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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A misteriosas casas do deserto

Depois de almoçar um bacalhau mergulhado em azeite no Namibe, decidimos esticar mais 90 quilômetros até Tombua, antigo Porto Alexandre. É uma cidade ao sul do Namibe que foi um importante porto pesqueiro no período colonial. Hoje está em ruínas, com antigos prédios deteriorados e realmente pouca coisa para se ver.
No caminho, cercado por dunas, cruzamos alguns pequenos povoados. Há também um oásis. De novo nos fez falta a Dorotéia e lá não fomos capazes de chegar.
Mas o que mais nos intrigou, sem dúvida, foram as misteriosas casas em ruínas, famosas como Casas dos Cantoneiros, seja lá o que isso quer dizer.

Ao longo da estrada, a cada vinte e poucos quilômetros, aproximadamente, cruzávamos com uma dessas casas sem telhados, só as paredes antigas a resistir aos ventos de areia do deserto.

Alguns dizem que eram antigas lojas ali instaladas pelo governo colonial para povoar o caminho. Com a independência, acabaram abandonadas pelos antigos moradores. A guerra que começou em seguida desestimulou novos moradores de se instalarem em lugar tão ermo.

Continuam lá, a resistir às dunas que já tomaram até a entrada do cemitério de Tombua.

Moçamedes era o antigo do nome do Namibe, no tempo colonial


No caminho, cruzamos com essa árvore saída diretamente do filme "História Sem Fim"para o deserto do Namibe

sábado, 15 de novembro de 2008

Um pulinho no Namibe

Atendendo às sugestões dos leitores FC e Patyfendes, decidimos enfrentar as curvas da Serra da Leba a caminho do misterioso Namibe.

A estrada é uma delícia, com poucos caminhões e vistas lindíssimas. Tanto no trecho verde do altiplano, quanto na zona árida do famoso deserto.


Chegando ao Namibe, fomos dar direto na orla, de onde se vê um porto movimentado. Como nos avisaram, este não é o melhor lugar para fazer praia.

Paramos para almoçar, curtindo a brisa fresca no rosto em um dos bons restaurantes instalados de frente para o mar.

A cidade é pacata, bem cuidada, mas as melhores praias, como nos ensinaram, ficam fora dali. Pega-se a estrada para o sul, em direção ao Tombwa, ou para o norte. Só que aí é preciso encarar trilhas pelo meio do deserto e, desta vez, infelizmente, Dorotéia não nos fazia companhia.

Sem casa para nos hospedar e sem Dorotéia para nos guiar até as praias – que dizem ser pequenos pedaços do paraíso na terra -, nos contentamos com o deserto na janela.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A serpente no morro


Esta estrada é passagem obrigatória para quem vai de Lubango para o Namibe. São apenas três quilômetros de curvas fechadas. Seu desenho lembra uma cobra a se arrastar montanha acima.

Construída no tempo da colônia, a estrada foi reparada recentemente e está ótima. Para vislumbrar sua beleza, entre no desvio onde há uma placa indicando “estaleiro”. Lá, você vai encontrar um restaurante honesto e o mirante para a Serra da Leba.

Encontro com Mumuílas

Era um passeio sem maiores pretensões até Chibia, município a 42 quilômetros de Lubango. Com a estrada reparada recentemente, um pulinho.

A área urbana é pouco mais do que uma cidade pendurada numa estrada, embora já existam por ali algumas casas novas, vistosas, sedes de direções municipais. Mas aí esticamos até Havailo, uma comunidade rural cerca de oito quilômetros a frente. E foi lá que as encontrei, as mulheres da tribo dos Mumuílas.

Elas usam adereços de miçangas e panos coloridos na cintura. Não cobrem o peito. Enfeitam os cabelos com uma pasta feita a partir da mistura de gordura do leite com cascas e sementes de algumas árvores.

Diz-me a senhora que nos acompanha que elas fazem isso para evitar os piolhos, já que não lavam a cabeça.

Não tenho como confirmar a história, porque nenhuma mulher Mumuíla fala a minha língua, nem eu a delas. Só sei que foi muito giro esse encontro inesperado com um povo que ainda sabe preservar tão bem a sua cultura.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Muitos cinemas, nenhum filme

Júnior é brasileiro, mora em Angola há 11 anos. Aqui casou-se com uma luso-angolana e no ano passado mudou-se para Lubango.

Fotógrafo e documentarista, o sogro de Júnior mantém um complexo cultural na capital da Huíla, onde funcionam um bar, uma pista de autorama e um sala de cinema para 82 pessoas.

A sala de cinema, infelizmente, está fechada. Falta público. “Chegamos e enviar 200 convites chamando as pessoas para assistirem filmes de graça”, lembra Júnior. “Voltaram 27. Por isso fechamos a sala. O povo aqui não tem o hábito do cinema.”

A cidade já teve lugar na cena cultural. Funcionavam aqui o Cine Odeon e o Cine-Teatro Arco-Íris, essa jóia da arquitetura dos anos 50, que está na foto abaixo.
O Odeon virou templo da Universal do Reino de Deus. O Arco-Íris está fechado, corroendo-se nas lembranças do tempo em que o arco da fachada era iluminado por lâmpadas de néon nas sete cores do fenômeno de refração da luz.

E o cinema do sogro de Júnior? Terá futuro? “Estamos estudando a construção de um hotel no lugar”, admite o brasileiro. “Mas ainda não tem nada certo.”

A fenda da Tundavala

Um dos pontos turísticos a se visitar em Lubango é a Tundavala. Localizado nas montanhas ao redor da cidade, o sítio tem águas muito boas – e é delas que se fabrica a cerveja N’Gola, premiada na Bélgica pela qualidade.

As estradas de chão podem ser vencidas com um carro de passeio, mas um 4x4 cai melhor para o terreno que você vai ter de enfrentar.

A paisagem verde no caminho é uma introdução para o que promete o horizonte que se divisa da fenda, um despenhadeiro famoso que atrai muitos turistas.

Fomos até lá cheios de curiosidade, vencendo as dificuldades da estrada – que é longa. Mas as nuvens chegaram antes de nós.

E tudo o que conseguimos ver, além do grupo de jovens que fazia um retiro religioso no local, foi um paredão de nuvens.

Dica: leve agasalhos, porque venta muito e faz frio por estes lados.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Braços abertos sobre o Lubango

Do alto da montanha, ele vê o verde da Huíla e as casinhas pequeninas lá embaixo. Divisa as montanhas imponentes que limitam os horizontes de seus irmãos a transitar sossegados pelas ruas calmas de Lubango.

Ele não freqüenta a praça central, onde estão o Governo Provincial, a sede do Partido e o Banco Nacional, todos assistidos pelo busto de Agostinho Neto.

Também nunca entrou no Shopping Millennium, templo construído há pouco tempo, onde os frequentadores expiam os pecados rendendo tributo ao consumo.

Prefere a tranquilidade da igrejinha de Palanca, ali perto da sua morada mesmo.

Nunca se hospedou no Grande Hotel da Huíla, embora ainda se lembre de quando ele começou a ser construído, em 1938. As fundações levaram dez anos para ficar prontas, só então começaram a subir as paredes dos salões, a piscina. Mas os primeiros hóspedes só puderam inaugurar os 78 quartos muito depois, nos anos 50.

O ar europeu dos salões do Huíla Café, que o homenageiam com uma foto, também jamais experimentou.

Gosta muito de estar ali, no alto, a assistir tudo. Se fosse se queixar de algo, seria apenas do vento e das noites frias de inverno. Não pode sequer cruzar os braços para se aquecer. Afinal, de braços fechados, ele deixaria de ser o Cristo-Rei de Lubango.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Duas Sumbes

Banco na beira da praia, ideal para relaxar tomando uma brisa fresca
Ela é uma capital de província com jeitão de cidadezinha do interior. As ruas são seguras, apesar de escuras à noite, e não há trânsito pesado. Ninguém tem água encanada. Todos são abastecidos por caminhões que enchem seus tanques diretamente no rio. Não se sabe quantos habitantes tem, mas não podem ser muitos, pelo menos na Sumbe colonial. Sim, porque existem duas Sumbes no Kwanza Sul.

O parque dos Namorados, na descida do morro...
...que separa a cidade da praia

Uma é formada pelas antigas construções deixadas pelos portugueses, muito bonitas e bem cuidadas, mas em número reduzido.
A sede do governo provincial, de frente para o mar
Ruas limpas e tranquilas, sem trânsito, típicas das cidades pequenas
Os fundos do governo provincial, a partir do morro que separa a praia do resto da cidade

Estão lá, na marginal com um calçadão repleto de palmeiras, onde ficam três bons (e um decadente) restaurantes, e no centro que vem passando por renovação.
Árvores com flores à beira-mar...
A marginal ladeada por palmeiras...
A entrada de um dos restaurantes fiches da marginal
Existem quatro opções de hotel e, como no resto de Angola (com exceção de Lobito), nada tão excepcional em termos de qualidade, apesar dos preços serem compatíveis com os das melhores redes hoteleiras internacionais. Uma noite em qualquer um dos quatro hotéis do Sumbe custa USD 150.
O Ritz Hotel: preço de cidade grande
A praia é mesmo bonita, a cor do mar no fim de tarde é impagável. Mas nem todos têm coragem de se aventurar nesse azul profundo, porque também não existem redes de esgoto em Sumbe, então, parece que a água é meio suja. Não posso afirmar, porque decidi ser cauteloso.
A praia é fiche, mas há dúvidas sobre a qualidade da água
Tomar sol é tranquilo, o problema é entrar na água depois

A outra Sumbe é a que mora nas casas de tijolos marrons, feitos da terra local e que se confunde com as montanhas em que está encarrapitada. É mais frenética do que a Sumbe dos cartões postais, mas como é da mesma cor da montanha, se confunde com a paisagem.



As casa feitas de tijolos de barro já viraram paisagem

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dona Fina


Dona Fina Calumbo não sabe quantos anos tem. Nunca comemorou um aniversário, porque não conhece o dia do seu nascimento. "Já vivi muito tempo, minha filha", explica, sem ligar para datas.

Ironicamente, ela dedica sua vida aos nascimentos. Parteira tradicional há muito, muito tempo ("não sei falar em anos, minha filha..."), faz de 10 a 12 partos por mês. Eu, com minha mania ocidental de transformar tudo em números, faço uma conta rápida e concluo que ela já deve ter trazido ao mundo mais de 4 mil bebês (chutando por baixo...).

Moradora de um bairro rural na periferia de Saurimo, na Lunda Sul, Dona Fina acorda cedo para ir à lavra. Às vezes nem bem chegou de volta à casa já tem uma grávida esperando para dar a luz. E aí, Dona Fina? "Aí lavo as mãos, boto um pano na cabeça, faço uma oração e vou. Estou sempre pronta, essa é minha missão.

Até o ano passado, ela e as outras dezenas de parteiras tradicionais da região recebiam luvas, sabão e bacia para garantir a higiene do parto e protegê-las contra o HIV e outras doenças. A ONG que patrocinava esse projeto saiu de Saurimo em 2007 e desde então as parteiras tem de arriscar suas próprias vidas ao fazer seu trabalho. O governo diz que não tem dinheiro para continuar o projeto, mesmo sabendo que as parteiras são responsáveis por mais de 90% dos partos da região.

Dona Fina não desiste. Segue confiando nas mãos lavadas, no pano na cabeça e na oração. E assim vai criando aniversários, sem nunca ter comemorado o seu.