Mostrando postagens com marcador gente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gente. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de junho de 2009

O encontro

O telefone tocou no meio da tarde de inverno, daquelas bem iluminadas por um sol frio que só o sul tropical sabe fabricar em fins de junho. Do outro lado, o sotaque angolano era inconfundível, trazendo à lembrança aquele sol acanhado nas tardes do cacimbo de Luanda, a caminho de uma bica na Nilo dos Combatentes.

- F., estou cá em São Paulo, engarrafado num tráfego que mais me lembra o de Luanda, tás a ver?

Era Fernando Teixeira, o Baião, morador desta Casa, escritor angolano que melhor traduz a língua das cubatas de Luanda, pai do Pequeno Dicionário Angolano que tantos visitantes atrai para cá. Conhecíamo-nos apenas pela rede, graças a este blog, mas já nos unia há muito a solidariedade com que ele sempre defendeu este espaço dos ataques totalitários.

Marcamos encontro para a noite seguinte, jantar sob as árvores do Chácara Santa Cecília, em Pinheiros. Durante duas horas falamos de várias Angolas. A da infância do Baião, a dos primeiros anos de independência, aquela em que moramos eu e a P., a dos preços mais altos do mundo, onde toda esta história começou.

Muitas Angolas, uma única saudade a nos unir, a mim e ao Baião. E ao X., que a esta hora está já a se matar de invejas por não ter tido a chance de desfrutar deste momento. Principalmente depois que souber que, já não bastasse o prazer da visita, presenteou-me o Baião com três de seus livros, incluído aí o último, cujo lançamento foi aqui anunciado.

Fernando, bom retorno a Portugal e já sabes: nas tuas voltas a São Paulo, tens cá um amigo, ya.

Tamos juntos!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A revoada dos retornados

Dezembro começou anunciando um frenesi silencioso em Luanda. Dezenas de pessoas estão fazendo as malas e voltando de vez para a terra natal ou tomando um avião para passar as festas de final de ano com os seus. “Quando você viaja?” ou “Vai passar o reveillón em Angola?” são as questões mais discutidas por esses dias em celulares ou MSNs da vida.

Quase todas as noites há uma festinha de despedida dessas pessoas. Tenho comparecido a algumas com um aperto no peito, pois uma rede sólida de amigos, geralmente criada com muito esforço em qualquer cidade do mundo, é um dos principais fatores para agoentarmos a saudade daqueles que deixamos longe. E, quando ela vai se desfazendo, parece que um punhado de areia se esvai pelos dedos abertos das nossas mãos.

Há um misto de felicidade e tristeza no olhar e semblante das pessoas que vão embora por esses dias.

Felicidade porque fecharam um ciclo da vida, concluíram um projeto que os trouxe para cá há dois ou três anos, juntaram algum dinheiro que pouco provavelmente ganhariam em outro lugar e vão poder, de novo, viver a sensação de estar em casa, com os seus, no seu país de origem, sem ter que ficar levando o passaporte para lá e para cá todos os dias - de todos, talvez o aborrecimento mais básico.

E tristeza, certamente em maior quantidade do que a felicidade, porque Angola vai estar para sempre no coração delas como uma experiência única, inesquecível e imensurável, pelo menos nessa altura da vida.

Os expatriados, em geral, chegam aqui com uma idéia equivocada de que são “consultores”, de que vão ensinar muita coisa aos angolanos, mas a verdade é que esse povo, desconfiado à primeira vista e simpático por natureza depois, é quem no ensina, todos os dias, à maneira dele, a “quebrar um concreto” que nem sabíamos existir nas nossas cabeças.

Fecham-se as malas, ficam de fora muitas vivências, amizades, “yá, tás fixe?”, amores, aventuras, choros, crises de depressão, lugares, pôres-do-sol, calor, cacimbo, novos desafios profissionais, medo do futuro e um consolo para todos: Angola, como experiência de vida e de trabalho, estará para sempre em nossos corações. E como um país onde muitos poderão muito bem viver para sempre, também.

Boa viagem para aqueles que voltam para casa!

PS: relendo este texto, passei a concordar com os amigos portugueses e angolanos que sempre nos dizem: brasileiro usa muito o gerúndio. 

Mas o modo infinitivo dos verbos não foi feito para nós, definitivamente. Ficamos muito ridículos ao usá-lo ou tentar imitar quem o usa, combinado?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Os Deuses de Ébano

Leitoras da Casa de Luanda, peguem os seus leques. Este post, sobre aqueles que são considerados os dois homens mais bonitos de Angola, é um presente do X. para vocês. Os leitores, por seu turno, podem evitar a leitura do texto ou se conformarem com o facto de que a genética construiu esses deuses de ébano e depois jogou a fórmula fora, dada a harmonia perfeita entre altura e musculatura.
Kelcy, o modelo mais bonito de 2008: ele deixou para trás 400 candidatos (Foto: Kota 50)

Kelcy Manuel, 21 anos, 1,83 de altura e 90 cm de tórax, é o modelo número 1 do país, galardoado há um ano no primeiro concurso do género organizado por uma agência local. Venceu 400 candidatos e, como seus colegas de passerelles, guarda a sete chaves os segredinhos para manter a forma. “Apenas corro pela orla de Luanda na altura em que o sol nasce”, despista o manequim. Kelcy já representou o país em desfiles em Espanha, São Tomé e Príncipe e começa a aparecer frequentemente em revistas como Caras Angola e Chocolate (a Nova daqui).

Jelson Avelinho, Mister Angola 2009: da Rússia para Luanda (Foto: Zé Template no Funge)

Já Jelson Avelino é o novo Mister Angola 2009, eleito no último dia 22 num concurso onde 18 moços desfilaram, entre outras variações, de fatos de banho azul e sandálias Havaianas. Tudo teve lugar no Bar Sulo, na Ilha do Mussulo. Nascido na Rússia, Jelson tem 18 anos, 1,90 de altura, é do signo de peixes e voltou a residir em Angola há quatro anos. “Ainda troco algumas palavras em português, mas estou a me esforçar”, confessa, com aquele traquejo típico de quem estreia-se no mundo da fama.

A fina estampa Jelson mantém jogando basketbal. Em Abril, ele vai representar Angola no Manhunt Internacional, concurso badalado que ocorrerá em Taiwan. Como prémios, o novo Mister Angola ganhou uma viatura 0 km, uma bolsa de estudos numa universidade local, salão de beleza e ginásio de borla por um ano e, preparem-se tietes verde-amarelas, uma viagem ao Brasil.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Quem partiu em 1975 e nunca mais voltou?

O Diário da África lançou essa questão ontem, em seu sítio, e a Casa abre suas portas ao projeto de encontrar antigos moradores de Angola, de qualquer nacionalidade, que partiram daqui em 1975 e nunca mais voltaram.

A idéia é abrir espaço para revelar lembranças desta terra ainda muito viva na memória daqueles que partiram para nunca mais.

Eu sei que essas lembranças estão por aí, guardadas entre os segredos mais bem conservados.

Deixo aqui os links para os comentários de um leitor que esta semana nos escreveu num post de abril, sobre a partida dos portugueses, e para a nostalgia que a querida Migas despertou - especialmente da Kandanda - com seu post sobre o Uíge.

Se você partiu e nunca mais voltou, entre em contato conosco deixando um comentário ou escrevendo para casa_de_luanda@yahoo.com.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dona Fina


Dona Fina Calumbo não sabe quantos anos tem. Nunca comemorou um aniversário, porque não conhece o dia do seu nascimento. "Já vivi muito tempo, minha filha", explica, sem ligar para datas.

Ironicamente, ela dedica sua vida aos nascimentos. Parteira tradicional há muito, muito tempo ("não sei falar em anos, minha filha..."), faz de 10 a 12 partos por mês. Eu, com minha mania ocidental de transformar tudo em números, faço uma conta rápida e concluo que ela já deve ter trazido ao mundo mais de 4 mil bebês (chutando por baixo...).

Moradora de um bairro rural na periferia de Saurimo, na Lunda Sul, Dona Fina acorda cedo para ir à lavra. Às vezes nem bem chegou de volta à casa já tem uma grávida esperando para dar a luz. E aí, Dona Fina? "Aí lavo as mãos, boto um pano na cabeça, faço uma oração e vou. Estou sempre pronta, essa é minha missão.

Até o ano passado, ela e as outras dezenas de parteiras tradicionais da região recebiam luvas, sabão e bacia para garantir a higiene do parto e protegê-las contra o HIV e outras doenças. A ONG que patrocinava esse projeto saiu de Saurimo em 2007 e desde então as parteiras tem de arriscar suas próprias vidas ao fazer seu trabalho. O governo diz que não tem dinheiro para continuar o projeto, mesmo sabendo que as parteiras são responsáveis por mais de 90% dos partos da região.

Dona Fina não desiste. Segue confiando nas mãos lavadas, no pano na cabeça e na oração. E assim vai criando aniversários, sem nunca ter comemorado o seu.