sábado, 12 de julho de 2008

Madrugada animada

Quando voltava para casa ontem eu ia conversando com um angolano sobre as diferenças entre o Código da Estrada daqui e o do Brasil. E ele me deu uma informação interessante: depois das 19h, não se buzina. Está na lei. Se você buzinar ao lado de um polícia, vai ser parado.

Bom, aí eu cheguei em casa e esqueci a história toda até as 2h30 da manhã, quando acordei com alguém buzinando. Buzinava insistentemente. Achei estranho e fui espiar pela janela. Do outro lado da rua, alguém estacionara na entrada de veículos de uma casa. O dono chegou, queria guardar o carro na garagem e não podia. Levou bem uns 10 minutos buzinando até o folgado aparecer para tirar a viatura.

Voltei a dormir e, às 4h30, um galo destemperado começou a cantar. Nunca tinha ouvido esse galo até então e achei que estava sonhando, porque outro dia a Kianda ainda falou em num galo que cantava às 4h da tarde neste comentário. Mas não. O desgraçado estava a cantar mesmo e assim permaneceu por longas horas. Às vezes fazia uma pausinha, só o tempo de o sono começar a pegar, pra voltar a berrar a plenos pulmões.

Quando ele finalmente parou, o meu despertador tocou. 7h30. Deixei-me ficar na cama por mais uns 15 minutos, mas só.

Hoje foi dia de mudar de novo. Acabou-se o sonho da quinta - e melhor - casa em quatro meses de Luanda.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Roubar e não poder carregar...

Fernando tocou no assunto dos assaltos e lembrei que outro dia a cozinheira de uma amiga faltou ao trabalho por dois dias seguidos. Estranho, dona M. não era daquilo! Minha amiga foi investigar e ouviu a horrível história que se segue:

M. mora numa casa simples, nas proximidades do Largo da Gamek, região de Luanda Sul. Uma noite, um bando tomou de assalto a rua, tocando o terror na vizinhança. Armados com fuzis, pistolas e metralhadoras, os bandidos invadiram casas, espancaram moradores e roubaram tudo. O que podiam e o que não podiam carregar.

Para solucionar a falta de braços, seqüestraram alguns moradores e os obrigaram a carregar os próprios pertences que estavam sendo roubados.

O filho de M., de apenas 8 anos, foi um dos escalados para ajudar os bandidos. Fizeram a criança andar até o Benfica, muito distante dali, e depois a largaram sozinha lá.

O miúdo não sabia voltar para casa e vagou por dois dias sozinho, até que uma boa alma o ajudasse a reencontrar a mãe.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Estereótipos

J. é brasileiro, jovem, professor universitário, recebeu um convite para lecionar em Luanda e mudou-se para Angola. Na chegada ao aeroporto haveria um motorista a esperá-lo, avisaram. Ele chegou, aguardou no saguão, nada. Achou afinal um rapaz que segurava um cartaz com o nome da universidade.

- Olá, você é o motorista da universidade?
- Sim senhor, estou a esperar um professor.
- Eu sou o professor.
- Não, estou a aguardar um kamba brasileiro.
- Pois é, sou eu mesmo.

O motorista espantou-se e tal, o professor faça o favor de me desculpar, achei que fosse angolano, cá em Angola estamos muito habituados a assistir as TVs brasileiras, tás a ver? Achava que no Brasil só houvesse brancos...
Ah essa TV brasileira...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Vias de facto

O trânsito ia congestionado nas imediações do Zé Pirão, até aí nenhuma novidade, quando percebi uma agitação do outro lado da avenida. Um pequeno acidente entre dois candongueiros. Pequeno mesmo, nem se notava qual era o amassado novo, entre os tantos outros que já criam barbas nas maltratadas carrinhas.

Mas eis que os dois motoristas e mais seus cobradores e mais alguns passageiros, ou desocupados que por ali estavam, abandonaram os bons modos e partiram para pancadaria mesmo. Ali, às 9h da manhã, em plena luz do dia.

No meio de tudo, um senhor polícia (da ordem pública, não do trânsito), tentava acabar com a briga, mas estava mais era a apanhar do que a conseguir conter os ânimos.

Discussões acaloradas por causa do trânsito eu já havia visto aos montes, mas o pau comendo mesmo (como se diz lá no Brasil), foi a primeira vez.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Mistério desvendado

Assim que cheguei a Luanda chamou-me a atenção o fato de todos os ralos de piso serem vedados. Perguntava-me qual razão teria levado os irmãos angolanos a tapar a sempre útil saída de água, que nos permite lavar ambientes internos da casa como banheiros, cozinhas, etc.

Cheguei até a planejar um post perguntando aos leitores daqui a resposta para o enigma. Mas sempre deixava para outro dia e agora não é mais preciso.

Hoje, logo cedo, encontrei o escritório em alvoroço feminino. Três colegas que trabalham na sala ao lado chamavam toda a malta para ver, no vaso sanitário do banheiro, o defunto do que fora um rato.

Na noite anterior, uma das moças destapara o ralo e o ambiente foi invadido pelo intruso. Para sorte de todos, o indigitado não sabia nadar.

Está desvendado, portanto, o mistério: os ralos são vedados para impedir a entrada dos ratos.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Puto Tuku

Hoje Paulo Flores vai dar show, vinte anos de Semba, vinte anos de carreira. O Povo gosta dele e, e nós, na Diáspora vamos cantar com ele, Angola.
Mas, o Paulo tem nome feito e hoje gostava de vos falar do miúdo Penas, dezassete anos, que aparecia no quintal do Kota Kapipita, sempre com a sua viola, dedilhando sons de semba, que os outros gostavam de ouvir, nos intervalos das conversas do mais velho, que tambem se entusiamava com o geito que o garoto tinha para a música. O sonho dele era um dia poder tocar ao lado de Carlos Burity ou do Paulo Flores, mas no bairro o que estava a sair, era o kuduro, música nascida da miséria dos bairros pobres da periferia, generalizada por adolescentes procurando notoriedade, uma forma de se afirmarem num país onde a justiça é madrasta. Tinha boa voz, começou a imitar as canções dos kuduristas mais consagrados, Helder, o rei, Dog Murras, o patriota, Sebem, o mais popular e o Puto Prata, o doutorado. Mais tarde, passou a escrever as suas canções, evitando sempre enveredar pelas palavras obscenas, que alguns deles usavam nas suas canções. No quintal do Kota, faziam roda, com palmas e imitando os sons instrumentais, cantavam e dançavam essa música suburbana, mas que já tinha invadido as casas e salões frequentados pela média e alta burguesia de Luanda. As letras eram de protesto, procurando retratar os problemas de todos os dias, a criminalidade, a prostituição, a corrupção, a falta de água e luz, enfim, todos os problemas que estamos com eles, "estamos male e male", "nós kuba no chão"," eles podem, nós não podemos" "eles têm, nós não temos", "nos estão a maiar a vida", "aiué, mwangolê, teu futuro é o quê, então?
O miúdo inventou um nome artistico "Puto Tuku", (penas em kimbundu), e começou a gravar discos num estúdio improvisado do Kazenga. Teve azar, começou a andar com a garina Toya, que tinha sido namorada do chefe do gangue Sambila Squad e foi baleado. Os amigos que tinham andado no crime quizerem tirar forra, mas o Kota não deixou. O problema da violência já está a ficar feio, se não se tomarem medidas a sério, um dia destes, quem fica preso, somos nós, os honestos, que não podemos sair à rua, sem que nos tombe em cima, um assaltante com faca, pistola ou mesmo metralhadora, disposto a matar por dá cá aquela palha, os bandidos vão tomar conta da cidade, explicou o Kota Kapipita, o que acabou por convencer os mais agastados, que violência em cima de violência não era a melhor solução.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Luanda no cacimbo

Estou pronto a admitir, por mais que eu não acreditasse que isso fosse possível, que está a fazer frio em Luanda. Hoje mesmo, em pleno meio dia, sol indiscreto a brilhar no céu, um vento fresquinho mantinha a temperatura amena.

Nada que exija malhas ou casacos, mas ideal para um kalulu de carne seca com funji e kizaka.