Já se falou por aqui que a polícia angolana não brinca em serviço. Quer dizer, serviço, não é propiamente o melhor termo. Se eu pudesse, dizia “não brinca em assalto” mas, como não posso, não digo. Agrada-me particularmente a ideia de ter passado despercebida durante estes meses todos de condução. Chego a pensar se, os meus cabelos loiros e olhos claros andam a ser confundidos por uma pele cor de café e olhos cor de chocolate. Sim, é verdade. Contra todas as expectativas nunca fui mandada parar para me identificar ao senhor agente. Pelo menos não enquanto condutora. Sinto-me a verdadeira agulha no palheiro. Porém, o meu mais-que-tudo deve ter gravado na testa: estes-kwanzas-que-tenho-na-carteira-estão-disponíveis-para-distribuir-aos-senhores-queridos-polícias. E claro, os polícias, que são tipos simpáticos, fazem o favor de lhe tirar os kwanzas da carteira. Uma das últimas vezes a história foi assim:M.(Pisca para a esquerda)
Polícia (Encostado numa das esquinas do cruzamento, manda-o parar)
Segue-se o normal (carta de condução, passaporte, documentos do carro)
Polícia – Não pode virar à esquerda
M. – Não posso? Porquê? Não tem nenhum sinal a probir.
Polícia – Está a duvidar da autoridade? Não pode porque sou eu que faço os sinais.
M. – O quê???
Polícia – Não pode virar à esquerda porque eu digo que não pode e, pode perguntar a quem quiser que vão confirmar-lhe.
M. sai do carro e caminha com o simpático até ao cruzamento e verifica que o sinal indica “cruzamento”. Depois de uns largos minutos a tentar chamar o simpático à razão, o M. desiste e diz:
M. - Pronto, vamos lá resolver a questão. Posso pagar-lhe um lanche?
Polícia (de olhos arregalados) – Um lanche de quanto?
A história teve final feliz para os lados do polícia que comeu um “lanche” de cerca de 25 dólares. No final, pergunta ao M., como se já fosse grande amigalhaço:
Polícia – é arquitecto?
M. – Sou (não é nada)
Polícia – Eu vi logo. Os arquitectos costumam ter o carro cheio de papelada espalhada.
Conclusão: o homem-ladrão (cof, cof) perdão, o homem-polícia teria mais vocação para analisar comportamentos e tentar adivinhar profissões. Ah, mas talvez não desse tanto dinheiro...

