sábado, 12 de abril de 2008

Luanda dos angolanos

No post sobre a Luanda do passado, prometi contar como os portugueses partiram.

Luanda virou uma loucura nos três meses anteriores à independência, que tinha data marcada para acontecer. Faltava comida e água, sobravam portugueses em imensas filas nos bancos, tentando sacar os escudos antes de partir.

Nos jardins das vivendas, as famílias construíram grandes caixas de madeira e empacotaram suas casas. O jornalista polonês Ryzsard Kapuscinski estava aqui na época. No seu livro “Another Day of Life”, ele descreve muito bem essa transferência da cidade de concreto para a de madeira.

No início de outubro, a Luanda encaixotada partiu numa longa fila de navios para Lisboa, Rio de Janeiro e Cidade do Cabo.

Despachadas as riquezas, seus donos iam para o aeroporto, que virou um campo de refugiados, desesperados por um vôo. Tinha gente dormindo na chuva do lado de fora do saguão, cada avião era disputado a tapas e outros países acabaram ajudando na criação de uma ponte aérea entre África e Europa.

Todos abandonaram a cidade. Da noite para o dia, Luanda não tinha mais médicos, nem carteiros, nem bombeiros, nem policiais... Nem lixeiros!

Os detritos acumulados nas ruas e esquinas, expostos ao calor intenso, começaram a transformar a Cidade Maravilhosa de África num lugar pestilento.

Apesar de tudo isso, havia um motivo para celebrar: pela primeira vez em 400 anos Luanda, enfim, era dos angolanos.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Pequeno dicionário Angolano

Hoje conheci um angolano que foi criado no Brasil e voltou já adulto. Em algum momento, ele disse:

- Você sabe, falamos línguas diferentes aqui e no Brasil. Nós entendemos porque o som é parecido, mas a língua é outra.

Cheguei à conclusão de que ele tem razão. Por isso estou criando este pequeno dicionário, que começa com um termo bem curioso:

Mata-bicho – termo angolano para o pequeno-almoço português, nosso popular café da manhã. Com o uso, virou verbo. Ninguém está a lhe oferecer um inseticida se lhe pergunta: “Já mata-bichastes hoje?” Provavelmente vai convidá-lo para o café da manhã.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Você conhece a poesia de Agostinho Neto?

Há quase um mês o debate que toma conta das páginas de cultura em Angola versa sobre a liberdade de expressão. O escritor José Eduardo Agualusa, um dos melhores da nova geração angolana, disse em entrevista o jornal Angolense que Agostinho Neto, primeiro presidente do país, era um poeta medíocre.

Imediatamente, vários escritores e intelectuais saíram em defesa das veleidades literárias do líder histórico do MPLA. E Agualusa vem sofrendo, desde então, um ataque feroz. A notícia mais recente, de hoje, diz que ele será processado judicialmente pela declaração. Prova de que Angola ainda não está tão aberta a opiniões divergentes das dos governantes.

Este vídeo, que encontrei no YouTube, mostra um dos poemas de Agostinho Neto. Ele foi postado por Kuribeka, que tem outros vídeos muito interessantes sobre fatos históricos de Angola, para quem se interessar.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Lembra que Luanda tinha muita poeira?

Pois é, finalmente chegaram as primeiras chuvas. Algumas bem fortes, outras nem tanto... E aquela poeira toda virou lama. Muita lama.

Quem só anda a pé, como eu, nem precisa se preocupar em malhar. Além do exercício da caminhada, é um tal de pular poça de barro pra cá e pra lá... Com o peso extra de terra grudada nas solas dos sapados, as pernas engrossam rapidinho.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um mês em Angola

Luanda (pelo menos para mim) funciona assim:
  • No final do primeiro dia, você acha que não vai aguentar uma semana;
  • No final da primeira semana, você tem certeza de que não dura um mês;
  • No fim do primeiro mês, bom, você já está achando que um ano talvez seja pouco...

domingo, 6 de abril de 2008

Rio de Janeiro de África

Parece difícil de acreditar, mas Luanda não foi sempre assim caótica. E aqui estão as provas, enviadas por nosso leitora (amiga e agora colaboradora) Flávia.

Até os anos 60, Luanda era uma Cidade Maravilhosa. Era chamada de Rio de Janeiro da África. Foi toda planejada pelos colonizadores. Seus prédios de amplos vãos sob as marquises ofereciam abrigo do sol inclemente. Os apartamentos avarandados e amplos eram bem ventilados.

As ruas seguiam uma ordem e as avenidas radiais levavam à Cidade Baixa, desembocando nas proximidades da Marginal de frente para a baía. Havia praças com jardins bem cuidados, árvores nas ruas, transporte coletivo.

Os portugueses realmente investiam na cidade, mas a projetaram para abrigar 600 mil pessoas. Hoje, ela tem 6 milhões de habitantes que chegaram por aqui sem que a infra-estrutura fosse melhorada.

Se você caminhar sob aquelas marquises de pé direito duplo, vai se “refrescar” com as goteiras dos condicionadores de ar ou sabe-se lá de que tipo de vazamento. Quanto às varandas, bem, a maioria foi fechada para dar lugar a um quartinho a mais já que as famílias que ocupam os apartamentos são numerosas.

O transporte público ruiu, o excesso de veículos travou as ruas e o resto você já sabe. Outro dia eu conto a história de como os portugueses partiram daqui.

sábado, 5 de abril de 2008

A tragédia do DNIC


Hoje faz uma semana que em Luanda só se fala no desabamento do prédio da Direção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) da polícia angolana. Foi uma tragédia. Mais de 150 feridos e 30 mortos, na última contagem oficial.

O prédio, situado no bairro da Cidadela (não muito longe daqui), começou a ruir por volta de 1h30 de sábado passado, dia 29 de março. Às 4h30 foi tudo abaixo. A construção servia como detenção para suspeitos de crimes que ainda estavam a ser investigados. Entre os mortos, um bebê que nascera na cela da ala feminina e sua mãe. Um horror.

Em virtude da tragéda, a Defesa Civil de Luanda saiu às ruas tentando identificar outros prédios em risco de desabamento. Listou mais três, um deles bem na esquina do Largo do Kinaxixe, uma das regiões mais centrais da cidade.

Particularmente, acho que eles não procuraram direito. Diante do estado de abandono da maioria dos edifícios da cidade, não me espantaria se descobrissem que as estruturas de vários deles estão comprometidas.