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sexta-feira, 18 de junho de 2010

De Copa, Argentina, Coconuts, Esplanadas, Encontros e Saudades...

Tô sim! Quem está a falar? Yá, tá fixe, catorzinha!

Era um sábado, meu primeiro dia em Luanda, e o Candongueiro resolveu me levar para passear na Ilha do Cabo. Escolheu o restaurante Coconuts (Hello, Miami?) e, em grande (expressão que aprenderíamos depois o significado), arrancamos (outra!) uma amizade que decerto será para sempre.

Candongueiro me descreveu a vida em Angola nos últimos 3 meses que lá tinha vivido, as argúrias, as dificuldades, a solidão, as doenças e, dificuldades das dificuldades, o que era viver num mundo povoado por catorzinhas diáfanas que jamais, em tempo algum, paravam de chamá-lo ao telemóvel.

Ah, como o Candongueiro é engraçado. Só quem o conhece sabe. Gestos lentos e raciocínio rápido. Porém, neste dia, para além de toda a confusão visual que instala-se na cabeça de um brasileiro que vê Luanda à luz do dia pela primeira vez, o que mais me deixou estupefacto (essa é uma das poucas palavras que mantém esse "c" do lado de cá) foi o fato dele vestir uma camisa da ARGENTINA.

Xé, comé? Um brasileiro, cujo passaporte internacional mais importante é sempre uma camiseta da seleção canarinho, vestindo uma camiseta da Argentina?

Lembrei-me disso hoje ao ver a surra que os hermanos (nossos eternos e mortais inimigos, muito mais do que aqueles que vamos enfrentar dia 25) deram na Coréia do Sul, a banda boa da Coréia....Enquanto que o Brasil, coitadinho, jogou feio e gauchamente errado e só conseguiu fazer um mísero "golo" (ahahah) a mais e tomou um da Coréia do Norte, a ruim, a totally fechada para o mundo.

Tava certo o Candongueiro. Virei argentino também desde que nasci, vale?

Saudades dessas mesas, desse café Delta, dessa brisazinha e, last but not least, de uma coisa chamada angola way of life.

Dali pegamos o carro e fomos até uma esplanada na Maianga, perto da Igreja da Sagrada Família, para os lados de onde tem um parque. Há uma fonte horrível a jorrar água e bebi pela primeira vez outra coisa horrível chamada Água das Pedras. Lá estávamos, para nos encontrarmos pela primeira vez em solo angolano, o F., a P. (que está grávida, caros leitores!!!!) e a Flávia da Costa... Tomamos cervejas numa caneca de alumínio, fizeram troça com o fato deu não saber converter kwanza em real, real em dólar, dólar em kwanza...e o resto é história dentro das histórias que seguiremos contando aqui.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Concorrência à altura


Dona Migas publicou um post em grego nesta Casa dia destes. Depois de muito matutar, entendi por alto o que ela quis dizer: estão gravando uma novela entre Lisboa e Luanda que se passa num avião, é isso?
Pois então, o Brasil também vai entrar na concorrência e colocar, entre essas beldades angolanas acima, alguma atriz famosa do naipe de Grazi Mazzafera ou quem sabe a Malu Mader. Concorrência à - e na - altura (palavra que no Brasil só significa medida de centimentragem e metragem, nada a ver com tempo, passado etc.). "Aterrar em Luanda", nome da telenovela, decerto será um sucesso, não acham?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

As delícias portuguesas das quais tb morro de saudades...

Um amigo jornalista muito querido passou a semana passada em Lisboa, a trabalhar. Como ninguém é de ferro, a-ca-bou-se de comer nas padarias portuguesas e deixou esse relato delicioso (que copio sem pedir-lhe licença, dado o grau de amizade) aqui. A saudade das doçaria portuguesa, que conheci em Luanda com seus palmieres e pastéis de natal é a mesma. Fica o relato do Caco para os leitores da Casa de Luanda.

Tentações

Vou sair de Portugal casado. Com uma padaria. Não tem gente que se casa com bonecas ou com travesseiros? Então, eu vou entrar em compromisso sério com uma padaria portuguesa. Ou, em último dos casos, só juntar os trapos mesmo e morar dentro de uma. Porque é a maior perdição que vi na vida ên-tê-ra.

É toda a sorte de salagados doces que você puder imaginar: rissol de camarão, croquetes, pastéis de nata, queijadinhas de Évora, baba de camelo e outros nomes não somente inventivos, como também visualmente atraentes. E, paladarmente falando, coisa dos céus. Literalmente. A maioria dos doces todos são feitos com ovo. Ou, mais especificamente, com a gema do ovo e são chamados de (oi?) "doces conventuais".

Conta-me uma senhôura portuguesa (com mais bigode do que eu, meu pai e meus dois irmãos juntos) que isso tem um motivo histórico. Antigamente as freiras usavam as claras para engomar seus hábitos e precisavam fazer uso das gemas. Todo mundo sabe que jogar comida fora é pecado, néam? Então tiveram que inventar doces com elas. A gula agradece. Vou comer tudo o que for possível e voltar ao Brasil em formato de bola de canhão. Só não tive coragem de provar os croquetes d'ovos porque, né, caganeira em Lisboa, quem curte?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Carnaval em Luanda, é em Janeiro

Ora, estava a menina migas toda cheirosinha, bonequeninha, bem dispostinha e outras coisas que tais, acabadas em inha, pronta para a festa de despedida dos queridos F. e P. quando,ao sair da sua humilde casinha, foi parada por uma senhora agente. Caso surreal número 1: a menina migas nunca foi parada por qualquer senhor agente nesta Luanda. Primeira vezinha, portanto. E eis que, a simpática agente informou que por ali, não podia passar. Caso surreal número 2: Desfile Carnavalesco, dizia a agente. A migas hiperventilou, claro. Hã? Como? E agora? Não pode ser! Desfile Carnavalesco em Janeiro? Como vou para a festa dos meus queridos? Os argumentos, seguiram-se, à boa maneira angolana. Ah, porque tenho um compromisso importante. Ah, porque eu passo rapidinho e ninguém vai dar por mim. Ah, porque eu tenho mesmo de ir. Ah, e se eu fizer de conta que também pertenço ao Desfile Carnavalesco? Nariz encarnado de palhaço, é coisa que trago sempre na bolsa, não vá precisar um dia. Mas nada. Os “não posso fazer nada” seguiram-se à mesma velocidade. E uma segunda agente dizia que tínhamos sido informados. Hã? Tu queres ver que andaram de porta em porta a informar que a rua ia fechar e eu estava a tomar banho e a cantar bem alto com os meus dois pulmõezinhos? Esse seria o caso surreal número 3 do dia. A menina não canta. Repira fundo e pensa, migas! Passemos ao Plano B: encontrar no meio do bairro um caminho alternativo e, pedir ajuda aos senhores angolanos das redondezas. Não há. Não há caminho alternativo. A pedinche continua, claro. E quando vão deixar passar? 21h, dizia a simpática agente. Hã? 21 quê? Mas são 16h! E eu tenho meeeesmo de ir. Eu também estou incomodada – rezingava a simpática agente – mas são ordens do chefe. Ora, ao fim de meia horita e depois da pressão de alguns angolanos que se juntaram, lá foi a menina migas, com pisquinhas intermitentes, contra-mão, a caminho da grande festa. Ah, assim vale a pena! Dá mais luta. Torna as coisas mais complicadas. Quase impossíveis. Afinal quem se lembraria de um desfile Carnavalesco em Janeiro?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Manuel de Oliveira estreia-se em grande na blogosfera com texto sobre disputa de Kuduro


Um dos grandes e inesquecíveis amigos que fiz em Luanda foi o jovem jornalista Manuel de Oliveira. Tímido no começo do convívio, com o passar do tempo ele revelou-se um talento nato para escrever sobre cultura em geral, gastronomia e traçar perfis. 

Nesta minha última participação na Casa de Luanda, gostaria de compartilhar com vocês o último texto de Manuel que caiu em minhas mãos e que não deu tempo de vê-lo publicado no jornal onde ele trabalha. É sobre um grande show de Kuduro que aconteceu no dia 27 de dezembro no Cine Altlântico.  

É uma preciosidade que adoro reler sempre para matar as saudades da cidade, do seu ritmo mais característico hoje e desse amigo querido chamado Manuel de Oliveira.

Adeus a todos!
X

Kuduro vence na batalha entre Rangel e Sambizanga

Manuel de Oliveira

No passado dia 27 do mês corrente o Cine Atlântico registou uma avalanche de adeptos e admiradores do estilo musical Kuduro. O motivo de tal aderência foi a batalha musical e dançante entre os municípios do Rangel e do Sambizanga, em Luanda, sob o lema Makas na Sanzala.

Mais de 2 mil ingressos foram vendidos. Antes das 18 horas, o local da festa encontrava-se completamente lotado e mais de 10 mil pessoas ainda estavam de fora daquele recinto.

De um lado, músicos do Rangel: Puto Lilás, Vaga Banda, Magnésio, e Puto Prata. De outro: Os Calunga Mata, Xtrubantu, Tchú K e os Lambas, representando o Sambizanga. Como convidados, Agre G e Bruno M.

A noite prometia um grande espectáculo de Kuduro nunca visto até então em Angola. Para que tudo acontecesse na harmonia desejada, a Polícia Nacional esteve presente com três unidades: Canina, Auto e PIR (Polícia de Intervenção Rápida). No total, mais de quarenta polícias estavam preparados para que tudo acontecesse sem que houvesse transgressões as normas de convívio público.

O espectáculo foi marcado por muita euforia e ânimos acima da média por parte daqueles que queriam ver seus admiradores a dar espectáculos e a verem-se com vencedores. O público vibrava ao ouvir os insultos tanto do Rangel quanto do Sambizanga. “Kinama que bate na filha” e “Panina Cabeludo” foram os nomes chamado ao longo do espectáculo pelos Lambas ao Puto Prata e Puto Lilás. Os mesmos repostavam dizendo “Desgraçados que andam a pé” e “Matumburiçados irreversíveis”.

Segundo o director geral da Independente Universal Produções, empresa organizadora do espectáculo, a iniciativa surge como um socorro de algumas perguntas nas várias periferias de Luanda acerca de quem são realmente os melhores fazedores de Kuduro no país. “O espetáculo foi como uma prenda de fim de ano para o povo angolano. Pretendemos, ao ano que vem, realizar um outro espectáculo de Kuduro no Estádio da Cidadela para que possamos evitar a enchente que aconteceu no Cine Atlântico”, ressaltou. 

Independente da disputa entre os bairros, o Kuduro venceu e mais uma vez foi notório que é um estilo de massa, uma manifestação cultural e ninguém pode tirar isto ao povo angolano. Ainda há quem diga que é coisa de delinquente, porque o ritmo vem das periferias e é feito por jovens com nível de escolaridade baixo. Mas esse som frenético, dançado loucamente, ainda vai ser muito falado ao redor do mundo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Só mesmo Luanda pra fazer o F. vestir este modelito...


A tarefa parecia simples: ir até o Ministério das Finanças pegar um documento. O F. me levou, porque é praticamente impossível estacionar por ali.

Na entrada, o segurança me barra:
-Moça, tem que meter o cachecol!
-Cachecol? Com esse calor?
-É, madrinha. Não se pode entrar de ombro de fora.
-Mas moço, só vou ali pegar um papel. E minha blusa é bem fechada, nem tem decote. Qual o problema do ombro de fora?
-Decote pode, mas ombro de fora não. Tem que meter o cachecol, madrinha...
-Mas eu não tenho cachecol! O senhor acha que eu vou andar de cachecol com esse calor?
-Então tem que voltar outro dia...

Já tínhamos perdido uma hora de trânsito pra chegar até lá. Voltar outro dia, nem pensar. Fui então atrás do F., que já estava dando a volta na quadra. "Fico no carro e ele entra", pensei eu.

Mas logo me dou conta que o F. está de... bermudas! Se não pode ombro de fora, perna também não deve poder, né? Olho pra blusa dele. Uma pólo surradinha...

Eu: -Hmmmm... E se eu vestisse a sua blusa? Não é muito fashion mas pelo menos cobre os ombros...
F.: -Tá, mas e aí como eu faço? Também não posso dirigir sem camisa.

Olhamos ao mesmo tempo para a minha blusinha... E é aí que surge, nas duas cabecinhas, o plano perfeito...

Eu proponho:
-E se...
F., captando a mensagem:
-Não, esquece. Não vou vestir sua blusa de alcinha.
Eu: -Mas já perdemos tanto tempo vindo até aqui... E além do mais ninguém vai te notar assim dentro do carro.
F.: -Sem chances. Vou tentar estacionar, te dou minha blusa e fico sem, esperando no carro.

Depois de 40 minutos tentando encontrar um vaga, sem sucesso, F. entrega os pontos:
-Dá logo essa blusa aí que eu vou vestir. O máximo que vai acontecer é o policial me multar por boiolice...

Visto a pólo surradinha, mas o F. se atrapalha todo com as alcinhas. O sinal vai abrir, ele tem que acelerar, mas a alcinha do ombro direito não passa no bracinho de nadador. F. força um pouquinho e... a alça arrebenta!

Fazer o quê? Encostamos no Ministério, eu subo as escadas de mármore rindo sozinha e a secretária não tira os olhos da minha blusa. Explico: -Não tinha cachecol, improvisei com a blusa do meu marido. E ela: -Ah... Achei que a senhora fosse alemã! Elas é que costumam se vestir assim! (vai entender...)

Em 5 minutos estou de volta e logo reconheço a Dorotéia parada no semáforo, com o F. em estado de graça com seu modelito tomara-que-caia!

Moral da história: Em Luanda, algo muito simples pode facilmente transformar-se numa grande aventura. E para que ela tenha final feliz é preciso muito bom humor e muito jogo de cintura! (e se possível um marido disposto a mudar de estilo!)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A prova Swakopmund

Este post complementa um outro publicado pelo companheiro A. no Diário da África, onde ele revela a todos provas definitivas de que a Namíbia não existe.

Aqui, vou apresentar especificamente a prova chamada Swakopmund, suposta cidade no suposto litoral da suposta Namíbia. Vejam as fotos vocês mesmos:


Casas em estilo germânico, ruas limpas e sem buracos. A língua que mais se ouve é o alemão, que também está nos nomes das ruas. A princípio pensei que estivesse na Alemanha, mas aí percebi um detalhe que comprometia essa tese: todas as pessoas nessa suposta cidade são felizes. Bem-humoradas, educadas, atenciosas. E cobram preços baixíssimos pelos serviços.

Na pousada em que eu e a P. ficamos, o dono cobrava apenas 50 dólares por noite. No quarto havia duas taças de cristal e um espumante tinto sobre uma carta com uma recomendação: "Oferecemos este vinho para que vocês possam apreciar o pôr-do-sol nas dunas que ficam a poucos metros daqui".

O vinho era cortesia do hotel. O pôr-do-sol, uma cortesia da suposta Namíbia.

Definitivamente, esse lugar não existe.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Revéillon na Namíbia

Não bastassem terem nascidos ilegítimas, elas foram brindadas com uma improvável combinação de cores. Tinham tudo para levar uma vida (curta, não tenhamos ilusões de que vão durar muito) miserável, mas aí entrou em cena o destino. E elas vieram parar nos meus pés ao mesmo tempo em que uma passagem para a Namíbia fazia volume no meu bolso.

Foi assim que as minhas discretas hainavasias tiveram o privilégio de passar o Revéillon na Namíbia e ainda assistir ao lindíssimo pôr-do-sol nas dunas de Sossusvlei.

É como dizem. Pra tudo é preciso ter sorte na vida. Até pra viver como chinela.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Roque Santeiro Voador

Os auto-falantes da cabine anunciaram, logo depois do anódino almoço servido pelos tripulantes, que estava aberto o período de compras de free shopping do vôo 172 da Air Namíbia entre Windhoek e Luanda. A partir daquele momento, os passageiros que assim o desejassem, poderiam procurar os hospedeiros... A explicação nem terminou e os comissários já estavam cercados por angolanos, revista com as ofertas de produtos numa mão, notas de dólares americanos na outra.

Uma dessas "banquinhas" estacionou bem ao nosso lado. E começaram as negociações de produtos. Uma passageira mais afoita pedia em português mesmo:

- Eu quero três diquinay. Três diquinay pra mim.

Fiquei a imaginar o que seria o tal produto, dúvida que sequer passou pela cabeça do comissário de bordo, pois que imediatamente saiu-se com três frascos de perfume DKNY.

- It is 135 american dólars - ele disse em inglês.
- Tem aqui 200 dólares - respondeu a passageira em português.

O hospedeiro devolveu 50 dólares e pediu a ela que esperasse, pois não tinha mais troco. Ela continuou ao lado, a revista na mão. Outros passageiros chegavam comprando, um tentando ser mais rápido que o outro. A passageira diquinay pediu mais alguns produtos, deu mais algum dinheiro, no fim das contas, o hospedeiro continuava a lhe dever USD 20. Pelas contas dele. Pelas dela, eram 30 USD.

- Me dá mais um diquinay e fica certo.
- You have 20 dolars back, this costs 45 dolars.
- Não, me dá só mais um diquinay e tá certo.

Começaram a debater os valores, tentando um acerto de contas. Nisso chega a tia da "diquinay", gritando do outro corredor.

- Oh minha sobrinha, dá só 20 dólares à tia.
- Eu não tenho 20. Só 100. O troco aqui não chega.

Pelo auto-falante, outra comissária começa a anunciar que o vôo está se preparando para aterrisar em Luanda. O Free Shopping vai ser encerrado... O quê? Encerrado? Bateu o desespero nos outros passageiros que ainda não estavam satisfeitos com suas compras. E a banquinha do hospedeiro foi cercada por mão cheias de notas de dólares que pediam mais um perfume, mais um uísque, mais não sei quê. Nossa fileira, àquela altura, já era uma sucursal voadora do Roque Santeiro.

A passageira diquinay finalmente chegou a um acordo com o hospedeiro. Foi pedindo mais um diquinay, e mais outro, e mais outro, até que a conta chegasse a um número inteiro e ele não precisasse lhe dar troco. Quando parei de contar, ela já tinha seis fracos de perfume na sacola, mas é possível que tenha levado mais.

Foi a primeira vez na vida que vi uma tripulação ter de implorar para que as vendas fossem encerradas. Depois de várias tentativas pelo sistema de som, a comissária chefe decidiu meter ordem na confusão, com o Airbus 340 já apontado para a pista, na reta final de aterragem. Mandou o carrinho de volta para o fundo do corredor, no que foi prontamente seguido por um senhor gordinho, de terno, que não terminara as compras.

O auto-falante continuava anunciando a chegada, pedindo a todos que voltassem aos seus assentos, mas o senhor gordinho só passou de volta segundos antes da aeronave tocar a pista, com um sacola que mais lembrava a do Pai Natal.

Com o avião já aterrado e as portas abertas, os sinais da guerra de consumo podiam ser vistos por todos os lados. Restos de plásticos das embalagens, de caixas de papelão, de revistas do free shopping picotadas, além de latas de bebidas, copinhos, guardanapos e lixo de todo o tipo espalhado pelos corredores e entre as poltronas.

Parecia mesmo o Roque Santeiro depois de um dia de comércio intenso.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Hainavasias, as ilegítimas


Não é nenhuma novidade que o sucesso das sandálias Havaianas pelo mundo é motivo de orgulho para os brasileiros. De tão cobiçadas na Europa e nos Estados Unidos, onde chegam a custar mais de 30 dólares, as sandálias atraíram a atenção dos chineses, que já a imitam e distribuem em vários países – inclusive em Angola.

Um antigo comercial de tevê dizia que as Havaianas, as legítimas, não deformam, não têm cheiro e não soltam as tiras. Bem, não é exatamente assim. O pé direito do par de chinelas que eu trouxe para Angola soltou as tiras irremediavelmente em Benguela, há uns meses atrás. Comprei outro par, que resolveu ganhar o mundo no balanço das ondas na semana passada, numa visita à Cabo Ledo.

Foi assim que cheguei descalço à véspera de Natal. E estava eu dando tratos ao peru ontem pela manhã quando bateu à porta o Aguinaldo, motorista de uns amigos nossos, que nos foi cedido para nos ajudar nos últimos preparativos da ceia.

- Senhor F., estão aqui as chinelas. Não sei se vão servir.
- Chinelas, Aguinaldo? Como assim?
- A dona P. me deu dinheiro e recomendou que lhe comprasse umas chinelas.

Ele me estendeu um maravilhoso par de hainavasias, as ilegítimas, que havia custado 200 kwanzas (2,80 USD) nas zungueiras. Ainda não sei sobre as tiras, mas em 12 horas de utilização as chinelas já demonstraram que soltam as cores. O que não chega a ser um defeito assim tão grande, já que o par comprado pelo Aguinaldo fazia uma improvável combinação de azul, marron, branco e dourado. As tiras são de um dourado brilhante.

Quando a P. chegou de volta, eu quis saber:

- Que instruções destes ao Aguinaldo sobre as chinelas?
- Eu disse a ele que você não gostava de nada muito colorido. Pedi para comprar umas chinelas pretas, ou azuis.

Não preciso nem dizer que as minhas hainavasias foram os sucesso da noite na ceia de Natal em casa. Todos ficaram maravilhados com a criatividade cromática.

É como dizia o slogan: Hainavásias, as ilegítimas. Não aceite imitações.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

É branco? Paga.

Dia desses, tranquilamente estacionado numa rua de Luanda, aguardava a P. sair de uma embaixada quando reparei numa luta que se desenrolava bem atrás da Dorotéia.

Tudo começou com um pneu furado. O dono do carro não conseguia trocar porque o macaco estava com problemas. Foi chegando gente, mais gente, uns a dar palpites, outros mesmo a sujar as mãos, e daí a nada já eram cinco angolanos, entre eles um policial fardado, a brigar com o macaco.

Desci da Dorotéia para assistir a peleja já disposto a oferecer o meu macaco e imediatamente colou-se ao grupo um bêbado. Vinha meio tropeçando, falando alto, deixa lá comigo, eu troco esse pneu. E se jogou embaixo do carro, mexeu daqui, fuçou dali... milagrosamente o carro começou a subir, para espanto de todos os outros.

Enquanto fazia força, o bêbado ia dizendo, como se fosse um mantra: vai me dar 2 mil kwanzas, vai me dar 2 mil kwanzas.

Os outros se riam , 2 mil kwanzas? E gritavam, Xé, trabalha mais e fala menos. O bêbado continuava o seu mantra, vai me dar 2 mil kwanzas, vai me dar 2 mil kwanzas, até que o policial perguntou:

POLICIAL: - Quem é que vai lhe dar 2 mil kwanzas?
BÊBADO: - O branco.

Gargalhada geral.

POLICAL: - O branco? Qual branco?
BÊBADO: - Esse branco aí.
EU, percebendo que ele se referia a mim: - Eu vou lhe dar 2 mil kwanzas? Mas esse carro nem é meu. Estou aqui só assistindo.

O bêbado esbugalhou os olhos, que já estavam arregalados:

BÊBADO - Como não é seu? Então eu venho ajudar a trocar o pneu e o carro não é seu? É de quem? Eu só vim porque o kota estava aí parado, achei que o carro era do kota. Agora tem de me dar 2 mil kwanzas.

Todos riam de se matar, trabalha mais e fala menos, oh.

Com o serviço quase pronto, o dono do carro tirou 100 kwanzas do bolso e deu ao policial. O senhor agente, naturalmente, ficou com 50 kwanzas, sem ter feito força nenhuma. Deu os outros 50 ao bêbado, que saiu quietinho, sem uma reclamação.

domingo, 28 de setembro de 2008

Raquete elétrica



Esta é da série "Maravilhas que conheci em Luanda". Pelo menos, nunca tinha visto nada igual no Brasil.

Trata-se de uma raquete elétrica fabricada na China (claro) para uma função bem mais divertida do que rebater bolinhas amarelas: matar mosquitos. A idéia é simples. Você a carrega na tomada da parede e ela fica pronta para a "caçada" aos "anjos do paludismo", como diz um amigo meu.



A tela da raqueta é elétrica. Esse botão vermelho, da foto acima, aciona uma descarga de energia . Você só precisa apertá-lo quando dirigir a raquete contra o mosquito. Uma vez preso na tela, seu inimigo alado frita soltando faíscas. Quando existem muitos mosquitos, a raqueta fica parecendo um daqueles pisca-piscas de Natal.

Impossível descrever o prazer proporcionado pelo cheiro de queimado e pela libertação definitiva das palmadas desnecessárias no ar e das paredes manchadas de sangue. Tudo por menos de 300 kwanzas (USD 4) na AgroSantos.

A raquete elétrica, certamente, estará entre os pertences que me acompanharão na volta ao Brasil.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Perguntas proibidas

Ia bem a recepção na piscina do Hotel Trópico, um dos mais finos da cidade, quando na rodinha em que me encontrava, decidi perguntar à autoridade angolana ao meu lado, mais por educação do que por verdadeiro interesse:

- E o senhor, doutor Y, quantos filhos tem?

Bem humorado, doutor Y puxou-me pela manga do paletó e segredou ao meu ouvido:

- Desculpo-lhe, senhor F., porque sei que és estrangeiro. Mas ensino-lhe desde já: esta pergunta não se faz ao homem angolano!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Estórias da Luanda Recente

As casas em Luanda que foram ficando vagas com o abandono de milhares de pessoas com medo da nossa próxima Independência, começaram a ser objecto de disputa por parte dos que cá ficaram, muitos esquemas se passaram, muita gente ficou rica; não é isso que me interessa para já, mas sim contar a minha estória.
Uma filha igual a tantas que vivem neste país, nunca gostou do pai, não quis ser perfilhada, nem mesmo se habilitou à herança quando o senhor morreu, apesar dele ser muito rico. A verdade é que o tal pai, abandonou a sua mãe, de cor de pele escura, para ir se casar a Portugal, com uma mulher lá da sua aldeia, de pouca educação e sem estudos, que lhe deu três filhos. A sua mãe, sendo negra e vivendo sob um regime colonial, tinha o segundo ciclo completo e era funcionária das finanças.

Esta nossa personagem, a filha mulata, tinha sido entretanto despejada de uma casa na Praia do Bispo, em virtude das obras do Mausoléu do Fundador da Nação e sob pressão da família, candidatou-se a uma casa nas Ingombotas, que tinha sido do seu falecido pai. Como não tinha documentos que atestassem a paternidade, amargorou com idas e vindas à Junta de Habitação, local dos mais esquemáticos daquela altura. Utilizou várias vezes a gasosa, mas o baile continuava, mudavam os funcionários e tudo voltava ao princípio. Serviu-se da "cunha" método mais expedito e eficiente. pediu num alto graduado das forças armadas e logo ficou com papel passado, tudo em ordem como manda o figurino. Iniciaram-se as obras de beneficiação e começou logo a pensar-se na festa de inauguração. Angolano é assim, não brinca.

Chegou o dia, grande festa no quintal, com gente da alta burguesia nacional, muita comida e muito mais bebida. Foi contratado o melhor DJ para animar a farra, com os seus discos de antigamente de semba e outros ritmos angolanos, onde, também não faltaram os tangos de Gardel e od Gêvês de Cuba, ao ritmo da rumba e conga, bem como os merengues de São Domingos.

A nossa mulata lembrou-se que seria de bom tom popular, chamar o Velho António, antigo criado do seu pai, que tinha ficado a guardar a vivenda durante muito tempo, para estar também na festa. O Sô António já andava pelos oitenta e tais e como os ares da burguesia começaram a subir á cabeça da Dona, não quis misturar o fiel servidor com tão ilustres convidados e resolveu deixá-lo na sala, sentado no sofá.

A Dona, de tempos a tempos, trazia uns croquetes e umas cervejas ao mais Velho, coisa que foi repetindo ao longo da noite. Mais tarde, após um período mais ou menos longo, esqueceu-se do velhote e este, limpou um João dos Passos, whisky que encontrou na cristaleira, num abrir e fechar de olhos. Quando a Dona da casa se lembrou que se tinha esquecido do mais velho, vai a correr até à sala e deparou com o Sô António a mijar no sofá.
"Então senhor António, o que é isso?
Responde o Velho, nas calmas:
"Minha Senhora, comi bem, bebi bem, não posso mijar bem?