Dizem que a Morte é a lei da vida, mas a vida continua. Apesar dos pesares, não podia deixar de relatar, hoje, factos da nossa terra, quando se encomenda a alma ao criador. No cemitério, lá para o lados do Bairro Miramar, onde a elite e a burguesia nacional vão repousar em paz, os acompanhantes, amigos e inimigos, mirones e patos, mulheres e amantes, mais velhas e catorzinhas, mas com mais frequência, altos representantes do poder, com altos cargos no país, levam os seus telemóveis ligados. Sabemos que são pessoas importantes, que têm a seu cargo a resolução dos problemas mais candentes do povo angolano. Têm que estar sempre a par do que se passa, dar ordens e instruções a toda a hora, até mesmo um encontro clandestino que precisa ser combinado, mas, sinceramente, aquela sinfonia a tocar a todo o instante, com trims, trims e musiquetas da banda, brada aos céus.
Estes funerais, para além da última homenagem ao falecido, servem para tudo, há muito boa gente que aproveita a presença dos governantes para tratar dos seus assuntos pendentes nos ministérios e bancos, pedir um empréstimo para comprar casa no Luanda Sul, pois viver em apartamento já não dá. Contaram-me, eu não vi, que foi apanhado um governante a despachar um requerimento em cima do mármore de um mausoléu que ainda não tinha sido profanado pelos novos iconoclastas da nossa cidade.
terça-feira, 22 de julho de 2008
domingo, 20 de julho de 2008
Oito sonhos da minha vida
A Brasileira nas Arábias lançou o desafio, lá no sítio dela: fazer uma lista com os oito sonhos que desejamos realizar antes de morrer. Parece fácil; não é. Eu tentei e saiu essa lista aí:
1. Participar na construção do mundo melhor em que quero viver.
2. VIVER (assim mesmo, em maiúscula) todo o tempo a que tenho direito nesta terra.
3. Estar perto das pessoas que amo quando elas precisarem de mim (isso implica voltar a viver no Brasil).
4. Publicar os meus livros.
5. Ter um (ou mais) filho(s).
6. Fazer um filme.
7. Transmitir ao maior número de pessoas possível tudo o que eu conseguir aprender.
8. E, quando o fim chegar, sorrir com leveza, sem mágoas ou ressentimentos.
Será que eu consigo? Aparentemente, depende só de mim. E você, quais são os seus 8 (ou 80, vamos ser flexíveis quanto aos números) sonhos da sua vida?
1. Participar na construção do mundo melhor em que quero viver.
2. VIVER (assim mesmo, em maiúscula) todo o tempo a que tenho direito nesta terra.
3. Estar perto das pessoas que amo quando elas precisarem de mim (isso implica voltar a viver no Brasil).
4. Publicar os meus livros.
5. Ter um (ou mais) filho(s).
6. Fazer um filme.
7. Transmitir ao maior número de pessoas possível tudo o que eu conseguir aprender.
8. E, quando o fim chegar, sorrir com leveza, sem mágoas ou ressentimentos.
Será que eu consigo? Aparentemente, depende só de mim. E você, quais são os seus 8 (ou 80, vamos ser flexíveis quanto aos números) sonhos da sua vida?
Confusões
Apesar de nunca ter ficado doente em Angola, já precisei de uma consulta na clínica para poder conseguir um atestado médico. Esse atestado médico seria para juntar aos restantes “300” documentos que os portugueses precisam apresentar para o “processo” relativo à carta de condução angolana. Chamam-lhe reciprocidade. Quando fui à clínica, deixei bem claro que queria um atestado médico para esse efeito. Na sala de triagem, com a enfermeira, antes de entrar no gabinete do médico:
Enfermeira: Vou pesá-la, tirar a tensão arterial e a temperatura.
Eu: Temperatura? Mas eu não estou doente!! Eu vim cá para conseguir um atestado médico para tirar a carta de condução angolana! Eu não preciso que me tire a temperatura!
Enfermeira (confusa): Mas é melhor tirar.
Eu: Pode tirar, não tem problema mas, eu acho que não é necessário!
Enfermeira (ainda mais confusa): Vou perguntar ao médico se é mesmo necessário.
Depois de ter perguntado ao médico…
Enfermeira: Sim, é mesmo necessário. Vamos lá tirar a temperatura...
Eu (resignada): Ok!
Já no consultório do médico, bastou explicar para que efeito queria o atestado médico e, em minutos tinha o documento comigo. Sem testes de visão ou outros que pudessem resultar na incapacidade de conduzir.
Conclusão: E se eu tivesse febre? Será que até hoje não teria conseguido o atestado médico???
Enfermeira: Vou pesá-la, tirar a tensão arterial e a temperatura.
Eu: Temperatura? Mas eu não estou doente!! Eu vim cá para conseguir um atestado médico para tirar a carta de condução angolana! Eu não preciso que me tire a temperatura!
Enfermeira (confusa): Mas é melhor tirar.
Eu: Pode tirar, não tem problema mas, eu acho que não é necessário!
Enfermeira (ainda mais confusa): Vou perguntar ao médico se é mesmo necessário.
Depois de ter perguntado ao médico…
Enfermeira: Sim, é mesmo necessário. Vamos lá tirar a temperatura...
Eu (resignada): Ok!
Já no consultório do médico, bastou explicar para que efeito queria o atestado médico e, em minutos tinha o documento comigo. Sem testes de visão ou outros que pudessem resultar na incapacidade de conduzir.
Conclusão: E se eu tivesse febre? Será que até hoje não teria conseguido o atestado médico???
sábado, 19 de julho de 2008
A tristeza que vira felicidade
Ainda inspirada no post da Migas, Diferenças Culturais, quero contar a história de uma amiga angolana:
Laura tem minha idade, 32 anos, e como a afinidade fluiu de forma natural desenvolvemos uma boa amizade. Com ela aprendi muito sobre a cultura angolana, mas definitivamente sob influência do seu ponto de vista ocidental. Sim, Laura é uma mulher muito inteligente, e que sempre fez questão de demonstrar que os seus anos de Europa não foram em vão.
O namorado da Laura é que por vezes deixava um pouco a desejar... Artur, homem também de muito bom nível cultural, nunca que pedia a mão da moça em casamento. A ansiedade da Laura ia crescendo, mas a vida seguia o seu rumo habitual.
Um dia Laura me liga desesperada a dizer que precisava conversar. Ao encontrá-la sua frase foi curta e direta: “Meu teste foi positivo”. Não entendi, pensei que fosse o de gravidez, mas neste caso sua alegria seria imensa. Ela então prosseguiu: “Tenho o vírus da SIDA”. Eu não sabia o que falar, mas ela precisava do meu apoio. Passamos longas horas conversando e perguntei se o Artur tinha feito o teste também. Ela disse que não, mas explicou que ela optara por fazer o teste por desconfiar dele.
Foi difícil para Laura convencer Artur, que depois só aceitou abrir o envelope do laboratório ao lado dela. A descoberta para ele também foi dolorosa, mas ele tinha então o apoio dela.
Difícil para mim é explicar agora a aura de cumplicidade que surgiu entre os dois. Um tempo depois Artur a pediu em casamento, e daí para frente a minha amiga é uma mulher radiante, transbordando felicidade!
Laura tem minha idade, 32 anos, e como a afinidade fluiu de forma natural desenvolvemos uma boa amizade. Com ela aprendi muito sobre a cultura angolana, mas definitivamente sob influência do seu ponto de vista ocidental. Sim, Laura é uma mulher muito inteligente, e que sempre fez questão de demonstrar que os seus anos de Europa não foram em vão.
O namorado da Laura é que por vezes deixava um pouco a desejar... Artur, homem também de muito bom nível cultural, nunca que pedia a mão da moça em casamento. A ansiedade da Laura ia crescendo, mas a vida seguia o seu rumo habitual.
Um dia Laura me liga desesperada a dizer que precisava conversar. Ao encontrá-la sua frase foi curta e direta: “Meu teste foi positivo”. Não entendi, pensei que fosse o de gravidez, mas neste caso sua alegria seria imensa. Ela então prosseguiu: “Tenho o vírus da SIDA”. Eu não sabia o que falar, mas ela precisava do meu apoio. Passamos longas horas conversando e perguntei se o Artur tinha feito o teste também. Ela disse que não, mas explicou que ela optara por fazer o teste por desconfiar dele.
Foi difícil para Laura convencer Artur, que depois só aceitou abrir o envelope do laboratório ao lado dela. A descoberta para ele também foi dolorosa, mas ele tinha então o apoio dela.
Difícil para mim é explicar agora a aura de cumplicidade que surgiu entre os dois. Um tempo depois Artur a pediu em casamento, e daí para frente a minha amiga é uma mulher radiante, transbordando felicidade!
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Dois versos em cada cigarro
Eu hoje li uma história escrita por Gabriel García Márquez, depois de se encontrar com Agostinho Neto, em meados de 1976. Não sei é verdadeira. O escritor colombiano a conta como se a tivesse ouvido da boca do herói angolano.
Durante os anos em que ficou preso, Agostinho Neto (para mais referências, leia estes posts sobre a independência e sobre uma polêmica recente) foi proibido de escrever. Ele então compunha seus poemas com letras miúdas, em pequenas tiras de papel, e os escondia enrolados dentro de um cigarro.
Às vezes, só havia dois versos em cada cigarro.
Quando sua esposa, Maria Eugênia, ia visitá-lo, ele lhe oferecia um cigarro. Ela o levava sem acendê-lo, porque sabia que era o dos versos. Em sete anos de cárcere, ele escreveu “Sagrada Esperança”, seu livro de 49 poemas.
Achei que devia reproduzir aqui esta história porque revela muito sobre a forma como este país conquistou a sua liberdade. E porque lembranças desse tipo andam a fazer muita falta nestes tempos entorpecidos de capitalismo selvagem.
Durante os anos em que ficou preso, Agostinho Neto (para mais referências, leia estes posts sobre a independência e sobre uma polêmica recente) foi proibido de escrever. Ele então compunha seus poemas com letras miúdas, em pequenas tiras de papel, e os escondia enrolados dentro de um cigarro.
Às vezes, só havia dois versos em cada cigarro.
Quando sua esposa, Maria Eugênia, ia visitá-lo, ele lhe oferecia um cigarro. Ela o levava sem acendê-lo, porque sabia que era o dos versos. Em sete anos de cárcere, ele escreveu “Sagrada Esperança”, seu livro de 49 poemas.
Achei que devia reproduzir aqui esta história porque revela muito sobre a forma como este país conquistou a sua liberdade. E porque lembranças desse tipo andam a fazer muita falta nestes tempos entorpecidos de capitalismo selvagem.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Diferenças Culturais
Muitas das histórias que passarão por aqui, são fruto da vivência com alguns angolanos. Pobres. Na maioria das vezes, jovens. Muitas histórias são fruto dos relatos que ouço calada. Outros são resultados de conversas. A que trago hoje é uma mistura dos dois. De início ouvi calada sem querer dar opinião de branca e mulher. Depois, acabei por entrar na conversa e ouvi o que já esperava.O Moisés é um jovem religioso. Ou melhor, a sua namorada é. E como tal, para que pudessem “brincar” teriam de casar antes. Até aqui nada estranho. O Moisés casou, depois das enúmeras conversas que teve com os colegas sobre as suas intenções com a moça, que eu ouvia calada. Um dia, depois do esperado casamento (e da mais esperada lua-de-mel que teve como cenário uma casita na Ilha do Mussolo) um colega pergunta ao Moisés porque ele tinha casado. Ele respondeu que queria, tal como a noiva. O outro jovem disse-lhe que tinha feito muito mal. E perguntou-lhe: e se ela agora não conceber? O Moisés respondeu-lhe que não tinha mal, que ficava com ela na mesma. O outro apresentou-lhe os casos que conhecia e que tinham acabado mal. Concluiu que primeiro deve conceber-se a noiva e só depois casar. Depois de ter ouvido os argumentos todos do jovem anti-casamento com pessoas inférteis, perguntei-lhe: então e se a mulher não puder ter bebés, não tem direito a ser feliz? Ter um companheiro? Não – respondeu ele. Em casa tem de haver alguém para partir copos. Acrescentou: É a cultura africana. E o olhar que se seguiu fez-me “meter o rabinho entre as pernas” e terminar a minha intervenção.
De notar que todos estes jovens tinham carinho por mim e eu, por eles. Às vezes diziam “nós” como se eu também fosse Angolana. Mas em dois casos, marcaram a diferença entre o branco/africano e demonstraram que a minha cultura é diferente da deles. Eu sei que é. Mas este tema pareceu-me cruel demais.
O Moisés em pouco tempo concebeu a esposa. Quando lhe perguntei sobre a sua vida (e casamento), respondeu-me que ia ter um bebé mas pediu-me segredo com os outros.
Eu gosto de crianças e um país só pode realmente pensar num futuro quando as crianças existem, são bem tratadas e podem crescer saudáveis e com educação disponível. Temo que as crianças – tantas – concebidas antes dos casamentos que na maioria das vezes nem se concretizam, não possam ter um futuro feliz. Porque a taxa de natalidade é algo que não atormenta este país e, ao que parece, faz parte de uma cultura que permanecerá por muito mais tempo.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Estereótipos – Parte 2
J. (aquele o professor deste outro post, lembra?) chegou na universidade e durante duas semanas, sua sala permanecia vazia. Só podia ser culpa do atraso em sua chegada, pensou. Como o semestre iniciara sem aquela disciplina, talvez ninguém soubesse que finalmente o professor chegara.
Mas intrigava-o uma coisa. De quando em quando um jovem colocava a cabeça pela porta, olhava pra ele, ia embora. Resolveu investigar e, advinhem?
Os alunos passavam pela sala para ver se afinal o tal professor brasileiro havia chegado. Olhavam para ele e, claro, só poderia ser um estudante angolano. Um negro brasileiro, ainda jovem daquele jeito, não seria professor universitário. Muito menos de uma das instituições mais respeitadas do Brasil. Afinal, eles assistem às TVs brasileiras e o Brasil é um país de brancos.
Ah essa TV brasileira...
Mas intrigava-o uma coisa. De quando em quando um jovem colocava a cabeça pela porta, olhava pra ele, ia embora. Resolveu investigar e, advinhem?
Os alunos passavam pela sala para ver se afinal o tal professor brasileiro havia chegado. Olhavam para ele e, claro, só poderia ser um estudante angolano. Um negro brasileiro, ainda jovem daquele jeito, não seria professor universitário. Muito menos de uma das instituições mais respeitadas do Brasil. Afinal, eles assistem às TVs brasileiras e o Brasil é um país de brancos.
Ah essa TV brasileira...
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