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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Taj Mahal

"Foi a mais linda história de amor
Que me contaram e agora eu vou contar
Do amor do principe Xá-Jehan pela princesa Num Mahal
De de, dederede, de de, dederede, de de ... Taj Mahal"

(Jorge Ben Jor)

Ele é um símbolo internacional do amor eterno (no Brasil, virou até tema de samba-rock do Jorge Ben Jor). Maior complexo funerário do mundo, totalmente construído em mármore branco e adornado com pedras semipreciosas, o Taj Mahal ganhou essa fama porque, segundo a lenda, teria sido construído pelo imperador Shah Jahan como túmulo de sua esposa Mumtaz Mahal, que morreu ao dar à luz o seu 14º filho. Isso em 1632, numa sociedade onde a mulher, até hoje, tem um papel secundário.

História bonita e tal mas a verdade é que o Taj Mahal está se transformando, hoje, num símbolo de como a vida moderna destrói os sonhos românticos.

O primeiro golpe na lenda dos apaixonados vem da ciência. Historiadores enxergam um simbolismo escondido nas inscrições islâmicas que adornam as paredes do mausoléu. Estão reproduzidos ali 14 capítulos do Corão que tratam sobre o Dia do Julgamento Final e sobre os prazeres do paraíso. Um deles, no portão de entrada, é uma citação em que Alah convida os homens de fé a entrarem no seu paraíso.

Além disso, foi descoberto recentemente um texto em Sufi antigo que descreve como seria o trono de Deus e, adivinhem, a descrição é idêntica à planta do Taj Mahal. O texto constava da biblioteca do pai de Shah Jahan. Associando as duas evidências, os cientistas alegam que Shah podia, sim, ser muito apaixonado pela esposa. Mas que também se considerava Deus e o mausoléu, no caso, teria sido construído para ele mesmo reproduzindo as descrições do paraíso.

De que ela era megalomaníaco ninguém duvida. Basta olhar para o imenso mausoléu.

As flores feitas de pedras semi-preciosas foram engastadas no mármore

Estas foram esculpidas numa longa pedra de mármore branco

Mais adornos engastados nas paredes do palácio


As descobertas da ciência podem abalar o mito, mas não acabam com a magia do Taj Mahal. Esta está sendo destruída mesmo é pela poluição lançada na atmosfera por automóveis e indústrias da região.

A chuva se tornou ácida e já há alguns anos vem correndo o mármore do palácio. Trabalhos de recuperação da estrutura vêm sendo feitos e algumas medidas de contenção da emissão de poluentes têm sido tomadas, mas a verdade é que o palácio está ameaçado.

Além disso, o rio que passa por trás dele foi assoreado, perdeu vazão e baixou. O terreno se tornou instável e os alicerces dos minaretes ao norte estão abalados.

Ou seja, enquanto a ciência especula as intenções românticas de Shah Jahal, nosso estilo de vida está prestes a acabar com a estrutura física da representação do amor eterno.

As cúpulas do Taj Mahal e, abaixo, a mesquita que faz parte do complexo

P.S. – Mumtaz morreu em 1631 e a obra começou em 1632, mas só acabou em 1653. A dúvida é: onde ficou enterrado o corpo da Mumtaz enquanto o Taj não ficava pronto?

sábado, 29 de novembro de 2008

Os sonhos da nossa angolana de fibra

Nina jamais se contentou com o salário da embaixada. Mas em lugar de ficar se lamentando, foi à luta para melhorar de vida. E veio parar aqui em casa. Bateu no portão oferecendo-se para trabalhar das 13h às 19h. Conseguiu dobrar seus rendimentos.

- Eu queria muito ter tempo para estudar, mas neste momento a prioridade é a educação dos meus filhos. Por isso arrumei este emprego, pra poder lhes pagar uma escola boa.

A mãe enche a cabeça dela para comprar uma casa. Acha que precisam se libertar do aluguel, que sobe a toda hora em Luanda. Chegou a ver um terreno no Benfica, mas Nina está insegura.

- É muito distante, vai ser difícil chegar na hora no trabalho. Depois, que escola boa meus filhos poderão freqüentar lá?

O pai das crianças não ajuda Nina com o sustento dos meninos. Ela sabe que tem direito a isso, mas não quer recorrer à Organização das Mulheres Angolanas, uma entidade partidária do MPLA que poderia ajudá-la a enquadrar o aldrabão. Nina é orgulhosa, prefere conquistar a pedir.

O irmão mais velho dela mora na Alemanha e já falou em levá-la para lá. Ela teria que deixar as crianças, porém, coisa que ela não aceita. Um tio, que já viveu na Europa, diz que a vida no velho continente está muito difícil. Melhor seria ir para o Canadá. Mas teria de levar as crianças, porque aí as pessoas teriam pena dela e lhe dariam emprego.

Eu explico que isso é tolice. Ela jamais conseguiria entrar legalmente no Canadá. Como imigrante ilegal, ficaria exposta a toda sorte de perigos, sem direito aos serviços de saúde e educação.

Nina não sabe o que fazer. Ela tenta enxergar um futuro, mas sente-se acuada. Nos últimos tempos nem dorme direito, preocupada com a responsabilidade que lhe pesa sobre os ombros. Sonha com tantas coisas boas para os filhos, mas tudo lhe parece inalcançável.

Numa novela, ela encontraria um princípe encantado e rico, que acabaria com todos os problemas dela. Mas como isto é vida real, a novela da nossa heroína angolana termina pesada, cheia de pontos de interrogação que lhe pesam no estômago.

Só posso lhe desejar sucesso e dizer uma coisa, Nina: seus filhos têm sorte de tê-la como mãe.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A emancipação da nossa angolana de fibra

Com o fim do casamento, Nina não aceitou mais permanecer na casa dos sogros. E com os dois filhos pequenos, teve de enfrentar a dura tarefa de encontrar uma casa e um trabalho ao mesmo tempo em que a mãe, que conhecera havia pouco tempo, apareceu doente em Luanda para lhe pedir ajuda.

- Ela ficou diabética, engordou muito, não podia mais trabalhar. Estava já separada do meu pai e eu assumi essa responsabilidade de cuidar dela também.

Nina foi bater no Miramar, bairro nobre onde ficam as embaixadas em Luanda, a procura de um emprego como doméstica na casa do embaixador americano. Os seguranças avisaram que ali era impossível. Mas mostraram outra casa onde, naquele exato momento, dois brancos faziam uma visita. Provavelmente alugariam a vivenda.

Ela foi lá bater lá e conversou com a senhora estrangeira que mal falava português. Estavam a alugar a casa para estabelecer uma embaixada. Mas ainda demoraria algum tempo até que tudo fosse resolvido e eles realmente precisassem de uma empregada. A senhora quis guardar um contato, mas Nina não tinha telemóvel na época.

- Ficou combinado que o policial que trabalha na embaixada americana ia mandar me avisar. Ele sabia a rua onde eu estava morando. Mas como o aviso estava demorando muito e eu precisava sustentar meus filhos, comecei a vender pedras.

Nina fez contatos nas diversas obras que começavam a surgir em Luanda com o fim da guerra civil. Ficou amiga dos pedreiros e eles a chamavam quando precisavam de cascalho. Ela alugava um caminhão, ia até Viana buscar pedras e as entregava nas obras, cobrando por isso.

- Estava a dar algum dinheiro, o suficiente para o aluguel e o sustento das crianças. Foi quando o policial apareceu lá em casa, dizendo que aquela senhora estava mandando me chamar.

Nina voltou ao Miramar e conseguiu o emprego no mesmo dia. Trabalharia como doméstica para a embaixada das 9h às 13h, ganhando USD 250 por mês.

Amanhã, no último capítulo: Nina não se acomoda com o emprego novo e parte em busca melhores dias.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A rebeldia bate à porta da nossa angolana de fibra

Quando a adolescência chegou, Nina sentia-se indesejada e desrespeitada na casa dos tios. Trabalhava como empregada sem salário e era proibida de ir à escola. Decidiu ir viver com o avô no bairro do Kalemba, em Luanda. Tinha 16 anos.

No Kalemba apanhou uma gripe e foi ao posto de saúde se tratar. Lá o médico recomendou algumas injeções e foi assim que conheceu seu marido.

- O Dioli estudava para enfermeiro e fazia a prática lá. O conheci quando preparava as picas que eu tinha de apanhar. Todos os dias eu voltava e era ela quem me injetava. Fomos ficando amigos e começamos a namorar.

A gravidez foi uma questão de tempo e ela mesma admite que viu, na barriga, uma fuga para a situação na casa dos tios.

- Quando apanhei meu primeiro filho, fui morar na casa dos pais do Dioli, na Samba. Eles me queriam muito bem, me tratavam como uma filha e davam amor ao neto. O problema era o Dioli, que não ligava muito pra gente. Ele continuava a viver na Kalemba e eu na casa dos pais dele.

Dioli vivia distante, mas ainda assim Nina engravidou do segundo filho, antes que se separassem de vez.

- O problema é que ele quer curtir, desbundar, arrumar mulheres. Não ajuda em nada com o sustento das crianças, está sempre a aldrabar, dizer que vai ajudar, mas que nada. Eu é que seguro tudo sozinha.

Dioli hoje é taxista. Ele e Nina não se dão bem. Os filhos raramente vêem os pais.

Amanhã: com o fim do casamento, Nina tem de deixar a casa dos sogros.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A infância triste da nossa angolana de fibra

Continuando a história da nossa heroína, Nina nasceu no Uíge, onde o pai era camponês. Ainda bebê foi trazida pela mãe para a casa de um tio em Luanda, onde estaria a salvo da guerra. A mãe voltou depois para a província e elas nunca mais se reencontraram. Nina cresceu longe dos pais, dos três irmãos mais velhos, todos também distribuídos entre casas de parentes.

Na casa do tio, ela aprendeu a frequentar a igreja das Testemunhas de Jeová. Na igreja, aprendeu a ler e a escrever, mas nunca foi matriculada pelo tio numa escola. "Ele foi muito bom para mim em muitas coisas, mas em outras...", lembra. "Ele me fazia como uma empregada, tomava conta aos filhos dele. Meus primos estavam na escola, mas eu não podia estudar. Tinha de cuidar da casa. É uma vontade muito grande que eu tenho, até hoje, a de ir para uma escola, aprender as coisas."

Outra queixa de Nina do tempo em que vivia na casa dos tios é a falta de carinho. "Não é a mesma coisa que ser criada pelos nossos pais", diz. "Eu cresci assim, sem amor, sem carinho. Foi muito triste isso."

Nina só conheceu a mãe em 1997, quando tinha 17 anos de idade.

Amanhã, como ela deixou a casa dos tios para recomeçar a sua vida. Não perca, às 20h.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uma angolana de fibra

Nina, a moça que trabalha aqui em casa, ficou admirada quando certa feita lhe demos 10 mil kwanzas (cerca de USD 150) para que pagasse ao caminhão que viria colocar água no tanque.

Estranhou porque na embaixada onde trabalha, duas casas depois da nossa, o embaixador nunca conseguiu comprar um caminhão de 10 mil litros por menos de USD 300. Esperta como só, ela anotou o telefone do motorista. Quando a embaixada precisou de água, Nina deu o número ao embaixador. O diplomata ficou admirado com a esperteza da empregada doméstica.

Nina é assim. Inteligente, honesta, batalhadora e cheia de iniciativas. Se tivesse tido oportunidades, teria ido longe. Mas a vida, a guerra, a separação ainda muito jovem da família lhe sabotaram o futuro. Nina nunca frequentou uma escola regular e hoje trabalha em dois empregos como doméstica para sustentar os dois filhos e a mãe, diabética, de 72 anos.

Nos próximos dias, sempre às 20h, vocês conhecerão em capítulos a história de vida da Nina, uma angolana de fibra.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Encontro com Mumuílas

Era um passeio sem maiores pretensões até Chibia, município a 42 quilômetros de Lubango. Com a estrada reparada recentemente, um pulinho.

A área urbana é pouco mais do que uma cidade pendurada numa estrada, embora já existam por ali algumas casas novas, vistosas, sedes de direções municipais. Mas aí esticamos até Havailo, uma comunidade rural cerca de oito quilômetros a frente. E foi lá que as encontrei, as mulheres da tribo dos Mumuílas.

Elas usam adereços de miçangas e panos coloridos na cintura. Não cobrem o peito. Enfeitam os cabelos com uma pasta feita a partir da mistura de gordura do leite com cascas e sementes de algumas árvores.

Diz-me a senhora que nos acompanha que elas fazem isso para evitar os piolhos, já que não lavam a cabeça.

Não tenho como confirmar a história, porque nenhuma mulher Mumuíla fala a minha língua, nem eu a delas. Só sei que foi muito giro esse encontro inesperado com um povo que ainda sabe preservar tão bem a sua cultura.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dona Fina


Dona Fina Calumbo não sabe quantos anos tem. Nunca comemorou um aniversário, porque não conhece o dia do seu nascimento. "Já vivi muito tempo, minha filha", explica, sem ligar para datas.

Ironicamente, ela dedica sua vida aos nascimentos. Parteira tradicional há muito, muito tempo ("não sei falar em anos, minha filha..."), faz de 10 a 12 partos por mês. Eu, com minha mania ocidental de transformar tudo em números, faço uma conta rápida e concluo que ela já deve ter trazido ao mundo mais de 4 mil bebês (chutando por baixo...).

Moradora de um bairro rural na periferia de Saurimo, na Lunda Sul, Dona Fina acorda cedo para ir à lavra. Às vezes nem bem chegou de volta à casa já tem uma grávida esperando para dar a luz. E aí, Dona Fina? "Aí lavo as mãos, boto um pano na cabeça, faço uma oração e vou. Estou sempre pronta, essa é minha missão.

Até o ano passado, ela e as outras dezenas de parteiras tradicionais da região recebiam luvas, sabão e bacia para garantir a higiene do parto e protegê-las contra o HIV e outras doenças. A ONG que patrocinava esse projeto saiu de Saurimo em 2007 e desde então as parteiras tem de arriscar suas próprias vidas ao fazer seu trabalho. O governo diz que não tem dinheiro para continuar o projeto, mesmo sabendo que as parteiras são responsáveis por mais de 90% dos partos da região.

Dona Fina não desiste. Segue confiando nas mãos lavadas, no pano na cabeça e na oração. E assim vai criando aniversários, sem nunca ter comemorado o seu.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Carta às garotas com viagem para Angola

Imaginem um país machista. Um país onde os homens têm a certeza que são bem sucedidos nas suas investidas. Parece-me que, aquando a entrada no país, para além do carimbo no passaporte, recebem uma espécie de “manual de sobrevivência masculina”. Manual esse que, nenhuma mulher conseguiu pôr a vista em cima, até ao momento. Creio que Angola tem uma espécie de “poção” da paixão que os leva a serem atrevidos e desinibidos. Mesmo, o mais tímido dos tímidos. Não é escolhida nacionalidade. Também não é escolhida idade. Comecemos pelo asiático. Homem com mais de 50 anos, de careca não assumida. Cantor de karaoke com talento especial para dedicar músicas sobretudo substituindo “Sweet Caroline” por “Sweet alvo a seduzir”. Politicamente correcto, a fugir para o tímido até. Mas, na hora de convidar para jantar, não está com meias medidas e o discurso é: vou-te buscar às 6h para irmos jantar. Solução? Agradecer o convite e declinar. Afinal, somos livres para escolher, certo? Ora, ora! Existe também o português que, por facilidade da língua, será o pior deles todos. Não escolhe cor nem nacionalidade. Idade, já é capaz de escolher mas, adiante. Ao fim de algum tempo, acho que nem as angolanas os aturam. Falo nas angolanas que os servem em restaurantes ou as que para eles trabalham. Não há paciência que resista e, até eu fico com vontade de entregar um “manual de sobrevivência femina” às garotas, para que possam responder aos atrevidos. Porém, nem só as angolanas são os alvos. A última tirada de um desconhecido, por sinal do Norte como eu, saiu mais ou menos assim: “n’um” há “dubida” que as mulheres do “Nuorte” “som” as mais bonitas, carago. “Bê-se” bem nesta mesa". Concluiu com um “o que eu gosto dessa raça”. Primeiro, fiquei a saber que tenho raça. Raça do Norte, parece. Segundo, percebi que este é o tipo de piropo que se adapta a qualquer local. Naquela mente existirá certamente a raça do Norte ou do Sul. A raça brasileira ou angolana. A raça de Benguela ou do Soyo. Solução? Fitar o guardanapo à nossa frente como se lá estivesse a passar o último episódio da nossa série de tv favorita. Finalizar com um “pois” e um sorriso. Existem também os tímidos. Aqueles tão tímidos que usam os nossos cartões profissionais para nos mandarem poemas e declarações com palavras como “inebriado” e “encantado”. São persistentes, mesmo após serem claramente ignorados e, não receberem qualquer e-mail de volta. Depois de serem convidados a desistir e a deixar de usar o e-mail profissional para fazer amizade com a tal garota que os deixa “inebriados” e “encantados” percebem a asneira que fizeram e assumem o erro. Envergonhados até. Caso tenham usado o seu nome verdadeiro, rezam para nunca serem apresentados à tal garota. Por fim, existem os angolanos. Manhosos com as angolanas mas mais comedidos com as estrangeiras. Os mais desinibidos podem mandar piropos como: ai se esta fosse a mãe dos meus filhos, deixava-a espancar-me até à morte. E ficava viúva e com os filhos orfãos, portanto. Há também os que dizem: ai branca, te quero. Ou ainda, se eu pudesse esta “mulhé” era minha. Podem também contar-nos a sua vida, após os primeiros cinco minutos de conversa, sem nada lhes ter sido perguntado. Dizem a profissão, para que possamos perceber que se trata de um homem trabalhador e com “posição”. Um bom partido, portanto. Desistem quando ignorados ou se dissermos que somos casadas.
Em qualquer um dos casos, podem rir-se caras amigas mas, sempre para "dentro". Nada como a descrição, a roçar a antipatia, para que os galanteadores indesejados desistam. Aos que não perceberem, um abraço e um queijo e um até loguinho vai fazê-los perceber. Concerteza.
Ah, mas tudo muda de figura se o galanteador vos interessar. Aí, acho que já não preciso dizer nada.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Diferenças Culturais

Muitas das histórias que passarão por aqui, são fruto da vivência com alguns angolanos. Pobres. Na maioria das vezes, jovens. Muitas histórias são fruto dos relatos que ouço calada. Outros são resultados de conversas. A que trago hoje é uma mistura dos dois. De início ouvi calada sem querer dar opinião de branca e mulher. Depois, acabei por entrar na conversa e ouvi o que já esperava.

O Moisés é um jovem religioso. Ou melhor, a sua namorada é. E como tal, para que pudessem “brincar” teriam de casar antes. Até aqui nada estranho. O Moisés casou, depois das enúmeras conversas que teve com os colegas sobre as suas intenções com a moça, que eu ouvia calada. Um dia, depois do esperado casamento (e da mais esperada lua-de-mel que teve como cenário uma casita na Ilha do Mussolo) um colega pergunta ao Moisés porque ele tinha casado. Ele respondeu que queria, tal como a noiva. O outro jovem disse-lhe que tinha feito muito mal. E perguntou-lhe: e se ela agora não conceber? O Moisés respondeu-lhe que não tinha mal, que ficava com ela na mesma. O outro apresentou-lhe os casos que conhecia e que tinham acabado mal. Concluiu que primeiro deve conceber-se a noiva e só depois casar. Depois de ter ouvido os argumentos todos do jovem anti-casamento com pessoas inférteis, perguntei-lhe: então e se a mulher não puder ter bebés, não tem direito a ser feliz? Ter um companheiro? Não – respondeu ele. Em casa tem de haver alguém para partir copos. Acrescentou: É a cultura africana. E o olhar que se seguiu fez-me “meter o rabinho entre as pernas” e terminar a minha intervenção.

De notar que todos estes jovens tinham carinho por mim e eu, por eles. Às vezes diziam “nós” como se eu também fosse Angolana. Mas em dois casos, marcaram a diferença entre o branco/africano e demonstraram que a minha cultura é diferente da deles. Eu sei que é. Mas este tema pareceu-me cruel demais.
O Moisés em pouco tempo concebeu a esposa. Quando lhe perguntei sobre a sua vida (e casamento), respondeu-me que ia ter um bebé mas pediu-me segredo com os outros.

Eu gosto de crianças e um país só pode realmente pensar num futuro quando as crianças existem, são bem tratadas e podem crescer saudáveis e com educação disponível. Temo que as crianças – tantas – concebidas antes dos casamentos que na maioria das vezes nem se concretizam, não possam ter um futuro feliz. Porque a taxa de natalidade é algo que não atormenta este país e, ao que parece, faz parte de uma cultura que permanecerá por muito mais tempo.

domingo, 18 de maio de 2008

O cacimbo chegou...

E a mboa lá de casa já está a sentir frio...


sexta-feira, 2 de maio de 2008

terça-feira, 29 de abril de 2008

Trouxa de roupa na cabeça

Então eu tinha de transportar uma imensa trouxa de roupas da casa onde elas haviam sido lavadas, no Kinaxixi, até a nossa nova morada, no Maculusso. E como fazia um sol inclemente, eu sem viatura para me ajudar, decidi seguir o exemplo das mulheres angolanas. Mandei o fardo pra cima da cabeça.

Pra quê? Virei atração na rua. Os homens troçavam de mim:

- Tá cansado o mundele? - e se riam, divertidos, até que uma mulher me parou:
- Moço, quem carrega coisas assim são as mulheres, tás a ver? Os homens usam mesmo os braços, que são fortes.
- Mas assim é melhor de carregar - respondi. - E ainda faz sombra pra esse sol quente.

Ela não se agüentava de rir:

- Ai é? Pois olha, vamos que eu lhe ajudo. Tire o fardo daí que estão todos a rir de si.
- Não faz mal. Onde está escrito que homem não pode carregar nada na cabeça?
- Tou a ver logo que és do Brasil, pois não? Baixe cá essa sacola e vamos juntos - divetia-se ela.

E caminhou comigo até a esquina da minha rua.

domingo, 20 de abril de 2008

Pra não dizer que não falei das flores


Sim, Luanda por enquanto chega aos meus olhos embaçada pela poeira. Chega coberta de lixo e esgoto, porque é deles que desvio todos os dias para chegar ao trabalho. Chega marcada de guerra, porque mãos empunhadas de fuzis escoltam as calçadas por onde passo. Chega cheia de contradições porque Toyotas e Kandongueiros dividem minhas boléias. Chega bem mal-explicada, porque quando eu pergunto as vozes calam.

Mas chega também com a força e o colorido das flores. As flores que nascem ousadas atrás da poeira, ao lado do lixo e do esgoto, e dão vida às ruas com suas roupas estampadas. Carregam sobre a cabeça grandes pétalas de plástico recheadas de frutas. Não se curvam sob o sol ardente, não esperam acontecer. Seguem “caminhando e cantando”, (e os brasileiros sabem o que estou cantando...).

Arranjam-se em pequenos buquês nas esquinas, ensinando à Luanda o espírito de iniciativa e coletividade de que ela tanto necessita. Logo nas primeiras semanas vi um desses buquês em ciranda, com flores ensinando outras flores a ler e escrever. “Aprendendo e ensinando uma nova lição”. Lição que, espero, sigam ensinando aos irmãos que, equivocados, insistem que sábio é esperar.

Vim para Angola regar flores. E faço delas meu mais forte refrão.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

As vítimas silenciosas

Cristina Ngueve foi acompanhar a cunhada ao posto médico da vila onde morava, em Uíla. Na picada, a cunhada pisou no fio que acionava uma mina de instalação. O artefato explodiu ao lado de Cristina. A cunhada perdeu uma perna; ela perdeu as duas. Tinha 18 anos.

Eva Gabriela acordou numa manhã de 1996, abriu a porta da casa em que morava na província de Kuando Kubango, sudeste de Angola, e quando pisou do lado de fora, explodiu numa mina terrestre que havia sido colocada durante a noite. Perdeu a perna direita. Ela tinha 12 anos na época.

Luisa Miguel Adão Gaspar voltava do riacho, na província do Bengo, com um balde de água na cabeça quando pisou numa mina, em 1997. Passou três meses num hospital angolano. Perdeu a perna e a vista esquerda. Ficou seis meses na Alemanha, socorrida por uma ONG, para tentar reconstruir a face. Tinha 12 anos de idade.

Essas histórias ilustram a pior face do conflito civil que destruiu Angola entre 1975 e 2002. Como me disse uma das 18 mulheres mutiladas com quem conversei, elas não pegaram em armas, não lutaram por nenhum dos lados. Aquela guerra não lhes pertencia. Mesmo assim, tiveram suas vidas definitivamente marcadas pela brutalidade.

As 18 sobreviventes tiveram a coragem de participar de um concurso de Miss organizado pelo governo de Angola, o Miss Sobrevivente de Minas, para chamar a atenção do mundo para o problema. Afinal, ainda existem 2,3 milhões de angolanos vivendo em áreas de risco. Angola ainda tem, já mapeados, 3,2 mil campos minados.

Os mais otimistas dizem que ainda vai levar 30 anos para livrar o país dessa desgraça; os pessimistas apostam em 130 anos.

Para quem mora no Brasil, parece que o Estadão publicou hoje uma matéria sobre o concurso de miss. Mas o cara que escreveu lá não contou tantas histórias de sobreviventes.

domingo, 30 de março de 2008

Despedida da Musseque

Como despedida da travessa da Saudade (que descobrimos outro dia que oficialmente se chama "Pezinhos na água"), uma galeria de fotos da vizinhança:

A rua de casa:


A mulherada na porta (o salão de beleza da rua...):

O mercado da esquina:


Nossos vizinhos do lado esquerdo (Nanda e Teddy) brincando,



estudando,


e posando pra foto!

Crianças da rua brincando de carrinho...

e de carrão...

Divertindo-se com a câmera!

Pra fugir do calor, bacia vira piscina...
...e quintal vira quarto!

Da janela do quarto, o mar de telhados de zinco...

E varais de roupa!

E finalmente, pra compensar, a vista do terraço!

terça-feira, 25 de março de 2008

O leite de cada dia

Andando por Luanda lembro-me sempre da transformação que as mulheres que conheço sofrem na maternidade. Os cuidados com que cercam os bebês, as precauções para evitar a exposição a bactérias e vírus nas primeiras semanas de vida, o ritual da amamentação, com o sofrimento das dores no peito.

Tudo isso me volta à lembrança porque, a todo momento, encontro mulheres angolanas amamentando seus bebês nas condições mais impróprias. Elas os amamentam nas calçadas cheias de lixo, com o esgoto correndo ao lado, enquanto fazem tranças nos cabelos umas das outras, vendendo mercadorias em bacias encardidas. E não param para observar o bebê mamando. Movimentam-se com o filho grudado ao peito como se tivessem um pacote no colo.

Nunca vi nenhuma delas limpando o bico do seio antes de enfiá-lo na boca do inocente. Vão logo tirando da camiseta, totalmente suadas com o calor infernal desta cidade. Fazer a criatura arrotar, então, nem pensar.

Talvez seja um comportamento cultural, coisa de quem tem um filho atrás do outro. Talvez seja apenas falta de tempo. Bem ou mal, o filho já está se alimentando; elas, na maioria dos casos, ainda precisam batalhar a refeição daquele dia.

sábado, 22 de março de 2008

Tranças de Luanda

Antes de sair do Brasil, procurei uma transportadora para enviar alguns itens pessoais.

– É cabelo ou mercadoria normal? - perguntou o agente.
– Como assim? - espantei-me.
– É que o preço é diferente. E como é muito comum exportarem cabelo pra lá...

Só agora, chegando a Luanda, entendi a conversa non-sense. Vende-se cabelo (de verdade e sintético) em todo canto, dos supermercados aos camelôs. E é este um dos grandes sonhos de consumo da mulher angolana.

Paga-se um dólar e meio pela cabeleira nacional da marca Maria (a mais popular). Depois é só escolher uma das cabeleireiras de rua, que cobram outros dez dólares para fazer o penteado (que dura um mês), amarrando e trançando o cabelo comprado no cabelo original. Só aqui, na Travessa da Vaidade, tem umas três, uma delas bem na frente da nossa porta (enchendo de chumaços de cabelo a soleira da porta!).

As clientes são de todas as idades. De jovens vaidosas com suas longas tranças a miúdas (crianças) com suas trancinhas enfeitadas por fivelinhas coloridas. Dizem que a tradição é antiga, mas antes era feita com o cabelo de verdade. A arte das tranças é hoje um patrimônio da mulher africana. Em homenagem a elas, fizemos nosso primeiro vídeo aqui em Luanda:




If you want to see an english version of this film, click here

segunda-feira, 17 de março de 2008

Nem só de defeitos...

Do jeito que o blog vai, parece que Luanda só tem defeitos irreparáveis. Não é verdade. Já nos beneficiamos de pelo menos uma grande qualidade: a solidariedade das mulheres luandenses.

No sábado, quando precisamos pedir informações no transporte para chegar a um bairro distante, duas delas foram além das explicações. Nos levaram até a porta do local que procurávamos, desviando inclusive de seus caminhos. Apenas por simpatia, sem pedir nenhuma recompensa. Quantos de nós faríamos o mesmo por dois estranhos?