J. (aquele o professor deste outro post, lembra?) chegou na universidade e durante duas semanas, sua sala permanecia vazia. Só podia ser culpa do atraso em sua chegada, pensou. Como o semestre iniciara sem aquela disciplina, talvez ninguém soubesse que finalmente o professor chegara.
Mas intrigava-o uma coisa. De quando em quando um jovem colocava a cabeça pela porta, olhava pra ele, ia embora. Resolveu investigar e, advinhem?
Os alunos passavam pela sala para ver se afinal o tal professor brasileiro havia chegado. Olhavam para ele e, claro, só poderia ser um estudante angolano. Um negro brasileiro, ainda jovem daquele jeito, não seria professor universitário. Muito menos de uma das instituições mais respeitadas do Brasil. Afinal, eles assistem às TVs brasileiras e o Brasil é um país de brancos.
Ah essa TV brasileira...
terça-feira, 15 de julho de 2008
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Violência calada
O tema da violência é um tabu em qualquer lugar do mundo. Quando toco no assunto por aqui, sou logo desautorizado pelo argumento incontestável: "Desculpa lá, mas tu como brasileiro não tem nenhuma autoridade para reclamar disto". É verdade. As grandes cidades brasileiras são muito mais violentas do que Luanda.
O que não quer dizer que aqui seja o paraíso.
Hoje li no blog da Menina de Angola um relato sobre fatos muito tristes que aconteceram com duas brasileiras e que estão sendo escondidos pela mídia e pela comunidade brasileira.
Não se trata de fazer alarmismos, mas recomendo a leitura porque temos o direito de saber o risco a que estamos sujeitos.
O que não quer dizer que aqui seja o paraíso.
Hoje li no blog da Menina de Angola um relato sobre fatos muito tristes que aconteceram com duas brasileiras e que estão sendo escondidos pela mídia e pela comunidade brasileira.
Não se trata de fazer alarmismos, mas recomendo a leitura porque temos o direito de saber o risco a que estamos sujeitos.
sábado, 12 de julho de 2008
Madrugada animada
Quando voltava para casa ontem eu ia conversando com um angolano sobre as diferenças entre o Código da Estrada daqui e o do Brasil. E ele me deu uma informação interessante: depois das 19h, não se buzina. Está na lei. Se você buzinar ao lado de um polícia, vai ser parado.
Bom, aí eu cheguei em casa e esqueci a história toda até as 2h30 da manhã, quando acordei com alguém buzinando. Buzinava insistentemente. Achei estranho e fui espiar pela janela. Do outro lado da rua, alguém estacionara na entrada de veículos de uma casa. O dono chegou, queria guardar o carro na garagem e não podia. Levou bem uns 10 minutos buzinando até o folgado aparecer para tirar a viatura.
Voltei a dormir e, às 4h30, um galo destemperado começou a cantar. Nunca tinha ouvido esse galo até então e achei que estava sonhando, porque outro dia a Kianda ainda falou em num galo que cantava às 4h da tarde neste comentário. Mas não. O desgraçado estava a cantar mesmo e assim permaneceu por longas horas. Às vezes fazia uma pausinha, só o tempo de o sono começar a pegar, pra voltar a berrar a plenos pulmões.
Quando ele finalmente parou, o meu despertador tocou. 7h30. Deixei-me ficar na cama por mais uns 15 minutos, mas só.
Hoje foi dia de mudar de novo. Acabou-se o sonho da quinta - e melhor - casa em quatro meses de Luanda.
Bom, aí eu cheguei em casa e esqueci a história toda até as 2h30 da manhã, quando acordei com alguém buzinando. Buzinava insistentemente. Achei estranho e fui espiar pela janela. Do outro lado da rua, alguém estacionara na entrada de veículos de uma casa. O dono chegou, queria guardar o carro na garagem e não podia. Levou bem uns 10 minutos buzinando até o folgado aparecer para tirar a viatura.
Voltei a dormir e, às 4h30, um galo destemperado começou a cantar. Nunca tinha ouvido esse galo até então e achei que estava sonhando, porque outro dia a Kianda ainda falou em num galo que cantava às 4h da tarde neste comentário. Mas não. O desgraçado estava a cantar mesmo e assim permaneceu por longas horas. Às vezes fazia uma pausinha, só o tempo de o sono começar a pegar, pra voltar a berrar a plenos pulmões.
Quando ele finalmente parou, o meu despertador tocou. 7h30. Deixei-me ficar na cama por mais uns 15 minutos, mas só.
Hoje foi dia de mudar de novo. Acabou-se o sonho da quinta - e melhor - casa em quatro meses de Luanda.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Roubar e não poder carregar...
Fernando tocou no assunto dos assaltos e lembrei que outro dia a cozinheira de uma amiga faltou ao trabalho por dois dias seguidos. Estranho, dona M. não era daquilo! Minha amiga foi investigar e ouviu a horrível história que se segue:
M. mora numa casa simples, nas proximidades do Largo da Gamek, região de Luanda Sul. Uma noite, um bando tomou de assalto a rua, tocando o terror na vizinhança. Armados com fuzis, pistolas e metralhadoras, os bandidos invadiram casas, espancaram moradores e roubaram tudo. O que podiam e o que não podiam carregar.
Para solucionar a falta de braços, seqüestraram alguns moradores e os obrigaram a carregar os próprios pertences que estavam sendo roubados.
O filho de M., de apenas 8 anos, foi um dos escalados para ajudar os bandidos. Fizeram a criança andar até o Benfica, muito distante dali, e depois a largaram sozinha lá.
O miúdo não sabia voltar para casa e vagou por dois dias sozinho, até que uma boa alma o ajudasse a reencontrar a mãe.
M. mora numa casa simples, nas proximidades do Largo da Gamek, região de Luanda Sul. Uma noite, um bando tomou de assalto a rua, tocando o terror na vizinhança. Armados com fuzis, pistolas e metralhadoras, os bandidos invadiram casas, espancaram moradores e roubaram tudo. O que podiam e o que não podiam carregar.
Para solucionar a falta de braços, seqüestraram alguns moradores e os obrigaram a carregar os próprios pertences que estavam sendo roubados.
O filho de M., de apenas 8 anos, foi um dos escalados para ajudar os bandidos. Fizeram a criança andar até o Benfica, muito distante dali, e depois a largaram sozinha lá.
O miúdo não sabia voltar para casa e vagou por dois dias sozinho, até que uma boa alma o ajudasse a reencontrar a mãe.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Estereótipos
J. é brasileiro, jovem, professor universitário, recebeu um convite para lecionar em Luanda e mudou-se para Angola. Na chegada ao aeroporto haveria um motorista a esperá-lo, avisaram. Ele chegou, aguardou no saguão, nada. Achou afinal um rapaz que segurava um cartaz com o nome da universidade.
- Olá, você é o motorista da universidade?
- Sim senhor, estou a esperar um professor.
- Eu sou o professor.
- Não, estou a aguardar um kamba brasileiro.
- Pois é, sou eu mesmo.
O motorista espantou-se e tal, o professor faça o favor de me desculpar, achei que fosse angolano, cá em Angola estamos muito habituados a assistir as TVs brasileiras, tás a ver? Achava que no Brasil só houvesse brancos...
Ah essa TV brasileira...
- Olá, você é o motorista da universidade?
- Sim senhor, estou a esperar um professor.
- Eu sou o professor.
- Não, estou a aguardar um kamba brasileiro.
- Pois é, sou eu mesmo.
O motorista espantou-se e tal, o professor faça o favor de me desculpar, achei que fosse angolano, cá em Angola estamos muito habituados a assistir as TVs brasileiras, tás a ver? Achava que no Brasil só houvesse brancos...
Ah essa TV brasileira...
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Vias de facto
O trânsito ia congestionado nas imediações do Zé Pirão, até aí nenhuma novidade, quando percebi uma agitação do outro lado da avenida. Um pequeno acidente entre dois candongueiros. Pequeno mesmo, nem se notava qual era o amassado novo, entre os tantos outros que já criam barbas nas maltratadas carrinhas.
Mas eis que os dois motoristas e mais seus cobradores e mais alguns passageiros, ou desocupados que por ali estavam, abandonaram os bons modos e partiram para pancadaria mesmo. Ali, às 9h da manhã, em plena luz do dia.
No meio de tudo, um senhor polícia (da ordem pública, não do trânsito), tentava acabar com a briga, mas estava mais era a apanhar do que a conseguir conter os ânimos.
Discussões acaloradas por causa do trânsito eu já havia visto aos montes, mas o pau comendo mesmo (como se diz lá no Brasil), foi a primeira vez.
Mas eis que os dois motoristas e mais seus cobradores e mais alguns passageiros, ou desocupados que por ali estavam, abandonaram os bons modos e partiram para pancadaria mesmo. Ali, às 9h da manhã, em plena luz do dia.
No meio de tudo, um senhor polícia (da ordem pública, não do trânsito), tentava acabar com a briga, mas estava mais era a apanhar do que a conseguir conter os ânimos.
Discussões acaloradas por causa do trânsito eu já havia visto aos montes, mas o pau comendo mesmo (como se diz lá no Brasil), foi a primeira vez.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Mistério desvendado
Assim que cheguei a Luanda chamou-me a atenção o fato de todos os ralos de piso serem vedados. Perguntava-me qual razão teria levado os irmãos angolanos a tapar a sempre útil saída de água, que nos permite lavar ambientes internos da casa como banheiros, cozinhas, etc.
Cheguei até a planejar um post perguntando aos leitores daqui a resposta para o enigma. Mas sempre deixava para outro dia e agora não é mais preciso.
Hoje, logo cedo, encontrei o escritório em alvoroço feminino. Três colegas que trabalham na sala ao lado chamavam toda a malta para ver, no vaso sanitário do banheiro, o defunto do que fora um rato.
Na noite anterior, uma das moças destapara o ralo e o ambiente foi invadido pelo intruso. Para sorte de todos, o indigitado não sabia nadar.
Está desvendado, portanto, o mistério: os ralos são vedados para impedir a entrada dos ratos.
Cheguei até a planejar um post perguntando aos leitores daqui a resposta para o enigma. Mas sempre deixava para outro dia e agora não é mais preciso.
Hoje, logo cedo, encontrei o escritório em alvoroço feminino. Três colegas que trabalham na sala ao lado chamavam toda a malta para ver, no vaso sanitário do banheiro, o defunto do que fora um rato.
Na noite anterior, uma das moças destapara o ralo e o ambiente foi invadido pelo intruso. Para sorte de todos, o indigitado não sabia nadar.
Está desvendado, portanto, o mistério: os ralos são vedados para impedir a entrada dos ratos.
Assinar:
Postagens (Atom)
