sexta-feira, 4 de abril de 2008
O dia da paz
O conflito em Angola foi um dos mais emblemáticos da Guerra Fria, e foi marcado pela insanidade, pela sede de poder e pelo ideologismo interesseiro típico desse período. “Veste minha camisa que te dou um fuzil” (e depois levo suas riquezas...).
Soviéticos e cubanos sustentavam o MPLA; EUA e Israel garantiam as armas da FNLA; EUA (de novo!) e África do Sul patrocinavam a UNITA.
No fundo, uma confusão despropositada de siglas sem sentido para a maioria dos angolanos, mas que rapidamente fez a cabeça deles, separando irmãos e vizinhos em inimigos e uma nação novinha em folha numa filial do caos.
Para conhecer os detalhes da guerra, leia os 3 post abaixo, fruto de pesquisa feita por F. e sua veia de historiador, que vem aflorando aqui na África...
Dia da Paz - Parte 1: Sopa de siglas
Ao norte, Holden Roberto fundou a Frente Nacional de Libertação de Angola, FNLA, em 1961. Defendia a supremacia de seu grupo étnico, os Bakongo.
Mais ou menos na mesma época, estudantes angolanos no exílio, principalmente em Portugal, fundaram o Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA, liderados por Antônio Agostinho Neto e Viriato da Cruz. Embora tivesse maioria da etnia Kimbundo, era o mais universalista nessa questão, com uma visão de Angola como uma nação única.
O MPLA tinha inclinações marxistas, era financiado pela extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com apoio de Cuba, o que o impediu de conciliar-se com a FNLA, financiada pelos Estados Unidos e por Israel, além do Zaire.
Em 1966, dissidentes da FNLA fundaram a Unita, União Nacional pela Independência Total de Angola, liderada por Jonas Savimbi. Diziam-se maoístas, depois marxista-leninistas, mas acabaram entrando na guerra civil financiados pelos Estados Unidos e pela África do Sul. Savimbi era Umbundo e também tinha inclinações racistas contra as outras etnias.
Dia da Paz - Parte 2: Independência e morte
O MPLA dominava a região de Luanda, Benguela e o Lobito. Para tentar evitar que esse movimento tomasse o poder, a FNLA – apoiada pelas tropas do Zaire - invadiu Angola pelo norte em julho de 1975. A África do Sul invadiu o sul do país com suas tropas para apoiar Savimbi em agosto e o MPLA recebeu reforços cubanos em outubro.
No dia 11 de novembro de 1975, Agostinho Neto declarou a independência e se auto-proclamou primeiro presidente de Angola. O MPLA chegava ao poder, mas a guerra continuava comendo solta.
Em 1976, a FNLA foi derrotado e Holden Roberto fugiu para o Zaire. A luta continuou contra Savimbi. A Unita e a África do Sul sofreriam sua grande derrota em 1988, na batalha do Cuito Cuanavale, onde o MPLA e os cubanos os expulsaram do país. A guerra perdeu força, mas não terminou.
Dia da Paz - Parte 3: A paz, aos trancos e barrancos
Em 1992, foram marcadas eleições livres. Holden Roberto recebeu apenas 2,1% dos votos, retirou-se de cena e viveu em Luanda até morrer, no ano passado. Jonas Savimbi ficou com 40,07%. E José Eduardo dos Santos, sucessor de Agostinho Neto (que morreu em 1979), foi reeleito com 49,57% dos votos.
Savimbi não aceitou o resultado e retomou a guerra civil. Outros tratados de paz foram tentados e quebrados sucessivamente, até que as Forças Armadas Angolanas mataram o líder da Unita, em fevereiro de 2002.
Em 4 de abril do mesmo ano, foi assinada a paz. José Eduardo dos Santos continua no poder até hoje. A Unita se tornou um partido político e ganhou alguns ministérios no governo. Foram marcadas novas eleições parlamentares para setembro e, no ano que vem, as presidenciais. Dizem que o presidente não vai concorrer.
Mas isso, só o futuro dirá.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
As vítimas silenciosas
Cristina Ngueve foi acompanhar a cunhada ao posto médico da vila onde morava, em Uíla. Na picada, a cunhada pisou no fio que acionava uma mina de instalação. O artefato explodiu ao lado de Cristina. A cunhada perdeu uma perna; ela perdeu as duas. Tinha 18 anos.
Eva Gabriela acordou numa manhã de 1996, abriu a porta da casa em que morava na província de Kuando Kubango, sudeste de Angola, e quando pisou do lado de fora, explodiu numa mina terrestre que havia sido colocada durante a noite. Perdeu a perna direita. Ela tinha 12 anos na época.
Luisa Miguel Adão Gaspar voltava do riacho, na província do Bengo, com um balde de água na cabeça quando pisou numa mina, em 1997. Passou três meses num hospital angolano. Perdeu a perna e a vista esquerda. Ficou seis meses na Alemanha, socorrida por uma ONG, para tentar reconstruir a face. Tinha 12 anos de idade. Essas histórias ilustram a pior face do conflito civil que destruiu Angola entre 1975 e 2002. Como me disse uma das 18 mulheres mutiladas com quem conversei, elas não pegaram em armas, não lutaram por nenhum dos lados. Aquela guerra não lhes pertencia. Mesmo assim, tiveram suas vidas definitivamente marcadas pela brutalidade.
As 18 sobreviventes tiveram a coragem de participar de um concurso de Miss organizado pelo governo de Angola, o Miss Sobrevivente de Minas, para chamar a atenção do mundo para o problema. Afinal, ainda existem 2,3 milhões de angolanos vivendo em áreas de risco. Angola ainda tem, já mapeados, 3,2 mil campos minados.

Os mais otimistas dizem que ainda vai levar 30 anos para livrar o país dessa desgraça; os pessimistas apostam em 130 anos.
Para quem mora no Brasil, parece que o Estadão publicou hoje uma matéria sobre o concurso de miss. Mas o cara que escreveu lá não contou tantas histórias de sobreviventes.
O primeiro pedido de gasosa
– Senhor, identifique-se por favor – disse o policial. Saquei minha identidade diplomática e entreguei a ele.
– Ministério das Relações Exteriores? Protocolo Geral? Onde o senhor trabalha?
– Nas Nações Unidas – menti.
– O que é PNUD? Algum partido político?
– Não, é o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
– Ah, o senhor está a ajudar Angola?
– Exatamente.
– Para onde estás indo agora?
– Para uma reunião ali noutro bairro.
– Pois vamos então. O senhor sabe, existem muitos ladrões por aqui. Não como no Brasil, mas há gatunos. O melhor seria fazer uma fotocópia deste bilhete de identidade e deixá-lo em casa. Pode andar só com a cópia.
– Agradeço o conselho, vou segui-lo.
Chegamos à esquina. Ele parou.
– Nosso papel, como policial, é proteger e ser amigo do cidadão. Apreciei muito tê-lo conhecido. O senhor não teria uma gasosa para me oferecer?
– Também apreciei muito tê-lo conhecido, mas não tenho gasosa.
– Mas eu o acompanhei até aqui. E a segurança que lhe prestei?
– Agradeço sua preocupação com minha segurança, mas não pedi que o senhor me acompanhasse.
– Está bem então. Vá em segurança. Quem sabe numa próxima vez que o senhor passe por aqui...
terça-feira, 1 de abril de 2008
Tesouro escondido

O muro branco que fazia as vezes de tela está sujo, mal-cuidado como quase tudo por aqui. Faz muito tempo que não vê uma película. Do espaço, projetado pelo arquiteto português João Garcia de Castilho nos anos 50, sobraram os traços de pompa.
Deviam ser realmente magníficas as noites de cinema ao ar livre, com a baía de Luanda iluminada por navios na entrada do porto. Hoje o espaço só recebe eventos e espetáculos. Por isso as cadeiras alinhadas.
