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terça-feira, 12 de maio de 2009

Redutor de Gás ou... como tirar-me do sério

Redutor de gás. Ou coisinho do gás. Ou click. Ou tampinha da garrafa. Mais umas voltinhas e inventava mais uns nomes. Horas e horas à procura de um destes espécimes nesta rua, que é Luanda. Ninguém sabe. Ou melhor, fazem sempre que sabem mas na realidade, inventam. Dizem que "lá no quê" ou nos miúdos da rua, eu encontro. Ou nas bombas, onde se vendem as garrafas. Mas nada. Houve nesse dia um esqueminha para me tramar a vida. Os miúdos da rua, ficaram todos em casa. Nas bombas, circulou a informação de que, se eu lá fosse comprar o redutor, não havia. E mandavam para a próxima. Dois dias depois, o redutor apareceu-me nas mãos. De onde veio, não sei. Onde se compra, muito menos. Dizem-me que no Roque Santeiro mas, tenho para mim que é uma grande treta. Mito urbano. Sei que, naquele dia foi Natal. Em Luanda, o Pai Natal, põe redutores no sapatinho. Neste caso, na garrafa.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

E quando não tem limão?


Outro dia saí de casa com o seguinte desafio: comprar limões. Simples assim.

Pois fui a 5 supermercados, tentei umas 10 zungueiras (vendedoras de rua)... e nada. Só não desisti porque não queria decepcionar os gringos do churrasco lá de casa, sedentos por uma caipirinha.

Depois de toda uma manhã ensolarada de busca, encontrei 5 limões murchinhos, meio esquecidos numa prateleira de uma mercearia. Paguei 6 dólares pela raridade, e voltei pra casa com aquele ditado na cabeça: "Se tens limão, faças limonada". Certamente quem criou a frase não conhecia Angola... Aqui, às vezes nem o limão a gente encontra!

E então me lembrei de uma piadinha que me contaram outro dia:

"Um tipo morre e vai parar no Inferno. Chegando lá perguntam-lhe para onde quer ir: para o inferno americano, europeu ou angolano. Fosse como fosse teria de comer um balde de merda todos os dias...

O tipo pensa, pensa, pensa e acaba por escolher o inferno angolano. Perguntam-lhe então o porquê de tal escolha... Apesar de tudo na América há liberdade, cidades limpas e organizadas... A Europa tem cidades charmosas, cheias de história e cultura...

E o tipo responde: Pois, mas em Angola quando há merda não há balde, e quando houver balde não há merda!"

Moral da história: Em Angola, se tens limão, fica feliz da vida e enche logo o carrinho, que pode levar semanas até baixar o próximo carregamento!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Coisas para lembrar

Até 1990, Angola era um país comunista clássico. Toda a atividade econômica estava nas mãos do Estado, os cidadãos tinham cotas de suprimentos básicos etc. Eu, que fui criado dentro da cultura diferente, sempre associei esse modelo de organização social a uma coisa triste, desesperançada. Se calhar, fruto da propaganda capitalista.

J., o mesmo do post abaixo, viveu o comunismo na infância e tem uma visão bem diferente do que foi aquilo:

"As pessoas eram mais humanas, havia mais afeto mesmo, entre os estranhos. Se eu parasse na estrada, a caminho da escola, logo parava uma viatura e me oferecia uma boléia. Hoje? Iam é me atropelar. Só vais no carro se der algum dinheiro. As pessoas pensam só em si. Naquela altura, tínhamos os sábados vermelhos, onde todos se uniam para fazer a limpeza dos bairros, das ruas, eram momentos em que as pessoas se ajudavam umas às outras. Quase não existiam gatunos, você podia deixar a viatura aberta na rua. Mas, agora que somos uma economia de mercado, todo mundo só pensa em si próprio, em acumular riqueza passando por cima dos outros. Não estou a dizer que aquele modelo económico era melhor, tinha muitas falhas. Mas, do ponto de vista da união entre as pessoas, epá, isto aqui era outro país."

terça-feira, 15 de abril de 2008

Algumas palavras

As fotos do último post da P. são chocantes, porque o mercado informal de São Paulo é um descaso a céu aberto, exalando seus odores podres de miséria em plena luz do dia a poucos quilômetros do centro de Luanda.

O governo finge que está tudo bem, afinal, quem joga esse lixo todo nas ruas e entope os esgotos é o povo.

Os ambulantes fingem que está tudo bem, pois dali tiram seu sustento em notas amarrotadas de kwanzas.

Os milhares de compradores fingem que está tudo bem, basta enfiar os pés em sacolas plásticas e prender a respiração para pagar os preços mais baratos da cidade.

E as senhoras seguem fritando coxas de frango em panelas aquecidas por carvão a poucos centímetros do lixo; os adolescentes oferecem livremente bugigangas eletrônicas feitas por trabalhadores escravos na China; os negociantes vietnamitas vendem cama, mesa e banho nos armazéns por um terço do que se cobra nas lojas da cidade.

O sol torra as cabeças, o fedor aumenta, as crianças enchem as barrigas de vermes em mais um dia no meio do lodo, do esgoto e do lixo que a natureza nem sabe se um dia vai decompor.

Mas tudo está bem. No final do dia, algumas cervejas abertas e algumas lingüiças no churrasquinho bastam para estampar sorrisos banguelas nas caras sujas.

Alguns goles depois, todos já terão esquecido a miséria desgraçada em que vivem no país do petróleo e dos diamantes.

domingo, 13 de abril de 2008

Faltam palavras

Poucos lugares me impressionaram tanto na vida quanto as ruas de São Paulo, o bairro dos camelódromos e armazéns aqui de Luanda. Ali, cada detalhe me remete ao caos. O cenário, os cheiros, as atitudes, os barulhos, os rostos. E o lixo, o lixo, o lixo...

Voltei pra casa querendo escrever sobre tudo aquilo. Mas como? Se fosse há 20 anos, escreveria um poema cheio de adjetivos. Há 15 anos, provavelmente comporia uma música estilo "we are the world" e mandaria por correio para a sede das Nações Unidas (hehehe...). Há 10, sairia com um manifesto pseudo-revolucionário e espalharia pela faculdade. Há 5, produziria uma reportagem cheia de números e aspas.

Mas hoje as palavras me faltaram. Pareciam todas ocas, sem força, sem cheiro. Tentei fazê-las pisar aquele esgoto, apertar-se naquela multidão, refletir os olhos amarelados daquela gente. Não deu.

Para quem vive aqui, uma sugestão: uma manhã no mercado de São Paulo é uma aula sobre este país (e sobre a humanidade!), uma pontada no coração, e uma saudável chacoalhada no espírito. Mas saia da rua principal, vista um plástico nos pés e entre pelas travessas cobertas de lixo.

Para quem está longe, deixo algumas imagens para ilustrar um pouco (ainda que bem pouco...) este mundo do absurdo.





Nosso agradecimento à doce e sorridente Anabela, que nos acolheu na sua barraca de sandálias de plástico para tirar essas fotos escondidas.