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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Estariam ascendendo um estopim?

Desde que os levantes no mundo árabe começaram que muitos se perguntam quando os mesmos chegarão a Angola. Agora o movimento ganha a internet e tem até data para acontecer.
Um site que eu não vou mencionar, pq não faço apologia ao crime, convoca os angolanos a irem a rua com data e hora marcados. O governos já deixou claro em comunicado em rádio e tv que se isso acontecer eles tomaram as medidas necessários amparados na lei e na constituição.
O alto comando alertou que, nestas circunstâncias podem ser tomadas medidas sérias, porque o poder não pode estar nas ruas.
Enquanto isso, o boato se espalha pela internet com textos que deixam claro que quem escreveu não é angolano e com certeza nunca esteve numa guerra e tão pouco corre o risco de ter o seu precioso sangue derramado pelas ruas.
Angola tem sim seus problemas, mas só quem não está aqui pode querer colocar o povo na rua contra o exército mais bem armado de toda a África.
Uma democracia se constrói na urna. E é lá que o povo vai dizer se aprova ou desaprova o que o governo faz. As últimas eleições foram em 2008 e as próximas serão em 2012, não faz o menor sentido colocar vidas em risco, fazer o povo sofrer mais do que já sofreu em 30 anos de guerra e ainda continua sofrendo.
Rezo para que o povo não caia nessa armadilha e que continue lutando de forma democrática para melhorar essa terra tão linda.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Angola entrou na minha vida...

...muito antes de eu pisar em Luanda.

Tinha quase 10 anos de idade quando apareceu na minha sala de aula da quarta série uma aluna nova. Chamava-se Carla Patrícia e mais singular do que o nome, para nós, era o sotaque com que ela se expressava.

Usando a língua como no tempo de Camões, com todos os esses bem marcados e os pronomes nos lugares certos, Carla Patrícia nos contou que nascera em Angola em 1971. Mas que deixara o país quando este se tornara independente.

Na partida, ela se separara dos pais, que foram tentar a vida no Brasil; fora levada pelos avós para Portugal, onde vivera até entrar na minha sala de aula da quarta série.

O tempo passou e em algum momento mudei de escola e perdi o contato com Carla Patrícia. Nunca mais a vi, nem sei nada sobre o que se passou com ela depois da oitava série.

Provavelmente, nunca mais a encontrarei e jamais poderei contar a ela que agora já conheço aquele lugar chamado Angola, que ela nos apresentava em seu sotaque lisboeta como o melhor lugar para se viver em terras de África.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

No tempo das rusgas (II)

Ladislau nasceu em 1970, na província do Zaire, mas os pais o enviaram cedo para Luanda, aos cuidados de um tio. Medo da guerra. O irmão mais velho de Ladislau foi incorporado ao exército em 1979. Seis meses depois, abalado pelos horrores do campo de batalha, desertou e se refugiou na França. Ladislau cresceu e, a partir dos 15 anos, começou a bater ponto nos quartéis das FAPLA:

- Eu era muito grande, aparentava mais idade. Sempre que passava uma patrulha da tropa, lá ia eu. Em todas as vezes tive sorte. O comandante de plantão, ao verificar meus documentos, mandava me soltar porque eu não tinha idade e estava na escola.

Aos 16 anos, o tio de Ladislau conseguiu um papel - falso - onde dizia que o garoto frequentava a escola militar. Isso ajudava na liberação. Ele calcula que, até os 17 anos, foi apanhado mais de 10 vezes.

- Quando cheguei aos 17, meu tio viu que não ia mais ter como resolver, porque eu ia completar a idade da tropa. Nesse meio tempo, meu irmão tinha cursado direito em França, já tinha condições, e decidiram me mandar para lá. Mas não era fácil. Eu tratei todos os papéis no consulado de França, mas não se podia simplesmente chegar ao aeroporto e embarcar. As autoridades veriam a minha idade e me proibiriam de entrar no avião.

O tio subornou algumas autoridades, Ladislau só foi para o aeroporto quando faltavam 15 minutos para o vôo partir. Entrou diretamente pela pista, sem passar pelos controles. Em outras palavras, fugiu do país.

Na França Ladislau viveu 20 anos. Lá se casou e teve duas filhas. Nesse tempo todo, nunca voltou a ver os pais. Em 2007 ele retornou a Angola por causa de um emprego. Só então voltou ao Zaire e reencontrou o pai, que era incapaz de reconhecer.

- Meu pai morreu duas semanas depois daquele encontro. Parecia até que só estava a esperar por isso.

Ladislau escapou de lutar, mas não das consequências da guerra. Foi criado longe dos pais, teve de se refugiar num país estranho e agora enfrenta de novo o drama de viver longe da família, no caso a esposa e as duas filhas francesas que não querem deixar o conforto de Paris para viver em Luanda.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

No tempo das rusgas

Sandro é motorista numa grande empresa brasileira com operações em Luanda. Ele me diz que tem 24 anos, eu faço uma conta rápida:

- Você deu sorte então. Quando chegou na idade de fazer tropa, a guerra acabou.
- Nem por isso, chefe.
- Como assim? A idade de ir para a tropa não é 18 anos?
- Naquele tempo da guerra o exército apanhava qualquer jovem a partir de 14, 15 anos que estivesse pela rua. Não esperava completar 18 anos. Você não via jovens assim andando por aí. A gente só saía de casa para a escola, de lá para casa e ficava fechadinho. Quando circulava a notícia então de que ia ter rusgas, ih, nem valia a pena. A gente não saía nem para ir à escola.
- Rusgas? O que é isso?
- É como eles chamavam os períodos em que apanhavam jovens nas ruas para a tropa. A gente ouvia dizer, do dia 1 ao dia 15 de dezembro vai ter rusgas, já nem saía de casa para nada, porque se estivesse na rua e a tropa passasse, era mesmo apanhado na hora.

Sandro passou os melhores anos da adolescência se escondendo. Mas pelo menos escapou da tropa.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A praça dos fundadores

Estas estátuas, um dia, já freqüentaram a praça principal da cidade, em volta do obelisco que hoje oferece sua sombra a Agostinho Neto.
Foram removidas para dar lugar ao herói da independência, e acabaram vítimas das balas perdidas de uma guerra civil com que nunca sonharam, com a qual jamais tiveram qualquer relação.
Está lá, com o inchado ventre de lata todo esburacado pelos tiros de pistola, uma perfuração gigantesca na virilha esquerda, outra de fuzil na testa, o general Norton de Matos, ex-governador geral de Angola no tempo da colônia.

Agoniza suas feridas de bala rodeado, como sempre esteve já na praça antiga, pelas estátuas de mulheres que reprensentam a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança, qualidades atribuídas ao fundador de Huambo.

Estas, as qualidades, tampouco escaparam aos tiroteios.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Lembranças amargas

Hoje o palácio do governador é assim. Mas num passado bem recente, esse prédio era o maior escombro histórico de Huambo. As ruínas do palácio do governador, no coração da cidade, eram as piores lembranças dos piores anos que Huambo viveu, nem faz tanto tempo assim, ali entre 1992 e 1994.
As estruturas atingidas por obuses não impedem as pessoas de continuarem habitando este edifício

Naqueles anos, quando a guerra civil recomeçou, a cidade ficou em poder da Unita. Todos que eram do MPLA tiveram de fugir. A maioria foi para Benguela, alguns se esconderam no mato, como é o caso do Pedro, o motorista que nos conta esta história triste.


Edifício destruído, na principal avenida da cidade
Pedro era militante do MPLA. Quando Huambo caiu nas mãos da Unita, ele fugiu para aldeia onde o sogro, militante do Galo Negro, era soba. E lá ficou escondido durante dois anos.


Marcas de artilharia na parede lateral

- A reação veio mesmo de Benguela, com o MPLA armado com artilharia moderna. Huambo foi cercada e severamente bombardeada até a expulsão da Unita. Do palácio do governador só sobraram as estruturas. Foi o prédio mais castigado da cidade.


Casa destruída por bombardeios ostenta bandeira da Unita
As lembranças amargas foram apagadas dos prédios públicos pelas reformas nos últimos seis anos, mas ainda permanecem em vários edifícios privados pela cidade, como se pode ver nas fotos deste post.

A parede crivada de balas mostra que os combates foram muito intensos

domingo, 14 de setembro de 2008

Turning Point


Recém-chegado a Luanda, chamou-me a atenção desde o princípio a espontaneidade e a alegria das crianças. Morávamos então numa casa encravada num musseque na Ilha e elas sempre nos brindavam com seus sorrisos e seus "oi amigo, oi amiga" a cada vez que colocavámos os pés para fora de casa. Muitas viviam sujinhas, como referiu a Migas no post abaixo, o que nunca nos impediu de tocá-las ou de brincar com elas.

O que me intrigava mais, conforme ia conhecendo mais gente, era como aquelas crianças tão doces podiam se transformar em adultos tão egoístas, tão desconfiados de tudo e de todos.
Em que momento elas perderiam aquela alegria para transformarem-se nos motoristas irresponsáveis que arriscam a vida de todos no trânsito, nos desocupados sempre bêbados pedindo dinheiro nas ruas, nos cidadãos sem nenhuma preocupação com o próximo que furam as bichas e estacionam os carros trancando a saída dos outros?

Essa dúvida, em parte, foi desfeita por estas informações, que encontrei no Baía do Tigres, do Pedro Rosa Mendes. Elas fazem parte de estudos conjuntos realizados pelo Christian Children Fund e pelo UNICEF, entre 1995 e 1997, na província do Bié. O relatório, foi divulgado em outubro de 1998:
  • 97% das crianças estiveram expostas a situações de guerra;
  • 27% perderam os pais durante o conflito de 1992 a 1994 ;
  • 89% estiveram expostas a bombardeamentos;
  • 66% assistiram a explosões de minas;
  • 66% viram pessoas a morrer ou a serem mortas;

Entre os rapazes:

  • 10% participaram de combates;
  • 33% sofreram ferimentos;
  • 38% foram expostos a maus tratos.

A esperança reside, nas crianças que nasceram depois a guerra, como bem mostrou este post das Cenas Luandenses, do Diário da África.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Coisas para esquecer

O Diário da África publicou esses dias um relato sobre o movimento de volta que a população oriunda do sul do país estaria fazendo antes das eleições. Precaução, por causa da memória do que aconteceu em 1992.

J. trabalha comigo. Ele nasceu em Viana, na província de Luanda, mas os pais são de Benguela. Na capital, sempre foi identificado como uma pessoa do sul, por causa do sobrenome e das origens.

Em 1992 ele ainda era criança, mas se lembra bem do que aconteceu:

"Meu pai era do MPLA, sempre foi. Mas era do Sul. Nós morávamos já aqui em Luanda quando a guerra voltou. Os comandos das FAPLA e dos Ninjas* saíram às ruas matando todas as pessoas oriundas do sul, como represália pela opção do Savimbi de voltar à guerra. Meu pai foi arrancado de casa, levado para um paredão e nós ficamos de longe, olhando, eu tinha certeza de que ele ia morrer. Meu pai dizia que era do MPLA, mas eles diziam que era mentira. O que o salvou foi um major que apareceu na última hora e o conhecia do partido. Depois daquilo, ele pegou as três armas que tinha em casa, deu nas nossas mãos e disse: 'Se surgirem de novo, vocês fazem tiro, não importa se for do MPLA ou da Unita. Qualquer um deles vai nos matar'. Por sorte, ninguém mais surgiu. Mas muita gente do sul que era inocente morreu, simplesmente por que tinha nascido no lugar errado."

* Ninjas - Apelido da Polícia de Intervenção Rápida, a divisão de elite da Polícia Nacional

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dois versos em cada cigarro

Eu hoje li uma história escrita por Gabriel García Márquez, depois de se encontrar com Agostinho Neto, em meados de 1976. Não sei é verdadeira. O escritor colombiano a conta como se a tivesse ouvido da boca do herói angolano.

Durante os anos em que ficou preso, Agostinho Neto (para mais referências, leia estes posts sobre a independência e sobre uma polêmica recente) foi proibido de escrever. Ele então compunha seus poemas com letras miúdas, em pequenas tiras de papel, e os escondia enrolados dentro de um cigarro.

Às vezes, só havia dois versos em cada cigarro.

Quando sua esposa, Maria Eugênia, ia visitá-lo, ele lhe oferecia um cigarro. Ela o levava sem acendê-lo, porque sabia que era o dos versos. Em sete anos de cárcere, ele escreveu “Sagrada Esperança”, seu livro de 49 poemas.

Achei que devia reproduzir aqui esta história porque revela muito sobre a forma como este país conquistou a sua liberdade. E porque lembranças desse tipo andam a fazer muita falta nestes tempos entorpecidos de capitalismo selvagem.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O medo das urnas

Kianda comentou, a respeito do post anterior:

“O povo ainda não acredita, passado 6 anos, que a paz é efectiva... foram muitos anos em guerra e por vezes, de certeza, ainda parece que a paz não chegou !!!”

Por ruas e gabinetes de Luanda cresce um temor discreto, irracional, como se setembro este ano estivesse a vir grávido de maus agouros.

Se pergunta a qualquer pessoa, todos respondem de pronto que a paz está para ficar, não há hipótese da guerra voltar. Mas estarão todos tão seguros disso?

  • As Nações Unidas avaliam a possibilidade de elevar o nível de alerta do país para seus funcionários.
  • Uma petrolífera americana está a incentivar os familiares de seus funcionários a voltarem para casa em setembro.
  • Uma outra petrolífera incentiva os funcionários considerados não essenciais a tirarem férias no mesmo mês.
  • Duas grandes empreiteiras brasileiras já fretaram aviões para fins de agosto. Querem tirar o máximo de funcionários e seus familiares do país.
  • Uma consultoria brasileira que trabalha diretamente para o governo deu férias coletivas de duas semanas no início de setembro.

Parece que o Aeroporto 4 de Fevereiro vai ser o lugar mais movimentado de Luanda a partir de 20 de agosto.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Teorias da Conspiração

No início eu achei exagero, quando li neste blog angolano, a suposta existência de um plano secreto para desestabilizar a Unita. Segundo o sítio, claramente contra o MPLA, o governo de angola teria tramado uma série de ações contra os líderes oposicionistas. Para mim era só mais discurso político, que se inflama conforme se aproximam as eleições parlamentares de setembro.

Mas aí hoje deparo-me na rua com uma manchete no Jornal de Angola, o principal do país: "Paiol de morteiros descoberto no Bié". Em letras garrafais no alto da página.

Para os meus critérios jornalísticos, a descoberta de um paiol num país que passou 27 anos em guerra civil já não seria, em si, manchete de capa. Ainda mais se o jornal nem tinha equipe na Província do Bié e a notícia foi tirada da Rádio Nacional. Lá dentro, é praticamente uma nota escondida em duas colunas, num canto. Nem o alto da página 3 mereceu.

Serviu, no entanto, para dizer na capa que a Polícia Nacional acredita se tratar de um antigo paiol das forças militares da Unita. Exatamente como o sítio citado acima previu que aconteceria... Simples coincidência?
Essa briga ainda vai esquentar muito.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O dia da paz

Hoje é feriado por aqui. Em 4 de abril de 2002 acabou a guerra civil angolana, e por isso a data foi escolhida como o Dia da Paz. Comemoração importante num país que passou 27 de seus 32 anos de vida independente debaixo de armas.

O conflito em Angola foi um dos mais emblemáticos da Guerra Fria, e foi marcado pela insanidade, pela sede de poder e pelo ideologismo interesseiro típico desse período. “Veste minha camisa que te dou um fuzil” (e depois levo suas riquezas...).

Soviéticos e cubanos sustentavam o MPLA; EUA e Israel garantiam as armas da FNLA; EUA (de novo!) e África do Sul patrocinavam a UNITA.

No fundo, uma confusão despropositada de siglas sem sentido para a maioria dos angolanos, mas que rapidamente fez a cabeça deles, separando irmãos e vizinhos em inimigos e uma nação novinha em folha numa filial do caos.

Para conhecer os detalhes da guerra, leia os 3 post abaixo, fruto de pesquisa feita por F. e sua veia de historiador, que vem aflorando aqui na África...

Dia da Paz - Parte 1: Sopa de siglas

Para entender essa guerra é preciso mergulhar na sopa de siglas que inundou o país no início dos anos 60, quando vários movimentos angolanos começaram a pedir a independência.

Ao norte, Holden Roberto fundou a Frente Nacional de Libertação de Angola, FNLA, em 1961. Defendia a supremacia de seu grupo étnico, os Bakongo.

Mais ou menos na mesma época, estudantes angolanos no exílio, principalmente em Portugal, fundaram o Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA, liderados por Antônio Agostinho Neto e Viriato da Cruz. Embora tivesse maioria da etnia Kimbundo, era o mais universalista nessa questão, com uma visão de Angola como uma nação única.

O MPLA tinha inclinações marxistas, era financiado pela extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com apoio de Cuba, o que o impediu de conciliar-se com a FNLA, financiada pelos Estados Unidos e por Israel, além do Zaire.

Em 1966, dissidentes da FNLA fundaram a Unita, União Nacional pela Independência Total de Angola, liderada por Jonas Savimbi. Diziam-se maoístas, depois marxista-leninistas, mas acabaram entrando na guerra civil financiados pelos Estados Unidos e pela África do Sul. Savimbi era Umbundo e também tinha inclinações racistas contra as outras etnias.

Dia da Paz - Parte 2: Independência e morte

Em 1974, com o fim do regime de Salazar em Portugal, a libertação das colônias foi anunciada. As autoridades portuguesas tentaram um acordo entre os três movimentos de Angola. Ficou decidido que haveria eleições livres, mas foi impossível. Ainda antes de os portugueses partirem, as três forças já estavam em guerra entre si.

O MPLA dominava a região de Luanda, Benguela e o Lobito. Para tentar evitar que esse movimento tomasse o poder, a FNLA – apoiada pelas tropas do Zaire - invadiu Angola pelo norte em julho de 1975. A África do Sul invadiu o sul do país com suas tropas para apoiar Savimbi em agosto e o MPLA recebeu reforços cubanos em outubro.

No dia 11 de novembro de 1975, Agostinho Neto declarou a independência e se auto-proclamou primeiro presidente de Angola. O MPLA chegava ao poder, mas a guerra continuava comendo solta.

Em 1976, a FNLA foi derrotado e Holden Roberto fugiu para o Zaire. A luta continuou contra Savimbi. A Unita e a África do Sul sofreriam sua grande derrota em 1988, na batalha do Cuito Cuanavale, onde o MPLA e os cubanos os expulsaram do país. A guerra perdeu força, mas não terminou.

Dia da Paz - Parte 3: A paz, aos trancos e barrancos

Em 1991 o cenário político internacional obrigou as três forças a assinarem o primeiro tratado de paz. O Apartheid havia sido abolido no ano anterior e à África do Sul não interessava mais financiar a Unita; a FNLA havia perdido todo seu apoio com o fim da Guerra Fria e o mesmo aconteceu com o MPLA com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Em 1992, foram marcadas eleições livres. Holden Roberto recebeu apenas 2,1% dos votos, retirou-se de cena e viveu em Luanda até morrer, no ano passado. Jonas Savimbi ficou com 40,07%. E José Eduardo dos Santos, sucessor de Agostinho Neto (que morreu em 1979), foi reeleito com 49,57% dos votos.

Savimbi não aceitou o resultado e retomou a guerra civil. Outros tratados de paz foram tentados e quebrados sucessivamente, até que as Forças Armadas Angolanas mataram o líder da Unita, em fevereiro de 2002.

Em 4 de abril do mesmo ano, foi assinada a paz. José Eduardo dos Santos continua no poder até hoje. A Unita se tornou um partido político e ganhou alguns ministérios no governo. Foram marcadas novas eleições parlamentares para setembro e, no ano que vem, as presidenciais. Dizem que o presidente não vai concorrer.

Mas isso, só o futuro dirá.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

As vítimas silenciosas

Cristina Ngueve foi acompanhar a cunhada ao posto médico da vila onde morava, em Uíla. Na picada, a cunhada pisou no fio que acionava uma mina de instalação. O artefato explodiu ao lado de Cristina. A cunhada perdeu uma perna; ela perdeu as duas. Tinha 18 anos.

Eva Gabriela acordou numa manhã de 1996, abriu a porta da casa em que morava na província de Kuando Kubango, sudeste de Angola, e quando pisou do lado de fora, explodiu numa mina terrestre que havia sido colocada durante a noite. Perdeu a perna direita. Ela tinha 12 anos na época.

Luisa Miguel Adão Gaspar voltava do riacho, na província do Bengo, com um balde de água na cabeça quando pisou numa mina, em 1997. Passou três meses num hospital angolano. Perdeu a perna e a vista esquerda. Ficou seis meses na Alemanha, socorrida por uma ONG, para tentar reconstruir a face. Tinha 12 anos de idade.

Essas histórias ilustram a pior face do conflito civil que destruiu Angola entre 1975 e 2002. Como me disse uma das 18 mulheres mutiladas com quem conversei, elas não pegaram em armas, não lutaram por nenhum dos lados. Aquela guerra não lhes pertencia. Mesmo assim, tiveram suas vidas definitivamente marcadas pela brutalidade.

As 18 sobreviventes tiveram a coragem de participar de um concurso de Miss organizado pelo governo de Angola, o Miss Sobrevivente de Minas, para chamar a atenção do mundo para o problema. Afinal, ainda existem 2,3 milhões de angolanos vivendo em áreas de risco. Angola ainda tem, já mapeados, 3,2 mil campos minados.

Os mais otimistas dizem que ainda vai levar 30 anos para livrar o país dessa desgraça; os pessimistas apostam em 130 anos.

Para quem mora no Brasil, parece que o Estadão publicou hoje uma matéria sobre o concurso de miss. Mas o cara que escreveu lá não contou tantas histórias de sobreviventes.