À distância, as centenas de prédios de quatro andares, todos bonitinhos, cercados por vastos gramados, lembram a paz dos subúrbios norte-americanos. Dá até para imaginar crianças felizes pedalando bicicletas nas ruas bem pavimentadas. Os prédios exibem portas de vidro na entrada, sem porteiros. As escadas são limpas e claras. Quatro apartamentos por andar, com três quartos, todos bem distribuídos e funcionais.
Depois do “Apocalipse Now” na Praça dos Congoleses, hoje fomos conhecer o “Show de Truman” do Projeto Nova Vida, uma área ao sul de Luanda onde o governo e as empreiteiras edificam, há anos, uma imensa cidade-dormitório.
Nasceu como um projeto de moradia para militares, mas já abriga gente de todas as profissões. Muitos brasileiros fogem para lá em busca de um mínimo de similaridade com os padrões de moradia a que estavam acostumados.
A ilusão de paz e tranqüilidade, porém, é barrada pelos grossos portões de ferro que protegem as portas dos apartamentos. Janelas e varandas também são gradeadas. Como nas prisões. Porque o condomínio não é murado, nem possui guaritas de controle de acesso.
Na área de serviço, a esperança de conforto se afoga nos tonéis de plástico usados para armazenar água – afinal, o abastecimento também é precário ali, como na cidade.
E o sonho de mundo perfeito acaba definitivamente quando o olhar do candidato a Truman bate contra o paredão de lixo no horizonte, a menos de um quilômetro. O projeto Nova Vida é vizinho do maior aterro sanitário de Luanda. Tem muito mais pernilongo e, portanto, maior incidência de malária.
Como está distante cerca de 20 quilômetros e todos que lá moram trabalham na cidade, as estradas ficam entupidas todos os dias nos horários de rush. E os moradores levam cerca de duas horas para chegar ao trabalho, e mais duas para voltar de casa.
Ou seja, a Nova Vida vem com todos os velhos problemas angolanos.
segunda-feira, 17 de março de 2008
sábado, 15 de março de 2008
Apocalipse Now
O sol descia acelerado no horizonte e tingia tudo de laranja. Mas o que pulava na janela do candongueiro apressado ia muito longe de uma paisagem bucólica. Borradas pela poeira vermelha, ruas de terra tentavam engolir as camadas de lixo que as cobriam; córregos de águas paradas e esverdeadas de esgoto empestavam o ar com seus ácidos azedos; edifícios destruídos pelo excesso de gente e falta de união escondiam qualquer horizonte; milhares de pessoas circulando, vendendo, comprando, vivendo, sobrevivendo. E a brincar em meio a todo esse caos, crianças descalças e remelentas, o futuro de Angola, de barrigas inchadas de vermes.
O “Apocalipse Now” africano, como observou a P. Bem ali, na Praça dos Congoleses, a cerca de dez quilômetros dos arranha-céus moderníssimos que estão a subir na Baixa de Luanda. Um mundo que jamais se diria pertencer a um país tão rico em petróleo e diamantes.
A quem achava que Luanda era uma das piores cidades do mundo para se viver, a Praça dos Congoleses veio lembrar que o poço nunca tem fundo.
O “Apocalipse Now” africano, como observou a P. Bem ali, na Praça dos Congoleses, a cerca de dez quilômetros dos arranha-céus moderníssimos que estão a subir na Baixa de Luanda. Um mundo que jamais se diria pertencer a um país tão rico em petróleo e diamantes.
A quem achava que Luanda era uma das piores cidades do mundo para se viver, a Praça dos Congoleses veio lembrar que o poço nunca tem fundo.
Globosat – cena 1: nossa amiga Débora
Pegamos um dos carros compartilhados que percorrem a Ilha de Luanda. Junto de nós entram duas meninas dos cabelos trançadinhos e uniforme da escola primária. Cheias de risadinhas e cochichos por estarem andando com dois pulas (como eles chamam os gringos como nós):
-São brasileiros?
-Somos sim.
-São amigos da Débora?
-Hmmm... Que Débora?
-A Débora, brasileira...
Tentamos lembrar o nome de todos os brasileiros que já conhecemos por aqui. Mas não, não há nenhuma Débora.
-Ela mora aqui na ilha?, perguntamos.
-Não... Ela mora no Rio de Janeiro. Eu vi na televisão, na novela.
A ficha cai mais rápido para o F., noveleiro:
-Ah, já sei... Ela teve um filho, não?
-Isso... Na Duas Caras. Estou a ver novela, estou a ver videoshow...
-São brasileiros?

-Somos sim.
-São amigos da Débora?
-Hmmm... Que Débora?
-A Débora, brasileira...
Tentamos lembrar o nome de todos os brasileiros que já conhecemos por aqui. Mas não, não há nenhuma Débora.
-Ela mora aqui na ilha?, perguntamos.
-Não... Ela mora no Rio de Janeiro. Eu vi na televisão, na novela.
A ficha cai mais rápido para o F., noveleiro:
-Ah, já sei... Ela teve um filho, não?
-Isso... Na Duas Caras. Estou a ver novela, estou a ver videoshow...
-Bem, morávamos na mesma cidade. Mas a Débora (Falabella), anda pouco pela rua. É muito famosa. Também só a vemos pela TV...
Globosat – cena 2: nosso amigo Zeca
Entramos no jipe das N.U. e o motorista me lembra de checar se a porta está travada:
-É que há gatunos que aproveitam o congestionamento para roubarem as pessoas dentro dos carros.
-E isso é comum por aqui?
-Sim, cada vez mais comum. A Globo mostrou aqueles gajos em São Paulo roubando bolsas dentro dos carros, pois não demora a começarem a fazer o mesmo por aqui. Tudo o eles mostram vira logo moda em Luanda.
Em Angola, domina a cultura do importado. Os carros são japoneses, os enlatados são europeus; os plásticos, chineses. E os cabelos (sim! Isso mesmo!), brasileiros. O porto é um dos mais movimentados do continente, e os navios chegam a esperar dias na fila para atracar. Mas a grande importação chega mesmo pelas parabólicas. E a Rede Globo é, sem dúvida, o exportador número 1 de tendências. Do mundo imaginário das novelas à vida real dos noticiários. Atenção Zeca, Bonner & Cia: olha que responsabilidade!
UNITA x MPLA

As bandeiras da UNITA e do MPLA, respectivamente: união, por enquanto, só mesmo nesta imagem
No último dia 9 um confronto aberto entre partidários do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e da UNITA (União Nacional para Independência Total de Angola) deixou três mortos e seis feridos em Mungo, na província de Huambo. É o capítulo mais recente de uma história de ódio entre as duas forças políticas que mergulharam o país na guerra civil durante 27 anos.
A guerra acabou em 2002, mas a proximidade das eleições parlamentares, marcadas para setembro, deixa todos preocupados. Afinal, foi assim que o primeiro acordo de paz foi quebrado, em 1992.
MPLA e UNITA estão, para os angolanos, como Grêmio e Internacional, para os gaúchos, Flamengo e Vasco para os cariocas, Corinthians e Palmeiras para os paulistas. Não se misturam e não se toleram até hoje. Com o agravante de que resolvem as diferenças à bala.
Não sei se as pessoas são realmente politizadas, mas existem muitas bandeiras do MPLA pelas ruas de Luanda. E também já notei muita gente com bonés e camisetas desse partido, no poder desde a independência, em 1975.
Até agora só vi um homem com uma camiseta da Unita. Talvez porque a liberdade de expressão ainda não seja uma conquista consolidada. (É por isso que assinamos com iniciais este blog. Atenção, amigos: na hora de deixar comentários, evitem citar nossos nomes.)
A guerra acabou em 2002, mas a proximidade das eleições parlamentares, marcadas para setembro, deixa todos preocupados. Afinal, foi assim que o primeiro acordo de paz foi quebrado, em 1992.
MPLA e UNITA estão, para os angolanos, como Grêmio e Internacional, para os gaúchos, Flamengo e Vasco para os cariocas, Corinthians e Palmeiras para os paulistas. Não se misturam e não se toleram até hoje. Com o agravante de que resolvem as diferenças à bala.
Não sei se as pessoas são realmente politizadas, mas existem muitas bandeiras do MPLA pelas ruas de Luanda. E também já notei muita gente com bonés e camisetas desse partido, no poder desde a independência, em 1975.
Até agora só vi um homem com uma camiseta da Unita. Talvez porque a liberdade de expressão ainda não seja uma conquista consolidada. (É por isso que assinamos com iniciais este blog. Atenção, amigos: na hora de deixar comentários, evitem citar nossos nomes.)
sexta-feira, 14 de março de 2008
Contradições da musseque
O Humvee é um carro de transporte padrão dos exército dos Estados Unidos. Um jipe desses, todo equipado, pode custar até 200 mil dólares. Ele é uma variação do Hummer, o jipe militar usado na primeira guerra do Golfo. É um carro tão exclusivo que, quando a versão comercial foi lançada, um dos poucos brasileiros que se aventurou a comprá-lo foi o atacante Romário. Pois esta tarde, quando chegávamos à nossa casa na musseque, demos de cara com um Humvee saindo da estreita rua de barro. Na mesma musseque onde estamos há dois dias sem energia suficiente para movimentar a bomba que garante água nos encanamentos.
quinta-feira, 13 de março de 2008
A superpopulação
Luanda tem certamente a maior concentração de pessoas por metro quadrado do mundo. Dos cerca de 8 milhões de habitantes do país, mais de 6 vivem na capital. Vieram durante a longa guerra civil que só terminou em 2002. É que enquanto o exército da UNITA (oposição) ia tomando as províncias, o MPLA (governo) garantia o caminho livre para a capital, dominada por ele. Assim Luanda passou a receber todos os dias multidões de angolanos vindos de todos os cantos do país.
Em algum lugar eles tinham que morar. E assim foram ocupando todos os espaços que estavam dando sopa. Terrenos, parques, calçadas, prédios em construção e até, pasmem, a praia! Fizeram seus acampamentos e aos poucos foram erguendo paredes, abrindo portas e janelas, instalando suas parabólicas, delimitando seu pedacinho privado no espaço público. E assim vivemos hoje em meio a um mar de telhados de zinco, chamados de musseques. Não tem por onde escapar. Como diz o F., favela na praia é algo que não deve existir em nenhum outro lugar do mundo.
Dizem que muitos aguardam as eleições (previstas para setembro) para ver se a paz é mesmo de verdade e voltar para suas províncias. Eu pessoalmente acho difícil... A capital pulsa freneticamente, impulsionada por um crescimento desembestado. E seduz a todos com os luxos e os lixos do mundo globalizado que desembarcam diariamente na sua baía sedenta.
Em algum lugar eles tinham que morar. E assim foram ocupando todos os espaços que estavam dando sopa. Terrenos, parques, calçadas, prédios em construção e até, pasmem, a praia! Fizeram seus acampamentos e aos poucos foram erguendo paredes, abrindo portas e janelas, instalando suas parabólicas, delimitando seu pedacinho privado no espaço público. E assim vivemos hoje em meio a um mar de telhados de zinco, chamados de musseques. Não tem por onde escapar. Como diz o F., favela na praia é algo que não deve existir em nenhum outro lugar do mundo.
Dizem que muitos aguardam as eleições (previstas para setembro) para ver se a paz é mesmo de verdade e voltar para suas províncias. Eu pessoalmente acho difícil... A capital pulsa freneticamente, impulsionada por um crescimento desembestado. E seduz a todos com os luxos e os lixos do mundo globalizado que desembarcam diariamente na sua baía sedenta.
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