A Ópera que agita Luanda estes dias envolve atores internacionais de peso, suas posições ou omissões, e um navio cheio de armamento. Infelizmente, não está em cartaz, com portas aberta ao público. É encenada principalmente a portas fechadas, em gabinetes refrigerados. Mas tem ingredientes suficientes para gerar uma crise – ou no mínimo um mal-estar – internacional.
Atores principais:Zimbabwe – Realiza, em 29 de março, eleições presidenciais diretas, mas ninguém sabe o resultado até agora. O ditador Robert Mugabe, no poder há 28 anos e que só aceitou o pleito por causa das pressões internacionais, teria sido derrotado mas se recusa a aceitar o fato. Dois dias depois da votação, ele compra armas no mercado internacional.
China – Parceira comercial antiga de Mugabe, vende lançadores de granadas, morteiros, 3 milhões de munições para fuzis AK-47 e armas de pequeno porte ao ditador. Embarca tudo no navio Na Yue Jiang com destino à África.
Enredo:
Primeiro Ato – O navio chega a Maputo, capital de Moçambique, e é proibido pelo governo daquele país de atracar. Dirige-se a Durban, na África do Sul. Atraca, mas os trabalhadores sul-africanos se recusam a descarregá-lo.
Segundo Ato – O navio parte para Luanda e atraca. A primeira informação oficial diz que ele voltará para Pequim com as armas. Dois dias depois, porém, a autoridade portuária divulga nota dizendo que alguns containeres com material de construção destinados a Angola serão descarregados.
Terceiro – Trabalhadores do porto informam que seis containeres já foram descarregados. Eles, porém, não sabem o que continham. O material teria sido levado para o Gabinete de Reconstrução Nacional, órgão vinculado à Casa Militar da Presidência da República – que em nota oficial desmente a autoridade portuária e sustenta que nada foi descarregado.
Neste ponto, surgem dois novos atores até então fora da trama:
Angola – Desde o fim da guerra civil, em 2002, recebeu 5 bilhões de dólares em empréstimos chineses para a reconstrução do país. É hoje o maior fornecedor de petróleo da China e o comércio bilateral entre os dois países ultrapassa os 8 bilhões de dólares por ano.
Organização das Nações Unidas – Encerrou, no dia 30 de abril, o mandato da Comissão dos Direitos Humanos em Angola, a pedido do governo, descontente com relatórios produzidos pela comissão. Diz, na sua
carta de criação, que tem a finalidade de promover a tolerância e a convivência pacífica entre os países, entre outras coisas.
Último ato – Organizações Não Governamentais de direitos humanos tentam forçar o governo a mostrar o conteúdo dos containeres. Pedem apoio da ONU. O governo angolano continua negando que eles tenham sido descarregados. No prédio da ONU, todos os representantes oficiais se recusam a comentar o caso. E a Comissão de Direitos Humanos não pode se manifestar, já que perdeu seu mandato.
Desfecho – Ainda está por ser escrito, a espera de que ONU e Angola decidam se pretendem entrar para história como coadjuvantes da guerra, ou como protagonistas da paz no Zimbabwe.