domingo, 20 de abril de 2008

Pra não dizer que não falei das flores


Sim, Luanda por enquanto chega aos meus olhos embaçada pela poeira. Chega coberta de lixo e esgoto, porque é deles que desvio todos os dias para chegar ao trabalho. Chega marcada de guerra, porque mãos empunhadas de fuzis escoltam as calçadas por onde passo. Chega cheia de contradições porque Toyotas e Kandongueiros dividem minhas boléias. Chega bem mal-explicada, porque quando eu pergunto as vozes calam.

Mas chega também com a força e o colorido das flores. As flores que nascem ousadas atrás da poeira, ao lado do lixo e do esgoto, e dão vida às ruas com suas roupas estampadas. Carregam sobre a cabeça grandes pétalas de plástico recheadas de frutas. Não se curvam sob o sol ardente, não esperam acontecer. Seguem “caminhando e cantando”, (e os brasileiros sabem o que estou cantando...).

Arranjam-se em pequenos buquês nas esquinas, ensinando à Luanda o espírito de iniciativa e coletividade de que ela tanto necessita. Logo nas primeiras semanas vi um desses buquês em ciranda, com flores ensinando outras flores a ler e escrever. “Aprendendo e ensinando uma nova lição”. Lição que, espero, sigam ensinando aos irmãos que, equivocados, insistem que sábio é esperar.

Vim para Angola regar flores. E faço delas meu mais forte refrão.

Porque hoje é domingo...

Porque esta semana conheci o Migas com Gindungo, um sítio cheio de receitas de delícias.

E porque hoje é aniversário do meu pai, lá do outro lado do Atlântico.

Resolvi fazer um bolo. Mas não um qualquer. Uma receita que representasse um pouco do cadinho cultural desta Luanda cheia de expatriados.

Então fiz este “Pan de Plátano”, uma receita de origem mexicana, ensinada por uma cubana, feita por um brasileiro.

Pan de Plátano da Tereza

Ingredientes
5 ovos
6 bananas amassadas
2 medidas de farinha (latas de leite condesado)
1 medida de açúcar
1 xícara de óleo
1 colher de chá de fermento
1 pitada de sal

Preparo
Amasse as bananas e reserve. Em outra tigela junte a farinha, o açúcar, o fermento e o sal e misture bem. Adicione o óleo, misture bem e reserve.

Bata os ovos inteiros até que formem uma mistura homogênea. Em seguida, junte-os à farinha e misture bem. Acrescente a banana e misture até formar uma massa homogênea.

Deixe descansar por 5 minutos.

Unte a fôrma com um pouco de manteiga derretida e uma fina camada de farinha.
Pré-aqueça o forno por 5 minutos a 180C.

Coloque a massa na forma e leve ao forno a 180C, por 20 a 25 minutos.

Após 20 minutos, espete a massa com uma faca. Se sair seca, o Pão de Banana está pronto.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Pequeno Dicionário Angolano (III)

Como a idéia pegou e o dicionário cresceu, organizei os termos numa lista por ordem do alfabeto. Confira as palavras de A a D, de E a L e de M a Z. Assim que novas sugestões dos nossos leitores forem chegando, a lista será atualizada.

Estas duas que seguem já lá estão e são mesmo por minha conta:

Alcatrão – O asfalto das estradas;
Berma – A beira das estradas, no Brasil é chamado de acostamento.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Carta aberta a um anônimo

Recebi um comentário indignado de um anônimo e achei melhor publicar a resposta com mais visibilidade, para que não restem dúvidas sobre as motivações deste blog. Quem quiser, pode ler o comentário aqui. A seguir, a resposta:

Caro anônimo,

Lamento que te tenhas ofendido. Ao que me parece, não compreendestes bem o intuito deste sítio. Claramente, como o entenderam os outros leitores, inclusive os angolanos, não é o de atacar ou desmerecer o país. É antes o de mostrar uma realidade que está escondida, fora da mídia, e que pelo tamanho e riqueza de Angola, não deveria continuar a existir.

Tu deverias antes indignar-te com a existência dos problemas aqui mostrados e não com quem os mostra.

Ou achas natural que 70% da população do teu país viva abaixo da linha miséria (dados do PNUD) para que outros 30% dirijam os jipes mais caros do mundo pelas ruas? Achas mesmo bom que tanta gente, em pleno século 21, viva sem energia elétrica, sem saneamento básico, sem coleta de lixo e sem água tratada?

Nunca me esquivei de mostrar os problemas do Brasil quando lá vivia, em outro blog semelhante. E se hoje cá vivo, quero fazer parte, ainda que de forma tímida, do esforço para melhorar as condições de vida de todos os angolanos – não apenas dos poderosos. Na minha opinião, o fato de não ter cá nascido não me tira esse direito.

O primeiro passo para resolver problemas, meu caro anônimo, é admiti-los. Fingir que eles não existem é perpetuá-los.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Pequeno Dicionário Angolano (II)

Nosso pequeno dicionário angolano nasceu tímido, mas começa a ganhar consistência. Graças principalmente à colaboração dos nossos leitores.

O Rodrigo, que cá está a viver desde julho de 2007, deixou um comentário com 24 termos de uso corrente. Clique aqui para conferir.

A palavra que segue nos foi ensinada pela nossa leitora Flávia, antiga colaboradora deste sítio.

Pica - Flávia estranhou na primeira vez em que viu uma criança apavorada dizendo: "A pica não, mãe, a pica não!" Pica, em português de Angola, é injeção, vacina, ou qualquer tipo de exame que exija o uso de agulhas. Quando você suspeita que contraiu malária, por exemplo, toma a pica. E ainda paga cerca de 8 dólares para isso numa boa clínica privada.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Algumas palavras

As fotos do último post da P. são chocantes, porque o mercado informal de São Paulo é um descaso a céu aberto, exalando seus odores podres de miséria em plena luz do dia a poucos quilômetros do centro de Luanda.

O governo finge que está tudo bem, afinal, quem joga esse lixo todo nas ruas e entope os esgotos é o povo.

Os ambulantes fingem que está tudo bem, pois dali tiram seu sustento em notas amarrotadas de kwanzas.

Os milhares de compradores fingem que está tudo bem, basta enfiar os pés em sacolas plásticas e prender a respiração para pagar os preços mais baratos da cidade.

E as senhoras seguem fritando coxas de frango em panelas aquecidas por carvão a poucos centímetros do lixo; os adolescentes oferecem livremente bugigangas eletrônicas feitas por trabalhadores escravos na China; os negociantes vietnamitas vendem cama, mesa e banho nos armazéns por um terço do que se cobra nas lojas da cidade.

O sol torra as cabeças, o fedor aumenta, as crianças enchem as barrigas de vermes em mais um dia no meio do lodo, do esgoto e do lixo que a natureza nem sabe se um dia vai decompor.

Mas tudo está bem. No final do dia, algumas cervejas abertas e algumas lingüiças no churrasquinho bastam para estampar sorrisos banguelas nas caras sujas.

Alguns goles depois, todos já terão esquecido a miséria desgraçada em que vivem no país do petróleo e dos diamantes.

domingo, 13 de abril de 2008

Faltam palavras

Poucos lugares me impressionaram tanto na vida quanto as ruas de São Paulo, o bairro dos camelódromos e armazéns aqui de Luanda. Ali, cada detalhe me remete ao caos. O cenário, os cheiros, as atitudes, os barulhos, os rostos. E o lixo, o lixo, o lixo...

Voltei pra casa querendo escrever sobre tudo aquilo. Mas como? Se fosse há 20 anos, escreveria um poema cheio de adjetivos. Há 15 anos, provavelmente comporia uma música estilo "we are the world" e mandaria por correio para a sede das Nações Unidas (hehehe...). Há 10, sairia com um manifesto pseudo-revolucionário e espalharia pela faculdade. Há 5, produziria uma reportagem cheia de números e aspas.

Mas hoje as palavras me faltaram. Pareciam todas ocas, sem força, sem cheiro. Tentei fazê-las pisar aquele esgoto, apertar-se naquela multidão, refletir os olhos amarelados daquela gente. Não deu.

Para quem vive aqui, uma sugestão: uma manhã no mercado de São Paulo é uma aula sobre este país (e sobre a humanidade!), uma pontada no coração, e uma saudável chacoalhada no espírito. Mas saia da rua principal, vista um plástico nos pés e entre pelas travessas cobertas de lixo.

Para quem está longe, deixo algumas imagens para ilustrar um pouco (ainda que bem pouco...) este mundo do absurdo.





Nosso agradecimento à doce e sorridente Anabela, que nos acolheu na sua barraca de sandálias de plástico para tirar essas fotos escondidas.