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sábado, 11 de setembro de 2010

A Casa de Luanda está em festa!


Chegou às 22h16 do dia 29, com 3,5 kg, olhos abertos a investigar o mundo, 51,5 cm de altura, se é que se pode dizer assim..

Chama-se L., filho dos nossos queridos F. e P., o maior novo morador da Casa de Luanda, sobrinho de todos os titios babões espalhados pelo Brasil.

Que Deus o proteja.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Meu amor por São Paulo

Todos que me conhecem, especialmente os amigos que fiz e com quem morei em Luanda, sabem que minha sina é morar longe, muito longe. Hoje, estou num extremo do Brasil, completamente morto de saudades das duas São Paulo - a de Luanda e a de Piratininga. Um inferno viver assim.
Ontem a revista Wallpaper divulgou o vídeo abaixo, que compartilho com os leitores da Casa. Trata-se de uma excelente radiografia da São Paulo brasileira, onde vivi por 8 anos até me mudar para a outra, onde vivi por apenas seis meses, que valeram pelos oito, talvez...
Quem, de Angola ou de outro país nunca veio ao Brasil, ou a São Paulo, não sabe o que está perdendo. É um lugar fantástico.

PS: Sim, Migas, graças a Deus a capital do teu país não se chama São Paulo de Lisboa, senão eu estaria fo-**-do.

http://link.brightcove.com/services/player/bcpid66631060001?bctid=207544211001

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mais uma Ponte entre Brasil e Angola


Amigos de Luanda!
Quem tem saudade de Angola põe o dedo aqui, que já vai fe-fe-fe-char!

Então, como vcs sabem, eu morro de saudade daquele lugar maluco e, desde que voltei, estou convencida de que há muito para falar e fazer para estreitar as relações entre o Brasil e alguns países africanos.

Aí, comecei a juntar outras pessoas que também têm essa mesma convicção e, juntos, criamos o tás a ver?, um coletivo multimídia que cria e executa projetos que estreitam os laços entre o Brasil e países africanos. O Filete, inclusive, entrou nessa minha maluquice e, mesmo estando na FSP, tb anda presente por aqui.

Acabamos de lançar nosso novo site, que ta super lindo e super cheio de coisas legais. Esse será um site-blog, em que postaremos referências que achamos bacanas. Gostaria mto que vcs entrassem, virassem leitores, mandasem suas contribuições sempre que tiverem vontade e se engajassem nos projetos que vcs tenham vontade! E é sério: quem tiver vontade de criar algum projeto, de desenvolver algum trabalho, de dar pitaco, as portas estão sempre abertas e eu to sempre disposta a conversar!

Bem na home tem o link pra assistir ao teaser do documentário.
E tb tem o link pra assistir um vídeo de 15 minutos que eu produzi em Salvador, junto com a galera que vai filmar comigo, sobre o lançamento da exposição Luanda Suave e Frenética.


Estamos juntos!

beijos,

Juliana Borges
www.tasaver.org

domingo, 18 de julho de 2010

O maior Kylapeiro do Brasil

ORA, POIS
O ator Lázaro Ramos embarca hoje para Portugal. Fica até o final de agosto para filmar "O Grande Kilapy", longa do cineasta angolano Zezé Gamboa. Volta para lançar seu livro infantil, "A Velha Sentada", em setembro.

PS: quer saber o que é um Kilapeiro? Casa de Luanda já explicou, aqui

terça-feira, 22 de junho de 2010

O Kudoro chegou à Bahia

O Kuduro, ritmo angolano por excelência, atravessou o Atlántico (como menos intensidade com que chegou à Lisboa, é verdade) e domina Salvador. Vejam que gracinha esse bailarinho mirim.Te cuidam, kuduristas da Chicala ou Sambizanga ou ainda do Prenda.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Luanda encontra-se em Salvador


Não há mais como separar Brasil e Angola, isso é um fato, cada vez mais evidente. A partir da próxima segunda-feira, tem lugar em Salvador, capital da Bahia - justamente a cidade que recebeu aproximadamente 4,5 milhões de angolanos na "altura" da "escravatura - uma exposição esplendorosa de arte africana, cujo convite é publicado acima (clique na imagem para ampliá-la). Leitores da Casa de Luanda na Bahia façam o favor de visitá-la.

sábado, 1 de maio de 2010

O meu reencontro (literário) com Angola

A Marginal e a baía de Luanda sob a luz do Cacimbo: saudades imensas

Neste dia Internacional do Trabalho, volto à esta Casa, também motivado pela postagem da querida Migas, para contar a vocês um episódio que vivi ontem - e ele revelador de como, para sempre, Angola e suas histórias estarão ligadas a minha pessoa, não tem mais jeito.

Teve lugar em Natal, entre quarta-feira e ontem, o I Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, reunindo artifícies desse idioma que nos une em 10 países.

Escritores e leitores de 8 países lusófonos confraternizam no Teatro Alberto Maranhão

Foi um encontro muito, muito fixe, para usar uma expressão aí desse lado do Atlântico.

Esse evento é um dos primeiros frutos concretos da I Semana de Natal em Lisboa e, na sequência, de Lisboa em Natal, ocorrida no ano passado e narrada aqui e aqui. Das duas semanas de visitas mútas surgiu a Associação Cultural de Amizade Lisboa/Natal. Minha cidade entrou para a União das Cidades-Capitais de Língua Portuguesa (mais informações aqui), como Luanda e outras capitais africanas já são há um bom tempo. Salvador é outra representante do lado de cá.

Vista aérea de Natal, a partir da praia de Areira Preta: jóia do Atlântico na esquina do Brasil

Veio toda a gente de todos os países lusófonos para Natal e a minha cidade transformou-se, por três dias, na capital internacional da Língua Portugesa: Brasil, Portugal, Angola, Guine-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Timor Leste.

Foi, para mim e para a gente da minha terra, motivo de muito orgulho receber tantos irmãos e, em particular para este datilógrafo, um motivo de honra fazer parte de uma mesa ontem onde estiveram, ao mesmo tempo, dois dos maiores representantes das letras angolanas contemporâneas: Ondjaki e José Eduardo Agualusa. Tudo isso aconteceu ontem e o registro fotográfico, espalhados neste post, são do meu amigo e fotógrafo Canindé Soares.

Com o Agualusa, o reencontro foi mais para o sentimental. Eu já havia conhecido-o na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, como palestrante, e depois pessoalmente em São Paulo, um dia antes de embarcar para Luanda, em 2008. Na ocasião, ele palestrava numa livraria deliciosa do meu antigo bairro paulistano, a Vila Madalena, com outra fera angolana: o Pepetela.

Li As Mulheres do Meu Pai no avião rumo à África, estou avançando nas páginas de Barroco Tropical (tão bem resenhado aqui pela Cota Maria aqui) e, brindando os presentes ao encontro, Agualusa leu um trecho inédito do seu próximo livro, cujo ponto final foi colocado no avião ao vir para cá. A curiosidade já me tomou de assalto. Para além dos livros de história, foi na literatura angolana que entendi muito desta terra, como também relatei aqui.

Já com o Ondjaki, de quem ainda não li nada, valeu a pena somento ouvir, ouvir como quem consome um bom vinho, aquele sotaque tipicamente luandense, pausado, cadenciado, enfático, até certo ponto agressivo, mas muito, muito luandense, tanto quanto as dezenas de amigos que fiz nesta cidade. Vou procurar hoje mesmo um livro do jovem escritor, que também vive no Rio de Janeiro.

O kamba, se assim posso chamá-lo, foi de uma simpatia incrível ao narrar casos de família e suas relações com a internet (como é diferente o jeito que os angolanos pronunciam "internet". Por outro lado, da mesa também surgiram tiradas engraçadas ao lembrarmos como, dos dois lados do Atlântico, a língua pode até ser a mesma, mas algumas coisas são difícies de serem entendidas sem o fundamental Pequeno Dicionário Angolano que esta Casa vem compilando desde que nasceu - e um dos motivos do seu sucesso.

Por fim, e aqui vai uma nota triste, queria deixar registrado o meu desejo - também o dele! - de ter tido aqui em Natal, neste encontro, o Fernando Baião, um dos moradores desta Casa que nos mês passado fez sua viagem última rumo á Casa do Pai. Fernando, você, de onde estiver, esteve conosco em pensamento.

Da Associação Cultural de Amizade Lisboa/Natal, presidido pelo senhor Carlos Marques, criada no ano passado, surgiu este encontro, cuja segunda edição já tem data marcada: 26, 27 e 28 de abril de 2011. Que venham muitos mais escritores africanos, portugueses, timorenses e brasileiros para cá, como forma de estarmos cada vez mais irmanados nessa coisa única, maravilhosa e gostosa que é ser um falante de Língua Portuguesa.

Em breve, darei aqui notícias de como vocês vão assistir, no conforto do seu lar, um resumo do que foi esse EELP em Natal.

Nota final: por estes dias, como se um ciclo mágico de reencontros com Angola se reatasse, "aterrou" em Luanda a nossa querida Ju, uma das brasileiras que mais conhece essa gente e essa terra. Na ocasião do EELP, li para a platéia um email que ela me mandou, no exato momento da palestra, contando sua emoção de rever Luanda. Uma pérola literária. O teatro Alberto Maranhão veio abaixo em palmas.

É hora, portanto, desse blog viver a efervecência diária de 2008.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O dia em que Maysa cantou em Angola

Uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos chamou-se Maysa. Ela cantou, como ninguém, com sua voz única, a tristeza, os amores mal resolvidos, a "fossa", sentimento do qual ganhou o título de musa. Era uma fadista da época do bolero e nascimento da Bossa Nova. Nada pode ser mais triste - e mais bonito - nesse mundo do que ouvir Maysa cantar Ne me quitte pas, canção que, depois que ela executou no Olympia, em Paris, ninguém nunca mais lembrou que um dia tivesse sido cantada por Jacques Brel.

Pois bem, por esses dias, assisti à minissérie que a TV Globo levou ao ar sobre a cantora "na altura" em que arrumava as malas para deixar Luanda, em janeiro desse ano. Um ano antes, tinha lido a biogafia Maysa, Só Numa Multidão de Amores (Ed. Globo), escrita pelo querido amigo, jornalista cearense Lyra Neto.

Pois não é que Maysa apresentou-se em várias cidades de Angola, em fevereiro de 1969? Eu tinha esquecido esse detalhe, até que a minissérie me reavivou a memória e fiquei imaginando: como terá sido isso?

Contactei o autor do livro e ele me autorizou a publicar o trecho que conta a passagem de Maysa por Luanda e pelo Lobito. Meu Deus!, quão revelador é o trecho, sobre vários aspectos: como a elite angolana se divertia, como os brasileiros nunca sabem mesmo nada de Angola e como a imprensa daquela época noticiou o fato.

Leiam com carinho o trecho abaixo. Para além do estilo delicioso do autor, trata-se de um panorama monumental da Angola de 1969, cinco anos antes de tudo mudar, para sempre. E, como cantava Maysa, talvez sem saber, para os "retornados", "O Meu Mundo Caiu..."

No final daquele ano, ainda em Lisboa, Maysa foi convidada para uma experiência inédita em sua carreira: cantar na África acompanhada do Thilo’s Combo, o grupo musical lusitano que estava fazendo uma revolução musical na terra do fado, agregando elementos do jazz e da Bossa Nova às sonoridades locais. O cachê não era lá grande coisa, mas ela não estava em condições de exigir seu peso em ouro. Durante um mês, de meados de janeiro até a segunda quinzena de fevereiro de 1969, enfrentaria uma maratona de shows em boates, teatros e clubes de Angola. “Em breve, teremos a magnífica cançonetista que o Brasil perdeu”, festejou o jornal angolano O Comércio.

Ao descer do avião da tap em Luanda e ser indagada sobre o que esperava do público africano, foi bem sincera: “Não tenho a mínima idéia. Não conheço a África nem sei muito sobre o seu povo”. A respeito disso, Maysa calculou que ela e os africanos estariam mais ou menos empatados. Eles também não deveriam saber nada sobre aquela cantora brasileira que colocava os pés pela primeira vez no continente. A desconfiança cresceu quando, ainda no aeroporto, precisou explicar a um jornalista do Diário de Luanda que os estilos da Bossa Nova e do iê-iê-iê, dos quais ele ouvira falar vagamente, não tinham nada a ver um com o outro.

Mas o repórter é que estava mal informado. Por força da influência econômica e cultural da metrópole sobre a colônia – Angola só conquistaria a independência de Portugal seis anos depois, em 1975 – os luandenses sabiam, sim, quem era Maysa. Tanto que, duas semanas antes da chegada, ela era capa da revista Notícia, principal publicação do país e que vivia sob a mira da rígida censura angolana. “Maysa vem a Luanda”, dizia a chamada. Lá dentro, uma entrevista feita pela jornalista Edite Soeiro, a primeira mulher a exercer a profissão no país, constantemente convocada para prestar esclarecimentos aos censores, por causa dos textos que escrevia e das calças compridas que teimava em usar.

Edite entrevistou a cantora em Lisboa, quando a turnê em Angola foi confirmada. Sem dúvida, as duas se entenderam bem, pois a conversa rendeu oito páginas da revista. Incentivada pela jornalista, Maysa soltou o verbo: “Canto para botar pra fora o que tenho dentro de mim. Explico: ‘Botar pra fora’ é uma expressão feia, mas que se usa muito lá no Brasil. Tudo bem, posso substituí-la por outra, mais fácil de entender por aqui: vomitar. Canto para vomitar todas as coisas que estão em mim, que me saem pelos olhos, pelos dedos, pela boca”.

Se soubesse da repercussão que teria a turnê no país, em vez de providenciar uma mala extra para guardar recortes de jornal, Maysa teria levado a Angola um contêiner. Depois de cantar com casa cheia no Cine Avis, de Luanda, viajou 740 quilômetros ao sul, por terra, até chegar em Lobito, onde se apresentou em outro cinema apinhado de gente, o Flamingo. O sucesso foi tão grande que os luandenses mandaram-na chamar de volta, agora para atuar em um cine ao ar livre, na periferia da cidade. O N’Gola, que cobrava preços populares, transbordou de gente que queria ver Maysa. “A seu jeito, o público do N’Gola é exigente. Assobia, pateia e grita quando não gosta do que está vendo”, advertiu o jornal O Comércio. “Esperamos que o subúrbio compareça em força neste encontro que o porá frente a frente com um dos expoentes máximos da canção brasileira”.

Maysa gelou. Temeu que se repetissem ali as cenas do Maracanãzinho e se preparou para o pior. Mas foi aplaudida calorosamente. “A assistência entusiasmada obrigou-a a ficar um pouco mais e a aplaudiu de pé, fato inédito naquela casa de espetáculo suburbana”, registrou a revista Noite e Dia, de Luanda. Maysa ficou sensibilizada ao ver que, ao contrário do que ocorria com o público dos festivais no Brasil e das boates de luxo de Copacabana, os freqüentadores do cine N’Gola, mais habituados a assistir a comédias pastelões e filmes baratos de capa-e-espada, faziam um respeitoso silêncio enquanto ela cantava. “Se é verdade que a cidade gostou de Maysa, a cançonetista parece ter-se deixado enamorar pela cidade”, disse o Diário de Luanda na edição de 12 de janeiro de 1969, dia da sua última apresentação no país. “O adeus desta noite poderá significar apenas um até breve. Oxalá assim aconteça”, desejou o jornal.

Contudo, Maysa nunca mais voltaria à África. Não só isso. Até mesmo seus dias de Europa estavam contados. Ela só retornaria a Madri rapidamente, para cobrir os móveis de casa com lençóis brancos. Por obra do acaso, um encontro que tivera em Lisboa, antes da viagem a Angola, seria responsável por mais uma reviravolta em sua vida.


Lyra Neto, in Maysa, Só Numa Multidão de Amores, Ed. Globo, São Paulo, 2007


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fernando Baião é um cara muito giro

E então finalmente nos encontramos, no bar do Hotel Fasano, em São Paulo, no final da tarde da quinta-feira, 20, a mesma em que um dilúvio desabou sobre a megalópole e chegou até a faltar eletricidade em alguns pontos da maior cidade brasileira…

Fernando Baião, morador dessa Casa, dono desse texto que me chamou a atenção na primeira vez em que bati os olhos, autor da belezura de livro recém-lançado em Lisboa cuja capa reproduzo acima. Sobre o livro em si, que vou falar mais ao fim do post, só queria dizer por hora que li todo em menos de três horas, no avião, de tão eletrizante que é…

Mas vamos ao Baião. E aqui não vai nenhuma rasgação de seda, especialmente porque os amigos sabem a pessoa grossa e mal educada que sou. Pessoa queridíssima, parece que já o conhecia há anos. Dono de uma cabeça, uma memória sobre Angola e Brasil, um repertório cultural e uma simplicidade que poucas vezes vi em figuras muitas por aí… apesar do momento pessoal por que passa, carrega consigo uma alegria que valha-me Deus.

Engraçada essa coisa de ter um amigo virtual e depois ir conhecê-lo pessoalmente. Há meses, planejávamos nos encontrar, Fernando Baião e eu, além de toda a malta de personagens que circunda esse blog, nomeadamente o F., a Branquela, a Ju, o Candongueiro, o Greg, e o Zé, que está lá em Maputo.

Pois dessa vez deu certo: na mesma cidade e na mesma data, pudemos passar mais de três horas – isso mesmo, três horas – de frente um pro outro, com um copo de água tônica a nos separar, falando da vida, desse blog, dos encontros e desencontros, do que é o Brasil com e sem Angola e Angola com e sem o Brasil. Estava acompanhado do filhote que acabara de fazer anos e da esposa que, olhem só, mora na mesma rua onde um dia morei.

Há coisa de dois meses, ele havia me mandado Kimalanga, como relatei aqui. Levei o livro para São Paulo para mostrar que estava lendo mesmo e ele me presenteou com mais quatro: um para o A.M., leitor fiel desse blog, órfão de Luanda depois de três anos, que também agora vive em SP e que também encontrei, numa noite memorável, o Alex, o Fernando Alvim, outra figura querida que estava em São Paulo e não encontrei, por força de agendas e dessa cidade tão grande, tão intensa.

Um homem de letras, é isso que o Baião é. Nada de ecomista ou coisa que o valha ligada a números.

Kimalanga conta a história de Zé Paulino (olha só!, João!), um angolano de meia idade que ficou mbaku, impotente, broxa mesmo como a gente diz no Brasil. O pau não subia mais, de jeito nenhum, tivesse ele a catorzinha que tivesse na cama. Numa luta desenfreada para fazer seu Zezinho voltar à ativa, o homem recorre a Pau de Cabinda, vai à Londres e Àfrica do Sul em busca de tratamento, ensaia vir ao Brasil procurar pai-de-santo…até que…

Como pano de fundo, uma narrativa telúrica, adocicada, bem humorada e antes de mais nada realista sobre o que é tornar-se homem de negócios em Angola depois da gerra de libertação, da guerra civil toda, da pacificação e, claro, conviver com a corrupção, a propina, o luxo e o lixo de Luanda, a falta de perspectiva de alguns jovens, a vida e a morte, a sobrevivência e, claro, o amor. O livro, no meu entender, é antes de mais nada sobre o amor de Paulino por sua esposa, uma senhora gorda de mais de 100 quilos que passa o dia no sofá, vendo novelas brasileiras e tomando cerveja. Imensa, rotunda, praticamente uma Wilza Carla do Largo da Maianga.

Paulino, apelidado de Kimalanga (hiena, como explica o autor num pequeno dicionário ao final do livro), é para muito além do simples animal com seus instintos primitivos, é um personagem ao qual a gente se apega, que faz e desfaz, que filosofa, que a gente pensa que vai prum lado e depois vai para outro… e, no final, o Baião…ah, o Baião, se te pego de novo por aí…

Imaginem o que é um homem angolano ficar impotente, minha gente!

Esse relato parte, em certa medida, do mesmo mote de Predadores, de Pepetela, comentado aqui. Mais gostoso talvez porque menos despretencioso, uma literatura feita não para marcar um tempo histórico, mas retratar os hábitos culturais de um povo que nasce, cresce, descobre a sexualidade, casa, tem filhos, morre e “vai a enterrar” comemorando a vida. É isso que o angolano faz, todo o tempo, como pude comprovar vivendo em Luanda durante seis meses e no encontro de três horas como o agora amigo de carne e osso Fernando Baião.

Eu não sei como nem com ajuda de quem (porque o livro ainda tem problemas seriíssimos de distribuição em Luanda), mas você tem que lê-lo A-GO-RA!, como diria um jornalista acolá.

O próximo encontro já está pré-marcado: deve ocorrer numa cafeteria qualquer de Lisboa, no Três em Um da Antônio Barroso, no Hotel Fasano, de novo, ou na cidade dos Reis Magos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Próxima reunião de Condomínio...



E está chegando a hora...
No próximo final de semana, em São Paulo, não a de Luanda, mas a de Piratininga, quase todos os moradores da Casa vão se reunir, incluindo o Baião, vivas!, e todos que moram do lado de cá. Muitas lembranças, certamente, surgirão, aqui e acolá, daqui.
Um skyline de São Paulo, da minha antiga janela, está abaixo. Devemos ser muito loucos mesmo para amarmos essa cidade....Menina de Angola, prepare os lenços para chorar...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Xuxa fará show em Angola em outubro e mobiliza aspirantes a atrizes em filme sobre feiurinha


O sonho dos angolanos em ter um show de Xuxa será realizado. A "rainha dos baixinhos" se apresenta junto com o cantor local de maior sucesso, Maya Cool, no dia 10 de outubro, na festa da Amizade Brasil-Angola. O mestre de cerimônia será, pelo segundo ano, o apresentador Luciano Huck.

Agora vem a melhor parte disso tudo:

O programa ‘Revista África’, da TV Globo, acompanhará, durante todo o mês de agosto, a disputa de duas angolanas ao papel de fada no filme “Xuxa e o mistério da Feiurinha”, de Tizuka Yamazaki, diretora de outros filmes da apresentadora como “Xuxa Popstar” e “Xuxa Requebra”.

No programa que irá ao ar esta semana, dia 01, uma reportagem mostrará os primeiros dias das atrizes no Rio de Janeiro, onde estão para fazer os testes, e o encontro emocionado com a apresentadora.

No dia 8 de agosto, será exibida a reunião do elenco para as leituras do texto do filme. Já no dia 15 de agosto, o programa mostrará um making of do “TV Xuxa”, e fará suspense com o nome da vencedora, que será anunciado no “Revista África” da semana seguinte, 22 de agosto. Só então os telespectadores verão a volta da escolhida a Angola e a festa que os amigos farão para recepcioná-la.

A TV Globo Internacional exibe o “Revista África” todos os sábados, logo após o “Jornal Hoje”.


terça-feira, 28 de julho de 2009

O mundo virá abaixo, certamente...

...porque vocês não fazem a menor idéia de quem será a atração musical do show do Dia da Amizade Brasil-Angola, em novembro...

domingo, 19 de julho de 2009

"Somo todos farinha do mesmo saco"


Como tínhamos dito aqui, começou há um mês um intercâmbio muito interessante entre Natal, onde moro hoje, e Lisboa. Desde sábado, os portugueses estão por aqui retribuindo a visita que a comitiva potiguar fez à "Tuga" no final de junho.

Dentro da programação, ontem aconteceu um show maravilhoso com Carminho, uma das novas vozes desse gênero musical tão triste e tão bonito que é o fado. Dizem que é preciso ter mais de 40 anos e ter sofrido uma grande decepção amorosa para cantar o fado, mas Carminho quebrou todas essas regras, pelo visto. Tem apenas 24 anos e no quesito voz é um assombro. Aqui você pode vê-la cantando a lindíssima “Marcha de Alfama”.

Completaram o show o magistral saxofonista Carlos Martins, cuja versão de “Maio Maduro Maio” arrancou lágrimas de um certo revolucionário amigo meu que estava na platéia e trabalhava pra RTP quando da libertação de Lisboa e Luanda e – como não dá mais para falar de Brasil e Portugal sem falar da África – colocou os pés do lado de cá pela primeira vez junto com a comitiva de tugas a caboverdiana Nancy Vieira, que mandou embora toda a chuva que caía em Natal há dias com seu vozeirão ao entar mornas, coladeiras e batuques, nomeadamente o lindíssimo “Vadú”, que encerrou o show.

Tudo isso vem à guiza de introdução para falar de Mário Ivo, um jornalista potiguar que conheci em janeiro e que me concedeu a honra de publicar, em dois sábados seguidos, um “pequeno dicionário” com cerca de 15 verbetes tentando explicar para quem está do lado de cá o que é Angola (tal qual aquele que causou tanta polêmica aqui no blog por causa do verbete "portugueses"). No final, Mário, que batizou essa sessão de “Adivinhe quem vem para o café-da-manhã”, amarrou as pontas de tudo e, brilhantemente resumiu Brasil, África e Portugal com um ditado popular que não deve ser só brasileiro: “somos tudo farinha do mesmo saco”.

Dono de um texto elegantíssimo, ele publicou dia desses a crônica abaixo, sobre Lisboa, e me autorizou a reproduzi-la no blog, para deleite de quem vive nessa ponte aérea e sentimental, saudosista e reflexiva, de amor e ódio para com as duas cidades (Luanda e Lisboa) e que, nos momentos mais difíceis, só precisam lembrar disso: “somos farinha do mesmo saco”. As fotos são todas deste datilógrafo, feitas quando da última "aterragem" por lá. Para acompanhar a leitura, que tal ouvir Amália Rodrigues cantando "Uma Casa Portuguesa" nesse videoclipe cafonérrimo e, por isso mesmo, maravilhoso?

***

Embriaguez em Lisboa, Mário Ivo Cavalcanti

Nunca dei muita importância à Lisboa. Me pareceu mais interessante vista do alto, ou quando, pousados os pés na pista do aeroporto, manhã outonal de mil e novecentos e muitas décadas, ainda não tinha meus pés pousados realmente nela.

Depois, aquela profusão de praças, carros, ônibus – atulhando a visão. Diante de Madri, que eu só conheceria depois, Lisboa era uma cidade velha, caquética, mal-ajambrada – quase como uma daquelas favelas, fedendo a bolor e urina, esse tipo de lugar que a gente tem vergonha de assumir que tem nojo, mas evita a passagem com certo cinismo, mas não impunemente, porque a moral, porque a consciência, porque etc.

Mas, três meses sem ver o mar e foi Lisboa quem me reconduziu ao encanto que é ver o mar e saber que existe um momento na vida em que não ver o mar é um desencanto a mais na solidão. Inda mais quando se assiste ao mar engolfando rio e virando oceano e horizonte infinito. Inda mais quando é o Tejo, o rio particular de todos nós, aldeões, a ser engolido por um Atlântico ainda remanso, antes de virar, tormenta, onda, vagalhão. Um rio inteiro, grande por magnífico, magnífico por secular. Secular porque sim.

Do que ainda me lembro, e tão pouco me lembro, Lisboa a partir de um automóvel não é a mesma de quando percorrida – melhor dizendo, tateada – a pé. Passo miúdo, passo apressado, passo junto ou desconjuntado, a pé.

Talvez eu diga isso, agora, quase outra encarnação da memória, por um atalho brusco e sem sentido na direção do ensaio sobre a cegueira do senhor Saramago, o português moderno por excelência e distinção. Não pelo livro em si, que de Lisboa tem pouco, mas pela importância do tato diante da visão, da definição exata das pontas dos dedos frente ao esboço do olhar.

Todos modos, acredito piamente que sabe-se mais de Lisboa no interior do elevador de Santa Justa do que olhando o Tejo e suas pontes, que na verdade são apenas duas e que na verdade é apenas uma e haverá quem diga que se parece com a Ponte de Todos e não o contrário. (Mas que, verdade-verdadeira, são muitas pontes, milhares delas, centenas delas, dezenas dela, uma única, enfim, porque muitos são os pontos de onde guardá-la, mas sempre unitário é o olhar.)

Em Lisboa (e também creio piamente, que hoje acordei quase devoto), ou você passa a mão pela rachadura das paredes, ou você sente o entalhe do tempo no madeirame das casas, ou você fere os dedos no ferro trabalhado do Santa Justa – ou então, você não sente nada e se ilude com uma indigestão de paisagens abertas.

Porque, dizem, a visita primordial é ao Mosteiro dos Jerônimos, e à Torre de Belém, mas aquilo sempre me pareceu uma espécie de Disneylândia Gótica, um épico arquitetônico, enfim, grandiloqüente por demais, sonoro por demais, ruidoso por demais, fake por demais.

Houve um tempo, também, em que o que mais me incomodava em Lisboa era sua língua. O rumor da sua língua. A entonação da sua língua. A língua de suas ruas, carregadas de insinuações verdes, de prosódias amarelas. Com esse arremedo de identidade comum, de berço comum, de lugar comum, de decadência comum – reino e colônia amalgamados numa tristeza, saudade sem fim. Porque quando se é jovem queremos, desejamos, almejamos, exigimos, enfim, a incompreensão.

Quando eu desci em Lisboa, naquela manhã de outubro-outono, um dos passageiros estava bêbado. Da mesma embriaguez do cônsul britânico em Cuernavaca no Dia dos Mortos, como se saído direto das páginas de “À sombra do vulcão” para um tête-à-tête com Almada-Negreiros – em frente a A Brasileira. Era um homem realmente bonito e já dava seus primeiros passos para o dia em que chegaria à velhice onde, talvez, perderia também parte do fascínio dos habituados a pôr à mesa a própria beleza. Por enquanto, estava vestido elegantemente, ainda mais com a gravata elegantemente desconjuntada como se desejosa em combinar com a embriaguez do seu proprietário. Tinha, explicitamente, a elegância dos que se destacam naturalmente do rebanho, dos que optam alçar a cabeça no prumo das nuvens e não enterrar o focinho na providência segura do pasto. Desconfio que misturou pastilhas medicinais com álcool, tão irresistível era sua bebedeira. Desconfio que tenha passado a mão na bunda de uma aeromoça, a mais bonita, a mais madura, a mais magra e alta. Desconfio que ela gostou, mas é das aeromoças a cobrança de respeito pelos passageiros, pois. Por isso o rosto amuado da menina – aliás, toda a equipe estava visivelmente irritada com o sujeito. Que, ainda no ônibus que nos levaria da pista para a alfândega, pegou o chapéu de uma senhora, colocou na própria cabeça, continuou rindo, indiferente à raiva que provocava no mundo, sem se preocupar se seria preso, algemado, interrogado, sem se importar, inclusive, se havia desembarcado em Lisboa ou alhures. Porque, como em qualquer cidade, desembarcar em Lisboa pode ser desembarcar em lugar algum, voltar ao ponto de partida, de onde nunca se parte realmente.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Que venha a Copa de 2010 e de 2014

Os africanos de todos os 52 países já sabem: a Copa do Mundo de 2010 vai ser mesmo do Brasil, como foi a Copa das Confederações, vencida pela terceira vez ontem pelos "Canarinhos" (Hellô, locutores portugueses, essa expressão "Canarinho" é totally anos 70, ninguém usa mais por aqui há 20 anos!!!) em Joanesburgo, na África do Sul.

Em Angola, vai rolar o Cocan 2010 - eu já tenho um palpite: "Egypto" na cabeça. Vocês viram que "equipa"? Camarões ainda assusta, mas o Egito está com tudo.

A minha cidade está se preparando para sediar os jogos de 2014 - provavelmente receberemos muitas seleções africanas aqui até as Oitavas de Final -, noutra Copa do Mundo na qual o Brasil vai ganhar e não teremos mais espaço no escudo para bordar mais duas estrelas, além das cinco que já ostentamos com exclusividade ao redor do mundo no nosso "lábaro estrelado".

Os argentinos, que perdem o amigo e não perdem a piada, publicaram essa capa sensacional hoje, onde pedem "ayuda" aos céus quando forem nos enfrentar nas Eliminatórias rumo à África do Sul 2010 (clique para aumentar a imagem e ler o texto precioso).

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Tudo ao pormenor sobre a Gala da Beneficência

Danilo dos Santos, Grazi Massafera, Cauã Reymond, Joseana dos Santos e a primeira-dama Ana Paula dos Santos

O próximo ‘Revista África’ levará aos assinantes da TV Globo Internacional todos os detalhes da 3ª edição da Gala Internacional de Beneficência, realizada no ultimo dia 19, em Luanda. A equipe do programa esteve presente e fez a cobertura completa do jantar anual, organizado pelo Fundo de Solidariedade Social LWINI, com o objetivo de arrecadar fundos para ações de apoio às vítimas de minas terrestres.

Durante a festa, o ‘Revista África’ conversou com os atores da Rede Globo Grazi Massafera e Cauã Reymond, padrinhos do evento. O casal, que esteve pela primeira vez no continente africano, destacou a importância de participar de iniciativas em prol de questões humanitárias e aproveitou para agradecer o carinho recebido do povo angolano.

O programa deste sábado terá também uma entrevista com o secretário executivo do Fundo de Solidariedade Social LWINI, Alfredo Ferreira. O executivo falou sobre a criação da entidade, presidida pela primeira-dama angolana, Ana Paula dos Santos, e detalhou as quatro áreas de atuação da organização: educação, saúde, formação profissional e incentivo ao retorno das vítimas às suas regiões de origem.

A TV Globo Internacional exibe o ‘Revista África’ aos assinantes da Europa, África e Oriente Médio todos os sábados, logo após o ‘Jornal Hoje’.

Comentário do datilógrafo: no Brasil, a Grazi é deslumbrante mas, ao lado das deusas de ébano angolanas, sinceramente, não passaria em nenhum casting se eu fosse o diretor da novela.