A Casa de Luanda está de luto. Hoje, 31 de maio de 2008, foi oficialmente fechado o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos em Angola, por determinação do governo. O argumento oficial é que o escritório não é mais necessário, agora que a paz e a democracia estão consolidadas no país... Mas já é mais do que público que a decisão está relacionada a declarações da organização feitas no exterior e à divulgação de um relatório sobre prisões arbitrárias.
Ou seja: o fechamento do OHCHR já é, em si, um exemplo da violação de um dos direitos mais fundamentais: o da liberdade de expressão. Só pra relembrar, o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que:
“Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”.
O escritório do OHCHR funcionava em Angola desde o fim da guerra civil, buscando apoiar o governo com a análise da situação dos direitos no país e a assistência na formulação de políticas para fortalecê-los.
Desnecessário? Na minha opinião, resta ainda muito por fazer: se por um lado o Estado empenha-se em garantir o acesso a direitos fundamentais como educação e saúde a parcelas cada vez maiores da população, por outro permanecem sérias restrições à liberdade de imprensa, ao funcionamento de organizações da sociedade civil e à justiça. Um país que tem feito tanta campanha pela democracia ultimamente não deveria esquecer-se desses que são alguns dos seus principais pilares.
Passei quase a semana toda lá na sede da OHCHR e compartilhei do sentimento de dever não cumprido (abortado...) de cada um dos seus funcionários. Estava também lá no momento em que desceram a bandeira das N.U. e a dobraram, para levar de volta a Genebra. Tenho milhares de críticas às N.U., e com conhecimento de causa, mas meu lado idealista ficou tocado com aquele ato simbólico. Por isso esta Casa de Luanda hoje desce seu estandarte a meio-pau.
Só para lembrar: a Declaração Universal dos Direitos Humanos está completando 60 anos agora em 2008. Há ainda um longo caminho a ser percorrido para que os 30 artigos que a compõem tornem-se realidade para todos, de todos os cantos do mundo. Decisões como essa apenas retardam ainda mais a difícil jornada.
sábado, 31 de maio de 2008
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Lá vem a Dorotéia
Dorotéia é já uma senhora, avançada na idade, meio cansada da lida. Grande que chega a ser exagerada, anda pelas ruas rebolando ancas largas. Bebe um pouco, mas não exagera, e além disso é doce no trato.
Eu havia chegado a Luanda disposto a manter-me longe de tipos como ela, mas sucumbi. Desde ontem, Dorotéia entrou na nossa rotina. É ela quem vai nos proteger do poeirão do cacimbo, que já me plantou uma tosse irritante no peito.
Dorô, como já está sendo chamada pela P., não é angolana. É japonesa. Uma Nissan Patrol com mais de dez anos de uso, mas bem conservada, que vai nos ajudar a vencer as longas estradas angolanas.
Eu havia chegado a Luanda disposto a manter-me longe de tipos como ela, mas sucumbi. Desde ontem, Dorotéia entrou na nossa rotina. É ela quem vai nos proteger do poeirão do cacimbo, que já me plantou uma tosse irritante no peito.
Dorô, como já está sendo chamada pela P., não é angolana. É japonesa. Uma Nissan Patrol com mais de dez anos de uso, mas bem conservada, que vai nos ajudar a vencer as longas estradas angolanas.
Xenofobia - Parte 2
Nosso leitor e comentarista Fernando Baião enviou mais estas fotos da guerra na África do Sul para a Casa de Luanda. Estas cinco são as "menos fortes", mas outras 39 estão a disposição dos leitores que quiserem ver cenas chocantes. Basta clicar aqui.
Para quem está chegando agora, as primeiras fotos postadas estão neste outro link.




Para quem está chegando agora, as primeiras fotos postadas estão neste outro link.




quarta-feira, 28 de maio de 2008
Como nos tempos do apartheid
Em 2005, quando estive na África do Sul, chamou-me a atenção o clima de ódio racial no ar. Cheguei a escrever sobre isso no meu diário de viagem.
Parecia-me que, a qualquer momento, uma revolta da imensa população negra pobre contra a minoria branca rica descambaria para uma onda de violência desenfreada.
A onda chegou, mas bateu nos negros oriundos de outros países que vivem na África do Sul. Pelo menos 56 pessoas foram brutalmente assassinadas e outras 100 mil foram expulsas de suas casas.
O governo decidiu criar campos de refugiados para os estrangeiros. Os negros indesejados na África do Sul vão viver atrás de cercas.
Gente assassinada cruelmente, negros isolados em guetos... Exatamente como acontecia nos tempos do Apartheid.
Recebi por e-mail imagens feitas por um fotógrafo que acompanha o conflito. Como as imagens são fortes, deixo a cada um a decisão de abri-las. Se quiser vê-las, clique aqui. Ela estão acompanhadas pelo relato do fotógrafo que, infelizmente, não se identifica no e-mail.
Parecia-me que, a qualquer momento, uma revolta da imensa população negra pobre contra a minoria branca rica descambaria para uma onda de violência desenfreada.
A onda chegou, mas bateu nos negros oriundos de outros países que vivem na África do Sul. Pelo menos 56 pessoas foram brutalmente assassinadas e outras 100 mil foram expulsas de suas casas.
O governo decidiu criar campos de refugiados para os estrangeiros. Os negros indesejados na África do Sul vão viver atrás de cercas.
Gente assassinada cruelmente, negros isolados em guetos... Exatamente como acontecia nos tempos do Apartheid.
Recebi por e-mail imagens feitas por um fotógrafo que acompanha o conflito. Como as imagens são fortes, deixo a cada um a decisão de abri-las. Se quiser vê-las, clique aqui. Ela estão acompanhadas pelo relato do fotógrafo que, infelizmente, não se identifica no e-mail.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
A Grande Família Angolana
Todos estão sentados à volta da mesa, a comida pronta a ser servida e tia Justina acende o cigarro.
- Epá, mãezinha. Não vais acender isto logo agora.
Quem se queixa é o Oscar, que apesar de tratá-la por mãe, é enteado. Filho do primeiro casamento do tio Joaquim, já falecido. Com mais de 70 anos sulcados na face, tia Justina não lhe dá bola.
Ela foi a segunda mulher do tio Joaquim. Tiveram quatro filhos: três mulheres e um homem. Oscar vive ali pela sua casa como se filho fosse, mas a mãe verdadeira dele vive em Portugal.
- Nos falamos sempre, porque esse menino dá-me na paciência – queixa-se tia Justina. O “menino”, no caso, tem mais de 60 anos.
Em torno da mesa estão também o filho Manoel, duas das filhas, um genro, o Ricardo Lobo, que é mesmo tratado assim, pelos dois nomes, e dois sobrinhos da tia Justina: a Natália e o Eduardo, filhos da tia Mariana.
Tia Mariana mora na mesma rua, mas não veio. Com quase 90 anos, caminha com dificuldade. Tio Joaquim era irmão de tia Mariana.
O Manoel, esse sim filho mesmo da tia Justina, está com uma filha de três anos, Carolina. Nasceu de uma relação com uma moça que não chega a ser a segunda mulher do Manoel, já que não vivem juntos. A primeira mulher está em Portugal com as outras três filhas dele, que tia Justina vai visitar em julho.
O Ricardo Lobo conta histórias do tempo em que as festas começavam em Luanda antes das dez da noite e só acabavam depois das 5h30 da manhã.
- Tínhamos o toque de recolher e ninguém podia sair de casa nesse intervalo. À meia-noite a festa parava para que pudéssemos assistir à novela Gabriela.
A Natália lembra que O Bem Amado fazia o mesmo sucesso.
- Os políticos daqui começaram a imitar o jeito do Odorico Paraguaçu falar.
Todos já estão a fumar e a beber cafés com licores, e a relembrar os tempos de pato de Ricardo Lobo nas festas alheias.
- Certo dia chegamos eu e um amigo e o gajo na porta nos interpelou: “Os senhores são convidados?” Dissemos, claro que somos. E ele: “Da parte de quem?” E eu disse, da Noiva. E ele: “Ó desculpa lá amigo, mas isto aqui é um batizado”.
Todos caem na gargalhada.
Chega o tio Rafael, médico. Qual é mesmo o parentesco do tio Rafael? Natália tenta explicar:
- É assim, o meu tio Armando, irmão da minha mãe Mariana e do tio Joaquim, teve uma namorada, tás a ver? Eles viveram um tempo juntos, depois separaram-se, mas ela continuou amiga da família. Depois ela casou-se com o tio Rafael. Ela já morreu agora, mas o tio Rafael virou nosso tio.
Tás a ver? Assim é um domingo de uma típica família angolana, cheia de agregados e histórias dos tempos passados.
P.S. – Os nomes deste post estão todos trocados, claro, porque Luanda é uma cidade muito pequena.
- Epá, mãezinha. Não vais acender isto logo agora.
Quem se queixa é o Oscar, que apesar de tratá-la por mãe, é enteado. Filho do primeiro casamento do tio Joaquim, já falecido. Com mais de 70 anos sulcados na face, tia Justina não lhe dá bola.
Ela foi a segunda mulher do tio Joaquim. Tiveram quatro filhos: três mulheres e um homem. Oscar vive ali pela sua casa como se filho fosse, mas a mãe verdadeira dele vive em Portugal.
- Nos falamos sempre, porque esse menino dá-me na paciência – queixa-se tia Justina. O “menino”, no caso, tem mais de 60 anos.
Em torno da mesa estão também o filho Manoel, duas das filhas, um genro, o Ricardo Lobo, que é mesmo tratado assim, pelos dois nomes, e dois sobrinhos da tia Justina: a Natália e o Eduardo, filhos da tia Mariana.
Tia Mariana mora na mesma rua, mas não veio. Com quase 90 anos, caminha com dificuldade. Tio Joaquim era irmão de tia Mariana.
O Manoel, esse sim filho mesmo da tia Justina, está com uma filha de três anos, Carolina. Nasceu de uma relação com uma moça que não chega a ser a segunda mulher do Manoel, já que não vivem juntos. A primeira mulher está em Portugal com as outras três filhas dele, que tia Justina vai visitar em julho.
O Ricardo Lobo conta histórias do tempo em que as festas começavam em Luanda antes das dez da noite e só acabavam depois das 5h30 da manhã.
- Tínhamos o toque de recolher e ninguém podia sair de casa nesse intervalo. À meia-noite a festa parava para que pudéssemos assistir à novela Gabriela.
A Natália lembra que O Bem Amado fazia o mesmo sucesso.
- Os políticos daqui começaram a imitar o jeito do Odorico Paraguaçu falar.
Todos já estão a fumar e a beber cafés com licores, e a relembrar os tempos de pato de Ricardo Lobo nas festas alheias.
- Certo dia chegamos eu e um amigo e o gajo na porta nos interpelou: “Os senhores são convidados?” Dissemos, claro que somos. E ele: “Da parte de quem?” E eu disse, da Noiva. E ele: “Ó desculpa lá amigo, mas isto aqui é um batizado”.
Todos caem na gargalhada.
Chega o tio Rafael, médico. Qual é mesmo o parentesco do tio Rafael? Natália tenta explicar:
- É assim, o meu tio Armando, irmão da minha mãe Mariana e do tio Joaquim, teve uma namorada, tás a ver? Eles viveram um tempo juntos, depois separaram-se, mas ela continuou amiga da família. Depois ela casou-se com o tio Rafael. Ela já morreu agora, mas o tio Rafael virou nosso tio.
Tás a ver? Assim é um domingo de uma típica família angolana, cheia de agregados e histórias dos tempos passados.
P.S. – Os nomes deste post estão todos trocados, claro, porque Luanda é uma cidade muito pequena.
domingo, 25 de maio de 2008
Luanda está dançando...
Porque hoje é Dia de África. E a cidade está em festa, com vários shows de ritmos musicais diferentes que ecoam pelas ruas e chegam à minha janela.
A festa não tem hora para acabar, já que amanhã ninguém trabalha. Aqui é sim. Quando o feriado cai no domingo, tranferem-no para a segunda-feira.
A festa não tem hora para acabar, já que amanhã ninguém trabalha. Aqui é sim. Quando o feriado cai no domingo, tranferem-no para a segunda-feira.
O Kuduro do Guarda
Este vídeo nos foi enviada pelo nossao leitor/colaborador Fernando Baião. Mostra um policial de trânsito em atuação num dos cruzamentos de Luanda.
Talvez o autor (que não é conhecido) tenha alterado a velocidade dos frames, mas posso assegurar que já vi alguns guardas cheios de trejeitos assim na cidade.
O Kuduro, pra quem ainda não sabe, é um dos estilos musicais mais populares em Luanda. A forma de dançá-lo lembra um pouco o estilo break do Michael Jackson no início dos nos 80.
Talvez o autor (que não é conhecido) tenha alterado a velocidade dos frames, mas posso assegurar que já vi alguns guardas cheios de trejeitos assim na cidade.
O Kuduro, pra quem ainda não sabe, é um dos estilos musicais mais populares em Luanda. A forma de dançá-lo lembra um pouco o estilo break do Michael Jackson no início dos nos 80.
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