segunda-feira, 5 de maio de 2008

É a Casa virando notícia

Depois do Global Voices, já referido em post anterior, agora foi a vez do Notícias Lusófonas render citação a esta Casa de Luanda.

Desta vez, citando o post sobre o navio chinês carregado com armas. O colunista até se inspirou no estilo da Casa pra também chamar a história toda de "opereta".

Todas as faces da cultura

Nas aulas de antropologia, aprendemos que cultura é o conjunto das formas de agir, pensar, comunicar-se e manifestar-se de um povo.

Quando nos mudamos a outro país, queremos logo entrar em contato com a música, os ritos, a culinária e tudo o mais que expresse a parte final da definição. Porém, nem sempre estamos abertos da mesma maneira aos exotismos nas formas de agir e pensar. (Confesse: você nunca desejou que os ingleses dirigissem do “lado certo” ao atravessar a rua em Londres?)

Aqui em Luanda, uma das coisas que mais me incomoda é a fila (bicha, para tugas e locais) do caixa. Melhor, incomodava. Pois foi com ela que hoje aprendi uma valiosa lição.

Das lojinhas do bairro até os grandes supermercados, é sempre igual. Procuro a última pessoa da fila e pego meu lugar atrás dela, como sempre fiz na vida. Então vem um espertinho a encostar de lado. Quando vejo, já passou. Depois vem outro e entrega discretamente a lata de cerveja e o dinheirinho trocado ao atendente do caixa. Que obviamente recebe. E quando finalmente vem o terceiro eu reclamo:

- Estamos todos esperando, sabia?
- Angola é assim, madrinha. Quem tem pouca coisa passa na frente.
- Também tenho só uma caixinha de chá e uma geléia, mas mesmo assim aguardo minha vez. (Na minha cabeça isso parece tão lógico, verdade tão indiscutível...)

É aí então que a senhora da frente, com o carrinho abarrotado, me convida para passar adiante... Hmmm, dilema ético!

- Mas senhora, se cada um que vier com uma coisinha passar na frente, a bicha nunca anda. Não é justo com os outros...
- E também não é justo vocês esperarem todo esse tempo para passar uma ou duas coisinhas. Vai lá, menina! Não me custa nada dar lugar a uma ou duas pessoas. Se a próxima fizer o mesmo, e assim por diante, a bicha vai rápido e ninguém sai perdendo.

E agora, quem tem razão? Cabe a cada um decidir o fim da história. O fim da minha foi assim:

Passei na frente com meu chá e minha geléia e aprendi uma grande lição: é preciso deixar de lado nossas verdades e entrar na lógica das outras culturas para vivê-las por inteiro. E é nessa desconstrução de dogmatismos e intolerâncias que chegamos a um mundo de mentes mais criativas e corações mais pacíficos.

domingo, 4 de maio de 2008

Dois pesos e duas medidas

Na hora de pesar o prato, a P. estranhou:

- 575g? Essa balança está certa? Olhando para o prato dá para ver que não tem mais de 400g.
- A balança está certa, senhora.

O meu prato já estava sendo pesado e o visor mostrava 1.595g. Um quilo, segundo o atendente, era o peso do prato. Mesmo assim, 595g era muita coisa para a quantidade de comida. Procurei, ao lado do caixa, o prato vazio que serve de tara e vi que ele era diferente do que estávamos usando. Busquei um prato igual ao nosso no início da fila e coloquei-o na balança: pesava 1.200g.

- Aí está o problema – eu disse. – O prato pesa mais do que vocês lançaram na balança.

O atendente fez cara de quem não entendia nada. Chamou outro. Nesse meio tempo, tirei a prova. Coloquei o prato que eles haviam usado na tara na balança e ele era 200g mais leve.

Os espertalhões usam um prato para registrar a balança e colocam outro, mais pesado, no serviço do bufê. Ficou assim esclarecido o nome da casa: o restaurante Magia faz truque na balança.

Para quem vive em Luanda, o restaurante fica no Shopping Chamavo, na Avenida dos Combatentes. Quando for comer por lá, atenção no peso do prato.

sábado, 3 de maio de 2008

A noite em que o rapper dançou

O show era do Festival Internacional da Paz, no Pavilhão da Cidadela. A grande atração era o rapper americano 50 Cent, amado pelo público angolano que lota a porta do hotel Trópico, onde ele sempre se hospeda quando passa por Luanda.

Na noite de quarta-feira, sete mil pessoas lotaram o ginásio. 50 Cent e a banda G Unit iniciaram a apresentação com vários sucessos cantados em coro pela platéia extasiada.

De repente, um homem fura o bloqueio da segurança e sobe ao palco. Um fã mais ousado? Não, um gatuno abusado que arrancou o cordão de ouro do pescoço do rapper e pulou de volta para a platéia.

O cantor ainda pulou atrás, tentando reaver a jóia, mas não o alcançou. Contrariado, encerrou o show na hora, cancelou as duas apresentações que faria na quinta e na sexta e tomou um avião de volta para os Estados Unidos.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Sinopse de uma Ópera Africana

A Ópera que agita Luanda estes dias envolve atores internacionais de peso, suas posições ou omissões, e um navio cheio de armamento. Infelizmente, não está em cartaz, com portas aberta ao público. É encenada principalmente a portas fechadas, em gabinetes refrigerados. Mas tem ingredientes suficientes para gerar uma crise – ou no mínimo um mal-estar – internacional.

Atores principais:
Zimbabwe – Realiza, em 29 de março, eleições presidenciais diretas, mas ninguém sabe o resultado até agora. O ditador Robert Mugabe, no poder há 28 anos e que só aceitou o pleito por causa das pressões internacionais, teria sido derrotado mas se recusa a aceitar o fato. Dois dias depois da votação, ele compra armas no mercado internacional.

China – Parceira comercial antiga de Mugabe, vende lançadores de granadas, morteiros, 3 milhões de munições para fuzis AK-47 e armas de pequeno porte ao ditador. Embarca tudo no navio Na Yue Jiang com destino à África.

Enredo:
Primeiro Ato
– O navio chega a Maputo, capital de Moçambique, e é proibido pelo governo daquele país de atracar. Dirige-se a Durban, na África do Sul. Atraca, mas os trabalhadores sul-africanos se recusam a descarregá-lo.

Segundo Ato – O navio parte para Luanda e atraca. A primeira informação oficial diz que ele voltará para Pequim com as armas. Dois dias depois, porém, a autoridade portuária divulga nota dizendo que alguns containeres com material de construção destinados a Angola serão descarregados.

Terceiro – Trabalhadores do porto informam que seis containeres já foram descarregados. Eles, porém, não sabem o que continham. O material teria sido levado para o Gabinete de Reconstrução Nacional, órgão vinculado à Casa Militar da Presidência da República – que em nota oficial desmente a autoridade portuária e sustenta que nada foi descarregado.

Neste ponto, surgem dois novos atores até então fora da trama:

Angola – Desde o fim da guerra civil, em 2002, recebeu 5 bilhões de dólares em empréstimos chineses para a reconstrução do país. É hoje o maior fornecedor de petróleo da China e o comércio bilateral entre os dois países ultrapassa os 8 bilhões de dólares por ano.

Organização das Nações Unidas – Encerrou, no dia 30 de abril, o mandato da Comissão dos Direitos Humanos em Angola, a pedido do governo, descontente com relatórios produzidos pela comissão. Diz, na sua carta de criação, que tem a finalidade de promover a tolerância e a convivência pacífica entre os países, entre outras coisas.

Último ato – Organizações Não Governamentais de direitos humanos tentam forçar o governo a mostrar o conteúdo dos containeres. Pedem apoio da ONU. O governo angolano continua negando que eles tenham sido descarregados. No prédio da ONU, todos os representantes oficiais se recusam a comentar o caso. E a Comissão de Direitos Humanos não pode se manifestar, já que perdeu seu mandato.

Desfecho – Ainda está por ser escrito, a espera de que ONU e Angola decidam se pretendem entrar para história como coadjuvantes da guerra, ou como protagonistas da paz no Zimbabwe.

Olha o Dicionário Angolano na Reuters!

Os méritos são da Flávia, do Fernando Baião, do Hélio (Viver em Luanda), da Kianda, da Menina de Angola, da Migas, da Mirella, do Rodrigo, e de todos os leitores que, direta ou indiretamente, colaboram para o Grande Dicionário Angolano.

Ele cresceu tanto que ganhou uma menção na página angolana da Reuters!

A chamada está no canto direito e remete a um blog do Global Voices que cita nosso dicionário.

Parabéns a todos!