quarta-feira, 19 de março de 2008

Tem muita poeira nas ruas de Luanda?


Este sapato saiu zero quilômetro do Brasil. Embora não pareça, ele é marron escuro. Ficou assim depois de dois dias passeando pelas ruas da capital.

terça-feira, 18 de março de 2008

Português de Angola

Ah pá, então cá em Angola se fala a mesma língua que no Brasil, só que a estructura é um bocadito mais parecidinha com a dos portugueses e o sotaque é mais cantado, e mais anasalado, e muitos ang’lanos falam mais devagar, como se estivessem a sofrer de paludismo, ah pá.

Mas não têm nada não, estás a perceber? É só o jeito mesmo de falar, mais devagar mesmo, que é o natural do ang’lano. E quando vem o brasileiro que chega dizendo “tudo bem?”, eles respondem “Muito obrigado”, porque acham que o pula está a lhes desejar tudo de bom, estás a perceber? Muito fiche esses brasileiros, ah pá.

Iá, iá o ang’lano gosta muito dos brasileiros, mesmo sendo pulas. Está sempre a ver as novelas do Brasil, a torcer por um time de cá, outro do Brasil. Muito bué mesmo.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Estamos comemorando

Finalmente, depois de cinco dias, hoje tivemos energia para movimentar a bomba de água. Voltamos a tomar banho de chuveiro!

Nem só de defeitos...

Do jeito que o blog vai, parece que Luanda só tem defeitos irreparáveis. Não é verdade. Já nos beneficiamos de pelo menos uma grande qualidade: a solidariedade das mulheres luandenses.

No sábado, quando precisamos pedir informações no transporte para chegar a um bairro distante, duas delas foram além das explicações. Nos levaram até a porta do local que procurávamos, desviando inclusive de seus caminhos. Apenas por simpatia, sem pedir nenhuma recompensa. Quantos de nós faríamos o mesmo por dois estranhos?

O Show de Truman

À distância, as centenas de prédios de quatro andares, todos bonitinhos, cercados por vastos gramados, lembram a paz dos subúrbios norte-americanos. Dá até para imaginar crianças felizes pedalando bicicletas nas ruas bem pavimentadas. Os prédios exibem portas de vidro na entrada, sem porteiros. As escadas são limpas e claras. Quatro apartamentos por andar, com três quartos, todos bem distribuídos e funcionais.

Depois do “Apocalipse Now” na Praça dos Congoleses, hoje fomos conhecer o “Show de Truman” do Projeto Nova Vida, uma área ao sul de Luanda onde o governo e as empreiteiras edificam, há anos, uma imensa cidade-dormitório.

Nasceu como um projeto de moradia para militares, mas já abriga gente de todas as profissões. Muitos brasileiros fogem para lá em busca de um mínimo de similaridade com os padrões de moradia a que estavam acostumados.

A ilusão de paz e tranqüilidade, porém, é barrada pelos grossos portões de ferro que protegem as portas dos apartamentos. Janelas e varandas também são gradeadas. Como nas prisões. Porque o condomínio não é murado, nem possui guaritas de controle de acesso.

Na área de serviço, a esperança de conforto se afoga nos tonéis de plástico usados para armazenar água – afinal, o abastecimento também é precário ali, como na cidade.

E o sonho de mundo perfeito acaba definitivamente quando o olhar do candidato a Truman bate contra o paredão de lixo no horizonte, a menos de um quilômetro. O projeto Nova Vida é vizinho do maior aterro sanitário de Luanda. Tem muito mais pernilongo e, portanto, maior incidência de malária.

Como está distante cerca de 20 quilômetros e todos que lá moram trabalham na cidade, as estradas ficam entupidas todos os dias nos horários de rush. E os moradores levam cerca de duas horas para chegar ao trabalho, e mais duas para voltar de casa.

Ou seja, a Nova Vida vem com todos os velhos problemas angolanos.

sábado, 15 de março de 2008

Apocalipse Now

O sol descia acelerado no horizonte e tingia tudo de laranja. Mas o que pulava na janela do candongueiro apressado ia muito longe de uma paisagem bucólica. Borradas pela poeira vermelha, ruas de terra tentavam engolir as camadas de lixo que as cobriam; córregos de águas paradas e esverdeadas de esgoto empestavam o ar com seus ácidos azedos; edifícios destruídos pelo excesso de gente e falta de união escondiam qualquer horizonte; milhares de pessoas circulando, vendendo, comprando, vivendo, sobrevivendo. E a brincar em meio a todo esse caos, crianças descalças e remelentas, o futuro de Angola, de barrigas inchadas de vermes.

O “Apocalipse Now” africano, como observou a P. Bem ali, na Praça dos Congoleses, a cerca de dez quilômetros dos arranha-céus moderníssimos que estão a subir na Baixa de Luanda. Um mundo que jamais se diria pertencer a um país tão rico em petróleo e diamantes.

A quem achava que Luanda era uma das piores cidades do mundo para se viver, a Praça dos Congoleses veio lembrar que o poço nunca tem fundo.

Globosat – cena 1: nossa amiga Débora

Pegamos um dos carros compartilhados que percorrem a Ilha de Luanda. Junto de nós entram duas meninas dos cabelos trançadinhos e uniforme da escola primária. Cheias de risadinhas e cochichos por estarem andando com dois pulas (como eles chamam os gringos como nós):
-São brasileiros?
-Somos sim.
-São amigos da Débora?
-Hmmm... Que Débora?
-A Débora, brasileira...
Tentamos lembrar o nome de todos os brasileiros que já conhecemos por aqui. Mas não, não há nenhuma Débora.
-Ela mora aqui na ilha?, perguntamos.
-Não... Ela mora no Rio de Janeiro. Eu vi na televisão, na novela.
A ficha cai mais rápido para o F., noveleiro:
-Ah, já sei... Ela teve um filho, não?
-Isso... Na Duas Caras. Estou a ver novela, estou a ver videoshow...
-Bem, morávamos na mesma cidade. Mas a Débora (Falabella), anda pouco pela rua. É muito famosa. Também só a vemos pela TV...