sexta-feira, 14 de março de 2008

Contradições da musseque

O Humvee é um carro de transporte padrão dos exército dos Estados Unidos. Um jipe desses, todo equipado, pode custar até 200 mil dólares. Ele é uma variação do Hummer, o jipe militar usado na primeira guerra do Golfo. É um carro tão exclusivo que, quando a versão comercial foi lançada, um dos poucos brasileiros que se aventurou a comprá-lo foi o atacante Romário. Pois esta tarde, quando chegávamos à nossa casa na musseque, demos de cara com um Humvee saindo da estreita rua de barro. Na mesma musseque onde estamos há dois dias sem energia suficiente para movimentar a bomba que garante água nos encanamentos.

quinta-feira, 13 de março de 2008

A superpopulação

Luanda tem certamente a maior concentração de pessoas por metro quadrado do mundo. Dos cerca de 8 milhões de habitantes do país, mais de 6 vivem na capital. Vieram durante a longa guerra civil que só terminou em 2002. É que enquanto o exército da UNITA (oposição) ia tomando as províncias, o MPLA (governo) garantia o caminho livre para a capital, dominada por ele. Assim Luanda passou a receber todos os dias multidões de angolanos vindos de todos os cantos do país.

Em algum lugar eles tinham que morar. E assim foram ocupando todos os espaços que estavam dando sopa. Terrenos, parques, calçadas, prédios em construção e até, pasmem, a praia! Fizeram seus acampamentos e aos poucos foram erguendo paredes, abrindo portas e janelas, instalando suas parabólicas, delimitando seu pedacinho privado no espaço público. E assim vivemos hoje em meio a um mar de telhados de zinco, chamados de musseques. Não tem por onde escapar. Como diz o F., favela na praia é algo que não deve existir em nenhum outro lugar do mundo.

Dizem que muitos aguardam as eleições (previstas para setembro) para ver se a paz é mesmo de verdade e voltar para suas províncias. Eu pessoalmente acho difícil... A capital pulsa freneticamente, impulsionada por um crescimento desembestado. E seduz a todos com os luxos e os lixos do mundo globalizado que desembarcam diariamente na sua baía sedenta.

São Paulo de Luanda

Luanda nasceu no mesmo dia em que São Paulo, 25 de janeiro, só que 21 anos depois. Por isso os portugueses a batizaram, em 1575, como São Paulo de Luanda. O nome não poderia ser mais apropriado. Como a metrópole brasileira, a capital angolana sofre com a superpopulação e com o excesso de carros. Por mais difícil que lhe possa parecer, acredite: aqui o trânsito é muito, mas muito pior que o da capital paulista.

O problema começa pela ausência de transporte público. Praticamente não existem ônibus oficiais. O serviço é prestado pelos candongueiros – vans pintadas de azul e branco que transitam numa velocidade muito maior do que se poderia esperar do estado de conservação que apresentam. Os candongueiros também são chamados de táxis, porque aqui não existem táxis como nas outras cidades.

A alternativa aos candongueiros são os gira-bairro, ou mini-táxis. Carros particulares pequenos que levam até quatro passageiros por percursos fixos. Paga-se 50 kwanzas (66 centavos de dólar) por pessoa, independentemente do trajeto, tanto nos gira-bairro quanto nos candongueiros.

A quem tem um pouco mais de dinheiro, só resta comprar um carro. E assim, milhares deles tentam circular pelas ruas estreitas da cidade, onde – salvo raras exceções – não existem sinais de trânsito nos cruzamentos.

Não ajuda em nada o péssimo hábito do motorista angolano de estacionar onde lhe dá na telha. A desculpa, de que não há parques (como eles chamam o estacionamento) suficientes, é genuína. Mas não justifica as filas duplas atrás dos carros em 45 graus, tornando as ruas ainda mais estreitas e fechando as calçadas, o que obriga os pedestres e disputar espaço com os veículos no asfalto.

Para piorar tudo, a cidade está em obras. Numa olhada rápida a partir da ilha, consegui contar 12 gruas gigantescas de guindastes. Isso significa ruas interditadas e sem calçada.

O resultado desse caldeirão: ninguém se desloca de carro em Luanda sem gastar, no mínimo, 45 minutos entre um ponto e outro. Isso se os sítios forem bem próximos, que fique bem entendido. Os moradores de Luanda Sul, o novo bairro de condomínios fechados construído ao sul da capital, levam diariamente duas horas para cobrir os poucos mais de 20 quilômetros até o centro. Contados no relógio.

É de causar inveja a São Paulo.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Nosso castelo na musseque




A vizinhança da casa em que estamos, na Ilha, é das mais animadas. Moramos numa travessa da Avenida Mutala Mohamed – a única da Ilha de Luanda –, numa área que os angolanos chamam de Vaidade. Aqui moram muitas famílias cheias de filhos e todos saem às ruas, mal amanhece o dia. Como as casas são muito pequenas, aproveitam o espaço público da rua para se divertir e fazer negócios.
Na frente de cada casa, as mulheres vendem frutas, verduras, doces, pães e toda sorte de mercadorias, expostas em tabuleiros de madeira. Quando escurece, os vendedores fazem brasa com carvão em latões e fritam galinha, assam espetinhos de carne, tudo para levantar algum dinheiro a mais. Todo mundo fala bem alto o tempo todo.
A rua é de terra e vive constantemente molhada. Minha intuição diz que é esgoto, mas também pode ser uma estratégia das donas das casas para evitar o poeirão que os carros levantariam na terra seca. Sim, passam muitos carros o tempo todo, apesar de a rua ser estreita. As casas na musseque podem ser simples, cubatas, como eles chamam aqui, mas todos têm o seu carrinho – e muitas vezes, um carrão. Não deixa de ser engraçado ver todos esses barracos com antena de TV a cabo e aparelhos de ar-condicionado nos telhados de folhas de zinco.
A musseque, pra quem ainda não sabe, é o nome local para o que, no Brasil, chamamos de favela. Mas ninguém precisa ficar alarmado. Nossa musseque não tem crime organizado, malaco de fuzil, nada disso. Aqui moram famílias de bem, muitas delas com dinheiro. Com a inflação do mercado imobiliário, é muito comum uma família que tem um apartamento na cidade alugá-lo por preços altíssimos e se mudar para uma cubata. Ganha assim o dinheiro do aluguel. Por isso, nossa musseque é bem segura, sem problema algum.

terça-feira, 11 de março de 2008

A cidade mais cara do mundo

Imagine o pior condomínio que você já viu na vida. Agora tire dele o elevador e transforme o vão num depósito de lixo. Arranque os corrimãos das paredes das escadas e cubra-as com uma cor encardida e com centenas de garranchos pichados de alto a baixo. No hall de entrada, espalhe alguns ambulantes, pedintes, gente esquisita ali, assim, parada, sem nada pra fazer. E no quintal do fundo, entre os geradores trancados em gaiolas, espalhe um pouco de água suja, com toda pinta de esgoto.

Se conseguir completar esse exercício, você estará imaginando um prédio comum de Luanda.

Na primeira tentativa de encontrar a definitiva Casa de Luanda deparei-me com pequenas sucursais africanas do inferno de Dante. Prédios com áreas comuns completamente destruídas, cujos moradores se trancam atrás de portões de ferro com cadeados gigantescos. No primeiro em que entrei, uma família de umas doze pessoas habitava um apartamento de dois quartos. Até a antiga varanda tinha virado um quarto extra. Por dentro, a habitação era antiga, até precisando de reparos, mas um luxo perto da decadência da área externa. Recusei de cara a oferta de alugá-la por USD 2 mil mensais.

Não há nenhum engano, não. O valor é esse mesmo, por um apartamento decadente num prédio destruído. Com a escassez de moradias, os preços estão loucos, o que faz de Luanda hoje a cidade mais cara do mundo. Mais do que Tóquio e do que Londres.

Seguimos adiante para novas propostas indecorosas em outros edifícios ainda piores. Queixei-me ao corretor de que precisava de um edifício um pouco melhor.

– Ah pá patrão, prédio em Luanda é isso aí mesmo. O senhor não vai encontrar nada arrumadinho não.

A quarta unidade a que me levaram era um apartamento até bom. Quarto e sala amplos, cozinha bem arranjada, casa de banhos, varanda, tudo razoavelmente conservado. Com guarda-fatos grande num dos corredores, por USD 2 mil. A área comum, porém, era o mesmo descalabro. Comentei com a moradora vizinha, que tinha a chave da unidade, sobre esse problema.

– Cá em Angola é assim: a gente toda preocupa-se em conservar as unidades. Ninguém se une pelo prédio. E olha que neste edifício ainda pagamos 200 kwanzas (quase USD 3) cada morador para ter um rapaz que varre a escada.

Não deixa de ser uma enorme ironia, a ausência desse sentimento de comunidade num país cujo estado se pretende marxista.

Bom, não preciso nem dizer, a minha busca continua.

Acesso à internet

Respondendo à querida Anna V., o acesso à internet aqui não é dos mais problemáticos. Existem cybercafés por toda a parte, inclusive nas musseques (como eles chamam as favelas). A questão é que nem sempre as conexões são velozes, mas não adianta ter pressa. Os adolescentes locais passam horas sentados nos computadores. Gastam o tempo em chats, messengers, orkut etc. Não é muito fácil conseguir uma vaga.
Assim que tivermos casa fixa, poderemos optar por uma conexão de internet via ondas curtas, que inclui o sinal da TV a cabo (400 USD o trimestre), ou adotar um sistema via celular, com placa modem adaptada ao notebook (cerca de 120 USD por mês, pelo que nos disseram). Acho que, se tivermos televisão, vou optar pelo primeiro para poder assisitir aos jogos de futebol do Brasil pela Globo Internacional.

domingo, 9 de março de 2008

A Casa (da Ilha) de Luanda

Depois de duas noites em aviões, três aeroportos e um dia inteiro parado em Lisboa, a Casa de Luanda começou. Ainda é provisória, é verdade, mas nos deu as boas-vindas mostrando que os boatos sobre a infra-estrutura na capital angolana são verdadeiros. O primeiro banho, depois de 48 horas de viagem, foi de balde. Sem energia elétrica, a bomba não funciona e, sem ela, não há água nos canos. Enchemos o balde numa cisterna que se acessa por um buraco no chão da cozinha. A energia voltou à noite.
É uma casa branca, com quatro andares – se considerarmos a laje, transformada em área de lazer –, três quartos, cozinha e sala de estar. Na garagem ficam o gerador, acionado à noite quando a energia não volta, e a bomba de água. Estamos instalados na Ilha de Luanda, uma península na entrada do porto. A Oeste fica o Oceano Atlântico; a Leste, a Baía de Luanda, repleta de navios que aguardam vaga para atracar. A cidade propriamente dita está do outro lado da baía. Da varanda da casa, temos as duas vistas.
Apesar de agradável, este não será nosso lar definitivo. Estamos hospedados aqui até encontrarmos uma moradia definitiva, o que pelo jeito não será fácil. O déficit habitacional é imenso em Luanda, onde vivem – segundo estatísticas não confirmadas – 6,5 milhões de pessoas. Isso num país com 8 milhões de habitantes. Encontrar a nova Casa de Luanda será nosso desafio a partir de amanhã.