Muitas das histórias que passarão por aqui, são fruto da vivência com alguns angolanos. Pobres. Na maioria das vezes, jovens. Muitas histórias são fruto dos relatos que ouço calada. Outros são resultados de conversas. A que trago hoje é uma mistura dos dois. De início ouvi calada sem querer dar opinião de branca e mulher. Depois, acabei por entrar na conversa e ouvi o que já esperava.O Moisés é um jovem religioso. Ou melhor, a sua namorada é. E como tal, para que pudessem “brincar” teriam de casar antes. Até aqui nada estranho. O Moisés casou, depois das enúmeras conversas que teve com os colegas sobre as suas intenções com a moça, que eu ouvia calada. Um dia, depois do esperado casamento (e da mais esperada lua-de-mel que teve como cenário uma casita na Ilha do Mussolo) um colega pergunta ao Moisés porque ele tinha casado. Ele respondeu que queria, tal como a noiva. O outro jovem disse-lhe que tinha feito muito mal. E perguntou-lhe: e se ela agora não conceber? O Moisés respondeu-lhe que não tinha mal, que ficava com ela na mesma. O outro apresentou-lhe os casos que conhecia e que tinham acabado mal. Concluiu que primeiro deve conceber-se a noiva e só depois casar. Depois de ter ouvido os argumentos todos do jovem anti-casamento com pessoas inférteis, perguntei-lhe: então e se a mulher não puder ter bebés, não tem direito a ser feliz? Ter um companheiro? Não – respondeu ele. Em casa tem de haver alguém para partir copos. Acrescentou: É a cultura africana. E o olhar que se seguiu fez-me “meter o rabinho entre as pernas” e terminar a minha intervenção.
De notar que todos estes jovens tinham carinho por mim e eu, por eles. Às vezes diziam “nós” como se eu também fosse Angolana. Mas em dois casos, marcaram a diferença entre o branco/africano e demonstraram que a minha cultura é diferente da deles. Eu sei que é. Mas este tema pareceu-me cruel demais.
O Moisés em pouco tempo concebeu a esposa. Quando lhe perguntei sobre a sua vida (e casamento), respondeu-me que ia ter um bebé mas pediu-me segredo com os outros.
Eu gosto de crianças e um país só pode realmente pensar num futuro quando as crianças existem, são bem tratadas e podem crescer saudáveis e com educação disponível. Temo que as crianças – tantas – concebidas antes dos casamentos que na maioria das vezes nem se concretizam, não possam ter um futuro feliz. Porque a taxa de natalidade é algo que não atormenta este país e, ao que parece, faz parte de uma cultura que permanecerá por muito mais tempo.
