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sábado, 5 de abril de 2008

A tragédia do DNIC


Hoje faz uma semana que em Luanda só se fala no desabamento do prédio da Direção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) da polícia angolana. Foi uma tragédia. Mais de 150 feridos e 30 mortos, na última contagem oficial.

O prédio, situado no bairro da Cidadela (não muito longe daqui), começou a ruir por volta de 1h30 de sábado passado, dia 29 de março. Às 4h30 foi tudo abaixo. A construção servia como detenção para suspeitos de crimes que ainda estavam a ser investigados. Entre os mortos, um bebê que nascera na cela da ala feminina e sua mãe. Um horror.

Em virtude da tragéda, a Defesa Civil de Luanda saiu às ruas tentando identificar outros prédios em risco de desabamento. Listou mais três, um deles bem na esquina do Largo do Kinaxixe, uma das regiões mais centrais da cidade.

Particularmente, acho que eles não procuraram direito. Diante do estado de abandono da maioria dos edifícios da cidade, não me espantaria se descobrissem que as estruturas de vários deles estão comprometidas.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

As vítimas silenciosas

Cristina Ngueve foi acompanhar a cunhada ao posto médico da vila onde morava, em Uíla. Na picada, a cunhada pisou no fio que acionava uma mina de instalação. O artefato explodiu ao lado de Cristina. A cunhada perdeu uma perna; ela perdeu as duas. Tinha 18 anos.

Eva Gabriela acordou numa manhã de 1996, abriu a porta da casa em que morava na província de Kuando Kubango, sudeste de Angola, e quando pisou do lado de fora, explodiu numa mina terrestre que havia sido colocada durante a noite. Perdeu a perna direita. Ela tinha 12 anos na época.

Luisa Miguel Adão Gaspar voltava do riacho, na província do Bengo, com um balde de água na cabeça quando pisou numa mina, em 1997. Passou três meses num hospital angolano. Perdeu a perna e a vista esquerda. Ficou seis meses na Alemanha, socorrida por uma ONG, para tentar reconstruir a face. Tinha 12 anos de idade.

Essas histórias ilustram a pior face do conflito civil que destruiu Angola entre 1975 e 2002. Como me disse uma das 18 mulheres mutiladas com quem conversei, elas não pegaram em armas, não lutaram por nenhum dos lados. Aquela guerra não lhes pertencia. Mesmo assim, tiveram suas vidas definitivamente marcadas pela brutalidade.

As 18 sobreviventes tiveram a coragem de participar de um concurso de Miss organizado pelo governo de Angola, o Miss Sobrevivente de Minas, para chamar a atenção do mundo para o problema. Afinal, ainda existem 2,3 milhões de angolanos vivendo em áreas de risco. Angola ainda tem, já mapeados, 3,2 mil campos minados.

Os mais otimistas dizem que ainda vai levar 30 anos para livrar o país dessa desgraça; os pessimistas apostam em 130 anos.

Para quem mora no Brasil, parece que o Estadão publicou hoje uma matéria sobre o concurso de miss. Mas o cara que escreveu lá não contou tantas histórias de sobreviventes.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Tesouro escondido


Em meio a tanta decadência, com prédios ruindo por todo lado, parece difícil imaginar. Mas a verdade é que Luanda teve seus dias de glória. Encontrei uma prova física disso, esta semana, no Cine Miramar, no bairro de mesmo nome.

O muro branco que fazia as vezes de tela está sujo, mal-cuidado como quase tudo por aqui. Faz muito tempo que não vê uma película. Do espaço, projetado pelo arquiteto português João Garcia de Castilho nos anos 50, sobraram os traços de pompa.

Deviam ser realmente magníficas as noites de cinema ao ar livre, com a baía de Luanda iluminada por navios na entrada do porto. Hoje o espaço só recebe eventos e espetáculos. Por isso as cadeiras alinhadas.

domingo, 30 de março de 2008

Casa Nova


Ainda é provisório, mas desde sexta estamos numa casa nova. Deixamos para trás a hospitalidade dos amigos que nos receberam nos primeiros 20 dias e mudamo-nos para um quarto alugado no apartamento de um outro casal de estrangeiros.

Nosso quarto agora é grande, tem um guarda-fatos (o que significa que minhas roupas finalmente puderam se libertar da mochila) e temos um banheiro só para nós. O prédio também é uma raridade. É bem velho, mas as escadas são limpas e um dos elevadores funciona quando tem energia.

Como nem tudo pode ser perfeito, na manhã de sábado descobrimos que o banheiro, além de exclusivo, vem com piscina. Um vazamento misterioso, que os donos não conseguem descobrir de qual andar vem. Em outras palavras, não tem solução. O lado bom é que ele aparece esporadicamente e depois passa semanas sem vazar de novo.

A vista da janela, pelo menos, é bem bonita.

Ficamos por aqui por alguns meses, mas até agosto temos que nos mudar porque o apartamento vai mudar de dono. Até lá, esperamos encontrar nossa Casa de Luanda definitiva.

Despedida da Musseque

Como despedida da travessa da Saudade (que descobrimos outro dia que oficialmente se chama "Pezinhos na água"), uma galeria de fotos da vizinhança:

A rua de casa:


A mulherada na porta (o salão de beleza da rua...):

O mercado da esquina:


Nossos vizinhos do lado esquerdo (Nanda e Teddy) brincando,



estudando,


e posando pra foto!

Crianças da rua brincando de carrinho...

e de carrão...

Divertindo-se com a câmera!

Pra fugir do calor, bacia vira piscina...
...e quintal vira quarto!

Da janela do quarto, o mar de telhados de zinco...

E varais de roupa!

E finalmente, pra compensar, a vista do terraço!

Do lado de lá... e de cá




Esta foto roubada discretamente na rua onde trabalho simboliza bem a desigualdade deste país de que F. falou no post abaixo...

Do lado de lá, um prédio ocupado, paredes quase despencando, residência ou local de trabalho de boa parte dos luandenses. Do lado de cá, uma loja de roupas importadas, com vitrines luxuosas, que só a elite montada em Toyotas pode vestir.

Entre os dois mundos, um segurança sonolento, garantindo que os que vivem do lado de lá não atravessem para o de cá.

domingo, 23 de março de 2008

Rendição


Luanda gruda-me à pele com seu calor úmido, entra-me corpo adentro com seus sons, odores e paladares. Oferece-se em magníficos pores-do-sol todos os fins de tarde, de nuvens rosadas contra o azul-claro do céu, de mar dourado como as promessas dos melhores sonhos românticos. Exibe orgulhosa o farolete da Lua cheia a iluminar a baía de águas calmas e o céu profundo de África. E assim vai aos poucos se insinuando, conquistando, seduzindo quem, ao primeiro olhar, só enxergou sujeiras e feiúras e maldades. Rendo-me. Tu és bela, admito. Impossível não gostar de ti, mesmo com todos os teus defeitos. Mas entendas, pequena Luanda, que ainda vou levar muito tempo, se que é esse dia chega, para chamar-te de minha.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Tem muita poeira nas ruas de Luanda?


Este sapato saiu zero quilômetro do Brasil. Embora não pareça, ele é marron escuro. Ficou assim depois de dois dias passeando pelas ruas da capital.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Nosso castelo na musseque




A vizinhança da casa em que estamos, na Ilha, é das mais animadas. Moramos numa travessa da Avenida Mutala Mohamed – a única da Ilha de Luanda –, numa área que os angolanos chamam de Vaidade. Aqui moram muitas famílias cheias de filhos e todos saem às ruas, mal amanhece o dia. Como as casas são muito pequenas, aproveitam o espaço público da rua para se divertir e fazer negócios.
Na frente de cada casa, as mulheres vendem frutas, verduras, doces, pães e toda sorte de mercadorias, expostas em tabuleiros de madeira. Quando escurece, os vendedores fazem brasa com carvão em latões e fritam galinha, assam espetinhos de carne, tudo para levantar algum dinheiro a mais. Todo mundo fala bem alto o tempo todo.
A rua é de terra e vive constantemente molhada. Minha intuição diz que é esgoto, mas também pode ser uma estratégia das donas das casas para evitar o poeirão que os carros levantariam na terra seca. Sim, passam muitos carros o tempo todo, apesar de a rua ser estreita. As casas na musseque podem ser simples, cubatas, como eles chamam aqui, mas todos têm o seu carrinho – e muitas vezes, um carrão. Não deixa de ser engraçado ver todos esses barracos com antena de TV a cabo e aparelhos de ar-condicionado nos telhados de folhas de zinco.
A musseque, pra quem ainda não sabe, é o nome local para o que, no Brasil, chamamos de favela. Mas ninguém precisa ficar alarmado. Nossa musseque não tem crime organizado, malaco de fuzil, nada disso. Aqui moram famílias de bem, muitas delas com dinheiro. Com a inflação do mercado imobiliário, é muito comum uma família que tem um apartamento na cidade alugá-lo por preços altíssimos e se mudar para uma cubata. Ganha assim o dinheiro do aluguel. Por isso, nossa musseque é bem segura, sem problema algum.