sexta-feira, 23 de maio de 2008

Para os amigos

O Grande Dicionário angolano hoje vai homenagear duas das freqüentadoras assíduas deste blog com dois termos novos. Um deles foi publicado pela Menina de Angola lá no sítio dela e já foi acrescentado ao dicionário na letra E. Vale ler o post da Menina, porque está realmente muito tocante.

A explicação do termo, como não poderia deixar de ser, veio do Fernando Baião, principal colaborador, desde o início, deste dicionário.

O segundo termo faz parte do nome do sítio desta outra moça, que hoje também saiu-se um tanto enigmática por lá.

Kianda - Sereia em quimbundo, no singular. No plural torna-se Ianda.

Estamos juntos, ya.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Ensinar a pescar

Minha avozinha nasceu em 1901 numa aldeia da Serra da Estrela, em Portugal. Ainda criança emigrou para fugir da fome que crescia nos campos portugueses. Nunca chegou a enriquecer no Brasil, mas tinha uma situação que lhe permitia ajudar aos mais necessitados. Cresci vendo-a servir refeições a senhoras e crianças muito pobres, que ela recebia no quintal de casa. Também acionava suas redes para conseguir roupas usadas.

Na universidade ensinaram-me que isso chamava-se assistencialismo e não era bom. Havíamos antes de "ensinar a pescar" e esses blábláblás que cabem bem na frente da sala de aula.

Ontem, quando postei os números da fome no mundo, descobri este sítio da Moira que, por uma dessas coincidências, também tratava do assunto. E lá fiquei sabendo que ela, ainda hoje, faz a mesma coisa que a minha avó fazia: alimenta pessoas pobres. Com a diferença que ela mora em Portugal, na rica Comunidade Européia dos euros com que tantos brasileiros sonham.

Quatro gerações se passaram desde que a fome expulsou minha avó da terra dela; e a fome continua a matar, a excluir, a destruir o futuro das crianças em todo o mundo.

Olho agora para todas as varas, linhadas e anzóis com que aportei em África para "ensinar a pescar" e me ponho a pensar: não seria melhor seguir o exemplo da Moira e da minha avó? Não tiraria pelo menos uma alma da tal lista macabra?

Não sei a resposta. Se é que há uma resposta.

Enquanto isso, outras 25 mil pessoas morrerão hoje no mundo por falta do que comer.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Números para pensar

  • 25 mil pessoas morrerão hoje de fome em todo o mundo.
  • 100 milhões de seres humanos vão entrar para o clube dos famintos por causa do aumento dos preços dos alimentos em todo o mundo
  • Eles se somarão aos 830 milhões que hoje já não têm o que comer todos os dias, chegando a quase 1 bilhão de pessoas passando fome.
  • 755 milhões de dólares é o valor extra que o World Food Programm das Nações Unidas precisa para manter sua operações atuais.

Enquanto isso, nos países ricos...

  • 10,9 bilhões de dólares foi o lucro líquido, nos três primeiros meses do ano, apenas da ExxonMobil, a maior empresa petrolífera do mundo.
  • 45 bilhões de dólares é o orçamento do Exército chinês para este ano.
  • 70 bilhões de dólares é o preço da guerra do Iraque no período de setembro deste ano a outubro de 2009.
  • 3,1 trilhões de dólares serão gastos pelos Estados Unidos só com o Departamento de Defesa no mesmo período.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Arquivo morto

Arquivo Nacional de Angola, 8h30. Encosto no balcão de atendimento, ninguém aparece.

(Era minha segunda visita ao lugar. Na primeira, cheguei desavisado às 15h e explicaram-me que o arquivo fecha às 14h30. Paciência, são as regras do lugar, não vou meter-me agora a querer mudar tudo. A que horas abre? Às 8h, disseram-me na ocasião.)

8h45, uma moça aparece atrás do balcão. Os monitores dos computadores estão cobertos por coloridos panos africanos. Eu a chamo, ela me olha com indiferença e segue acendendo as luzes da sala. Eu insisto, ela me fuzila:

- O atendimento começa às 9h.
- Haviam-me dito que abria às 8h.
- Abre às 8h, mas o atendimento começa às 9h.
- !?!?!?
- Está escrito nessa placa ao seu lado.

De fato, na coluna ao meu lado, um folha A4 presa com fita-cola informa o horário de atendimento, segundo norma do senhor diretor.

Comecei mal. Paciência, muita paciência.

9h01, encosto no balcão. Sem nenhuma vontade de ser simpática, a moça vem me atender. Explico o assunto da minha investigação: Palácio de Ferro (uma construção antiga de Luanda).

- Nossos computadores não estão a funcionar, não temos como fazer buscas no sistema.
- !?!?!?!?! E por que não me disseste antes?
- O senhor pode olhar a nossa lista bibliográfica a ver se encontra algo parecido.

Ela me entrega dois livros pretos, capa dura, 70 folhas (cada um) repletas de nomes de livros e autores que não seguem qualquer ordem aparente de indexação.

Paciência, paciência, paciência...

Começo a pesquisa.

JESUS, C.A. Montalto de
"A criminalidade Germânica"
Londres: JAS. Truscott & Son, 1916 - 6p.;

Atrás do balcão, a embaixadora da boa vontade senta-se à frente de um daqueles computadores que não estão a funcionar.

PALESTRAS PELO CONDE DE LAVRÁDIO
"Palestras pelo Conde de Lavrádio"
[19...] - 13p.;

Ouço a musiquinha cretina do windows a ser iniciado.

ZÉVÉNINE, D.
"Le culte des idoles en Sibérie"
D. Zévénine - Paris: Payot, 1952 - 269p.;

Sibéria? Nessa sala sem ar-condicionado que derrete minha testa?

SUNG, Kim Il
"Los jovenes deben continuar nuestra obra revolucionária"
Kim Il Sung - Pyongyang, Corea. Ediciones em Lenguas Extranjeras - 1976 - 269p.;

O que será que essa mulher faz tão compenetrada à frente desse computador que não serve para consultar o catálago do arquivo?

EIN FUHRER FUR AUSLANDISCHE STDIERENDE
Berlin: Verlag Walter de Grayterr & Co. Berlin und Leipzig, 1928 - 40p.;

Chega. Levanto da cadeira, livros de consulta na mão, dirijo-me à diletante funcionária.

COTTA, J. C. Montalto de
"Aparências e Realidades"
Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1965 - 191 p.;

Ela se surpreende com a minha chegada, entretida que estava no jogo de paciência do windows no computador que... você já sabe.

- Já terminou? Não encontrou nada?

A paciência (a minha, não a do windows) esgota. Não resisto.

- Quero estes livros.

Entrego a ela a lista dos títulos que copiara já pensando em escrever este post. Ela arregala os olhos.

- Tudo isso? Não creio que o senhor vá encontrar algo sobre o Palácio de Ferro nestes...
- A senhora tem alguma idéia de onde eu posso encontrar dados sobre o Palácio de Ferro?
- Não. Como eu já disse, o senhor deve tentar nas listas...
- Foi exatamente o que acabei de fazer. E estes são livros que eu gostaria de olhar.

Silêncio. Ela fecha a cara ainda mais.

- Só aguardar.
- Preciso pra já.

Ela se levanta irritada. Vai ter de abandonar o baralho do Bill Gates.

- Vou lá dentro buscar, mas vai demorar uns 10 minutos ou mais.
- Não há problema. Temos até as 14h30. Enquanto a senhora procura os livros, vou ali na lojinha da frente comprar uma água, que está muito quente aqui dentro.

Ela some lá para dentro, eu sumo lá para fora.

Aha, deve estar até agora a espera de que eu volte.


P.S. - Será que quando dizem que por aqui é preciso ter paciência, estão a se referir ao joguinho de cartas do windows?

Em ano eleitoral...

Deu na capa do Jornal de Angola de hoje: "TPA inicia exibição de programa Reconstrução e Desenvolvimento".

O texto explica que a Televisão Pública de Angola exibe, a partir de hoje, um programa diário (segunda a sexta) sobre o processo de reconstrução no país, "dando ao telespectador uma imagem real das mudanças e melhorias proporcionadas na vida do cidadão".

Então tá.

domingo, 18 de maio de 2008

Homenagem a Santa Bakhita

Bakhita era sudanesa, foi escravizada e vendida a um italiano no século 19. Levada para a Itália, conheceu a Igreja Católica e se tornou freira. Morreu em 1947 e em 1992, devido às inúmeras graças conseguidas por fiéis de todo mundo, foi santificada pelo Papa João Paulo II.

Os salesianos de Angola decidiram homenageá-la dando seu nome ao centro de formação profissional que construíram no município do Cazenga, região de Luanda.

O lugar ficou conhecido como Bakhita. E os moradores, então, aproveitaram o nome para "batizar" a cadela do lugar.


Então é assim: a santa acabou virando nome de cachorro. Mas, justiça seja feita, Bakhita (a cadela) é muito amável, acolhedora, sempre disposta a brincar com todos os que chegam. Talvez seja influência da santa que ela, mesmo sem saber, homenageia.

O cacimbo chegou...

E a mboa lá de casa já está a sentir frio...