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sábado, 29 de novembro de 2008

Os sonhos da nossa angolana de fibra

Nina jamais se contentou com o salário da embaixada. Mas em lugar de ficar se lamentando, foi à luta para melhorar de vida. E veio parar aqui em casa. Bateu no portão oferecendo-se para trabalhar das 13h às 19h. Conseguiu dobrar seus rendimentos.

- Eu queria muito ter tempo para estudar, mas neste momento a prioridade é a educação dos meus filhos. Por isso arrumei este emprego, pra poder lhes pagar uma escola boa.

A mãe enche a cabeça dela para comprar uma casa. Acha que precisam se libertar do aluguel, que sobe a toda hora em Luanda. Chegou a ver um terreno no Benfica, mas Nina está insegura.

- É muito distante, vai ser difícil chegar na hora no trabalho. Depois, que escola boa meus filhos poderão freqüentar lá?

O pai das crianças não ajuda Nina com o sustento dos meninos. Ela sabe que tem direito a isso, mas não quer recorrer à Organização das Mulheres Angolanas, uma entidade partidária do MPLA que poderia ajudá-la a enquadrar o aldrabão. Nina é orgulhosa, prefere conquistar a pedir.

O irmão mais velho dela mora na Alemanha e já falou em levá-la para lá. Ela teria que deixar as crianças, porém, coisa que ela não aceita. Um tio, que já viveu na Europa, diz que a vida no velho continente está muito difícil. Melhor seria ir para o Canadá. Mas teria de levar as crianças, porque aí as pessoas teriam pena dela e lhe dariam emprego.

Eu explico que isso é tolice. Ela jamais conseguiria entrar legalmente no Canadá. Como imigrante ilegal, ficaria exposta a toda sorte de perigos, sem direito aos serviços de saúde e educação.

Nina não sabe o que fazer. Ela tenta enxergar um futuro, mas sente-se acuada. Nos últimos tempos nem dorme direito, preocupada com a responsabilidade que lhe pesa sobre os ombros. Sonha com tantas coisas boas para os filhos, mas tudo lhe parece inalcançável.

Numa novela, ela encontraria um princípe encantado e rico, que acabaria com todos os problemas dela. Mas como isto é vida real, a novela da nossa heroína angolana termina pesada, cheia de pontos de interrogação que lhe pesam no estômago.

Só posso lhe desejar sucesso e dizer uma coisa, Nina: seus filhos têm sorte de tê-la como mãe.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A rebeldia bate à porta da nossa angolana de fibra

Quando a adolescência chegou, Nina sentia-se indesejada e desrespeitada na casa dos tios. Trabalhava como empregada sem salário e era proibida de ir à escola. Decidiu ir viver com o avô no bairro do Kalemba, em Luanda. Tinha 16 anos.

No Kalemba apanhou uma gripe e foi ao posto de saúde se tratar. Lá o médico recomendou algumas injeções e foi assim que conheceu seu marido.

- O Dioli estudava para enfermeiro e fazia a prática lá. O conheci quando preparava as picas que eu tinha de apanhar. Todos os dias eu voltava e era ela quem me injetava. Fomos ficando amigos e começamos a namorar.

A gravidez foi uma questão de tempo e ela mesma admite que viu, na barriga, uma fuga para a situação na casa dos tios.

- Quando apanhei meu primeiro filho, fui morar na casa dos pais do Dioli, na Samba. Eles me queriam muito bem, me tratavam como uma filha e davam amor ao neto. O problema era o Dioli, que não ligava muito pra gente. Ele continuava a viver na Kalemba e eu na casa dos pais dele.

Dioli vivia distante, mas ainda assim Nina engravidou do segundo filho, antes que se separassem de vez.

- O problema é que ele quer curtir, desbundar, arrumar mulheres. Não ajuda em nada com o sustento das crianças, está sempre a aldrabar, dizer que vai ajudar, mas que nada. Eu é que seguro tudo sozinha.

Dioli hoje é taxista. Ele e Nina não se dão bem. Os filhos raramente vêem os pais.

Amanhã: com o fim do casamento, Nina tem de deixar a casa dos sogros.

domingo, 16 de novembro de 2008

Vingança também pode ser boa

Há quem diga que homens angolanos têm uma tendência a atitudes machista, e eu mesma já pensei assim. Hoje acho que nao entendemos é nada das atitudes passionais dos homens e mulheres de Angola.

Encontrei na rua o filho de 21 anos de uma conhecida minha:

- Então, Luís, grande expectativa em ganhar um irmão?
- Sim, estamos todos felizes!
- Será que virá menino ou menina?
- Eu e meu pai preferimos menina.
- Mas você já tem duas irmãs mais novas!?
- Mas meu pai não tem filha mulher.
- Não estou entendendo mais nada, Luís!
- É simples: Meus pais brigavam muito, e em duas separações minha mãe teve minhas irmãs de outros pais. Mas, era só para se vingar dele...

No final, estão todos da família muito felizes. Agora, digam-me se na nossa mentalidade habituada a guardar ressentimentos as coisas seriam tão simples assim? Temos muito a aprender nesta terra...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

E quando não tem limão?


Outro dia saí de casa com o seguinte desafio: comprar limões. Simples assim.

Pois fui a 5 supermercados, tentei umas 10 zungueiras (vendedoras de rua)... e nada. Só não desisti porque não queria decepcionar os gringos do churrasco lá de casa, sedentos por uma caipirinha.

Depois de toda uma manhã ensolarada de busca, encontrei 5 limões murchinhos, meio esquecidos numa prateleira de uma mercearia. Paguei 6 dólares pela raridade, e voltei pra casa com aquele ditado na cabeça: "Se tens limão, faças limonada". Certamente quem criou a frase não conhecia Angola... Aqui, às vezes nem o limão a gente encontra!

E então me lembrei de uma piadinha que me contaram outro dia:

"Um tipo morre e vai parar no Inferno. Chegando lá perguntam-lhe para onde quer ir: para o inferno americano, europeu ou angolano. Fosse como fosse teria de comer um balde de merda todos os dias...

O tipo pensa, pensa, pensa e acaba por escolher o inferno angolano. Perguntam-lhe então o porquê de tal escolha... Apesar de tudo na América há liberdade, cidades limpas e organizadas... A Europa tem cidades charmosas, cheias de história e cultura...

E o tipo responde: Pois, mas em Angola quando há merda não há balde, e quando houver balde não há merda!"

Moral da história: Em Angola, se tens limão, fica feliz da vida e enche logo o carrinho, que pode levar semanas até baixar o próximo carregamento!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Só um parêntesis...

E pronto, deixei cair a minha capa de super-mulher. Hei-de recuperá-la mas, nos próximos tempos confesso que vou andar com o chamado “medinho”. Pois é, após 2 anos de Luanda, de Cazenga e de Mulemba. Depois de Boavista e porto pesqueiro, com tudo de mau e podre que se pode imaginar. Depois de deixar admirados alguns homens, por andar de carro sozinha em certos sítios considerados perigosos e para onde eles não iam sozinhos. Depois de ter noção que andava com uma sorte do caneco. Eis que sofri a minha primeira tentativa de assalto, em plena cidade, às 10h da manhã. No meio do trânsito confuso de uma rotunda. Com dezenas de carros à minha volta, a escolhida fui eu. O método foi o mesmo que o F. descreveu à uns tempos. Com o portátil e a carteira no chão do carro. Com o telemóvel ali ao lado. Com o relógio no braço esquerdo e o anel na mão esquerda. O bandido deve ter ficado atordoado. Frustrado. Confuso. Deve ter pensado que perdera as suas capacidades de persuasão. Ou então, a cara de mau. Depois de tentar abrir a porta e dar alguns murros no vidro. Depois de abrir o casaco, para mostrar sei lá eu o quê. Depois de dizer “dá tudo o que tens”. O que fez a garota? Ignorou. Olhou para ele com cara de paisagem. Por sorte não abriu uma nesga de vidro e disse: quê? Ou então: vai lá à tua vidinha e deixa-me ir à minha, que já se faz tarde. Ou ainda: sai do meio da estrada que ainda te atropelam, pá. E porquê que a garota fez isto? Porque não sabia que um assalto era assim. Porque só depois juntou as situações. Murros no vidro – mostrar casaco – dá tudo o que tens. Tudo isso só fez sentido, depois. Quando já tinha saído do meio da confusão. Quando percebi que tinha escapado a um assalto, graças à minha cara de ai-não-me-chateies-que-hoje-é-sexta-feira-e-eu-ando-bué-cansada. Aí, a capa de super-mulher caiu e as lágrimas saltaram. Aí, desejei estar em casa. Na minha casa, em Portugal.

A programação segue dentro de momentos. Preciso pensar e olhar para coisas bonitas e esquecer esta m*rda de manhã. Vamos lá fechar o parêntesis e continuar com a viagem ao Uíge.

O dilema de Nina

Nina é a moça que trabalha lá em casa. Tem 28 anos, um filho de 10 e outro de 8. Separada do pai das crianças, mora com a mãe no São Paulo. É Testemunha de Jeová, muito tímida e quietinha. Quando nos conheceu, ficou admirada por pedirmos para que não nos tratasse por senhor e senhora. Nina estranhou: "Vocês me tratam como igual a vocês!"

Ontem Nina pediu para sair mais cedo. Precisava ir à escola do filho. A professora anda a faltar muito, aparece só três vezes por semana. A escola é da Igreja Católica, de graça, e a professora ameaçou os alunos: vai reprovar aquele cuja mãe reclamar aos padres. Nina achou um absurdo e foi lá ter com a megera. Hoje, voltou com a seguinte história.

- A professora quer gasosa.
- Como assim, quer gasosa? - perguntei.
- Aqui é assim. No hospital do governo, que é de graça, se tu não dás uma gasosa, ninguém te atende. É assim em tudo. Se as mães derem gasosa, ela vai todos os dias.
- Você falou com os padres?
- O padre está viajando, muito difícil.
- Mas ela pediu a gasosa assim, na cara-de-pau?
- Não, ela disse "os alunos não conseguem aprender, dão muito trabalho, tás a ver? As mães também não colaboram, não fazem assim nenhum agrado à professora, a mãe do William mesmo, por exemplo, nem pensa assim em dar um cartão de saldo* à professora."

Nina está contrariada, mas no seu jeito tímido, não explode. Ela Não sabe como resolver a questão. Você, o que faria no lugar da Nina?

* Cartão de Saldo: é a recarga de créditos no telemóvel. Virou uma versão moderna da gasosa. Muitos conhecidos já relataram ter pago policiais com cartão de saldo por não terem kwanzas para a gasosa.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ser Angolano é...

Insultar a condutora que lhe faz sinais de luzes e um gesto com a mão significando “passe, passe”, quando já se está no meio da estrada. É que, sinais de luzes, utilizam os reis da estrada que dizem: hey mundo, eu uso sinais de luzes porque vou levar tudo à minha frente... qual aspirador, qual tractor.

E também...

Aproveitar o aceno da condutora, em sinal de agradecimento por ter dado aquela “vaguinha” na fila, para dizer um “olá tudo bem”... É que isto de se agradecer no trânsito não é normal e, se ela acenou, com certeza me achou fofo.

"Em Angola, sê angolana" mas, eu já não tenho pachorra para ir às aulas como-se-comportar-como-angolana...

domingo, 28 de setembro de 2008

Raquete elétrica



Esta é da série "Maravilhas que conheci em Luanda". Pelo menos, nunca tinha visto nada igual no Brasil.

Trata-se de uma raquete elétrica fabricada na China (claro) para uma função bem mais divertida do que rebater bolinhas amarelas: matar mosquitos. A idéia é simples. Você a carrega na tomada da parede e ela fica pronta para a "caçada" aos "anjos do paludismo", como diz um amigo meu.



A tela da raqueta é elétrica. Esse botão vermelho, da foto acima, aciona uma descarga de energia . Você só precisa apertá-lo quando dirigir a raquete contra o mosquito. Uma vez preso na tela, seu inimigo alado frita soltando faíscas. Quando existem muitos mosquitos, a raqueta fica parecendo um daqueles pisca-piscas de Natal.

Impossível descrever o prazer proporcionado pelo cheiro de queimado e pela libertação definitiva das palmadas desnecessárias no ar e das paredes manchadas de sangue. Tudo por menos de 300 kwanzas (USD 4) na AgroSantos.

A raquete elétrica, certamente, estará entre os pertences que me acompanharão na volta ao Brasil.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Como tirar-me do sério # 1

O que realmente “guardam” os seguranças? Os bancos, as empresas ou casas que lhes pagam os salários ou, o meu carro? Desde que moro na cidade tenho de explicar aos guardas do banco do lado que eu não vou dar 200 TODOS OS DIAS. Dou ÀS VEZES, como lhes explico. Ora uma vez dou a um. Ora outra vez dou a outro. Diziam eles que havia muitos bandidos, naquela zona. Ya... e eu, sou o monstro das bolachas. Por vezes, quase que preciso pedir desculpa por ter o meu carro estacionado à porta do prédio. E explicar que hoje, não vou dar nada. Já dei anteontem. Ora, tentar explicar isto, é tarefa difícil. Ao mesmo que dei 200 kwanzas anteontem, explicava hoje que não lhe daria todos os dias e que já lhe tinha dado anteontem. Além do mais o M. tinha dado ontem. A cara de rambo em cuecas mantinha-se à espera de que eu sacasse de 200 kwanzas e lhe desse, já agora, com um abraço e um beijinho.
Eu: Já te dei anteontem 200 kwanzas. Não tenho hoje. Hoje não dou.
Guarda, com cara de rambo em cuecas: ah?
Eu: Já te dei ANTEONTEM 200 KWANZAS. HOJE NÃO.
Guarda, com a mesma cara de rambo em cuecas: onde, onde?
Eu: ANTEONTEM. ANTEONTEM. ANTES DO DIA DE ONTEM.
Guarda: Onde, onde?
Eu, com cara de sapo cocas com vontade de espancar a miss piggy: HOJE NÃO.
E fui à minha vidinha. Acrescente-se isto ao facto de ainda não serem 7 horas da manhã e eu estar mesmo capaz de cuspir fogo ao rambo em cuecas que acha que eu sou mãezinha dele. Luanda cansa. E hoje, ainda nem comecei o meu dia e, já estou cansada.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Menos angolano macho. Menos...

Ora bem. Que o angolano macho tem “problemas de incontinência”, já toda a gente sabe. Que não se inibe em tirar o negrinho do conforto das calças em qualquer lado e a qualquer hora do dia, também já toda a gente sabe. Que meninas bonitas não têm ouvidos (e sobretudo olhos) para estas situações, também já toda a gente sabe. E agora, perguntem lá: qual é a novidade migas? Calma, eu respondo. A novidade é que para além do angolano macho ser um mijão, é também um mijão com pinta de conquistador. Eu juro que se fosse menino e estivesse naquela situação (negrinho na mão, encostado à parede), à passagem de uma menina eu ia esconder-me o mais possível para que não pudesse ser reconhecido mais tarde. Se ainda fosse a tempo, até talvez recolhesse o negrinho confortavelmente, desse meia volta e fosse à minha vidinha, com cara de paisagem. Mas não. O mijão angolano, naquela situação pouco simpática, ainda arrisca com um “olá”. Não vá deixar escapar a oportunidade para uma linda amizade. Oras, oras... Isso não se faz, angolano macho. Quanto muito, consegue da menina um olhar de pânico. E pensamentos do tipo “como defender-me se este depravado decidir seguir-me”. Nunca, mas mesmo nunca, um olhar fofinho. Estamos entendidos?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Perguntas proibidas

Ia bem a recepção na piscina do Hotel Trópico, um dos mais finos da cidade, quando na rodinha em que me encontrava, decidi perguntar à autoridade angolana ao meu lado, mais por educação do que por verdadeiro interesse:

- E o senhor, doutor Y, quantos filhos tem?

Bem humorado, doutor Y puxou-me pela manga do paletó e segredou ao meu ouvido:

- Desculpo-lhe, senhor F., porque sei que és estrangeiro. Mas ensino-lhe desde já: esta pergunta não se faz ao homem angolano!

Pedinte fardado

Ao ler esta história no Sem Destino, lembrei-me desta outra que se passou há alguns dias comigo.

Estava eu outra noite pacientemente parado na fila da gasolineira, aguardando pela minha vez de saciar a sede de Dorotéia, quando um policial devidamente fardado aproximou-se do vidro do passageiro e pediu que eu o abrisse. Como se tratasse de uma autoridade, cedi, apesar dos protestos da P. Pois o referido ensaiou uma cantilena segundo a qual tinha um parente doente no hospital e precisava de algum dinheiro, dá-me só uns 200 kwanzas para pegar um candongueiro.

Como o bafo de álcool deixasse tonta até a Dorotéia, neguei-lhe o kumbú que cetamente seria investido em mais algumas cucas. A autoridade ainda ensaiou uma cara feia, mas partiu sem mais protestos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Dura realidade

No supermercado, a esposa espera pelo marido que foi trocar dinheiro. Entenda-se: dólares por kwanzas. A esposa, espera na caixa. Quando volta, o marido faz um gesto como que a entregar o dinheiro à mulher, para que esta pudesse pagar. A cara de repulsa dela, é evidente. Acrescenta: ah, mas eu não vou pegar nesse dinheiro tão sujo! E manda o marido pagar. O que me ocorreu? Que definitivamente esta vai ser uma mulher muito infeliz em Angola. Está cá para acompanhar o marido, suponho, mas encarando assim a realidade, nunca se vai adaptar.
À dias, em trabalho, vi o inferno na terra. Vi dezenas de crianças, sujas, em cuecas. Nada de novo, comparando que todos os dias vemos crianças sujas, em cuecas. Só que ali eram muitas, de diferentes idades. Todas juntas. Com o corpo coberto por uma sujeira que eu não consigo identificar se era lama ou não. A cara, suja com ranho e mais-sei-lá-o-quê como se assim se tivessem mascarado para um filme de acção. Deambulavam o dia todo sem fazer nada. Brincavam nos montes de terra e imitavam-nos. Falavam “estrangeiro” como nós, já que eu falava com alguém que não falava português. Depois de me ouvirem dizer “não faças isso” momentos antes de atirarem com pedras a um cão vagabundo com as orelhas em sangue, já todo massacrado, perceberam que afinal eu não era estrangeira. A moça é angolana? - perguntou um. Sim sou – menti. E seguiram-se uns ahhs e ohhs.
O dinheiro é sujo. Aquelas crianças tambémeram. Mas ponto número um para que a nossa passagem por cá dure mais do que alguns dias é, adaptarmo-nos a esta dura realidade. Se eu pego em dinheiro? Claro que sim. Se eu toco numa daquelas crianças. Óbvio que sim. Em nenhum dos casos, morri ou fiquei doente. Só para que conste.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Agora, em Angola

O fotógrafo Greg Salibian iniciou, no fim de semana passado, uma exposição virtual permanente com imagens que representam a Angola que ele enxerga. Daí para receber um convite para morar nesta Casa de grandes kambas, foi um nada.
a
Agora, na Casa de Luanda, Greg Salibian:
a

agora, em Angola...

vítima de mina terrestre

agora, em Angola...

av. Comandante Valódia, centro de Luanda, 18h20

agora, em Angola...

Elisio, técnico de som, na União Nacional dos Artistas Plásticos,
Largo da Portugália,
centro de Luanda

agora, em Angola...

R. Rey Katyawala, saída do centro para a periferia de Luanda.

Histórias de Supermercado

Parte I
O homem angolano, simpático e falador pergunta à moça:
Homem - quanto custa cada pão.
Moça - tem de pesar.
O homem coloca dois pães no saco. Eram o equivalente a pães de água, com aspecto rústico, compridos. Cada um, daria uns 3 pães pequenos.
A moça pesa e diz o valor.
Moça - são 1030 kwanzas.
Homem - hã? Estás a brincar comigo?... Ok, desta vez deixo passar.
A moça, nas calmas, demora no troco e o homem reclama. Estava com fome.
Arrisco dizer que o homem teve vergonha de negar porque eu estava ao lado. Confesso que também já caí nessa “roubada” e, tal como ele, também tive vergonha de recusar. Ahahah Mas 1030 kwanzas por dois pães??? É de aproveitar todas as migalhinhas!!!
Nota: 1000 kwanzas são cerca de 13 dólares ou 10 euros.

Parte II
Na saída, sou abordada por um garoto. Bem pequeno. Menos de 10 anos. Quer dinheiro para comprar pão. Converso com ele.
Eu: mas não devias estar na escola?
Ele: sim, mas a professora está doente.
Eu: hummm...
Aproximam-se mais três, a pedir o mesmo: dinheiro para o pão. Continuo com a sacola na mão, a caminhar para o carro.
Eu: e tu, também és pequeno. Não devias estar na escola?
Ele: eu vou. É só às segundas.
Eu: hã? Só às segundas?
Ele: sim.
Eu (entre-dentes): deves aprender muito...
De regresso ao carro, eles esperam que eu dê o “dinheiro para o pão”. Fecho a porta. Cuidado com os dedinhos, acrescento. Dou-lhe dinheiro para o pão. Várias notinhas. Eles, de sorriso rasgado e aos pulos dizem: obrigada, mãezinha. Já com o carro em andamento, vejo que contam as notas para dividir por todos. Espero que já tenham aprendido a dividir. Mesmo só com aulas às segundas-feiras.

Eu não costumo dar dinheiro a estes garotos que assim arranjam uma boa desculpa para fugir aos deveres da escola. Mas, estes eram tão pequenos, sujos e magrinhos que não havia como recusar. Angola tem definitivamente de encontrar solução para as crianças, para os deficientes pela poliomielite e para os “malucos” que passeam pela cidade, sem destino, sem casa, sem nada.

Os Cabetulas

Cabetula é uma síntese do jeito alegre e despachado do angolano lidar com as makas cotidianas. Sempre tentando ser o mais esperto, ele invariavelmente acaba a história mais enrascado do que começou. Faz graça com os costumes de Angola, uma receita clássica de humor em quadrinhos.

Meio gozador, kilapeiro que só, ele gosta de umas biricocas e de umas mboas também. Salo, isso já não é muito com ele.

Cabetula apareceu como uma fonte de novos verbetes para o Grande Dicionário Angolano e logo virou leitura diária obrigatória no Jornal de Angola. Aprendi muito sobre o país com as aventuras dele.

Perdeu o espaço semanas antes da eleições porque o humor pode ser um perigo, principalmente para os censores zelosos, sempre prontos a desconfiar do que não entendem. Uma pena. Sem a tira, sobra pouco para ler no panfletário jornalão.

Esta Casa teve o prazer de conhecer os autores do Cabetula, os irmãos, Lindomar e Olímpio, dois jovens cativantes, daqueles que nos fazem acreditar no futuro de Angola.

Os irmãos Olímpio e Lindomar, pais da personagem Cabetula

Eles contaram que a personagem é inspirada num tio deles, sempre enrascado, e trouxeram uma grande notícia de que: o Cabetula tem uma revista em quadrinhos feita em Portugal.

Se quiser um exemplo do humor do Cabetula, clique na tirinha do início do post para ampliá-la.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Kixiquila

Funciona assim. Um grupo de amigos, ou vizinhos, ou colegas de trabalho, se une numa espécie de cooperativa informal com um objetivo comum. Todos aceitam dar na mão de um deles um percentual alto do salário do mês. A cada mês um deles recebe a bolada para satisfazer o objectivo comum. Vamos a um exemplo concreto.

Quatro amigos querem comprar carros no valor de 6 mil dólares. Eles se unem e três deles dão 1.500 dólares ao primeiro, que compra o carro este mês. No mês seguinte, quem recebe é o segundo e assim sucessivamente, até que todos comprem os próprios carros.

Se um deles pegar o dinheiro, comprar o carro e depois falhar na hora de pagar, o pau come. Mas parece que dificilmente acontece quando organizado entre amigos.

É uma prática tão comum que, no escritório, todos os angolanos já fizeram pelo menos uma vez na vida.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Banana Angolana X Banana do Resto do Mundo

Na linha de nacionalismo que começa com B e termina com E, com um URRIC pelo meio, como disse a Migas no post abaixo, vale a pena dar uma lida nesta pérola. Foi publicada num grande jornal de circulação diária em Luanda. Quem não souber qual é e ficar realmente interessado no assunto, pode clicar neste link.

Com vocês, a reportagem de alto da página de economia de hoje:

Consumidores preferem banana de produção local

Os consumidores angolanos preferem a banana produzida localmente, numa altura em o mercado angolano regista a presença de múltiplas variedades de banana, cujo diferenciador principal é a origem, conforme afirmou o director do Programa de Desenvolvimento Agrícola e Financeiro (ProAgro Angola) e director da Clusa.

“A maioria dos consumidores nacionais prefere a banana proveniente das plantas locais” - afirmou Estêvão Rodrigues. Apesar disso, continuou, a banana importada, principalmente da África do Sul, constitui uma séria concorrente. “Para conseguir bons resultados nos mercados interno e externo, os produtores nacionais devem apostar fortemente numa estratégia que privilegie fornecimentos de alta qualidade a tempo, aos preços mais baixos”.

Por exemplo, explicou, “ao pensarmos estender o mercado da banana do Vale do Cavaco à SADC, é preciso ter sempre presente que a banana produzida em Moçambique pode chegar à África do Sul a um preço mais competitivo do que a banana produzida em Benguela. Assim, para competir, o produtor benguelense deve aumentar a produtividade investindo em tecnologias adequadas para, em vez de obter, por exemplo, 25 toneladas por hectare, conseguir 50 toneladas de boa qualidade por hectare, que poderão ser escoadas de forma regular para um mercado garantido”.

Segue por muitas linhas mais, acreditem. Mas vou poupá-los do maravilhoso tratado bananeira.

E eu, que nem sabia que a nacionalidade da banana que compro pelas ruas, devo declarar, como expatriado: prefiro a banana das zungueiras.

Vai-te embora Satanás!!!

Eu sou uma pessoa discreta. Não aprecio discussões com gente que não conheço. Mesmo que sejam discussões sobre temas banais. Muito menos quando as discussões incluem temas mais ou menos quentes. Um destes dias, numa conversa entre conhecidos e desconhecidos, a personagem era nitidamente pró-Angola. Nada contra, tendo em conta que ou era angolana (branca) ou já cá tinha estado em criança. Ou então, era a defensora das causas impossíveis. Digamos que me inclino mais para a última. O tema era: Angola não precisa de expatriados. Não precisa ou não quer expatriados. Nem percebi muito bem qual das duas, a alminha defendia. Sim. E juro que não é uma das minhas brincadeiras. O tema era mesmo esse, tendo à frente mais de 10 expatriados nas mais diferentes áreas. Haja coragem! Ora, calma como sou (e porque parece que não se deve contrariar malucos) bico calado e fiquei a ouvir os argumentos. Ah, e fiquei também a contorcer-me para não rir às gargalhadas, deixando apenas escapar um daqueles sorrisinhos marotos pelo canto da boca. Então vejamos: os argumentos da mente iluminada eram de que Angola fornece um nível de formação muito elevado. Aqui há prática. Em Portugal é tudo teoria e o pessoal lá não percebe nada. Quem diz Portugal, diz outro país cujos cursos não incluam começar a trabalhar na área, ao fim do primeiro ano. E, para reforçar a ideia, a mente iluminada ainda fez questão de começar por um exemplo fabuloso. A medicina. Sim, aqui a medicina é muito avançada porque eles, devido à falta de médicos no país, começam desde cedo a praticar. Medo. Muito medo. Ao fim de um ano de aulas já praticam os ensinamentos em pacientes reais. Ora, o que é que eu posso dizer, perante uma afirmação destas? Ia dizer-lhe: ah sim? Então e quando tu estás doente, deixas-te tratar por um desses alunos num qualquer hospital público? E os pobres coitados que não têm dinheiro para as clínicas privadas, como tu, acharão divertido ser tratados por um aluno borbulhento do 1º ano da faculdade? Ora, eu não gastei a minha beleza com estas perguntas mas, houve quem gastasse. Mas, não ainda contente com este exemplo maravilhoso, decidiu falar nos engenheiros civis. Oh yeah! Mais uma vez, não podia ter escolhido melhor. Ou não estivessem na mesa uns três (ou mais), representantes dessa espécie maldita. Vai-te embora satanás! Bico calado, como sempre, lá ouvi as suas (mais uma vez) brilhantes explicações. Ora, a “inteligência”, bem via que em Portugal os cursos eram todos teóricos. Via, porque vivia ao lado de uma faculdade com esse curso. E acrescentava: ah, eles aprendem a calcular pilares e mais não sei quê e depois na prática, não percebem nada. Ainda estou para aqui a pensar sobre o facto de ela “ver”, porque morava ao lado da faculdade. Será que lá na terra as casas e faculdades são em tendas? A modos que a tenda dela ficava mesmo ao lado da tenda da disciplina de mecânica dos solos. Ou então, será que as aulas são registadas por altifalantes, daqueles que o Manel das farturas usa nas feiras para chamar a clientela? Eu até arriscaria dizer que, na terra dela devem ser todos engenheiros civis, porque eles bem vêm as aulas lá na faculdade. E assim sendo, é bem capaz que muitos dos que cá andam, tenham tirado o curso através dos tais altifalantes. Pelo meio também acrescentou que a polícia é muito melhor treinada do que os de Portugal pois muitos tiravam as formações nos Estados Unidos. Ai é? Eles afinal aprenderam nos EUA? Eu vi logo que a culpa das gasosas era do Bush! Só podia ser!!
Brincadeiras à parte, eu fico mesmo contente com estas afirmações completamente desprovidas de inteligência (isto, para não mencionar aquela palavra que começa por “b”, acaba em “e” e tem urric pelo meio). Oh, se fico. Até porque, ainda à pouco tempo andamos à caça (sim, este é o melhor termo que posso utilizar, face à dificuldade para encontrar a espécie) de engenheiros civis angolanos. E eis que, para além de aparecer a módica quantia de 3 exemplares à entrevista, um tirou o curso em Portugal (vá lá, também andou por Inglaterra, pode ser que lá comecem ao fim do primeiro ano a construir prédios de vinte andares, pontes e barragens) e o outro tirou o curso no Congo. O terceiro nem sei porque acabamos por contratar os dois primeiros. Hã, e então? Será que não precisam de expatriados? Assim sendo, vou já fazer as malas e rumar para outro país onde precisem de mim porque parece que Angola, seguramente não precisa de engenheiros civis (e consta que de médicos também não).

* A autora não tem conhecimento sobre a veracidade das afirmações desta mente brilhante, sobretudo relativamente aos alunos de medicina, isto é, se praticam com doentes reais os ensinamentos obtidos logo após o primeiro ano de curso. Não tem conhecimento também, do nível de formação das faculdades angolanas, nas diferentes áreas.
* E não. A autora também não se acha a última coca-cola do deserto. Considera apenas que, o país não tem quadros suficientes para responder ao desenvolvimento actual e, se não fôr um português, há-de ser um brasileiro, sul africano, filipino, espanhol, etc, etc, etc.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Para a querida Migas


Porque eu sei que ela tem (ou tinha) uma empregada que gostava de dividir com ela as biricocas; porque ao fazer esta foto, lá na Barra do Dande, eu lembrei deste post que uma vez ela colocou lá no MCG; e, finalmente, para lembrá-la de que estamos combinando há tempos de compartilhar algumas destas com mais a Menina de Angola, o X., o A. e todos os amigos blogueiros.