segunda-feira, 31 de março de 2008
Dicionário Angolano - De E a L
Estamos Juntos - Cumprimento usado pelos angolanos, principalmente a partir de 1975, quando o país se torna independente e sofre ataques de outras nações africanas que financiaram a guerra civil.
Estreito – Magro, esbelto.
Extensão - Ramal.
Farofa - Farinha de mandioca, sal, azeite doce, vinagre e cebola picada tudo preparado a frio.
Farfalhar - Namorar mais atrevidamente.
Fatigar – Canseira. Exemplo: "Tás a me fatigar".
Fatigado – Avariado, quando designado para máquinas. Exemplo: Essa geladeira tá fatigada, a pá.
Fazer banga - Ostentar marcas.
Fiche - Legal. Usa-se "Estás fiche?" para perguntar "Tudo bem?".
Filho da Caixa - Filho da mãe, insulto suave, soft, como dizem os caméricas.
Fita de colar – Durex, que aqui é uma marca de camisinha. Cuidado quando pedirem a alguém.
Fobado – Com fome.
Fotocópia - Xerox.
Funji - Massa cozida, conhecida por fubá de mandioca "bombó" ou de milho "kindele".
Galar - Namorar, ver se a dama dá atenção.
Galo - Vejo.
Galão - Copo de café com leite.
Galinha do mato - Galinhola
Garina - Rapariga
Gasosa - Refrigerante.
Geleira - Geladeira.
Gelado - Sorvete.
Ginga - Bicicleta.
Giro - O mesmo que Fiche. Também pode ser usado no sentido de passear, dar um giro.
Grosso - Bêbado (ver também Chibado).
Iá - Sim
Jiboiar – Descansar (dormir) após o almoço.
Jingindu - Tranças.
Jinguba - Amedoin.
Jindungo ou Jindungu - Picante, fruto do jindungueiro. Deriva de seu nome o verbo ajindugar, que significa condimentar com jindungu. O jindungu pode ser de dois tipos:Kahombo ou kaleketa. O Kahombo, arredondado, é bastante saboroso. O Kaleketa, alongado, é bastante picante. "Jindungu no rabo do outro, é refresco" costuma dizer o povo, quando está zangado.
Kakusu - Peixe de rio muito apreciado,também existe no mar, mas não é tão gostoso.
Kalundus - Espíritos
Kalunga - Tudo o que se refere à água, divindade do mar.
Kamundongo - Natural de Luanda, também se diz Kaluanda
Kandandu - Um abraço.
Kandonga - Negócio ilegal. Acabou, por uso, sendo designado para os lotações, os famosos azulzinhos.
Kandongueiro - A pessoa que gerencia a Kandonga. Também, por uso, virou sinônimo de táxi, lotação.
Kafundado - Injustiçado, preterido.
Kangar - Prender
Kanvanza - Discussão
Kangundu - Branco. Também se usa Pula ou Mindele.
Kapurroto - Vinho adulterado(pode matar).
Kaxexe - Segredo.
Katá - Desculpas esfarrapadas, mentiras.
Katé Mungu - Até amanhã.
Kazucuta - Dança, mas também, não gostar de trabalhar, confusão.
Kazucuteiro - Preguiçoso.
Kayaya - Fiche, porreiro. Diz-se "do kayaya".
Ketas - Músicas.
Kianda - Sereia em quimbundo, no singular. No plural, torna-se Ianda.
Kibiona - Apalpadela numa mulher, geralmente no rabo (bunda)
Kibucas - Prostitutas.
Kicuto - Fato, terno.
Kinga - Espera.
Kifufutila - Torrada e descascada a jinguba, junta-se farinha de mandioca, o açúcar e a canela., pisando-se tudo num pilão. Peneira-se tornando a pisar a parte grossa.
Kilape - Fiado, empréstimo.
Kilapeiro - Caloteiro, pessoa que sempre pede dinheiro emprestado.
Kilharam - Lixaram.
Kionga - Prisão.
Kinda - Espécie de cesta.
Kissonde - Formiga avermelhada de picada dolorosa.
Kitaba - Pasta de Jinguba
Kixiquila - Empréstimo informal, entre amigos. Espécie de cooperativa.
Kota - Forma respeitosa de chamar os mais velhos.
Kuata - Agarra.
Kubata - Alhota, residência, domicílio.
Kumbu - Dinheiro.
Kwata-Kwata - Era o nome dado para as guerras entre os principados do reino do Congo antes da colonização portuguesa. Virou expressão de uso corrente e quando um angolano quer mandar o cachorro atacar alguém, por exemplo, diz ao cão: "kwata-kwata".
Lapiseira, esferográfica - Caneta.
Lapiseira - Porta-minas.
Liamba - Também chamada diamba, é a cannabis sativa, conhecida no Brasil por maconha. Fumada ou inalada pode dar alucinações. Os velhos africanos fumam muito a diamba, com propósitos medicinais.
Lwandu - Esteira, serve de cama.
(total 73)
Dicionário Angolano - De M a Z
Machimbombo - Autocarro, onibus
Maka – Problema.
Makunde - Feijão-frade.
Malembe - Devagar.
Malaiki - Esperto, atento, também pode ser invejoso.
Malta – Galera.
Mambo – Objeto, alguma coisa.
Marimbondo - Formiga grande e feroz. Segundo a leitora Patyfendes, é um inseto voador, que fica nas árvores e ferra mais que abelha.
Mata-bicho – O pequeno-almoço português, nosso popular café da manhã. Com o uso, virou verbo. Ninguém está a lhe oferecer um inseticida se lhe pergunta: “Já mata-bichastes hoje?” Provavelmente vai convidá-lo para o café da manhã.
Mataku - Rabo, cu.
Mato - Sertão.
Matubas - Testículos.
Matuji, tuji - Merda
Matumbos - Burros.
Mauindo, bitacaia - Pulgas nos pés
Mboa/Dama – Mulher/esposa, namorada.
Monandengue - Miúdo, garoto.
Motorizada - Motocicleta.
Muata - Chefe.
Mujimbu - Boato.
Múkua - Fruto do imbondeiro, faz-se um sumo, bem fresco e com qualidades laxativas.
Mulumba - Marreca
Mundele - Branco.
Mungu - Até amanhá.
Muringue - Bilha de água, conserva a água fresquinha.
Museke - Terreno arenoso, bairro. E como bem alertou o leitor Fernando Baião, é O museke, ou musseque (grafia portuguesa) e não A musseque.
Muxima - Coração .
Mwata - Grande Chefe, serve para designar todos os chefes, tribais ou não. Como em Angola "Chefe" tem sempre muitas mulheres, a designação de marido de toda a gente não destoa. Em Luanda, começou a usar-se o termo, para os ministros e outros que têm o poder.
Não tem kigila - Não há problema.
Nas Calmas - Tudo bem.
Ngombiri - Mulherengo, expressão muito usada por todos em Luanda.
Nguvulu - Governador.
Onda - Feitiço.
Paiar - Aldabrar, tramar, pode até querer dizer matar.
Paludismo - Malária
Panina/paneleiro – Homossessual.
Pankê - Comida.
Parte-os-cornos – Camisa de mangas cavas.
Partir – Quebrar. Usa-se inclusive para estradas danificadas pelas chuvas. "A estrada está partida". Aqui, quando alguém diz "A ponte que partiu", refere-se literalmente a uma ponte destruída pelas chuvas.
Partir o Braço - Pedir dinheiro, também usado como roubar em alguns contextos.
Passadeira - Faixa de Pedestres.
Pastelaria - Padaria.
Pato - Penetra de festa, o famoso bico.
Peão - Pedestre.
Prego no prato - Bife a cavalo.
Prego no pão - Churrasquinho, sanduíche de bife.
Pica - Em português de Angola, é injeção, vacina, ou qualquer tipo de exame que exija o uso de agulhas. Quando você suspeita que contraiu malária, por exemplo, toma a pica. E ainda paga cerca de 8 dólares para isso numa boa clínica privada.
Picar - Reprovar nos exames escolares.
Pitar - Comer.
Pita Bwé - Come muito.
Pong - Estilo, charme, poster.
Porreiro – Legal. Exemplo: "Esse gajo é bem porreiro".
Pula - Branco.
Puto – O mesmo que miúdo, garoto, menino.
Quentex - Bebida forte
Raias - Óculos de Sol.
Rancheira - Prostituta, (não é muito usual).
Rapina - Assalto, roubo violento.
Romper – Também serve para quebrar, estragar. Quando alguém bate no seu carro, por exemplo, dizem que lhe romperam a viatura.
Rotunda - Rotatória.
Ruca - Carro.
Sakidila – Obrigado
Salo – O trabalho.
Sande - Sanduíche.
Santinho - Saúde
Semba - Dança angolana
Sítio – Lugar.
Soba - Autoridade suprema de um domínio africano. Régulo.
Sukuama - Ai, pôças, pópilas, com os demónios!
Sumo – Suco.
Sungura - Dança de origem zimbabweana, que o angolano grama(gosta) dançar.
Sussa - Mijar.
Tá a bater – Tudo bem (resposta à pergunta "tudo bem?"; tá a bater significa que, se o coração bate é porque está tudo bem).
Tambula conta - Cuidado.
Telemóvel - Celular.
Terminal – Número do telemóvel.
Tráfego - Congestionamento de veículos.
Tranco - Fazer amor.
Trânsito - Policial da Polícia de Trânsito.
Trapa - Veste
Tropa - Exército. Eles dizem "fazer a tropa" para o que chamamos "servir ao exército" no Brasil.
Trungungueiro - Sôfrega, aquele que já tem e quer mais.
Tunda - Fora, rua.
Turrum - Moto.
Um valor - Mulher linda.
Uaué - Acudam, socorro.
Viatura – Qualquer tipo de carro.
Vírgulas altas - Aspas.
Xamavu - Vem do kimbundu "ixi ya mavu" terra de barro vermelho, nome também dado antigamente ao mercado de S.Paulo, por estar situado em terra de barro vermelha.
Xaxu (Manda Xaxu) - Papo furado.
Xé - Psst, tu, você, olá.
Xinguilar - Ficando maluco.
Xuxa - Mama.
Walalá - Gritamos, quando o jogador faz uma grande finta num jogo.
Zungueria - Ambulante.
(Total 97 termos)
domingo, 30 de março de 2008
Casa Nova

Nosso quarto agora é grande, tem um guarda-fatos (o que significa que minhas roupas finalmente puderam se libertar da mochila) e temos um banheiro só para nós. O prédio também é uma raridade. É bem velho, mas as escadas são limpas e um dos elevadores funciona quando tem energia.
Como nem tudo pode ser perfeito, na manhã de sábado descobrimos que o banheiro, além de exclusivo, vem com piscina. Um vazamento misterioso, que os donos não conseguem descobrir de qual andar vem. Em outras palavras, não tem solução. O lado bom é que ele aparece esporadicamente e depois passa semanas sem vazar de novo.
A vista da janela, pelo menos, é bem bonita.
Ficamos por aqui por alguns meses, mas até agosto temos que nos mudar porque o apartamento vai mudar de dono. Até lá, esperamos encontrar nossa Casa de Luanda definitiva.
Despedida da Musseque
A rua de casa:

A mulherada na porta (o salão de beleza da rua...):

O mercado da esquina:
Nossos vizinhos do lado esquerdo (Nanda e Teddy) brincando,
estudando,

e posando pra foto!
Crianças da rua brincando de carrinho...
e de carrão...
Divertindo-se com a câmera!
Pra fugir do calor, bacia vira piscina...
...e quintal vira quarto!
Da janela do quarto, o mar de telhados de zinco...

E finalmente, pra compensar, a vista do terraço!
Coragem, paciência. E persistência!
Depois de quase um mês exercitando essa habilidade, chego à conclusão de que, em muitos casos, pedir paciência é a forma que os angolanos encontraram de impor seu ritmo pra lá de lento aos estrangeiros que chegam impondo velocidade. Sabe aquela coisa de não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje? Pois aqui o ditado é ao revés!
Os angolanos pedem paciência por não cumprirem o combinado, por te deixarem esperando horas sem dar nenhuma satisfação, por não fazerem o trabalho direito, por terem a burocracia mais enrolada que já vi no mundo. E se falta luz toda semana, paciência... Se faltam livros e professores nas escolas, paciência... Se faltam hospitais, paciência... Se o guarda é corrupto, paciência!
O problema é que, ao fazer da paciência uma panacéia, questões urgentes não são resolvidas nunca. Isso num país onde as questões urgentes são tão fartas quanto o petróleo... Por isso é que todas as grandes empresas daqui preferem contratar mão-de-obra estrangeira... Em algumas construtoras brasileiras, até o operador do trator é trazido de fora!
Pois minha dica a quem chega em Luanda seria: Traga muita paciência sim. Mas não abuse na dose! Quanto ao conselho da colega, mudaria só algumas letras... Acho “Coragem e persistência” uma combinação mais esperta, ou pelo menos mais responsável...
É verdade que persistir pode ser mais doloroso que esperar. E pode ser também mais custoso (meus créditos do celular vão embora como água, de tanto que ligo cobrando os outros!). Alguns colegas de trabalho me olham de lado, porque dou mais trabalho a eles. Outros simplesmente não entendem o porquê da pressa. Mas alguns (ainda que poucos) se mexem, empenham-se e resolvem! Ufa!
Minha esperança é que, pelo exemplo, essas exceções se multipliquem. E que os angolanos percebam que é muito mais prazeroso descruzar os braços e colher os frutos do trabalho bem realizado.
Do lado de lá... e de cá

Esta foto roubada discretamente na rua onde trabalho simboliza bem a desigualdade deste país de que F. falou no post abaixo...
Do lado de lá, um prédio ocupado, paredes quase despencando, residência ou local de trabalho de boa parte dos luandenses. Do lado de cá, uma loja de roupas importadas, com vitrines luxuosas, que só a elite montada em Toyotas pode vestir.
Entre os dois mundos, um segurança sonolento, garantindo que os que vivem do lado de lá não atravessem para o de cá.
quinta-feira, 27 de março de 2008
Pobre país rico
Por causa de fatos como esse, o Japão considera Angola um país rico. E o governo japonês teria inclusive anunciado o fechamento de linhas de financiamento a fundo perdido para cá. Os países europeus também já estariam revendo suas doações.
Angola produz 2 milhões de barris de petróleo por dia - em 2006 arrecadou mais de 30 bilhões de dólares com exportações do óleo - e a taxa de crescimento projetada para este ano é de 27,2%. A renda per capita é de quase 3 mil dólares e os investimentos estrangeiros estão estimados em 20 bilhõesde dólares em 2008.
É riqueza que não acaba mais, mas que também não chega à mesa de 70% da população. Esses cerca de 11,4 milhões de angolanos excluídos da farra do petróleo continuam vivendo abaixo da linha da pobreza. O que mantém este rico país em 162º lugar na lista de 177 países classificados pelo Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD.

