Ingredientes:
- Desastres climáticos (secas e inundações);
- Restrições às exportações de cereais;
- Aumento do preço do petróleo;
- Subsídios para a produção de biocombustíveis;
- Demanda em alta em economias emergentes.
Modo de fazer:
Espalhe alguns desastres climáticos em regiões estratégicas de produção de grãos e cereais no mundo.
Misture restrições às exportações adotadas por países produtores, preocupados com seus estoques internos.
Acrescente demanda por comida em países de acelerado crescimento econômico. Na China, o consumo de leite triplicou desde 1980; o de carne per capita pulou de 44 libras (1980) para 110 libras em 2007. Isso representa mais grãos desviados para alimentar rebanhos em lugar de alimentar seres humanos.
Aqueça o forno com subsídios para a produção de biocombustíveis. Graças aos incentivos do governo americano, 24% do milho produzido por lá em 2007 virou etanol. E a produção mundial desse combustível pulou de 1 bilhão de barris em 2000 para mais de 15 bilhões no passado.
Como fermento, use o aumento do preço do petróleo, que influencia os custos das fazendas. O óleo é produto-chave na produção de fertilizantes.
Tempo de preparo:
Em dois anos, o índice global de preço de alimentos pulou de 117 (em 2005) para 220 em março deste ano. Esse índice mede mensalmente a mudança de preços no mercado internacional da maioria dos alimentos.
Na prática, significa que desde maio de 2007 a carne subiu 12%, os cereais subiram 89% em média, os preços de óleos e gorduras subiram 77% e o açúcar ficou 40% mais caro.
Segundo um relatório do Banco Mundial divulgado em março, os preços dos alimentos só devem começar a cair em 2010, e ainda assim, dificilmente voltarão a patamares inferiores aos de 2004.
Mas quem se preocupa mesmo com isso?
Fontes: United Nations Food and Agriculture Organization (FAO), Word Bank, Time Magazine (vol. 171, No 20, 19/05/2008)
terça-feira, 10 de junho de 2008
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Efeito Dorotéia
Então eu passei quase três meses derretendo nas ruas de Luanda e achando que minha vida ia melhorar quando eu tivesse um carro. Em apenas uma semana na companhia de Dorotéia, já estou querendo voltar a andar a pé. Isso porque:
- O trânsito é muito ruim - mas muito mesmo - e esta semana eu cheguei atrasado ao trabalho pela primeira vez desde que moro em Luanda. Andando eu chegava mais rápido.
- Os motoristas em geral , não importa nacionalidade, são muito egoístas. Ninguém nunca dá passagem; todos tentam se enfiar nos lugares mais improváveis para cortar a frente dos outros.
- Estacionar próximo ao local em que você precisa ir é quase como ganhar a noite toda na roleta de um cassino em Las Vegas. Pode até acontecer, mas é muito improvável. E quando você volta ao carro, claro, alguém parou em fila dupla fechando a sua saída.
- A sinalização das ruas não é clara e uma das maneiras mais fáceis de ser parado pela polícia é entrar à esquerda numa rua comum onde, em tese, não seria permitido fazer a conversão. Para evitar isso, tento sempre fazer a volta na quadra, o que, por causa do trânsito, pode significar mais 40 minutos parado.
Diante de todos os fatos, muitas vezes me pego atrás do volante como todos os outros: impaciente, buzinando, sem dar passagem aos outros.
O problema é que, agora, já me apeguei a Dorotéia.
Grande Dicionário Angolano
Faz algum tempo que parei de postar textos exclusivos sobre o dicionário, mas ele continuou crescendo. Com os termos que apareciam nos comentários, principalmente nos do Fernando Baião. Já temos 196 palavras.
Vou acrescentar dois, que descobri esses dias, mas que acredito fazerem parte também do português falado em Portugal.
Acento esdrúxulo - A crase brasileira.
Vírgulas altas - No Brasil, muito conhecidas como aspas.
Agora faltam apenas duas palavras para completarmos 200. Alguém se habilita?
Vou acrescentar dois, que descobri esses dias, mas que acredito fazerem parte também do português falado em Portugal.
Acento esdrúxulo - A crase brasileira.
Vírgulas altas - No Brasil, muito conhecidas como aspas.
Agora faltam apenas duas palavras para completarmos 200. Alguém se habilita?
terça-feira, 3 de junho de 2008
A quarta casa...
Em menos de três de meses. Ainda mais temporária, só por alguns dias, até que nos mudemos para a quinta moradia, que também será temporária, no sábado.
É difícil explicar, porque eu também não conseguiria imaginar os efeitos de tanta provisoriedade quando vivia confortavelmente ao lado do Redentor na Casa da Lagoa.
Mas é mais ou menos assim. O cacimbo chegou para valer agora e todas as minhas roupas de frio estão numa mala que ficou na segunda casa - era grande demais para o espaço que tínhamos na terceira.
A quarta casa nos recebeu de coração aberto, mas não tem edredom extra - que já compramos, mas que ficou numa casa onde nunca moramos, mas que abriga outra parte de nossas bagagens.
Até a Dorô, recém-chegada à família, já abriga parte da bagagem e dorme com uma mesa nas entranhas – que ainda não encontramos onde deixar.
Parece engraçado, mas eu garanto pra vocês que cansa um bocado.
É difícil explicar, porque eu também não conseguiria imaginar os efeitos de tanta provisoriedade quando vivia confortavelmente ao lado do Redentor na Casa da Lagoa.
Mas é mais ou menos assim. O cacimbo chegou para valer agora e todas as minhas roupas de frio estão numa mala que ficou na segunda casa - era grande demais para o espaço que tínhamos na terceira.
A quarta casa nos recebeu de coração aberto, mas não tem edredom extra - que já compramos, mas que ficou numa casa onde nunca moramos, mas que abriga outra parte de nossas bagagens.
Até a Dorô, recém-chegada à família, já abriga parte da bagagem e dorme com uma mesa nas entranhas – que ainda não encontramos onde deixar.
Parece engraçado, mas eu garanto pra vocês que cansa um bocado.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A Grande Família Angolana - Projeto Kalunga
No final dos anos 70, início dos 80, um grupo de músicos brasileiros aportou em Luanda para participar de uma série de shows denominada Projeto Kalunga. Vieram Gilberto Gil, Chico Buarque, Martinho da Villa, Djavan, Alcione, entre outros.
A família de tia Justina estava lá, acompanhando de perto.
- O Chico Buarque veio com a Marieta Severo. Eles foram para Benguela e foi lá que ele fez aquela música “Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou chocalho é que mexe com ela...” – cantarola Ricardo Lobo.
- O Chico queria ficar dançando com as moças, com a mulher ali do lado. Eu hein? Nem bonito ele era... – comenta Natália.
O Chico Buarque não era bonito? Ah se as brasileiras ouvem isso, Natália...
- Não era mesmo. Muito esquisito ele.
Tia Justina lembra a melhor história de todas.
- No jantar com autoridades, o Martinho da Villa já tinha tomado uns copos e de repente começou a dizer: “Ele está aqui entre nós, ele está aqui...” Um dos ministros perguntou: “Camarada, quem é que está aqui?” E o Martinho: “Agostinho Neto! Ele está aqui!” O gajo achava que tinha recebido o santo do Agostinho Neto.
E todos dão gargalhadas antes de partir para a próxima história.
A família de tia Justina estava lá, acompanhando de perto.
- O Chico Buarque veio com a Marieta Severo. Eles foram para Benguela e foi lá que ele fez aquela música “Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou chocalho é que mexe com ela...” – cantarola Ricardo Lobo.
- O Chico queria ficar dançando com as moças, com a mulher ali do lado. Eu hein? Nem bonito ele era... – comenta Natália.
O Chico Buarque não era bonito? Ah se as brasileiras ouvem isso, Natália...
- Não era mesmo. Muito esquisito ele.
Tia Justina lembra a melhor história de todas.
- No jantar com autoridades, o Martinho da Villa já tinha tomado uns copos e de repente começou a dizer: “Ele está aqui entre nós, ele está aqui...” Um dos ministros perguntou: “Camarada, quem é que está aqui?” E o Martinho: “Agostinho Neto! Ele está aqui!” O gajo achava que tinha recebido o santo do Agostinho Neto.
E todos dão gargalhadas antes de partir para a próxima história.
sábado, 31 de maio de 2008
Bandeira a meio-pau
A Casa de Luanda está de luto. Hoje, 31 de maio de 2008, foi oficialmente fechado o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos em Angola, por determinação do governo. O argumento oficial é que o escritório não é mais necessário, agora que a paz e a democracia estão consolidadas no país... Mas já é mais do que público que a decisão está relacionada a declarações da organização feitas no exterior e à divulgação de um relatório sobre prisões arbitrárias.
Ou seja: o fechamento do OHCHR já é, em si, um exemplo da violação de um dos direitos mais fundamentais: o da liberdade de expressão. Só pra relembrar, o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que:
“Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”.
O escritório do OHCHR funcionava em Angola desde o fim da guerra civil, buscando apoiar o governo com a análise da situação dos direitos no país e a assistência na formulação de políticas para fortalecê-los.
Desnecessário? Na minha opinião, resta ainda muito por fazer: se por um lado o Estado empenha-se em garantir o acesso a direitos fundamentais como educação e saúde a parcelas cada vez maiores da população, por outro permanecem sérias restrições à liberdade de imprensa, ao funcionamento de organizações da sociedade civil e à justiça. Um país que tem feito tanta campanha pela democracia ultimamente não deveria esquecer-se desses que são alguns dos seus principais pilares.
Passei quase a semana toda lá na sede da OHCHR e compartilhei do sentimento de dever não cumprido (abortado...) de cada um dos seus funcionários. Estava também lá no momento em que desceram a bandeira das N.U. e a dobraram, para levar de volta a Genebra. Tenho milhares de críticas às N.U., e com conhecimento de causa, mas meu lado idealista ficou tocado com aquele ato simbólico. Por isso esta Casa de Luanda hoje desce seu estandarte a meio-pau.
Só para lembrar: a Declaração Universal dos Direitos Humanos está completando 60 anos agora em 2008. Há ainda um longo caminho a ser percorrido para que os 30 artigos que a compõem tornem-se realidade para todos, de todos os cantos do mundo. Decisões como essa apenas retardam ainda mais a difícil jornada.
Ou seja: o fechamento do OHCHR já é, em si, um exemplo da violação de um dos direitos mais fundamentais: o da liberdade de expressão. Só pra relembrar, o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que:
“Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”.
O escritório do OHCHR funcionava em Angola desde o fim da guerra civil, buscando apoiar o governo com a análise da situação dos direitos no país e a assistência na formulação de políticas para fortalecê-los.
Desnecessário? Na minha opinião, resta ainda muito por fazer: se por um lado o Estado empenha-se em garantir o acesso a direitos fundamentais como educação e saúde a parcelas cada vez maiores da população, por outro permanecem sérias restrições à liberdade de imprensa, ao funcionamento de organizações da sociedade civil e à justiça. Um país que tem feito tanta campanha pela democracia ultimamente não deveria esquecer-se desses que são alguns dos seus principais pilares.
Passei quase a semana toda lá na sede da OHCHR e compartilhei do sentimento de dever não cumprido (abortado...) de cada um dos seus funcionários. Estava também lá no momento em que desceram a bandeira das N.U. e a dobraram, para levar de volta a Genebra. Tenho milhares de críticas às N.U., e com conhecimento de causa, mas meu lado idealista ficou tocado com aquele ato simbólico. Por isso esta Casa de Luanda hoje desce seu estandarte a meio-pau.
Só para lembrar: a Declaração Universal dos Direitos Humanos está completando 60 anos agora em 2008. Há ainda um longo caminho a ser percorrido para que os 30 artigos que a compõem tornem-se realidade para todos, de todos os cantos do mundo. Decisões como essa apenas retardam ainda mais a difícil jornada.
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sexta-feira, 30 de maio de 2008
Lá vem a Dorotéia
Dorotéia é já uma senhora, avançada na idade, meio cansada da lida. Grande que chega a ser exagerada, anda pelas ruas rebolando ancas largas. Bebe um pouco, mas não exagera, e além disso é doce no trato.
Eu havia chegado a Luanda disposto a manter-me longe de tipos como ela, mas sucumbi. Desde ontem, Dorotéia entrou na nossa rotina. É ela quem vai nos proteger do poeirão do cacimbo, que já me plantou uma tosse irritante no peito.
Dorô, como já está sendo chamada pela P., não é angolana. É japonesa. Uma Nissan Patrol com mais de dez anos de uso, mas bem conservada, que vai nos ajudar a vencer as longas estradas angolanas.
Eu havia chegado a Luanda disposto a manter-me longe de tipos como ela, mas sucumbi. Desde ontem, Dorotéia entrou na nossa rotina. É ela quem vai nos proteger do poeirão do cacimbo, que já me plantou uma tosse irritante no peito.
Dorô, como já está sendo chamada pela P., não é angolana. É japonesa. Uma Nissan Patrol com mais de dez anos de uso, mas bem conservada, que vai nos ajudar a vencer as longas estradas angolanas.
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