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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Dura realidade

No supermercado, a esposa espera pelo marido que foi trocar dinheiro. Entenda-se: dólares por kwanzas. A esposa, espera na caixa. Quando volta, o marido faz um gesto como que a entregar o dinheiro à mulher, para que esta pudesse pagar. A cara de repulsa dela, é evidente. Acrescenta: ah, mas eu não vou pegar nesse dinheiro tão sujo! E manda o marido pagar. O que me ocorreu? Que definitivamente esta vai ser uma mulher muito infeliz em Angola. Está cá para acompanhar o marido, suponho, mas encarando assim a realidade, nunca se vai adaptar.
À dias, em trabalho, vi o inferno na terra. Vi dezenas de crianças, sujas, em cuecas. Nada de novo, comparando que todos os dias vemos crianças sujas, em cuecas. Só que ali eram muitas, de diferentes idades. Todas juntas. Com o corpo coberto por uma sujeira que eu não consigo identificar se era lama ou não. A cara, suja com ranho e mais-sei-lá-o-quê como se assim se tivessem mascarado para um filme de acção. Deambulavam o dia todo sem fazer nada. Brincavam nos montes de terra e imitavam-nos. Falavam “estrangeiro” como nós, já que eu falava com alguém que não falava português. Depois de me ouvirem dizer “não faças isso” momentos antes de atirarem com pedras a um cão vagabundo com as orelhas em sangue, já todo massacrado, perceberam que afinal eu não era estrangeira. A moça é angolana? - perguntou um. Sim sou – menti. E seguiram-se uns ahhs e ohhs.
O dinheiro é sujo. Aquelas crianças tambémeram. Mas ponto número um para que a nossa passagem por cá dure mais do que alguns dias é, adaptarmo-nos a esta dura realidade. Se eu pego em dinheiro? Claro que sim. Se eu toco numa daquelas crianças. Óbvio que sim. Em nenhum dos casos, morri ou fiquei doente. Só para que conste.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Histórias de Supermercado

Parte I
O homem angolano, simpático e falador pergunta à moça:
Homem - quanto custa cada pão.
Moça - tem de pesar.
O homem coloca dois pães no saco. Eram o equivalente a pães de água, com aspecto rústico, compridos. Cada um, daria uns 3 pães pequenos.
A moça pesa e diz o valor.
Moça - são 1030 kwanzas.
Homem - hã? Estás a brincar comigo?... Ok, desta vez deixo passar.
A moça, nas calmas, demora no troco e o homem reclama. Estava com fome.
Arrisco dizer que o homem teve vergonha de negar porque eu estava ao lado. Confesso que também já caí nessa “roubada” e, tal como ele, também tive vergonha de recusar. Ahahah Mas 1030 kwanzas por dois pães??? É de aproveitar todas as migalhinhas!!!
Nota: 1000 kwanzas são cerca de 13 dólares ou 10 euros.

Parte II
Na saída, sou abordada por um garoto. Bem pequeno. Menos de 10 anos. Quer dinheiro para comprar pão. Converso com ele.
Eu: mas não devias estar na escola?
Ele: sim, mas a professora está doente.
Eu: hummm...
Aproximam-se mais três, a pedir o mesmo: dinheiro para o pão. Continuo com a sacola na mão, a caminhar para o carro.
Eu: e tu, também és pequeno. Não devias estar na escola?
Ele: eu vou. É só às segundas.
Eu: hã? Só às segundas?
Ele: sim.
Eu (entre-dentes): deves aprender muito...
De regresso ao carro, eles esperam que eu dê o “dinheiro para o pão”. Fecho a porta. Cuidado com os dedinhos, acrescento. Dou-lhe dinheiro para o pão. Várias notinhas. Eles, de sorriso rasgado e aos pulos dizem: obrigada, mãezinha. Já com o carro em andamento, vejo que contam as notas para dividir por todos. Espero que já tenham aprendido a dividir. Mesmo só com aulas às segundas-feiras.

Eu não costumo dar dinheiro a estes garotos que assim arranjam uma boa desculpa para fugir aos deveres da escola. Mas, estes eram tão pequenos, sujos e magrinhos que não havia como recusar. Angola tem definitivamente de encontrar solução para as crianças, para os deficientes pela poliomielite e para os “malucos” que passeam pela cidade, sem destino, sem casa, sem nada.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Quase todas as tardes, um pouco antes do Sol fugir para os lados do Mussulo, lá estava o Kota Kapipita, no quintal da sua casa, no Kazenga, rodeado de muitos pioneiros (crianças), a contar os momentos mais marcantes da História de Angola, mas o que mais o animava, era afastar aquelas crianças do crime, da prostituição e da droga. Ao princípio, eram só meia dúzia deles, que se agarravam às palavras do Kota. Eram miúdos que não deixavam de ir à escola, eram os que ainda iam tendo família. Mas de repente, começaram a aparecer muitos mais. Passavam palavra, mesmo os mais bandidos deixavam muitas vezes de ir ao crime, para escutar este nosso mais velho. Tinha outros, que marcavam presença, mas não ouviam quase nada, era a droga que lhes dava cabo. São crianças de rua, que vagueiam com toda a liberdade por Luanda, apanhando todos os vícios que uma cidade lhes pode proporcionar. São essencialmente produto da guerra, apesar de algumas terem ido para a rua a fim de ajudar a família. As idades variavam entre os oito e os dezasseis anos. Vivem debaixo dos prédios, nos largos do Kinaxixe e da Mutamba, dormem nos buracos de areia feitos nas praias da Ilha, nos quintais das casas degradadas, nos parques públicos, nos passeios da cidade. Circulam de lugar para lugar, nunca têm poiso certo. Há aqueles que dormem, trabalham, roubam e morrem, nos mercados do Roque Santeiro, Tunga Nhó, Asa Branca e outros. Ali fazem a sua vida. As suas necessidades são feitas onde calha, lavam-se junto dos canos rebentados ou nos charcos de água estagnada das chuvas.
Levantam-se cedo, aqueles que trabalham em alguma coisa, ajudam a transportar as compras das senhoras nos prédios e descem com o lixo para os contentores. Lavam os carros dos moradores. Com o dinheiro que ganham, comem alguma coisa, mas muitos gastam na droga. Preferem ir nos contentores, procurar restos de comida. Muitos deles viram bandidos, alguns até bem perigosos. O ambiente que os rodeia é o lixo, os buracos, os becos sem luz eléctrica, a fome, a prostituição e as doenças sexualmente transmissiveis.Não há vagas nas escolas, nem emprego que lhes garantam o sustento. Como é que querem que estas crianças sejam o futuro da Nação?