domingo, 30 de março de 2008

Casa Nova


Ainda é provisório, mas desde sexta estamos numa casa nova. Deixamos para trás a hospitalidade dos amigos que nos receberam nos primeiros 20 dias e mudamo-nos para um quarto alugado no apartamento de um outro casal de estrangeiros.

Nosso quarto agora é grande, tem um guarda-fatos (o que significa que minhas roupas finalmente puderam se libertar da mochila) e temos um banheiro só para nós. O prédio também é uma raridade. É bem velho, mas as escadas são limpas e um dos elevadores funciona quando tem energia.

Como nem tudo pode ser perfeito, na manhã de sábado descobrimos que o banheiro, além de exclusivo, vem com piscina. Um vazamento misterioso, que os donos não conseguem descobrir de qual andar vem. Em outras palavras, não tem solução. O lado bom é que ele aparece esporadicamente e depois passa semanas sem vazar de novo.

A vista da janela, pelo menos, é bem bonita.

Ficamos por aqui por alguns meses, mas até agosto temos que nos mudar porque o apartamento vai mudar de dono. Até lá, esperamos encontrar nossa Casa de Luanda definitiva.

Despedida da Musseque

Como despedida da travessa da Saudade (que descobrimos outro dia que oficialmente se chama "Pezinhos na água"), uma galeria de fotos da vizinhança:

A rua de casa:


A mulherada na porta (o salão de beleza da rua...):

O mercado da esquina:


Nossos vizinhos do lado esquerdo (Nanda e Teddy) brincando,



estudando,


e posando pra foto!

Crianças da rua brincando de carrinho...

e de carrão...

Divertindo-se com a câmera!

Pra fugir do calor, bacia vira piscina...
...e quintal vira quarto!

Da janela do quarto, o mar de telhados de zinco...

E varais de roupa!

E finalmente, pra compensar, a vista do terraço!

Coragem, paciência. E persistência!

Na minha primeira reunião de trabalho, uma colega me deu o conselho que eu voltaria a ouvir da boca de muitos neste primeiro mês de Luanda: “Coragem e paciência!” De cara preocupei-me com a segunda parte... Confesso que esta nunca foi uma das minhas virtudes! Mas enfim, cheguei disposta a exercitá-la. Item obrigatório para quem vai trabalhar em um país cheio de problemas estruturais, traumatizado pela guerra e com um calor que não dá trégua!

Depois de quase um mês exercitando essa habilidade, chego à conclusão de que, em muitos casos, pedir paciência é a forma que os angolanos encontraram de impor seu ritmo pra lá de lento aos estrangeiros que chegam impondo velocidade. Sabe aquela coisa de não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje? Pois aqui o ditado é ao revés!

Os angolanos pedem paciência por não cumprirem o combinado, por te deixarem esperando horas sem dar nenhuma satisfação, por não fazerem o trabalho direito, por terem a burocracia mais enrolada que já vi no mundo. E se falta luz toda semana, paciência... Se faltam livros e professores nas escolas, paciência... Se faltam hospitais, paciência... Se o guarda é corrupto, paciência!

O problema é que, ao fazer da paciência uma panacéia, questões urgentes não são resolvidas nunca. Isso num país onde as questões urgentes são tão fartas quanto o petróleo... Por isso é que todas as grandes empresas daqui preferem contratar mão-de-obra estrangeira... Em algumas construtoras brasileiras, até o operador do trator é trazido de fora!

Pois minha dica a quem chega em Luanda seria: Traga muita paciência sim. Mas não abuse na dose! Quanto ao conselho da colega, mudaria só algumas letras... Acho “Coragem e persistência” uma combinação mais esperta, ou pelo menos mais responsável...

É verdade que persistir pode ser mais doloroso que esperar. E pode ser também mais custoso (meus créditos do celular vão embora como água, de tanto que ligo cobrando os outros!). Alguns colegas de trabalho me olham de lado, porque dou mais trabalho a eles. Outros simplesmente não entendem o porquê da pressa. Mas alguns (ainda que poucos) se mexem, empenham-se e resolvem! Ufa!

Minha esperança é que, pelo exemplo, essas exceções se multipliquem. E que os angolanos percebam que é muito mais prazeroso descruzar os braços e colher os frutos do trabalho bem realizado.

Do lado de lá... e de cá




Esta foto roubada discretamente na rua onde trabalho simboliza bem a desigualdade deste país de que F. falou no post abaixo...

Do lado de lá, um prédio ocupado, paredes quase despencando, residência ou local de trabalho de boa parte dos luandenses. Do lado de cá, uma loja de roupas importadas, com vitrines luxuosas, que só a elite montada em Toyotas pode vestir.

Entre os dois mundos, um segurança sonolento, garantindo que os que vivem do lado de lá não atravessem para o de cá.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pobre país rico

A maior montadora japonesa, a Toyota, exportou no ano passado 2.878.662 carros para o mundo todo. Isso a colocou em segundo lugar no ranking dos exportadores mundiais, atrás apenas da General Motors. Adivinhe qual país é o maior comprador de carros da Toyota? Angola.

Por causa de fatos como esse, o Japão considera Angola um país rico. E o governo japonês teria inclusive anunciado o fechamento de linhas de financiamento a fundo perdido para cá. Os países europeus também já estariam revendo suas doações.

Angola produz 2 milhões de barris de petróleo por dia - em 2006 arrecadou mais de 30 bilhões de dólares com exportações do óleo - e a taxa de crescimento projetada para este ano é de 27,2%. A renda per capita é de quase 3 mil dólares e os investimentos estrangeiros estão estimados em 20 bilhõesde dólares em 2008.

É riqueza que não acaba mais, mas que também não chega à mesa de 70% da população. Esses cerca de 11,4 milhões de angolanos excluídos da farra do petróleo continuam vivendo abaixo da linha da pobreza. O que mantém este rico país em 162º lugar na lista de 177 países classificados pelo Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD.

terça-feira, 25 de março de 2008

O leite de cada dia

Andando por Luanda lembro-me sempre da transformação que as mulheres que conheço sofrem na maternidade. Os cuidados com que cercam os bebês, as precauções para evitar a exposição a bactérias e vírus nas primeiras semanas de vida, o ritual da amamentação, com o sofrimento das dores no peito.

Tudo isso me volta à lembrança porque, a todo momento, encontro mulheres angolanas amamentando seus bebês nas condições mais impróprias. Elas os amamentam nas calçadas cheias de lixo, com o esgoto correndo ao lado, enquanto fazem tranças nos cabelos umas das outras, vendendo mercadorias em bacias encardidas. E não param para observar o bebê mamando. Movimentam-se com o filho grudado ao peito como se tivessem um pacote no colo.

Nunca vi nenhuma delas limpando o bico do seio antes de enfiá-lo na boca do inocente. Vão logo tirando da camiseta, totalmente suadas com o calor infernal desta cidade. Fazer a criatura arrotar, então, nem pensar.

Talvez seja um comportamento cultural, coisa de quem tem um filho atrás do outro. Talvez seja apenas falta de tempo. Bem ou mal, o filho já está se alimentando; elas, na maioria dos casos, ainda precisam batalhar a refeição daquele dia.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Quer morar em Angola?

Desde o início deste blog, vários amigos escreveram manifestando interesse em mudar para cá. Não se trata de desencorajar ninguém, mas é preciso saber onde se vai desembarcar as esperanças.

Luanda é a cidade mais cara do mundo. Exemplos? Um apartamento de dois quartos podre não sai por menos de 2 mil dólares. Se estiver bem arranjado, 4 mil dólares ao mês. Sem mobília e se for num prédio decadente. Os novos são raríssimos e, quando existem, estão fora da realidade.

Hoje fui ver um quarto-sala-cozinha-americana num edifício recém-construído. O dono quer 10 mil dólares ao mês de aluguel. E ainda tens de pagar um ano adiantado. Parece loucura e é. Mas é o mercado imobiliário de Luanda.

Portanto, não se iludam: quem lhe oferece o emprego em Angola tem de lhe garantir a casa.

Além disso, o caos urbano é uma realidade concreta. Imaginem a Saara (cariocas) ou a 25 de Março (paulistas) no dia 20 de dezembro, na hora do almoço, com o calor de 32 graus. Agora esburaquem as calçadas, encham o passeio de lixo e o ar de poeira. Esse é o dia-a-dia de 70% das ruas e avenidas de Luanda.

Por isso, quem lhe oferece o emprego, tem de lhe garantir, além da casa, o transporte.

Eu sei que você deve estar pensando: “ele está exagerando”. Eu também pensava isso quando lia blogs e comunidades do Orkut antes de me mudar para cá.