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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Retornei à Angola hoje à noite - e morri de saudades, como num fado rasgado...


Depois de praticamente um mês de negociações, idas e vindas de amigas à Lisboa, encontros e desencontros, caiu-me hoje às mãos o livro Aerograma, de Afonso Loureiro.

Filho direto do fabuloso blog de mesmo nome, listado ao lado, o livro de Afonso, já nas primeiras páginas está sendo, para mim, uma leitura misturada de alegrias e saudades desta terra distante que nos uniu a todos, os desta Casa, os dos outros blogues, os que ficaram, os que foram para outras paragens.

Tantas, tantas saudades...essa coisa que só quem se expressa em Língua Portuguesa sabe o que é...

Vou ler o Aerograma à maneira de Clarisse Lispector: aos poucos, poupando as páginas, para que a história não chege ao fim logo. E, de propósito, deixar o livro escondido em alguma gaveta de casa só para depois ter a grata supresa de encontrá-lo de novo.

A relação da Casa de Luanda com o Aerograma, na verdade, sempre foi muito esquisita. O Afonso chegou em Luanda pela mesma época que a maioria de nós, julho de 2008, mas só encontrou com um ou dois moradores daqui uma única vez. Não faço a menor idéia de o autor está mais para o look do Ricardo Pereira ou o aplomb do Zé Socrates. Virtualidades...

De longe, o rapaz sempre mostrou-se mais observador e narrador da realidade angolana - sem tintas para nenhum lado, como é hábito de quem abre um blog - mil vezes melhor do que nós, um bando de jornalistas, na sua maioria.

Até hoje desconfio que o Afonso é jornalista também. Escreve muito bem o rapaz.

Sem contar o manancial incrível de fotografias do blog, algumas delas copiadas sem a menor vergonha por jornais angolanos, a ponto do autor tomar a drástrica - e para nós gozadíssima - decisão de colocar uma marca d´àgua nas fotos.

De longe, à princípio, percebe-se logo o olhar humanista de Afonso, ao observar e escrever no blog e no livro coisas como:

"Percebo o sentimento dos que falam de África com um sorriso e um lágrima".

O que é, hoje, o blog Casa de Luanda senão só isso?

Ou ainda:

"Dizem que no dia que se chega a um país sabemos o suficiente para escrever um livro, mas que ao fim de um mês o conhecimento só enche uma página e ao fim de um ano escrevemos uma linha, a custo."

É isto mesmo: quanto moradores desta Casa não escrevem mais uma linha?

Parabéns, Afonso, por escrever este belo registro sobre esta terra que todos amaremos para sempre e por fazê-lo chegar até aqui, nesta outro ponta do triângulo chamado Brasil.

O livro pode ser adquirido através da loja virtual do Aerograma (http://aerograma.net/livro), ou nas seguintes livrarias:

- Livraria Nazaré e Filho, na Praça do Giraldo, 46 – Évora - Livraria Apolo 70, Centro Comercial Apolo 70 – Lisboa - Livraria Diário de Notícias, Praça D. Pedro IV, 11 – Lisboa - Livraria Oficina do Livro, Praça D. Pedro IV, 23 – Lisboa - Livraria Portugal, Rua do Carmo, 70 – Lisboa - Livraria Círculo das Letras, Rua Augusto Gil, 15B – Lisboa - Livraria Barata, Av. de Roma, 11A – Lisboa - Natureoffice, Av. 5 de Outubro, 12E – Lisboa

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Aerograma

Um dos últimos post que escrevi aqui na Casa, também foi para publicitar um livro. O livro do nosso querido FBaião*. Desta vez, não posso também deixar de referir que o nosso "vizinho" Afonso Loureiro do blog Aerograma terá publicado brevemente o seu livro, inspirado no blog que escreve diariamente, a partir de Luanda. E eu, fico bem feliz, caneco! Porque, apesar de não o conhecer pessoalmente, sempre gostei bastante do blog dele. Sobretudo porque vi o blog crescer já quando estava em Angola e, muitas das visões eram partilhadas. Muito mais tinha para dizer mas... o blog e agora o livro, falarão por mim!
* E como é bom voltar a ler as "conversas" com o FBaião!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sobre as saudades do X. - que são a de toda a gente

A próposito do pedido do X. para que cá voltemos todos a escrever como se fazia no antigamente, preciso deixar uma resposta pública.

Eu, uma praia no Kwanza Sul, o pôr do sol
de Angola: saudades que nunca acabam


X., meu kamba, como sabes bem, não há dia em que eu não pense em Luanda, ou não me recorde com saudades da vida que lá tinha, tão breve e tão intensa.

Talvez sejam mesmo essas saudades mal curadas que me impeçam de voltar a escrever, aqui ou em qualquer outro lugar... Depois de Luanda, nunca mais tive blog (e aí está a tentativa da Casa da Garoa para atestar esse fracasso).

Fico feliz com os encontros que tivestes com o Agualusa e o Ondjaki, escritores que tanto admiro. Do Agualusa já li quase tudo o que publicou, (o 'Barroco Tropical', que devorei no início do ano, é LITERATURA da melhora qualidade, não só angolana, mas internacional); à prosa do Ondjaki, tão marcada pelo ritmo e gírias de Luanda, recorro sempre que me apertam as saudades do sotaque da capital. Se ainda não o conheces, não demora mais. Recomendo-te, para iniciar-te, 'Bom dia Camaradas'. Vais ficar encantado com a narrativa do miúdo que nos guia por suas aventuras de criança por uma Luanda pré-capitalista.

Queria ter a tua força para continuar a viver Angola, amigo X., mesmo estando tão longe de lá. ,

Kandandu forte do amigo.

F.

P.S. - Por fim, gostava imenso de receber a carta da Ju, se não for algo muito pessoal. Nem sabia que andava ela por Angola de novo... Inveja.

sábado, 1 de maio de 2010

O meu reencontro (literário) com Angola

A Marginal e a baía de Luanda sob a luz do Cacimbo: saudades imensas

Neste dia Internacional do Trabalho, volto à esta Casa, também motivado pela postagem da querida Migas, para contar a vocês um episódio que vivi ontem - e ele revelador de como, para sempre, Angola e suas histórias estarão ligadas a minha pessoa, não tem mais jeito.

Teve lugar em Natal, entre quarta-feira e ontem, o I Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, reunindo artifícies desse idioma que nos une em 10 países.

Escritores e leitores de 8 países lusófonos confraternizam no Teatro Alberto Maranhão

Foi um encontro muito, muito fixe, para usar uma expressão aí desse lado do Atlântico.

Esse evento é um dos primeiros frutos concretos da I Semana de Natal em Lisboa e, na sequência, de Lisboa em Natal, ocorrida no ano passado e narrada aqui e aqui. Das duas semanas de visitas mútas surgiu a Associação Cultural de Amizade Lisboa/Natal. Minha cidade entrou para a União das Cidades-Capitais de Língua Portuguesa (mais informações aqui), como Luanda e outras capitais africanas já são há um bom tempo. Salvador é outra representante do lado de cá.

Vista aérea de Natal, a partir da praia de Areira Preta: jóia do Atlântico na esquina do Brasil

Veio toda a gente de todos os países lusófonos para Natal e a minha cidade transformou-se, por três dias, na capital internacional da Língua Portugesa: Brasil, Portugal, Angola, Guine-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Timor Leste.

Foi, para mim e para a gente da minha terra, motivo de muito orgulho receber tantos irmãos e, em particular para este datilógrafo, um motivo de honra fazer parte de uma mesa ontem onde estiveram, ao mesmo tempo, dois dos maiores representantes das letras angolanas contemporâneas: Ondjaki e José Eduardo Agualusa. Tudo isso aconteceu ontem e o registro fotográfico, espalhados neste post, são do meu amigo e fotógrafo Canindé Soares.

Com o Agualusa, o reencontro foi mais para o sentimental. Eu já havia conhecido-o na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, como palestrante, e depois pessoalmente em São Paulo, um dia antes de embarcar para Luanda, em 2008. Na ocasião, ele palestrava numa livraria deliciosa do meu antigo bairro paulistano, a Vila Madalena, com outra fera angolana: o Pepetela.

Li As Mulheres do Meu Pai no avião rumo à África, estou avançando nas páginas de Barroco Tropical (tão bem resenhado aqui pela Cota Maria aqui) e, brindando os presentes ao encontro, Agualusa leu um trecho inédito do seu próximo livro, cujo ponto final foi colocado no avião ao vir para cá. A curiosidade já me tomou de assalto. Para além dos livros de história, foi na literatura angolana que entendi muito desta terra, como também relatei aqui.

Já com o Ondjaki, de quem ainda não li nada, valeu a pena somento ouvir, ouvir como quem consome um bom vinho, aquele sotaque tipicamente luandense, pausado, cadenciado, enfático, até certo ponto agressivo, mas muito, muito luandense, tanto quanto as dezenas de amigos que fiz nesta cidade. Vou procurar hoje mesmo um livro do jovem escritor, que também vive no Rio de Janeiro.

O kamba, se assim posso chamá-lo, foi de uma simpatia incrível ao narrar casos de família e suas relações com a internet (como é diferente o jeito que os angolanos pronunciam "internet". Por outro lado, da mesa também surgiram tiradas engraçadas ao lembrarmos como, dos dois lados do Atlântico, a língua pode até ser a mesma, mas algumas coisas são difícies de serem entendidas sem o fundamental Pequeno Dicionário Angolano que esta Casa vem compilando desde que nasceu - e um dos motivos do seu sucesso.

Por fim, e aqui vai uma nota triste, queria deixar registrado o meu desejo - também o dele! - de ter tido aqui em Natal, neste encontro, o Fernando Baião, um dos moradores desta Casa que nos mês passado fez sua viagem última rumo á Casa do Pai. Fernando, você, de onde estiver, esteve conosco em pensamento.

Da Associação Cultural de Amizade Lisboa/Natal, presidido pelo senhor Carlos Marques, criada no ano passado, surgiu este encontro, cuja segunda edição já tem data marcada: 26, 27 e 28 de abril de 2011. Que venham muitos mais escritores africanos, portugueses, timorenses e brasileiros para cá, como forma de estarmos cada vez mais irmanados nessa coisa única, maravilhosa e gostosa que é ser um falante de Língua Portuguesa.

Em breve, darei aqui notícias de como vocês vão assistir, no conforto do seu lar, um resumo do que foi esse EELP em Natal.

Nota final: por estes dias, como se um ciclo mágico de reencontros com Angola se reatasse, "aterrou" em Luanda a nossa querida Ju, uma das brasileiras que mais conhece essa gente e essa terra. Na ocasião do EELP, li para a platéia um email que ela me mandou, no exato momento da palestra, contando sua emoção de rever Luanda. Uma pérola literária. O teatro Alberto Maranhão veio abaixo em palmas.

É hora, portanto, desse blog viver a efervecência diária de 2008.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

E por falar em Baião...

Acabo de ler, de uma enfiada só, neste feriado de 7 de setembro no Brasil (independência? que independência?), a Branco de Quintal, do nosso querido amigo Fernando Baião, também morador desta casa. Crônica afiadíssima do que está a passar neste dias, é leitura obrigatória para todos aqueles que pretendem entender um pouco mais sobre Angola profunda. Não sei se é possível encontrá-lo ainda na Chá de Caxinde, que o editou - este me foi presenteado pelo próprio autor -, mas vale tentar. Para os mais curiosos, vai aqui um trecho, que publico sem a prévia licença do autor, na esperança de que não se aborreça.

"O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado egripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupas de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece."

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fernando Baião é um cara muito giro

E então finalmente nos encontramos, no bar do Hotel Fasano, em São Paulo, no final da tarde da quinta-feira, 20, a mesma em que um dilúvio desabou sobre a megalópole e chegou até a faltar eletricidade em alguns pontos da maior cidade brasileira…

Fernando Baião, morador dessa Casa, dono desse texto que me chamou a atenção na primeira vez em que bati os olhos, autor da belezura de livro recém-lançado em Lisboa cuja capa reproduzo acima. Sobre o livro em si, que vou falar mais ao fim do post, só queria dizer por hora que li todo em menos de três horas, no avião, de tão eletrizante que é…

Mas vamos ao Baião. E aqui não vai nenhuma rasgação de seda, especialmente porque os amigos sabem a pessoa grossa e mal educada que sou. Pessoa queridíssima, parece que já o conhecia há anos. Dono de uma cabeça, uma memória sobre Angola e Brasil, um repertório cultural e uma simplicidade que poucas vezes vi em figuras muitas por aí… apesar do momento pessoal por que passa, carrega consigo uma alegria que valha-me Deus.

Engraçada essa coisa de ter um amigo virtual e depois ir conhecê-lo pessoalmente. Há meses, planejávamos nos encontrar, Fernando Baião e eu, além de toda a malta de personagens que circunda esse blog, nomeadamente o F., a Branquela, a Ju, o Candongueiro, o Greg, e o Zé, que está lá em Maputo.

Pois dessa vez deu certo: na mesma cidade e na mesma data, pudemos passar mais de três horas – isso mesmo, três horas – de frente um pro outro, com um copo de água tônica a nos separar, falando da vida, desse blog, dos encontros e desencontros, do que é o Brasil com e sem Angola e Angola com e sem o Brasil. Estava acompanhado do filhote que acabara de fazer anos e da esposa que, olhem só, mora na mesma rua onde um dia morei.

Há coisa de dois meses, ele havia me mandado Kimalanga, como relatei aqui. Levei o livro para São Paulo para mostrar que estava lendo mesmo e ele me presenteou com mais quatro: um para o A.M., leitor fiel desse blog, órfão de Luanda depois de três anos, que também agora vive em SP e que também encontrei, numa noite memorável, o Alex, o Fernando Alvim, outra figura querida que estava em São Paulo e não encontrei, por força de agendas e dessa cidade tão grande, tão intensa.

Um homem de letras, é isso que o Baião é. Nada de ecomista ou coisa que o valha ligada a números.

Kimalanga conta a história de Zé Paulino (olha só!, João!), um angolano de meia idade que ficou mbaku, impotente, broxa mesmo como a gente diz no Brasil. O pau não subia mais, de jeito nenhum, tivesse ele a catorzinha que tivesse na cama. Numa luta desenfreada para fazer seu Zezinho voltar à ativa, o homem recorre a Pau de Cabinda, vai à Londres e Àfrica do Sul em busca de tratamento, ensaia vir ao Brasil procurar pai-de-santo…até que…

Como pano de fundo, uma narrativa telúrica, adocicada, bem humorada e antes de mais nada realista sobre o que é tornar-se homem de negócios em Angola depois da gerra de libertação, da guerra civil toda, da pacificação e, claro, conviver com a corrupção, a propina, o luxo e o lixo de Luanda, a falta de perspectiva de alguns jovens, a vida e a morte, a sobrevivência e, claro, o amor. O livro, no meu entender, é antes de mais nada sobre o amor de Paulino por sua esposa, uma senhora gorda de mais de 100 quilos que passa o dia no sofá, vendo novelas brasileiras e tomando cerveja. Imensa, rotunda, praticamente uma Wilza Carla do Largo da Maianga.

Paulino, apelidado de Kimalanga (hiena, como explica o autor num pequeno dicionário ao final do livro), é para muito além do simples animal com seus instintos primitivos, é um personagem ao qual a gente se apega, que faz e desfaz, que filosofa, que a gente pensa que vai prum lado e depois vai para outro… e, no final, o Baião…ah, o Baião, se te pego de novo por aí…

Imaginem o que é um homem angolano ficar impotente, minha gente!

Esse relato parte, em certa medida, do mesmo mote de Predadores, de Pepetela, comentado aqui. Mais gostoso talvez porque menos despretencioso, uma literatura feita não para marcar um tempo histórico, mas retratar os hábitos culturais de um povo que nasce, cresce, descobre a sexualidade, casa, tem filhos, morre e “vai a enterrar” comemorando a vida. É isso que o angolano faz, todo o tempo, como pude comprovar vivendo em Luanda durante seis meses e no encontro de três horas como o agora amigo de carne e osso Fernando Baião.

Eu não sei como nem com ajuda de quem (porque o livro ainda tem problemas seriíssimos de distribuição em Luanda), mas você tem que lê-lo A-GO-RA!, como diria um jornalista acolá.

O próximo encontro já está pré-marcado: deve ocorrer numa cafeteria qualquer de Lisboa, no Três em Um da Antônio Barroso, no Hotel Fasano, de novo, ou na cidade dos Reis Magos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Ainda, a chaga maldita da escravidão (ou escravatura), pela pena de Machado de Assis



Não temos mais o que discutir: Joaquim Maria Machado de Assis é, sem sombra de dúvidas, o maior escritor em Língua Portuguesa de todos os tempos. Que me desculpem os Queirozeanos que visitam o blog, mas o "Bruxo do Cosme Velho", como ficou conhecido o autor de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", entre tantas outras jóias, é o maior escultor da nossa língua em comum. 

Hoje a maioria dos brasileiros precisa ler Machado com um dicionário, pois ele escreve como se visse na Tuga, salpicando os textos com "fumos", "pequeno almoço", "ao pé de si" e por aí vai. Uma delícia.

Ontem, aproveitando um dia de pura preguiça, fui à uma livraria e comprei essa caixa com três livros da foto acima, que contém os três principais romances de Machado. Fazia décadas que havia lido-os e, como é sempre bom reler um livro com o peso dos anos, armei a minha rede indígena e comecei a viagem por "Memórias".

Ei que, no capítulo XII, intitulado "Um Episódio de 1814", Luanda - sempre Luanda, a adorável Luanda - salta das páginas do romance. Veja só o trecho abaixo. Trata-se da descrição de um jantar no Rio de Janeiro da época do Império, para comemorar a derrota de Napoleão Bonaparte.

Um sujeito, ao pé de mim, dava a outro notícia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra carta em que... Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquela ocasião. O que afiançava é que podíamos contar, só nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.

E eu, que já morei nesta cidade negra, já atravessei para lá e para cá a partir dessas duas pontas do Atlântico, fiquei imaginando que mundo era esse, no Rio de Janeiro do séc. 19, onde milhões de angolanos (4,5, para ser mais exato) foram transladados para cá e eram tratados assim, como números.

Abaixo uma fotinha do Museu da Escravatura, na zona sul de Luanda, de onde essas almas partiram para nunca mais voltar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

E Kimalanga , de F. Baião, ganha o mundo

Recebi anteontem, com muita alegria, o novo livro do amigo virtual e vizinho dessa Casa, o Fernando Baião (cuja notícia publicada na Revista África 21 reproduz-se abaixo). Foi uma felicidade imensa chegar em casa e encontrar o volume, acompanhado de outro, de histórias bem escritas sobre Angola (e tudo que diz respeito a esse país interessa imenso a nós todos da Casa), depois de uma epopéia que levou uns 15 dias para atravessar o Atlântico.
Por isso, não sei como e onde (em Lisboa deve ser fácil encontrar, no Rio de Janeiro Baião informa que o livro já está à venda nas livrarias Kitabu e Leonardo da Vinci), mas se eu fosse você corria agora para comprar Kimalanga. Do que li até agora, é bwé, bwé fixe. Viva Baião!

Kimalanga, novo livro de FBaiao

Com a devida circunstância e alguma pompa, foi lançada na Casa de Angola, em Lisboa, a última obra do escritor angolano FBaião, Kimalanga, respigos da história recente de Angola, «destes trinta e três/trinta e quatro anos de independência, naquilo que esses anos têm de mais sério, de mais profundo, (…) mais “estruturante” do que somos /ou não somos/ ou fomos/ ou nunca fomos e das diversas etapas que percorremos até hoje», como diz no prefácio Carlos Ferreira (Cassé). O prefaciador vai mais longe e afirma mesmo peremptoriamente: «O Fernando Teixeira, o Baião, dá-nos um retrato literariamente implacável de um quadrante social claro da nossa Angola de hoje. Porém de uma forma tão encantada, tão sui generis, tão simples

e tão desconcertante, que o lemos de uma só penada, de um só jorro».

Utilizando um estilo coloquial que vai enriquecendo com um crescendo de informações e apartes, sem abandonar uma linha narrativa que encontra na linearidade o seu encanto, FBaião agarra realmente o leitor através da utilização de uma estrutura de texto onde o diálogo é substituído eficazmente por uma narração directa, tão dúctil como fluente, enriquecida por um fino humor que tem tanto de cáustico.

Revista África21– julho 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Guia de Leitura Muito Particular Sobre Angola

Por esses dias, talvez motivado por uma reportagem imensa que escrevi, eu recebi uma série de e-mails de uns amigos que me perguntam que livros fazem parte da minha estante emotiva sobre esse país chamado Angola. Sei que tem muita coisa bacana que foi escrita sobre a terra da Palanca Negra, mas esses livros resenhados abaixo, realmente, não dá para deixar de ler antes de embarcar ou de comprar entre uma viagem e outra.

Os Cus dos Judas, de António Lobo Antunes – O autor, cujo pai era brasileiro, prepara-se para voltar ao país depois de quase 30 anos e participar da Flip, de 3 a 5 de julho, disse ao Estadão que sente saudades das cocadas do Pará e, dizem as más línguas portuguesas que eu conheci em Luanda, mor-re de inveja do Nobel que Saramago ganhou. Em Os Cus..., ele teceu uma narrativa que é uma verdadeira torrente de sensações vividas durante a guerra de libertação, ali por volta de 1975. Não simpatizo com o título, pois acho que Angola pode ser tudo, menos um cu, muito menos de Judas, aquele que vocês sabem o que fez... Mas leiam, amigos, é uma descida aos infernos. Li antes de embarcar para Angola e agora, do lado de cá, vou reler para ver se confere.

Predadores, de Pepetela – Para entender como uma pessoa semi-alfabetizada, que herdou uma vendinha de um branco que fugiu para a Tuga em 1975 e nunca mais voltou, pôde subir nos quadros políticos do MPLA , virou uma pessoa rica, influente e, como diz o título, manteve-se sempre no poder, independente das mudanças causadas pela longa guerra. Inesquecível a passagem que mostra a tentativa de desviar um rio e fazer uma represa no Huambo. Pepetela é um gênio que diz que aprendeu tudo com Jorge Amado. Só li quando voltei para cá e fiquei assustado. Tudo confere.

Ébano, minha vida na África, de Ryszard Kapuscinski – Obrigatório antes de embarcar para a África, independente do país que se vá visitar. O polonês descreve como ninguém um ataque de malária, a ponto da gente sentir as mesmas dores. O olhar único sobre os mais de 10 mil reinos que haviam no continente da década de 20 para a de 70 não pode ser mais perfeito. Compre também A Guerra do Futebol, com mais crônicas, e O Imperador, uma delícia de perfil de Hailé Salassiê, ditador que governou a Etiópia por mais de 40 anos e era tão excêntrico que tinha até um empregado só para colocar almofadas embaixo dos seus pés quando sentava-se no trono, uma vez que era muito baixinho e não podia aparecer com as pernas balançando. Um dia inventou de visitar o Brasil e quase perdeu o cetro e a coroa. Não lembro agora do título (só disponível em inglês) do livro específico de Ryszard sobre Angola. Vou reler mil vezes toda a obra e, um dia, quem sabe escrever com um décimo do talento dele.

A Manilha e Libambo, de Alberto da Costa e Silva – Para quem consegue carregar esse tijolão de quase um quilo, uma verdadeira aula sobre África, dada por um dos maiores africanistas no Brasil. Complemente com A Enxada e a Lança. Não consegui acabar de ler todo e dei de presente ao amigo João, o Candongueiro das estrelas. Não dá para dizer que entende de África sem ter lido esse livro.

Made In África, de Luis da Câmara Cascudo – O folclorista-mór do Brasil, orgulho da minha terra potiguar, foi pra Angola nos anos 60 e fez uma pesquisa fabulosa sobre a influência da comida angolana na mesa do brasileiro. Uma torrente de emoções, acompanhada de muitas sugestões de pratos (ai que saudades da moamba de galinha, que do lado de cá chama-se galinha cabidela). Leia, mas se puder não se apaixone nunca pela comida marvilhosa de Angola, sob o risco de engordar 20 quilos em seis meses, como ocorreu a este datilógrafo, ao F. e ao C. do Diário de África.

E você, qual o livro sobre Angola que não pode faltar na estante?

Update: Colaboração dos muy generosos leitores:

"Geração da Utopia", "Predadores", “Yaka”, “O Planalto e a Estepe”, “Mayombe”, “A Gloriosa Família”, “Parábola do Cágado Velho”, todos do Pepetela.

“ Crónica de um Mujimbo”, de Manuel Rui

“Roteiro da Literatura Angolana” de Carlos Ervedosa

“As Mulheres do Meu Pai”, de Agualusa

"Eugénio Ferreira - um Cabouqueiro da Angolanidade", de Eugénio Monteiro Ferreira e Carlos Ferreira