terça-feira, 12 de maio de 2009
Redutor de Gás ou... como tirar-me do sério
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Essa você não vai ler no Jornal de Angola
Dia desses eu entrava num ministério em Luanda e dei de cara com um cartaz de um projeto social. Uma das fotos me pareceu familiar. Fui checar e bingo! Era uma imagem feita por mim e publicada nesta Casa.
Eu ficaria lisonjeado se tivesse sido consultado sobre a utilização da foto. Provavelmente a liberaria sem custos e poderia ter cedido o arquivo em alta resolução. Mas nada disso aconteceu. A foto foi “roubada” do blog sem prévia consulta e publicada em baixa resolução, o que resultou num resultado porco, uma imagem totalmente “pixelizada”. O cartaz em questão foi elaborado por uma consultoria de estrangeiros que certamente cobrou ao ministério não menos de USD 50 mil pela produção.
Esse caso é emblemático do tipo de “consultoria” que alguns expatriados prestam em Angola. Por que o governo não toma providências? Porque os poderosos angolanos são sócios dessa grande mamata.
Alguns estrangeiros que chegaram a Angola ainda no tempo da guerra, quando poucos se aventuravam, fizeram boas amizades no governo e Criaram empresas angolanas com sócios muito importantes no partido ou na família do presidente.
Graças a esses sócios, as empresas conseguem contas importantes dos ministérios, contratos milionários. Prometem consultoria com mão-de-obra especializada. Na prática, trazem poucos profissionais gabaritados pagando salários razoáveis, e um bando de jovens recém-formados ou mão-de-obra rejeitada pelos exigentes mercados de trabalho de seus países. A esses pagam entre USD 1000 e USD 3000 mensais. Como atrativo oferecem casa, passagens aéreas a cada três meses para os países de origem e carro com motorista. Tudo bancado pelos cofres do governo angolano.
Os contratos sempre prometem implantação e treinamento da equipe angolana que tomará conta do projeto depois. Na vida real ninguém ensina nada aos angolanos. Assim, o dono da consultoria perpetua o contrato milionário. É um grande negócio entre amigos.
Enquanto isso, no Jornal de Angola de hoje você pode ler sobre a linha de crédito que Angola vai abrir a Bissau. Tem também uma notícia sobre o aumento do volume de receitas da repartição fiscal do Namibe em 2008.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Roque Santeiro Voador
Uma dessas "banquinhas" estacionou bem ao nosso lado. E começaram as negociações de produtos. Uma passageira mais afoita pedia em português mesmo:
- Eu quero três diquinay. Três diquinay pra mim.
Fiquei a imaginar o que seria o tal produto, dúvida que sequer passou pela cabeça do comissário de bordo, pois que imediatamente saiu-se com três frascos de perfume DKNY.
- It is 135 american dólars - ele disse em inglês.
- Tem aqui 200 dólares - respondeu a passageira em português.
O hospedeiro devolveu 50 dólares e pediu a ela que esperasse, pois não tinha mais troco. Ela continuou ao lado, a revista na mão. Outros passageiros chegavam comprando, um tentando ser mais rápido que o outro. A passageira diquinay pediu mais alguns produtos, deu mais algum dinheiro, no fim das contas, o hospedeiro continuava a lhe dever USD 20. Pelas contas dele. Pelas dela, eram 30 USD.
- Me dá mais um diquinay e fica certo.
- You have 20 dolars back, this costs 45 dolars.
- Não, me dá só mais um diquinay e tá certo.
Começaram a debater os valores, tentando um acerto de contas. Nisso chega a tia da "diquinay", gritando do outro corredor.
- Oh minha sobrinha, dá só 20 dólares à tia.
- Eu não tenho 20. Só 100. O troco aqui não chega.
Pelo auto-falante, outra comissária começa a anunciar que o vôo está se preparando para aterrisar em Luanda. O Free Shopping vai ser encerrado... O quê? Encerrado? Bateu o desespero nos outros passageiros que ainda não estavam satisfeitos com suas compras. E a banquinha do hospedeiro foi cercada por mão cheias de notas de dólares que pediam mais um perfume, mais um uísque, mais não sei quê. Nossa fileira, àquela altura, já era uma sucursal voadora do Roque Santeiro.
A passageira diquinay finalmente chegou a um acordo com o hospedeiro. Foi pedindo mais um diquinay, e mais outro, e mais outro, até que a conta chegasse a um número inteiro e ele não precisasse lhe dar troco. Quando parei de contar, ela já tinha seis fracos de perfume na sacola, mas é possível que tenha levado mais.
Foi a primeira vez na vida que vi uma tripulação ter de implorar para que as vendas fossem encerradas. Depois de várias tentativas pelo sistema de som, a comissária chefe decidiu meter ordem na confusão, com o Airbus 340 já apontado para a pista, na reta final de aterragem. Mandou o carrinho de volta para o fundo do corredor, no que foi prontamente seguido por um senhor gordinho, de terno, que não terminara as compras.
O auto-falante continuava anunciando a chegada, pedindo a todos que voltassem aos seus assentos, mas o senhor gordinho só passou de volta segundos antes da aeronave tocar a pista, com um sacola que mais lembrava a do Pai Natal.
Com o avião já aterrado e as portas abertas, os sinais da guerra de consumo podiam ser vistos por todos os lados. Restos de plásticos das embalagens, de caixas de papelão, de revistas do free shopping picotadas, além de latas de bebidas, copinhos, guardanapos e lixo de todo o tipo espalhado pelos corredores e entre as poltronas.
Parecia mesmo o Roque Santeiro depois de um dia de comércio intenso.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
O dilema de Nina
Ontem Nina pediu para sair mais cedo. Precisava ir à escola do filho. A professora anda a faltar muito, aparece só três vezes por semana. A escola é da Igreja Católica, de graça, e a professora ameaçou os alunos: vai reprovar aquele cuja mãe reclamar aos padres. Nina achou um absurdo e foi lá ter com a megera. Hoje, voltou com a seguinte história.
- A professora quer gasosa.
- Como assim, quer gasosa? - perguntei.
- Aqui é assim. No hospital do governo, que é de graça, se tu não dás uma gasosa, ninguém te atende. É assim em tudo. Se as mães derem gasosa, ela vai todos os dias.
- Você falou com os padres?
- O padre está viajando, muito difícil.
- Mas ela pediu a gasosa assim, na cara-de-pau?
- Não, ela disse "os alunos não conseguem aprender, dão muito trabalho, tás a ver? As mães também não colaboram, não fazem assim nenhum agrado à professora, a mãe do William mesmo, por exemplo, nem pensa assim em dar um cartão de saldo* à professora."
Nina está contrariada, mas no seu jeito tímido, não explode. Ela Não sabe como resolver a questão. Você, o que faria no lugar da Nina?
* Cartão de Saldo: é a recarga de créditos no telemóvel. Virou uma versão moderna da gasosa. Muitos conhecidos já relataram ter pago policiais com cartão de saldo por não terem kwanzas para a gasosa.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Não há bela sem senão
Eu ando feliz. A sério que ando. Pois a minha mudança de casa vai trazer melhorias para a minha vida em Luanda. Mas, não há bela sem senão. Isso eu ja sabia. Ter água, luz, segurança, sossego, privacidade são factores difíceis de reunir numa só casa. Uma das coisas que trouxe da outra casa, foram os meus vasinhos com ervinhas aromáticas. Nas minhas últimas férias, providenciei uns saquinhos de sementes e trouxe para plantar por cá. No total, plantei 5 espécies: rosmaninho, salsa, cebolinho, tomilho e oregãos. Comprei os vasinhos em plástico cá. Baratinhos, baratinhos. Após duas noites na nova casa, os vasinhos já andam certamente por outra morada. Deixei-os fora da porta e das grades das janelas. Depois da minha cara de bambi angustiado, o meu querido M. perguntou-me: porque achas que tens grades nas janelas? Ok. Eu sei que não será escolha do arquitecto do tempo colonial. Mas, os meus vasinhos? Tão pequenos, tão insignificantes, tão despidos. Sim, porque as ervas aromáticas nem sequer tinham dado um ar da sua graça. O que eu via eram umas ervitas pequenitas e nem conseguia perceber se eram os filhotes das aromáticas ou, daninhas parvas. Mas a mim tinha-me dado gosto ter plantado e agora ver nascer alguma coisa. Mesmo que eu não soubesse o que era. Humpf. É a vida. Fico sem saber, a razão de terem levado os meus vasinhos mas arrisco nas seguintes opções:
1. Foi pelo valor? Nãããã... Mas então os vasos custaram 30 Kwanzas cada!
2. Foi por curiosidade? Para saberem o que era teriam de fazer uma análise profunda, lá em casa deles?
3. Foi para entregar à polícia? Será que pensam que sou vendedora de ervas ilegais, daquelas que se fumam?
4. Foi por maldade?
5. Foi uma espécie de praxe para os novos moradores do prédio?
6. Foi por prazer? Por vício? Para lixar o pula?
À uns tempos em Caboledo, depois de o M. virar costas para abrir a carteira e pagar aos pescadores, o moço disse-lhe: pode estar à vontade, isto não é Luanda. Há gestos insignificantes que me fazem pensar que por vezes, isto é muito mais complicado do que me parece. Ainda se fosse algo caro, que pudessem vender e fazer dinheiro, ficava chateada mas, compreendia. A sério de compreendia. Ainda se fosse uma plantação de bananas, de alfaces ou batatas, também compreendia. A sério que compreendia. Agora uma merdita que nem sequer eu sabia bem se algum dia me iria dar utilidade! Quanto mais a quem os levou, que nem deve saber do que se trata. Desculpem-me os leitores que consideram que estes episódios também acontecem noutros países mas eu, definitivamente inclino-me para a última opção: é já vício e, deve dar um prazer danado, roubar o pula. Ao senhor ladrão de vasos um conselho: vá regando com frequência mas sem encharcar, ok?
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Banana Angolana X Banana do Resto do Mundo
Com vocês, a reportagem de alto da página de economia de hoje:
Consumidores preferem banana de produção local
Os consumidores angolanos preferem a banana produzida localmente, numa altura em o mercado angolano regista a presença de múltiplas variedades de banana, cujo diferenciador principal é a origem, conforme afirmou o director do Programa de Desenvolvimento Agrícola e Financeiro (ProAgro Angola) e director da Clusa.
“A maioria dos consumidores nacionais prefere a banana proveniente das plantas locais” - afirmou Estêvão Rodrigues. Apesar disso, continuou, a banana importada, principalmente da África do Sul, constitui uma séria concorrente. “Para conseguir bons resultados nos mercados interno e externo, os produtores nacionais devem apostar fortemente numa estratégia que privilegie fornecimentos de alta qualidade a tempo, aos preços mais baixos”.
Por exemplo, explicou, “ao pensarmos estender o mercado da banana do Vale do Cavaco à SADC, é preciso ter sempre presente que a banana produzida em Moçambique pode chegar à África do Sul a um preço mais competitivo do que a banana produzida em Benguela. Assim, para competir, o produtor benguelense deve aumentar a produtividade investindo em tecnologias adequadas para, em vez de obter, por exemplo, 25 toneladas por hectare, conseguir 50 toneladas de boa qualidade por hectare, que poderão ser escoadas de forma regular para um mercado garantido”.
Segue por muitas linhas mais, acreditem. Mas vou poupá-los do maravilhoso tratado bananeira.
E eu, que nem sabia que a nacionalidade da banana que compro pelas ruas, devo declarar, como expatriado: prefiro a banana das zungueiras.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Crescimento a olho nu
Angola não chega a ser como o China ou Dubai, onde estariam concentrados respectivamente 50% e 20% das gruas em operação em todo o mundo.
Mas, como já havia sido mencionado rapidamente aqui, Luanda é certamente a cidade com a maior quantidade de gruas que eu já vi na minha vida.
Para onde quer se olhe no horizonte, lá está um braço metálico erguendo pesos para um novo arranha-céu.
Em 2008, a previsão é de que a construção civil em Angola seja responsável por 30% do crescimento dos negócios do país que não incluem petróleo ou diamante.
Contribui muito para isso, além do aquecido mercado imobiliário, a realização do Campeonato Africano de Nações em Angola, em 2010. Novos estádios e centenas de hotéis estão a ser construídos por todas as províncias do país.
Embora a Odebrecht seja muito forte em Angola – está aqui desde 1982 e conta hoje com 1.200 funcionários brasileiros, fora os angolanos -, o Brasil ainda engatinha neste mercado.
O maior player é Portugal, que tem aqui operações das suas maiores empreiteiras: Mota Engil, Soares da Costa e Teixeira Duarte. Mas China vem avançando bastante sobre os negócios.
