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segunda-feira, 28 de junho de 2010

A espera

Nele muito pensamos quando ainda cá nesta Casa vivíamos, em Luanda, mas eram só pequenos planos, não estavam então as condições criadas, problemas eram muitos, nem morada certa éramos capazes de colocar... Mas dos planitos que nasceram cá, ficou mesmo a ideia, que acabaríamos por concretizar em nossa volta ao Brasil.

Para que esteja completa, só falta chegar o novo morador da Casa de Luanda - está programado para fins de agosto. E que para seguir os passos do pai e da mãe, há de se chamar L., e já vai muito bem, obrigado, a dar chutos e pontapés na barriga da P., que não para e crescer.

terça-feira, 3 de março de 2009

Os primeiros 20 anos

Como sempre diz o nosso querido leitor Septuagenário, quando se trata de Angola, o mais difícil são os primeiros 20 anos. Para quem chega, diz ele. E também para quem parte, acrescento agora , deixando por lá alguns dos melhores seres humanos que já tive o privilégio de conhecer.

Amigos de Luanda, já estou cá, do outro lado do Atlântico. Mas a cada dia mais próximo de vocês.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Papai Noel me deu uma casa

Como eu fui um menino bonzinho o ano todo, e como casa foi o que mais procurei nesta aventura angolana, a P. (de Pai Natal) me surpreendeu com essa casota com girassol, onde mora a felicidade – e também os dois filhotes dos nossos melhores projetos de futuro.

Obrigado, P.ai Natal.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A emancipação da nossa angolana de fibra

Com o fim do casamento, Nina não aceitou mais permanecer na casa dos sogros. E com os dois filhos pequenos, teve de enfrentar a dura tarefa de encontrar uma casa e um trabalho ao mesmo tempo em que a mãe, que conhecera havia pouco tempo, apareceu doente em Luanda para lhe pedir ajuda.

- Ela ficou diabética, engordou muito, não podia mais trabalhar. Estava já separada do meu pai e eu assumi essa responsabilidade de cuidar dela também.

Nina foi bater no Miramar, bairro nobre onde ficam as embaixadas em Luanda, a procura de um emprego como doméstica na casa do embaixador americano. Os seguranças avisaram que ali era impossível. Mas mostraram outra casa onde, naquele exato momento, dois brancos faziam uma visita. Provavelmente alugariam a vivenda.

Ela foi lá bater lá e conversou com a senhora estrangeira que mal falava português. Estavam a alugar a casa para estabelecer uma embaixada. Mas ainda demoraria algum tempo até que tudo fosse resolvido e eles realmente precisassem de uma empregada. A senhora quis guardar um contato, mas Nina não tinha telemóvel na época.

- Ficou combinado que o policial que trabalha na embaixada americana ia mandar me avisar. Ele sabia a rua onde eu estava morando. Mas como o aviso estava demorando muito e eu precisava sustentar meus filhos, comecei a vender pedras.

Nina fez contatos nas diversas obras que começavam a surgir em Luanda com o fim da guerra civil. Ficou amiga dos pedreiros e eles a chamavam quando precisavam de cascalho. Ela alugava um caminhão, ia até Viana buscar pedras e as entregava nas obras, cobrando por isso.

- Estava a dar algum dinheiro, o suficiente para o aluguel e o sustento das crianças. Foi quando o policial apareceu lá em casa, dizendo que aquela senhora estava mandando me chamar.

Nina voltou ao Miramar e conseguiu o emprego no mesmo dia. Trabalharia como doméstica para a embaixada das 9h às 13h, ganhando USD 250 por mês.

Amanhã, no último capítulo: Nina não se acomoda com o emprego novo e parte em busca melhores dias.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A infância triste da nossa angolana de fibra

Continuando a história da nossa heroína, Nina nasceu no Uíge, onde o pai era camponês. Ainda bebê foi trazida pela mãe para a casa de um tio em Luanda, onde estaria a salvo da guerra. A mãe voltou depois para a província e elas nunca mais se reencontraram. Nina cresceu longe dos pais, dos três irmãos mais velhos, todos também distribuídos entre casas de parentes.

Na casa do tio, ela aprendeu a frequentar a igreja das Testemunhas de Jeová. Na igreja, aprendeu a ler e a escrever, mas nunca foi matriculada pelo tio numa escola. "Ele foi muito bom para mim em muitas coisas, mas em outras...", lembra. "Ele me fazia como uma empregada, tomava conta aos filhos dele. Meus primos estavam na escola, mas eu não podia estudar. Tinha de cuidar da casa. É uma vontade muito grande que eu tenho, até hoje, a de ir para uma escola, aprender as coisas."

Outra queixa de Nina do tempo em que vivia na casa dos tios é a falta de carinho. "Não é a mesma coisa que ser criada pelos nossos pais", diz. "Eu cresci assim, sem amor, sem carinho. Foi muito triste isso."

Nina só conheceu a mãe em 1997, quando tinha 17 anos de idade.

Amanhã, como ela deixou a casa dos tios para recomeçar a sua vida. Não perca, às 20h.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uma angolana de fibra

Nina, a moça que trabalha aqui em casa, ficou admirada quando certa feita lhe demos 10 mil kwanzas (cerca de USD 150) para que pagasse ao caminhão que viria colocar água no tanque.

Estranhou porque na embaixada onde trabalha, duas casas depois da nossa, o embaixador nunca conseguiu comprar um caminhão de 10 mil litros por menos de USD 300. Esperta como só, ela anotou o telefone do motorista. Quando a embaixada precisou de água, Nina deu o número ao embaixador. O diplomata ficou admirado com a esperteza da empregada doméstica.

Nina é assim. Inteligente, honesta, batalhadora e cheia de iniciativas. Se tivesse tido oportunidades, teria ido longe. Mas a vida, a guerra, a separação ainda muito jovem da família lhe sabotaram o futuro. Nina nunca frequentou uma escola regular e hoje trabalha em dois empregos como doméstica para sustentar os dois filhos e a mãe, diabética, de 72 anos.

Nos próximos dias, sempre às 20h, vocês conhecerão em capítulos a história de vida da Nina, uma angolana de fibra.

sábado, 19 de julho de 2008

A tristeza que vira felicidade

Ainda inspirada no post da Migas, Diferenças Culturais, quero contar a história de uma amiga angolana:

Laura tem minha idade, 32 anos, e como a afinidade fluiu de forma natural desenvolvemos uma boa amizade. Com ela aprendi muito sobre a cultura angolana, mas definitivamente sob influência do seu ponto de vista ocidental. Sim, Laura é uma mulher muito inteligente, e que sempre fez questão de demonstrar que os seus anos de Europa não foram em vão.

O namorado da Laura é que por vezes deixava um pouco a desejar... Artur, homem também de muito bom nível cultural, nunca que pedia a mão da moça em casamento. A ansiedade da Laura ia crescendo, mas a vida seguia o seu rumo habitual.

Um dia Laura me liga desesperada a dizer que precisava conversar. Ao encontrá-la sua frase foi curta e direta: “Meu teste foi positivo”. Não entendi, pensei que fosse o de gravidez, mas neste caso sua alegria seria imensa. Ela então prosseguiu: “Tenho o vírus da SIDA”. Eu não sabia o que falar, mas ela precisava do meu apoio. Passamos longas horas conversando e perguntei se o Artur tinha feito o teste também. Ela disse que não, mas explicou que ela optara por fazer o teste por desconfiar dele.

Foi difícil para Laura convencer Artur, que depois só aceitou abrir o envelope do laboratório ao lado dela. A descoberta para ele também foi dolorosa, mas ele tinha então o apoio dela.

Difícil para mim é explicar agora a aura de cumplicidade que surgiu entre os dois. Um tempo depois Artur a pediu em casamento, e daí para frente a minha amiga é uma mulher radiante, transbordando felicidade!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A Grande Família Angolana - Os sapatos de Ricardo Lobo

Ricardo Lobo é dançarino animado, conhecido por toda a malta das grandes festas de Luanda (como convidado ou como pato, tanto faz). Mas naquele casamento, não estava a sentir-se bem. Doíam-lhe bué os pés.

- Apá, não sei o que se passa. A esta altura não estou mais em idades de me crescerem os pés – comentava com a esposa, sem entender por que os sapatos finos que guardava para ocasiões de gala estavam a lhe apertar tanto.

E assim passou a noite triste, dançando pouco, o aperto a incomodar tanto que chegou ao ponto de partir cedo para casa. Logo ele, sempre o último a sair.

Algum tempo se passou até que Ricardo Lobo fosse convidado a outro casamento. Quando foi calçar os sapatos, lembrou-se do infortúnio. Resolveu investigar.

Deu com com um par de meias usadas, como a morarem escondidinhas dentro dos sapatos, esquecidas de umas bodas antigas regadas a muito uísque.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A Grande Família Angolana – O Casamento de Ricardo Lobo

Luzia, a filha mais velha de tia Justina, casou-se no início dos anos 80 com Ricardo Lobo. Foi uma festa animada que deixou saudades.

- Eu era tão conhecido como pato em Luanda que todos os patos que foram ao meu casamento, assim que me viam, encostavam para perguntar discretamente: “Quem é o noivo?” Eu dizia: sou eu! – diverte-se Ricardo que, obviamente, não expulso nenhum intruso. - Ética de pato, sabe como é...

Luzia é quem recorda a melhor de todas as histórias da festa.

- Um dos convidados, como era mesmo o nome dele? Ele trabalhava na rádio... Pois bem, no meio da festa ele saiu. Precisava ir à rádio para ver se tudo corria bem, sabem como é o trabalho, ele tinha suas responsabilidades. Deixou a mulher preocupada na festa, coitadinho, trabalhava tanto o rapaz.

- Quando ele voltou, duas horas depois, chegou todo prosa, feliz da vida – continua Ricardo Lobo. - Tirou o fato, todo relaxado, a esposa olhou pra ele e perguntou: “Por que a sua camisola está do avesso?” O gajo tinha saído da festa para ir ter com a amante. Na pressa de voltar, vestiu a camisola ao contrário e nem percebeu!

Todos em volta da mesa caem na gargalhada.

- Mas a mulher foi de uma classe, impecável. Não deu uma palavra na festa. Apenas disse: “Vamos embora para casa”. Os dois separaram-se naquele mesmo dia e nunca mais reataram.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Grande Família Angolana - Projeto Kalunga

No final dos anos 70, início dos 80, um grupo de músicos brasileiros aportou em Luanda para participar de uma série de shows denominada Projeto Kalunga. Vieram Gilberto Gil, Chico Buarque, Martinho da Villa, Djavan, Alcione, entre outros.

A família de tia Justina estava lá, acompanhando de perto.

- O Chico Buarque veio com a Marieta Severo. Eles foram para Benguela e foi lá que ele fez aquela música “Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou chocalho é que mexe com ela...” – cantarola Ricardo Lobo.

- O Chico queria ficar dançando com as moças, com a mulher ali do lado. Eu hein? Nem bonito ele era... – comenta Natália.

O Chico Buarque não era bonito? Ah se as brasileiras ouvem isso, Natália...

- Não era mesmo. Muito esquisito ele.

Tia Justina lembra a melhor história de todas.

- No jantar com autoridades, o Martinho da Villa já tinha tomado uns copos e de repente começou a dizer: “Ele está aqui entre nós, ele está aqui...” Um dos ministros perguntou: “Camarada, quem é que está aqui?” E o Martinho: “Agostinho Neto! Ele está aqui!” O gajo achava que tinha recebido o santo do Agostinho Neto.

E todos dão gargalhadas antes de partir para a próxima história.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A Grande Família Angolana

Todos estão sentados à volta da mesa, a comida pronta a ser servida e tia Justina acende o cigarro.

- Epá, mãezinha. Não vais acender isto logo agora.

Quem se queixa é o Oscar, que apesar de tratá-la por mãe, é enteado. Filho do primeiro casamento do tio Joaquim, já falecido. Com mais de 70 anos sulcados na face, tia Justina não lhe dá bola.

Ela foi a segunda mulher do tio Joaquim. Tiveram quatro filhos: três mulheres e um homem. Oscar vive ali pela sua casa como se filho fosse, mas a mãe verdadeira dele vive em Portugal.

- Nos falamos sempre, porque esse menino dá-me na paciência – queixa-se tia Justina. O “menino”, no caso, tem mais de 60 anos.

Em torno da mesa estão também o filho Manoel, duas das filhas, um genro, o Ricardo Lobo, que é mesmo tratado assim, pelos dois nomes, e dois sobrinhos da tia Justina: a Natália e o Eduardo, filhos da tia Mariana.

Tia Mariana mora na mesma rua, mas não veio. Com quase 90 anos, caminha com dificuldade. Tio Joaquim era irmão de tia Mariana.

O Manoel, esse sim filho mesmo da tia Justina, está com uma filha de três anos, Carolina. Nasceu de uma relação com uma moça que não chega a ser a segunda mulher do Manoel, já que não vivem juntos. A primeira mulher está em Portugal com as outras três filhas dele, que tia Justina vai visitar em julho.

O Ricardo Lobo conta histórias do tempo em que as festas começavam em Luanda antes das dez da noite e só acabavam depois das 5h30 da manhã.

- Tínhamos o toque de recolher e ninguém podia sair de casa nesse intervalo. À meia-noite a festa parava para que pudéssemos assistir à novela Gabriela.

A Natália lembra que O Bem Amado fazia o mesmo sucesso.

- Os políticos daqui começaram a imitar o jeito do Odorico Paraguaçu falar.

Todos já estão a fumar e a beber cafés com licores, e a relembrar os tempos de pato de Ricardo Lobo nas festas alheias.

- Certo dia chegamos eu e um amigo e o gajo na porta nos interpelou: “Os senhores são convidados?” Dissemos, claro que somos. E ele: “Da parte de quem?” E eu disse, da Noiva. E ele: “Ó desculpa lá amigo, mas isto aqui é um batizado”.

Todos caem na gargalhada.

Chega o tio Rafael, médico. Qual é mesmo o parentesco do tio Rafael? Natália tenta explicar:

- É assim, o meu tio Armando, irmão da minha mãe Mariana e do tio Joaquim, teve uma namorada, tás a ver? Eles viveram um tempo juntos, depois separaram-se, mas ela continuou amiga da família. Depois ela casou-se com o tio Rafael. Ela já morreu agora, mas o tio Rafael virou nosso tio.

Tás a ver? Assim é um domingo de uma típica família angolana, cheia de agregados e histórias dos tempos passados.

P.S. – Os nomes deste post estão todos trocados, claro, porque Luanda é uma cidade muito pequena.