quarta-feira, 28 de maio de 2008

Como nos tempos do apartheid

Em 2005, quando estive na África do Sul, chamou-me a atenção o clima de ódio racial no ar. Cheguei a escrever sobre isso no meu diário de viagem.

Parecia-me que, a qualquer momento, uma revolta da imensa população negra pobre contra a minoria branca rica descambaria para uma onda de violência desenfreada.

A onda chegou, mas bateu nos negros oriundos de outros países que vivem na África do Sul. Pelo menos 56 pessoas foram brutalmente assassinadas e outras 100 mil foram expulsas de suas casas.

O governo decidiu criar campos de refugiados para os estrangeiros. Os negros indesejados na África do Sul vão viver atrás de cercas.

Gente assassinada cruelmente, negros isolados em guetos... Exatamente como acontecia nos tempos do Apartheid.

Recebi por e-mail imagens feitas por um fotógrafo que acompanha o conflito. Como as imagens são fortes, deixo a cada um a decisão de abri-las. Se quiser vê-las, clique aqui. Ela estão acompanhadas pelo relato do fotógrafo que, infelizmente, não se identifica no e-mail.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A Grande Família Angolana

Todos estão sentados à volta da mesa, a comida pronta a ser servida e tia Justina acende o cigarro.

- Epá, mãezinha. Não vais acender isto logo agora.

Quem se queixa é o Oscar, que apesar de tratá-la por mãe, é enteado. Filho do primeiro casamento do tio Joaquim, já falecido. Com mais de 70 anos sulcados na face, tia Justina não lhe dá bola.

Ela foi a segunda mulher do tio Joaquim. Tiveram quatro filhos: três mulheres e um homem. Oscar vive ali pela sua casa como se filho fosse, mas a mãe verdadeira dele vive em Portugal.

- Nos falamos sempre, porque esse menino dá-me na paciência – queixa-se tia Justina. O “menino”, no caso, tem mais de 60 anos.

Em torno da mesa estão também o filho Manoel, duas das filhas, um genro, o Ricardo Lobo, que é mesmo tratado assim, pelos dois nomes, e dois sobrinhos da tia Justina: a Natália e o Eduardo, filhos da tia Mariana.

Tia Mariana mora na mesma rua, mas não veio. Com quase 90 anos, caminha com dificuldade. Tio Joaquim era irmão de tia Mariana.

O Manoel, esse sim filho mesmo da tia Justina, está com uma filha de três anos, Carolina. Nasceu de uma relação com uma moça que não chega a ser a segunda mulher do Manoel, já que não vivem juntos. A primeira mulher está em Portugal com as outras três filhas dele, que tia Justina vai visitar em julho.

O Ricardo Lobo conta histórias do tempo em que as festas começavam em Luanda antes das dez da noite e só acabavam depois das 5h30 da manhã.

- Tínhamos o toque de recolher e ninguém podia sair de casa nesse intervalo. À meia-noite a festa parava para que pudéssemos assistir à novela Gabriela.

A Natália lembra que O Bem Amado fazia o mesmo sucesso.

- Os políticos daqui começaram a imitar o jeito do Odorico Paraguaçu falar.

Todos já estão a fumar e a beber cafés com licores, e a relembrar os tempos de pato de Ricardo Lobo nas festas alheias.

- Certo dia chegamos eu e um amigo e o gajo na porta nos interpelou: “Os senhores são convidados?” Dissemos, claro que somos. E ele: “Da parte de quem?” E eu disse, da Noiva. E ele: “Ó desculpa lá amigo, mas isto aqui é um batizado”.

Todos caem na gargalhada.

Chega o tio Rafael, médico. Qual é mesmo o parentesco do tio Rafael? Natália tenta explicar:

- É assim, o meu tio Armando, irmão da minha mãe Mariana e do tio Joaquim, teve uma namorada, tás a ver? Eles viveram um tempo juntos, depois separaram-se, mas ela continuou amiga da família. Depois ela casou-se com o tio Rafael. Ela já morreu agora, mas o tio Rafael virou nosso tio.

Tás a ver? Assim é um domingo de uma típica família angolana, cheia de agregados e histórias dos tempos passados.

P.S. – Os nomes deste post estão todos trocados, claro, porque Luanda é uma cidade muito pequena.

domingo, 25 de maio de 2008

Luanda está dançando...

Porque hoje é Dia de África. E a cidade está em festa, com vários shows de ritmos musicais diferentes que ecoam pelas ruas e chegam à minha janela.

A festa não tem hora para acabar, já que amanhã ninguém trabalha. Aqui é sim. Quando o feriado cai no domingo, tranferem-no para a segunda-feira.

O Kuduro do Guarda

Este vídeo nos foi enviada pelo nossao leitor/colaborador Fernando Baião. Mostra um policial de trânsito em atuação num dos cruzamentos de Luanda.

Talvez o autor (que não é conhecido) tenha alterado a velocidade dos frames, mas posso assegurar que já vi alguns guardas cheios de trejeitos assim na cidade.

O Kuduro, pra quem ainda não sabe, é um dos estilos musicais mais populares em Luanda. A forma de dançá-lo lembra um pouco o estilo break do Michael Jackson no início dos nos 80.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Para os amigos

O Grande Dicionário angolano hoje vai homenagear duas das freqüentadoras assíduas deste blog com dois termos novos. Um deles foi publicado pela Menina de Angola lá no sítio dela e já foi acrescentado ao dicionário na letra E. Vale ler o post da Menina, porque está realmente muito tocante.

A explicação do termo, como não poderia deixar de ser, veio do Fernando Baião, principal colaborador, desde o início, deste dicionário.

O segundo termo faz parte do nome do sítio desta outra moça, que hoje também saiu-se um tanto enigmática por lá.

Kianda - Sereia em quimbundo, no singular. No plural torna-se Ianda.

Estamos juntos, ya.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Ensinar a pescar

Minha avozinha nasceu em 1901 numa aldeia da Serra da Estrela, em Portugal. Ainda criança emigrou para fugir da fome que crescia nos campos portugueses. Nunca chegou a enriquecer no Brasil, mas tinha uma situação que lhe permitia ajudar aos mais necessitados. Cresci vendo-a servir refeições a senhoras e crianças muito pobres, que ela recebia no quintal de casa. Também acionava suas redes para conseguir roupas usadas.

Na universidade ensinaram-me que isso chamava-se assistencialismo e não era bom. Havíamos antes de "ensinar a pescar" e esses blábláblás que cabem bem na frente da sala de aula.

Ontem, quando postei os números da fome no mundo, descobri este sítio da Moira que, por uma dessas coincidências, também tratava do assunto. E lá fiquei sabendo que ela, ainda hoje, faz a mesma coisa que a minha avó fazia: alimenta pessoas pobres. Com a diferença que ela mora em Portugal, na rica Comunidade Européia dos euros com que tantos brasileiros sonham.

Quatro gerações se passaram desde que a fome expulsou minha avó da terra dela; e a fome continua a matar, a excluir, a destruir o futuro das crianças em todo o mundo.

Olho agora para todas as varas, linhadas e anzóis com que aportei em África para "ensinar a pescar" e me ponho a pensar: não seria melhor seguir o exemplo da Moira e da minha avó? Não tiraria pelo menos uma alma da tal lista macabra?

Não sei a resposta. Se é que há uma resposta.

Enquanto isso, outras 25 mil pessoas morrerão hoje no mundo por falta do que comer.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Números para pensar

  • 25 mil pessoas morrerão hoje de fome em todo o mundo.
  • 100 milhões de seres humanos vão entrar para o clube dos famintos por causa do aumento dos preços dos alimentos em todo o mundo
  • Eles se somarão aos 830 milhões que hoje já não têm o que comer todos os dias, chegando a quase 1 bilhão de pessoas passando fome.
  • 755 milhões de dólares é o valor extra que o World Food Programm das Nações Unidas precisa para manter sua operações atuais.

Enquanto isso, nos países ricos...

  • 10,9 bilhões de dólares foi o lucro líquido, nos três primeiros meses do ano, apenas da ExxonMobil, a maior empresa petrolífera do mundo.
  • 45 bilhões de dólares é o orçamento do Exército chinês para este ano.
  • 70 bilhões de dólares é o preço da guerra do Iraque no período de setembro deste ano a outubro de 2009.
  • 3,1 trilhões de dólares serão gastos pelos Estados Unidos só com o Departamento de Defesa no mesmo período.