domingo, 30 de março de 2008

Do lado de lá... e de cá




Esta foto roubada discretamente na rua onde trabalho simboliza bem a desigualdade deste país de que F. falou no post abaixo...

Do lado de lá, um prédio ocupado, paredes quase despencando, residência ou local de trabalho de boa parte dos luandenses. Do lado de cá, uma loja de roupas importadas, com vitrines luxuosas, que só a elite montada em Toyotas pode vestir.

Entre os dois mundos, um segurança sonolento, garantindo que os que vivem do lado de lá não atravessem para o de cá.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pobre país rico

A maior montadora japonesa, a Toyota, exportou no ano passado 2.878.662 carros para o mundo todo. Isso a colocou em segundo lugar no ranking dos exportadores mundiais, atrás apenas da General Motors. Adivinhe qual país é o maior comprador de carros da Toyota? Angola.

Por causa de fatos como esse, o Japão considera Angola um país rico. E o governo japonês teria inclusive anunciado o fechamento de linhas de financiamento a fundo perdido para cá. Os países europeus também já estariam revendo suas doações.

Angola produz 2 milhões de barris de petróleo por dia - em 2006 arrecadou mais de 30 bilhões de dólares com exportações do óleo - e a taxa de crescimento projetada para este ano é de 27,2%. A renda per capita é de quase 3 mil dólares e os investimentos estrangeiros estão estimados em 20 bilhõesde dólares em 2008.

É riqueza que não acaba mais, mas que também não chega à mesa de 70% da população. Esses cerca de 11,4 milhões de angolanos excluídos da farra do petróleo continuam vivendo abaixo da linha da pobreza. O que mantém este rico país em 162º lugar na lista de 177 países classificados pelo Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD.

terça-feira, 25 de março de 2008

O leite de cada dia

Andando por Luanda lembro-me sempre da transformação que as mulheres que conheço sofrem na maternidade. Os cuidados com que cercam os bebês, as precauções para evitar a exposição a bactérias e vírus nas primeiras semanas de vida, o ritual da amamentação, com o sofrimento das dores no peito.

Tudo isso me volta à lembrança porque, a todo momento, encontro mulheres angolanas amamentando seus bebês nas condições mais impróprias. Elas os amamentam nas calçadas cheias de lixo, com o esgoto correndo ao lado, enquanto fazem tranças nos cabelos umas das outras, vendendo mercadorias em bacias encardidas. E não param para observar o bebê mamando. Movimentam-se com o filho grudado ao peito como se tivessem um pacote no colo.

Nunca vi nenhuma delas limpando o bico do seio antes de enfiá-lo na boca do inocente. Vão logo tirando da camiseta, totalmente suadas com o calor infernal desta cidade. Fazer a criatura arrotar, então, nem pensar.

Talvez seja um comportamento cultural, coisa de quem tem um filho atrás do outro. Talvez seja apenas falta de tempo. Bem ou mal, o filho já está se alimentando; elas, na maioria dos casos, ainda precisam batalhar a refeição daquele dia.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Quer morar em Angola?

Desde o início deste blog, vários amigos escreveram manifestando interesse em mudar para cá. Não se trata de desencorajar ninguém, mas é preciso saber onde se vai desembarcar as esperanças.

Luanda é a cidade mais cara do mundo. Exemplos? Um apartamento de dois quartos podre não sai por menos de 2 mil dólares. Se estiver bem arranjado, 4 mil dólares ao mês. Sem mobília e se for num prédio decadente. Os novos são raríssimos e, quando existem, estão fora da realidade.

Hoje fui ver um quarto-sala-cozinha-americana num edifício recém-construído. O dono quer 10 mil dólares ao mês de aluguel. E ainda tens de pagar um ano adiantado. Parece loucura e é. Mas é o mercado imobiliário de Luanda.

Portanto, não se iludam: quem lhe oferece o emprego em Angola tem de lhe garantir a casa.

Além disso, o caos urbano é uma realidade concreta. Imaginem a Saara (cariocas) ou a 25 de Março (paulistas) no dia 20 de dezembro, na hora do almoço, com o calor de 32 graus. Agora esburaquem as calçadas, encham o passeio de lixo e o ar de poeira. Esse é o dia-a-dia de 70% das ruas e avenidas de Luanda.

Por isso, quem lhe oferece o emprego, tem de lhe garantir, além da casa, o transporte.

Eu sei que você deve estar pensando: “ele está exagerando”. Eu também pensava isso quando lia blogs e comunidades do Orkut antes de me mudar para cá.

domingo, 23 de março de 2008

Rendição


Luanda gruda-me à pele com seu calor úmido, entra-me corpo adentro com seus sons, odores e paladares. Oferece-se em magníficos pores-do-sol todos os fins de tarde, de nuvens rosadas contra o azul-claro do céu, de mar dourado como as promessas dos melhores sonhos românticos. Exibe orgulhosa o farolete da Lua cheia a iluminar a baía de águas calmas e o céu profundo de África. E assim vai aos poucos se insinuando, conquistando, seduzindo quem, ao primeiro olhar, só enxergou sujeiras e feiúras e maldades. Rendo-me. Tu és bela, admito. Impossível não gostar de ti, mesmo com todos os teus defeitos. Mas entendas, pequena Luanda, que ainda vou levar muito tempo, se que é esse dia chega, para chamar-te de minha.

sábado, 22 de março de 2008

Tranças de Luanda

Antes de sair do Brasil, procurei uma transportadora para enviar alguns itens pessoais.

– É cabelo ou mercadoria normal? - perguntou o agente.
– Como assim? - espantei-me.
– É que o preço é diferente. E como é muito comum exportarem cabelo pra lá...

Só agora, chegando a Luanda, entendi a conversa non-sense. Vende-se cabelo (de verdade e sintético) em todo canto, dos supermercados aos camelôs. E é este um dos grandes sonhos de consumo da mulher angolana.

Paga-se um dólar e meio pela cabeleira nacional da marca Maria (a mais popular). Depois é só escolher uma das cabeleireiras de rua, que cobram outros dez dólares para fazer o penteado (que dura um mês), amarrando e trançando o cabelo comprado no cabelo original. Só aqui, na Travessa da Vaidade, tem umas três, uma delas bem na frente da nossa porta (enchendo de chumaços de cabelo a soleira da porta!).

As clientes são de todas as idades. De jovens vaidosas com suas longas tranças a miúdas (crianças) com suas trancinhas enfeitadas por fivelinhas coloridas. Dizem que a tradição é antiga, mas antes era feita com o cabelo de verdade. A arte das tranças é hoje um patrimônio da mulher africana. Em homenagem a elas, fizemos nosso primeiro vídeo aqui em Luanda:




If you want to see an english version of this film, click here

quinta-feira, 20 de março de 2008

Negócios da China

Os chineses invadiram a capital angolana com suas empreiteiras que ganham licitações de obras públicas. É comum vê-los próximos aos canteiros, acocorados ao lado das valetas, vestindo macacões cinza e usando chapéus de palha de largas abas na cabeça.

Quando fecham contratos grandes com o governo angolano, as empreiteiras de Mao trazem navios cheios de máquinas e trabalhadores. Todos os tratores, escavadeiras, caminhões vêm direto da China. Os operadores dos equipamentos e parte dos operários, também.

Para resolver o problema de moradia, os trabalhadores vivem nos próprios navios em que viajam. Para o transporte na cidade, pau-de-arara. É comum ver pequenos caminhões repletos de chineses na carroceria no fim do dia. A maioria não fala uma palavra de português, nem de inglês, sem nenhum movimento a favor de trocas culturais. E assim, graças a estes quase escravos, a China vai fazendo de Angola mais um canteiro do seu silencioso imperialismo da pechincha.