuou, a banana importada, principalmente da África do Sul, constitui uma séria concorrente. “Para conseguir bons resultados nos mercados interno e externo, os produtores nacionais devem apostar fortemente numa estratégia que privilegie fornecimentos de alta qualidade a tempo, aos preços mais baixos”.

Por exemplo, explicou, “ao pensarmos estender o mercado da banana do Vale do Cavaco à SADC, é preciso ter sempre presente que a banana produzida em Moçambique pode chegar à África do Sul a um preço mais competitivo do que a banana produzida em Benguela. Assim, para competir, o produtor benguelense deve aumentar a produtividade investindo em tecnologias adequadas para, em vez de obter, por exemplo, 25 toneladas por hectare, conseguir 50 toneladas de boa qualidade por hectare, que poderão ser escoadas de forma regular para um mercado garantido”.

Segue por muitas linhas mais, acreditem. Mas vou poupá-los do maravilhoso tratado bananeira.

E eu, que nem sabia que a nacionalidade da banana que compro pelas ruas, devo declarar, como expatriado: prefiro a banana das zungueiras.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Para a querida Migas


Porque eu sei que ela tem (ou tinha) uma empregada que gostava de dividir com ela as biricocas; porque ao fazer esta foto, lá na Barra do Dande, eu lembrei deste post que uma vez ela colocou lá no MCG; e, finalmente, para lembrá-la de que estamos combinando há tempos de compartilhar algumas destas com mais a Menina de Angola, o X., o A. e todos os amigos blogueiros.

Chuva Indesejada

Laura e Linda eram moças de bem com a vida. Ambas com filhos. Laura casada, com uma bebé. Linda, separada com dois filhotes. Nos meus primeiros tempos de Angola, cheguei a ficar umas semanas no escritório onde elas trabalhavam. Fora os chefes, era risota e converseta a tarde toda. Na certa. Um dia, contavam sobre a aventura da época das chuvas. Bem, esse ano foi fatal para muitas famílias. Algumas pessoas morreram e muitas ficaram sem casa.

Laura contava que a água entrou em casa. A bebé foi sentada na mesa. Depressa, a água foi subindo e a bebé foi sentada em cima da televisão, pousada em cima da mesa. Aquela primeira mesa onde a bebé foi sentada. A Laura continou a contar, sem nunca chorar ou mostrar qualquer expressão triste. Foi sorrindo até dizer que em certa altura, já não conseguia sentar a filha em mais lado algum, pois a água continuava a subir.

Linda era uma angolana alta. Alta e bem consitituída. Eu que sou uma garota alta, ao lado dela sentia-me uma anã, magrela. Linda contou, na mesma tarde, que os táxis não chegavam agora ao bairro dela. E para chegar a casa, teria de atravessar um curso de água que se formara pelas chuvas. Dizia ela que agora, os táxis eram outros. Alguns moços, atravessavam as damas às costas. Para que as damas não se molhassem. Andavam de calções, o dia todo a troco de 50 ou 100 kwanzas. Já não lembro bem. Num vaivém margem-margem. Troca de dama. Dá cá 50 kwanzas. Mais uma dama. Linda ria à gargalhada contando a hilária situação e queixando-se do preço exorbitante que eles cobravam. Maldosamente, pensei para mim que a Linda não era uma cliente desejada. Os moços deviam fugir dela ou então cobrar mais caro. Concerteza.

Às vezes esqueço-me e sofro por tudo o que todos os outros que não precisam de umas cavalitas para chegar a casa sem lama, sofrem. Mesmo tendo conhecido a Laura e a Linda.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Piada pronta

Lembram-se daquele senhor proteção que matou o camundongo? Sabem como ele se chama?

Bambi.

Eu sei, a palavra deve ter algum significado em alguma das línguas nacionais, aliás, se alguém souber, pode me esclarecer, ficarei feliz em saber.

Mas, desculpa lá, não resisti à piada pronta.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Começo de um novo dia

O despertador toca às 5h. Moramos longe agora e para evitar o trânsito é preciso sair cedo. Pulo da cama, aperto o interruptor, não há energia elétrica. O gerador já foi comprado, mas o eletricista não terminou a instalação para que ele funcione. Sem eletricidade, não há electrobomba. Sem electrobomba, não há água para banhos, dentes…

A P. sugere banho numa academia da cidade. Não somos associados, mas é possível pagar uma aula avulsa. Por 10 dólares, dispensaremos a malhação e aproveitaremos os chuveiros.

Mochilas feitas, montamos na Doroteia e uma hora e meia depois chegamos à academia. As regras mudaram. Agora paga-se um pacote de 10 aulas a módicos 150 dólares. E eu só quero um banho.

A P., sempre ela, lança o plano C. Liga para a nossa irmã Flávia e consegue uma ducha free.

Enquanto a P. toma banho, tento me conectar à Internet para adiantar alguns e-mais, mas a Movinet não está a trabalhar. Ok, pra que pressa? Vou ter de ficar até as nove da noite no escritório para não pegar o trânsito.

De banho tomado, percebemos que são 8h e a P. não chegará a tempo na reunião dela se me levar ao trabalho. Ela segue com a Doroteia para a Baixa, eu vou a pé para o escritório, que é mais perto. Basta caminhar uns 10 minutos cruzando o parque entre a Sagrada Família e o Alvalade.

Ando algumas quadras na rua e chego ao portão do parque que alguma mente iluminada trancou com uma corrente. Não há maka. O que é um cadeado no meio do caminho num dia como esse? Pulo o portão.

No escritório, ninguém chegou. A porta da minha sala está trancada e não tenho a chave. Mas, vamos ver o lado positivo das coisas, vou aproveitar para tomar o café da manhã na pastelaria ao lado.

No caixa da pastelaria para o pré-pagamento, descubro que o Multicaixa não está a funcionar. Grande novidade. Pergunto os preços, faço as contas. Faltam-me 10 kwanzas. Posso trazer mais tarde? Venho aqui todas as tardes. Desculpa lá o amigo, mas o caixa é novo, não me conhece, não pode deixar assim.

Ok, volto já. Vou até o Multicaixa mais próximo, uns 50 metros abaixo, para retirar o dinheiro. Está quebrado. Há outro Multicaixa 100 metros adiante. Caminho até lá. O visor informa: “Procure o Multicaixa mais próximo”. Qual? Aquele que está quebrado?

Volto ao escritório sem mata-bicho. A faxineira já chegou, ela tem a chave da minha sala. Abre a porta, ligo o computador, a Internet do escritório também não funciona.

Tudo isso, antes da 9 da manhã.

Tem dias em que eu acho que Luanda preferia que eu fosse embora.

Tem dias em que eu tenho certeza.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O invasor

Quem acompanha este blog sabe das dificuldades que enfrentamos para conseguir uma casa. Já foram várias as vezes em que nos mudamos e nossos amigos, neste momento, dividem-se em dois grupos: aqueles em cujas casas já moramos e aqueles que ainda não nos receberam.

No último fim de semana, nos mudamos para o que, acreditamos, será a nossa casa definitiva. Poderia ser o fim da novela, não fosse a quantidade absurda de problemas que surgiram nas instalações hidráulicas e elétricas. Neste momento, um batalhão de trabalhadores está lá, tentando solucioná-los.

Hoje só quero relatar um episódio. Não faz muito contei aqui uma invasão que o escritório onde trabalho sofreu. Pois bem, ontem foi a minha vez de lidar com situação semelhante. Estava eu me preparando para o sono quando a P., que havia ido buscar água na cozinha, me chama com uma voz típica, que já conheço. Fui até lá e a encontrei parada na sala:

- Tem um rato na cozinha. Eu vi um vulto passar correndo. Não pode ser uma barata, era muito rápido.

Para baratas eu não ligo. Basta pisar sobre elas e está resolvido o problema. Mas, como eliminar um roedor? Armei-me de uma vassoura, cheio de receios, confesso, e planejei abrir a porta da cozinha para espantar o intruso para fora. A P., mais esperta, pediu auxílio ao "senhor Proteção" (como sempre lembra o meu amigo A.).

O vigia entrou, achou o rato, e iniciou uma perseguição. O bicho tentava fugir para a sala, eu o espantava com a vassoura; ele voltava para o outro canto, o senhor Proteção tentava acuá-lo. Depois de um certo baile, o senhor Proteção voou sobre o roedor e o aniquilou. Com a próprias mãos.

Como se nada tivesse acontecido, recompôs-se em seguida, levantou a vítima - que ainda agonizava - pelas orelhas e a levou para fora. A P. impressionou-se:

- Você não seria capaz de fazer uma coisas dessas.

Não mesmo. Já estou a telefonar a empresas para mandar desratizar a casa.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

"Só quem sabe onde é Luanda..."

Ao ler o post do cacimbo, um amigo quis saber onde, se afinal habitámos a mesma cidade, eu encontrava tanta inspiração? Ele acaba de aportar, logo se vê. Por enquanto tem as vistas magoadas por tantas mazelas que nos saltam à frente à chegada, também a mim sucedeu o mesmo quando cá ancorei minhas mochilas.

Não te respondi na hora, amigo, mas o faço agora: a poesia está nos teus olhos.

Se tiveres paciência, logo vais entender o Gilberto Gil, e então... "saberá lhe dá valor".

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Cacimbo sem ponto final

O dia amanhece completamente em preto-e-branco, prédios, árvores, céu, a P a ressonar ao meu lado, tudo em preto-e-branco, como se o friozinho da madrugada, ao resfriar a cidade, lhe roubasse cores e tons e meios-tons antes que a manhã nasça, tímida, nada de explosão de tintas, nasça mesmo devagar, insinuando pequenos tons pastéis em tudo que era cinza e preto e branco e cinza e branco, e tudo começa a ganhar um colorido suave que, ao longo do dia, o vento fresco vai varrendo em prédios, esquinas, carros, gente, bacias de frutas-verduras-sandálias-o-que-puderes-imaginar nas cabeças, como um pincel a reforçar as cores para que, no final, a tarde termine imprimindo tons de laranja encarnado em tudo que se vira para os lados da baía, como a preparar a tela para a chegada da água raz da noite, a descolorir tudo de novo para o dia seguinte...

terça-feira, 8 de julho de 2008

Mistério desvendado

Assim que cheguei a Luanda chamou-me a atenção o fato de todos os ralos de piso serem vedados. Perguntava-me qual razão teria levado os irmãos angolanos a tapar a sempre útil saída de água, que nos permite lavar ambientes internos da casa como banheiros, cozinhas, etc.

Cheguei até a planejar um post perguntando aos leitores daqui a resposta para o enigma. Mas sempre deixava para outro dia e agora não é mais preciso.

Hoje, logo cedo, encontrei o escritório em alvoroço feminino. Três colegas que trabalham na sala ao lado chamavam toda a malta para ver, no vaso sanitário do banheiro, o defunto do que fora um rato.

Na noite anterior, uma das moças destapara o ralo e o ambiente foi invadido pelo intruso. Para sorte de todos, o indigitado não sabia nadar.

Está desvendado, portanto, o mistério: os ralos são vedados para impedir a entrada dos ratos.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A culpa é das árvores

De repente comecei a topar com homens trepados sobre as árvores de Luanda (na Maianga, no Maculusso, na Ingombota, por toda a parte) a amputar-lhes os generosos galhos que do sol inclemente nos salvavam durante o verão passado. Achei estranho. Por que tamanha brutalidade?

- É próprio mesmo desta época seca. Cortam-lhes os galhos porque começam a cair as folhas e as ruas ficam muito sujas - explicou-me um amigo angolano.

Cabe a pergunta: seria o caso então de também podar os braços aos porcalhões que enfeitam as ruas com toda a sorte de sujidades e restos de embalagens importadas do primeiro mundo?

Culpar as árvores, era só o que faltava.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Democracia com as próprias mãos

Eu não vi, mas há quem jure que aconteceu, no dia 4 de fevereiro deste ano, data em que se comemora o Início da Luta Armada pela Independência de Angola.

O presidente José Eduardo dos Santos foi ao Memorial erguido no Cazenga, como habitualmente faz todos os anos na data. No caminho havia uma estrada nova, construída pelo governo provincial de Luanda com verbas do governo central.

Acontece que a tal estrada não estava lá tudo isso. E por essas e outras, a população da região estava revoltada com o governador provincial, Job Pedro Capapinha.

Como governador aqui ainda não é eleito pelo voto – é indicado -, a população decidiu fazer democracia com as próprias mãos. Quando a comitiva do governador chegava ao Memorial, foi recebida por uma chuva de pedras.

A comitiva do presidente, que vinha logo atrás, ficou parada mais de 40 minutos até que a polícia dispersasse os “eleitores”.

Depois dessa, o presidente decidiu ouvir a voz das “urnas”. Exonerou Capapinha.

Não quero nem ver no que dá se o Brasil aprende a usar a “cédula” de pedra...