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segunda-feira, 24 de março de 2008

Quer morar em Angola?

Desde o início deste blog, vários amigos escreveram manifestando interesse em mudar para cá. Não se trata de desencorajar ninguém, mas é preciso saber onde se vai desembarcar as esperanças.

Luanda é a cidade mais cara do mundo. Exemplos? Um apartamento de dois quartos podre não sai por menos de 2 mil dólares. Se estiver bem arranjado, 4 mil dólares ao mês. Sem mobília e se for num prédio decadente. Os novos são raríssimos e, quando existem, estão fora da realidade.

Hoje fui ver um quarto-sala-cozinha-americana num edifício recém-construído. O dono quer 10 mil dólares ao mês de aluguel. E ainda tens de pagar um ano adiantado. Parece loucura e é. Mas é o mercado imobiliário de Luanda.

Portanto, não se iludam: quem lhe oferece o emprego em Angola tem de lhe garantir a casa.

Além disso, o caos urbano é uma realidade concreta. Imaginem a Saara (cariocas) ou a 25 de Março (paulistas) no dia 20 de dezembro, na hora do almoço, com o calor de 32 graus. Agora esburaquem as calçadas, encham o passeio de lixo e o ar de poeira. Esse é o dia-a-dia de 70% das ruas e avenidas de Luanda.

Por isso, quem lhe oferece o emprego, tem de lhe garantir, além da casa, o transporte.

Eu sei que você deve estar pensando: “ele está exagerando”. Eu também pensava isso quando lia blogs e comunidades do Orkut antes de me mudar para cá.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Estamos comemorando

Finalmente, depois de cinco dias, hoje tivemos energia para movimentar a bomba de água. Voltamos a tomar banho de chuveiro!

O Show de Truman

À distância, as centenas de prédios de quatro andares, todos bonitinhos, cercados por vastos gramados, lembram a paz dos subúrbios norte-americanos. Dá até para imaginar crianças felizes pedalando bicicletas nas ruas bem pavimentadas. Os prédios exibem portas de vidro na entrada, sem porteiros. As escadas são limpas e claras. Quatro apartamentos por andar, com três quartos, todos bem distribuídos e funcionais.

Depois do “Apocalipse Now” na Praça dos Congoleses, hoje fomos conhecer o “Show de Truman” do Projeto Nova Vida, uma área ao sul de Luanda onde o governo e as empreiteiras edificam, há anos, uma imensa cidade-dormitório.

Nasceu como um projeto de moradia para militares, mas já abriga gente de todas as profissões. Muitos brasileiros fogem para lá em busca de um mínimo de similaridade com os padrões de moradia a que estavam acostumados.

A ilusão de paz e tranqüilidade, porém, é barrada pelos grossos portões de ferro que protegem as portas dos apartamentos. Janelas e varandas também são gradeadas. Como nas prisões. Porque o condomínio não é murado, nem possui guaritas de controle de acesso.

Na área de serviço, a esperança de conforto se afoga nos tonéis de plástico usados para armazenar água – afinal, o abastecimento também é precário ali, como na cidade.

E o sonho de mundo perfeito acaba definitivamente quando o olhar do candidato a Truman bate contra o paredão de lixo no horizonte, a menos de um quilômetro. O projeto Nova Vida é vizinho do maior aterro sanitário de Luanda. Tem muito mais pernilongo e, portanto, maior incidência de malária.

Como está distante cerca de 20 quilômetros e todos que lá moram trabalham na cidade, as estradas ficam entupidas todos os dias nos horários de rush. E os moradores levam cerca de duas horas para chegar ao trabalho, e mais duas para voltar de casa.

Ou seja, a Nova Vida vem com todos os velhos problemas angolanos.

terça-feira, 11 de março de 2008

A cidade mais cara do mundo

Imagine o pior condomínio que você já viu na vida. Agora tire dele o elevador e transforme o vão num depósito de lixo. Arranque os corrimãos das paredes das escadas e cubra-as com uma cor encardida e com centenas de garranchos pichados de alto a baixo. No hall de entrada, espalhe alguns ambulantes, pedintes, gente esquisita ali, assim, parada, sem nada pra fazer. E no quintal do fundo, entre os geradores trancados em gaiolas, espalhe um pouco de água suja, com toda pinta de esgoto.

Se conseguir completar esse exercício, você estará imaginando um prédio comum de Luanda.

Na primeira tentativa de encontrar a definitiva Casa de Luanda deparei-me com pequenas sucursais africanas do inferno de Dante. Prédios com áreas comuns completamente destruídas, cujos moradores se trancam atrás de portões de ferro com cadeados gigantescos. No primeiro em que entrei, uma família de umas doze pessoas habitava um apartamento de dois quartos. Até a antiga varanda tinha virado um quarto extra. Por dentro, a habitação era antiga, até precisando de reparos, mas um luxo perto da decadência da área externa. Recusei de cara a oferta de alugá-la por USD 2 mil mensais.

Não há nenhum engano, não. O valor é esse mesmo, por um apartamento decadente num prédio destruído. Com a escassez de moradias, os preços estão loucos, o que faz de Luanda hoje a cidade mais cara do mundo. Mais do que Tóquio e do que Londres.

Seguimos adiante para novas propostas indecorosas em outros edifícios ainda piores. Queixei-me ao corretor de que precisava de um edifício um pouco melhor.

– Ah pá patrão, prédio em Luanda é isso aí mesmo. O senhor não vai encontrar nada arrumadinho não.

A quarta unidade a que me levaram era um apartamento até bom. Quarto e sala amplos, cozinha bem arranjada, casa de banhos, varanda, tudo razoavelmente conservado. Com guarda-fatos grande num dos corredores, por USD 2 mil. A área comum, porém, era o mesmo descalabro. Comentei com a moradora vizinha, que tinha a chave da unidade, sobre esse problema.

– Cá em Angola é assim: a gente toda preocupa-se em conservar as unidades. Ninguém se une pelo prédio. E olha que neste edifício ainda pagamos 200 kwanzas (quase USD 3) cada morador para ter um rapaz que varre a escada.

Não deixa de ser uma enorme ironia, a ausência desse sentimento de comunidade num país cujo estado se pretende marxista.

Bom, não preciso nem dizer, a minha busca continua.

domingo, 9 de março de 2008

A Casa (da Ilha) de Luanda

Depois de duas noites em aviões, três aeroportos e um dia inteiro parado em Lisboa, a Casa de Luanda começou. Ainda é provisória, é verdade, mas nos deu as boas-vindas mostrando que os boatos sobre a infra-estrutura na capital angolana são verdadeiros. O primeiro banho, depois de 48 horas de viagem, foi de balde. Sem energia elétrica, a bomba não funciona e, sem ela, não há água nos canos. Enchemos o balde numa cisterna que se acessa por um buraco no chão da cozinha. A energia voltou à noite.
É uma casa branca, com quatro andares – se considerarmos a laje, transformada em área de lazer –, três quartos, cozinha e sala de estar. Na garagem ficam o gerador, acionado à noite quando a energia não volta, e a bomba de água. Estamos instalados na Ilha de Luanda, uma península na entrada do porto. A Oeste fica o Oceano Atlântico; a Leste, a Baía de Luanda, repleta de navios que aguardam vaga para atracar. A cidade propriamente dita está do outro lado da baía. Da varanda da casa, temos as duas vistas.
Apesar de agradável, este não será nosso lar definitivo. Estamos hospedados aqui até encontrarmos uma moradia definitiva, o que pelo jeito não será fácil. O déficit habitacional é imenso em Luanda, onde vivem – segundo estatísticas não confirmadas – 6,5 milhões de pessoas. Isso num país com 8 milhões de habitantes. Encontrar a nova Casa de Luanda será nosso desafio a partir de amanhã.