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terça-feira, 25 de maio de 2010

Agora sim eu entendi a reeleição


A reportagem da Folha de S.Paulo citada aqui ontem pelo X. teve uma continuidade. No episódio de hoje, o repórter explica a dependência da economia angolana do petróleo e encontra até um notável crescimento de outros setores, com fonte da Católica.

Além de se assustar com o preços cobrados por um café (5 USD) e um sanduíche (20 USD), ele tenta fazer uma rápida explanação do cenário político angolano, no trecho que - com a autorização do X., notório opositor das cópias de textos na internet -, reproduzo a seguir com o devido crédito:

"O futuro econômico de Angola também depende dos rumos da política. A nova constituição permitiu ao atual presidente, José Eduardo dos Santos, se candidatar. Ele deve ser o cabeça de lista do MPLA, partido do governo, em 2012. A partir daí, deve iniciar o plano de sucessão pacífica e renunciar, deixando o poder para o vice após mais de três décadas." (o grifo é nosso).

Xé, quer dizer então que o mais velho vai se candidatar à reeleição para em seguida renunciar? Epá, esses repórteres acreditam mesmo em tudo o que ouvem...

sábado, 7 de março de 2009

José Eduardo dos Santos vai recandidatar-se


O Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, vai recandidatar-se às eleições presidenciais de 2009, foi avançado pelo secretário-geral do seu partido MPLA.

Embora o actual presidente ainda não tenha confirmado a sua candidatura, o secretário-geral do partido afirmou que José Eduardo dos Santos é o «candidato natural» do partido. Uma vez que o MPLA venceu as legislativas de Setembro com 81 por cento dos votos, espera-se que o resultado das eleições presidenciais de 2009 dê a vitória a José Eduardo dos Santos.

As eleições presidenciais ocorrerão apenas depois de o Parlamento votar com uma nova Constituição, que irá estabelecer se os futuros presidentes serão escolhidos pelo Parlamento ou pelo povo, como acontece actualmente. Se for realmente o Parlamento a escolher o novo presidente é natural que José Eduardo dos Santos seja reeleito uma vez que o seu partido controla dois terços da Assembleia. 

Segundo Alcides Sakala, porta-voz do maior partido da oposição, a UNITA, «o presidente tem que ser eleito pelo povo» e, se for esse o caso, então «Eduardo dos Santos já é o vencedor».

Fonte:(c) PNN Portuguese News Network

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Essa você não vai ler no Jornal de Angola

Dia desses eu entrava num ministério em Luanda e dei de cara com um cartaz de um projeto social. Uma das fotos me pareceu familiar. Fui checar e bingo! Era uma imagem feita por mim e publicada nesta Casa.

Eu ficaria lisonjeado se tivesse sido consultado sobre a utilização da foto. Provavelmente a liberaria sem custos e poderia ter cedido o arquivo em alta resolução. Mas nada disso aconteceu. A foto foi “roubada” do blog sem prévia consulta e publicada em baixa resolução, o que resultou num resultado porco, uma imagem totalmente “pixelizada”. O cartaz em questão foi elaborado por uma consultoria de estrangeiros que certamente cobrou ao ministério não menos de USD 50 mil pela produção.

Esse caso é emblemático do tipo de “consultoria” que alguns expatriados prestam em Angola. Por que o governo não toma providências? Porque os poderosos angolanos são sócios dessa grande mamata.

Alguns estrangeiros que chegaram a Angola ainda no tempo da guerra, quando poucos se aventuravam, fizeram boas amizades no governo e Criaram empresas angolanas com sócios muito importantes no partido ou na família do presidente.

Graças a esses sócios, as empresas conseguem contas importantes dos ministérios, contratos milionários. Prometem consultoria com mão-de-obra especializada. Na prática, trazem poucos profissionais gabaritados pagando salários razoáveis, e um bando de jovens recém-formados ou mão-de-obra rejeitada pelos exigentes mercados de trabalho de seus países. A esses pagam entre USD 1000 e USD 3000 mensais. Como atrativo oferecem casa, passagens aéreas a cada três meses para os países de origem e carro com motorista. Tudo bancado pelos cofres do governo angolano.

Os contratos sempre prometem implantação e treinamento da equipe angolana que tomará conta do projeto depois. Na vida real ninguém ensina nada aos angolanos. Assim, o dono da consultoria perpetua o contrato milionário. É um grande negócio entre amigos.

Enquanto isso, no Jornal de Angola de hoje você pode ler sobre a linha de crédito que Angola vai abrir a Bissau. Tem também uma notícia sobre o aumento do volume de receitas da repartição fiscal do Namibe em 2008.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Ordens são ordens

Aponto minha câmera para a sede do MPLA no Huambo e ouço alguém me chamar. Um homem franzino, rádio-comunicador na mão, se aproxima:

- O senhor não pode tirar foto aqui.
- Por que não?
- Porque esta é uma área de segurança, é preciso autorização.

Eu já havia ouvido falar na dificuldade para fotografar prédios públicos em Luanda, mas nunca sofrera constragimento nas províncias. Ao primeiro homem, junta-se o segundo, mais agressivo:

- Identifique-se.
- Quem é o senhor?
- Mostre o passaporte.
- Eu não sou obrigado a mostrar meu passaporte para qualquer um. O senhor é autoridade?
- Sou polícia. Mostre o passaporte.

Mostro o passaporte.

- Esta é uma área de segurança. O senhor quer tirar fotos por quê?
- Por que sou turista, estou visitando o Huambo e quero fotografar os prédios bonitos da cidade.
- Mas aqui fica o partido, o senhor não pode tirar fotos.
- Do Banco Nacional eu posso tirar fotos?
- Pode.
- E do Palácio do Governador?
- Também. Só não pode tirar daqui.
- E por que aqui seria mais importante do que esses outros? A guerra já acabou, não faz sentido essa proibição. Em todas as províncias eu tiro fotos de todos os prédios, inclusive o do partido, e ninguém nunca reclamou.
- Essa é a ordem que eu recebo. Ordens são ordens. Eu não discuto. Vai ter de apagar as fotos.
- Se o seu superior ordenar que o senhor dê um tiro na própria cabeça, o senhor vai atender?
- Ahn? (com cara de perplexidade).
- Ordens são ordens, foi o que senhor acabou de dizer.
- O senhor está a confundir. Basta apagar as fotos e estará tudo resolvido.
- Vamos fazer o seguinte. Eu apago as fotos, mas o senhor vai lá dentro e explica que eu sou um turista brasileiro. Explica que estou a fotografar a cidade e quero fazer uma foto deste prédio. Se o seu chefe não autorizar, eu vou embora.

O marrento aceitou. Apaguei as fotos, ele mandou o colega entrar para falar com o chefe e cinco minutos depois, recebi um polegar positivo.

P.S. - Questão de semântica. No português do Brasil, barreira tem uma conotação negativa. É algo que impede alguma coisa de acontecer, algo que precisa ser superado, vencido, para que algo bom aconteça. Pelo cartaz acima, plantado na porta da sede pelo próprio MPLA, devo acreditar que a palavra tem um significado diferente por aqui. Ou seriam militantes da Unita infiltrados os responsáveis por essa placa?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sim, nós podemos

Hoje acordei com aquela sensação de ano-novo. Dormi pouco, acompanhando a votação americana, e acordei com aquela injeção de esperança e otimismo que os anos-novos sempre me despertaram. Lá do outro lado do Atlântico, Barack Obama me encheu de entusiasmo.

Mas o que o novo presidente-eleito dos Estados Unidos representa para Angola?

Com seu slogan de campanha ("Yes, we can!"), Obama já conseguiu, antes mesmo de começar a governar, a incrível façanha de convencer as pessoas de que "sim, elas podem". E convenceu pessoas-chave:

-Os negros (americanos e não americanos), de que é possível um mundo onde as cores se misturam e pesam o mesmo na balança das oportunidades;
-Os jovens, de que política é coisa deles sim, e que há um mundo inteiro esperando por eles pra ser mudado.
-Os idealistas, de que sua batalha não está vencida e que a democracia nem sempre serve aos interesses dos poderosos;
-E finalmente a África, que pela primeira se vê representada nos genes e nas preocupações de um presidente americano, de que o continente tem tudo para deixar de ser o patinho feio do mundo.

Obama me emocionou com seu discurso dessa madrugada. Lembrou-nos de como um país deve ir muito além de uma coletividade de individuos. Deve ser uma unidade de pessoas que olham umas para as outras. Lembrou que temos histórias diferentes, mas um mesmo destino. Que enquanto respiramos, temos esperança.

E, principalmente, convocou os americanos e o mundo para um novo espirito de trabalho, baseado na responsabilidade, nas alianças, na esperança, na liberdade e na paz. Espero que o discurso ecoe em Angola, pois este país precisa como ninguém de todos esses valores.

Repito sua pergunta: Que mudanças veremos daqui a 100 anos?

E parafraseio também sua resposta: Cada um de nós é responsável por cada uma dessas mudanças, a cada dia, em cada ato.

Posso ser idealista, mas ainda acredito que a arma mais poderosa que temos é o BOM EXEMPLO. E é de exemplos como Obama que o mundo mais precisa neste momento.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

MPLA arrasa a concorrência*



O gráfico acima, divulgado pela Comissão Nacional Eleitoral de Angola ao meio-dia, mostra a última parcial das eleições legislativas de 2008, que transcorreram livremente, com adesão em massa da população, sem registro de violência ou maiores transgressões comprovadas da lei.

Todos tiveram a chance de votar, mas o resultado mostra que democracia não é apenas ir às urnas fazer um X num papel. A construção dessa idéia é uma coisa lenta, que requer educação universal de qualidade, imprensa livre, liberdade de expressão.

Num pleito com 14 concorrentes, a vitória de um deles com mais de 80% é o tipo de coisa que só acontecia em regimes autoritários como o de Fidel Castro ou da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pra ficar em dois exemplos.

Esse resultado dá ao MPLA o direito de continuar ditando as regras sozinho, como sempre fez, só que agora legitimado pelas urnas. Vai-se mudar a constituição sem espaço para o debate de idéias, vai-se construir novas leis que podem ser melhores para os que estão no poder do que para a totalidade do povo angolano que eles, agora legitimamente, representam.

Quem quis assim foi o povo angolano, que escolheu continuar vivendo sob um regime de partido único. Seja feita a vontade do povo.

Por que o povo angolano escolheu isso? Por medo da volta à guerra? Por influência da propaganda avassaladora veiculada pela mídia estatal e pelas comunicações de obras e "benfeitorias" do governo durante os últimos anos? Por falta de compreensão dos benefícios de um regime com espaço para o debate de idéias?
Eu não sei a resposta. É uma boa questão para uma tese de mestrado.

* O título deste post reproduz a manchete de ontem do Jornal de Angola.

domingo, 7 de setembro de 2008

Última parcial nacional

Ao meio-dia, a parcial da lavada era a seguinte:

MPLA - 81%
Unita - 10%

O pleito teve problemas, sem dúvida, com a prorrogação da votação por um dia por causa da falta de material em algumas assembléias. No geral, porém, correu bem.

A Unita queixa-se de que houve violação da lei eleitoral e apresentou pedido de impugnação, que será julgado pelo Tribunal Constitucional. Alega que metade de seus delegados de fiscalização não foram credenciados pela Comissão Nacional Eleitoral, que faltaram listas de votação nas assembléias de voto e pessoas treinadas para trabalhar nas mesas de votação foram substituídas de última hora por pessoas estranhas ao processo.

Mesmo questionando o processo, diz que a vida continuará normalmente e que o partido exorta os angolanos a manterem a paz, porque outras eleições virão, agora a cada quatro anos.

Usa o seu direito de questionar o processo, mas com uma postura responsável, dentro da lei.

O grande vencedor, até o momento, é o povo angolano.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Se a Casa não fosse só de Luanda

Tive a oportunidade de sair de Luanda e passar esta semana pré-eleições numa província ao norte do país. Aqui a situação me parece um pouco diferente. A pergunta: “E se o MPLA não ganhar?” faz mais sentido.
A palavra que mais ouço nas ruas é: MUDAR.
As pessoas falam com muito gosto que depois destas eleições Angola vai mudar.
Cheguei também a participar de uma conversa na qual o homem que falava comigo chamou um amigo e apontando para mim disse: “ Depois destas eleições estes brancos não vão mais por aqui ficar, isto também vai mudar”. Diante de tamanha sutileza, provavelmente com os olhos arregalados, tentando ainda esconder o medo, respondi: “Sim, agora Angola vai mudar”.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Coisas para lembrar

Até 1990, Angola era um país comunista clássico. Toda a atividade econômica estava nas mãos do Estado, os cidadãos tinham cotas de suprimentos básicos etc. Eu, que fui criado dentro da cultura diferente, sempre associei esse modelo de organização social a uma coisa triste, desesperançada. Se calhar, fruto da propaganda capitalista.

J., o mesmo do post abaixo, viveu o comunismo na infância e tem uma visão bem diferente do que foi aquilo:

"As pessoas eram mais humanas, havia mais afeto mesmo, entre os estranhos. Se eu parasse na estrada, a caminho da escola, logo parava uma viatura e me oferecia uma boléia. Hoje? Iam é me atropelar. Só vais no carro se der algum dinheiro. As pessoas pensam só em si. Naquela altura, tínhamos os sábados vermelhos, onde todos se uniam para fazer a limpeza dos bairros, das ruas, eram momentos em que as pessoas se ajudavam umas às outras. Quase não existiam gatunos, você podia deixar a viatura aberta na rua. Mas, agora que somos uma economia de mercado, todo mundo só pensa em si próprio, em acumular riqueza passando por cima dos outros. Não estou a dizer que aquele modelo económico era melhor, tinha muitas falhas. Mas, do ponto de vista da união entre as pessoas, epá, isto aqui era outro país."

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dois versos em cada cigarro

Eu hoje li uma história escrita por Gabriel García Márquez, depois de se encontrar com Agostinho Neto, em meados de 1976. Não sei é verdadeira. O escritor colombiano a conta como se a tivesse ouvido da boca do herói angolano.

Durante os anos em que ficou preso, Agostinho Neto (para mais referências, leia estes posts sobre a independência e sobre uma polêmica recente) foi proibido de escrever. Ele então compunha seus poemas com letras miúdas, em pequenas tiras de papel, e os escondia enrolados dentro de um cigarro.

Às vezes, só havia dois versos em cada cigarro.

Quando sua esposa, Maria Eugênia, ia visitá-lo, ele lhe oferecia um cigarro. Ela o levava sem acendê-lo, porque sabia que era o dos versos. Em sete anos de cárcere, ele escreveu “Sagrada Esperança”, seu livro de 49 poemas.

Achei que devia reproduzir aqui esta história porque revela muito sobre a forma como este país conquistou a sua liberdade. E porque lembranças desse tipo andam a fazer muita falta nestes tempos entorpecidos de capitalismo selvagem.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Teorias da Conspiração

No início eu achei exagero, quando li neste blog angolano, a suposta existência de um plano secreto para desestabilizar a Unita. Segundo o sítio, claramente contra o MPLA, o governo de angola teria tramado uma série de ações contra os líderes oposicionistas. Para mim era só mais discurso político, que se inflama conforme se aproximam as eleições parlamentares de setembro.

Mas aí hoje deparo-me na rua com uma manchete no Jornal de Angola, o principal do país: "Paiol de morteiros descoberto no Bié". Em letras garrafais no alto da página.

Para os meus critérios jornalísticos, a descoberta de um paiol num país que passou 27 anos em guerra civil já não seria, em si, manchete de capa. Ainda mais se o jornal nem tinha equipe na Província do Bié e a notícia foi tirada da Rádio Nacional. Lá dentro, é praticamente uma nota escondida em duas colunas, num canto. Nem o alto da página 3 mereceu.

Serviu, no entanto, para dizer na capa que a Polícia Nacional acredita se tratar de um antigo paiol das forças militares da Unita. Exatamente como o sítio citado acima previu que aconteceria... Simples coincidência?
Essa briga ainda vai esquentar muito.