Marie nos acolheu na chegada. Lucca nos apresentou ao mar. Zezé nos deu uma grande família angolana. Camaz hospedou nossos móveis, e ainda ajudou a levá-los lá na casa do chapéu... Louise, James, Phil, Viveca, Fabiana e Carlos nos deram teto, o bem mais precioso por aqui! Susana ligou do outro lado do mundo para dar a força e os conselhos que eu precisava no trabalho. Flávia nos acolheu como irmãos, dividiu tantas e tantas mesas de bar, nos deu o gostinho do mundo dos "alfas, bravos e romeus". E tantas outras pessoas nos deram conselhos, contatos, boléias...
Esta manhã, quando Luanda insistia em ficar contra nós, foi de novo a Flávia que nos deu água quentinha para o dia recomeçar relax e cheiroso! Por isso decidi fazer este post para homenagear cada um desses amigos tão importantes na nossa vida luandense.
Há uma frase do italiano Luciano Di Crescenzo que eu adotei como assinatura nos meus emails: "Somos anjos de uma asa só. Temos de nos abraçar uns aos outros para poder voar ". Aqui em Luanda, isso é mais que nunca verdade.
O problema é que até hoje, infelizmente, quem nos ofereceu a mão (ou as asas...) foram sobretudo os expatriados. O individualismo é uma das mais tristes heranças da guerra em Angola. A lei da selva é ainda muito forte por aqui, e se reflete na forma como as pessoas conduzem, moram, trabalham. Difícil encontrar uma ajuda desinteressada.
Espero que, junto da tão falada reconstrução nacional, o angolano possa reconstruir também a solidariedade, que sem dúvida está lá latente na sua alma africana.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Começo de um novo dia
O despertador toca às 5h. Moramos longe agora e para evitar o trânsito é preciso sair cedo. Pulo da cama, aperto o interruptor, não há energia elétrica. O gerador já foi comprado, mas o eletricista não terminou a instalação para que ele funcione. Sem eletricidade, não há electrobomba. Sem electrobomba, não há água para banhos, dentes…
A P. sugere banho numa academia da cidade. Não somos associados, mas é possível pagar uma aula avulsa. Por 10 dólares, dispensaremos a malhação e aproveitaremos os chuveiros.
Mochilas feitas, montamos na Doroteia e uma hora e meia depois chegamos à academia. As regras mudaram. Agora paga-se um pacote de 10 aulas a módicos 150 dólares. E eu só quero um banho.
A P., sempre ela, lança o plano C. Liga para a nossa irmã Flávia e consegue uma ducha free.
Enquanto a P. toma banho, tento me conectar à Internet para adiantar alguns e-mais, mas a Movinet não está a trabalhar. Ok, pra que pressa? Vou ter de ficar até as nove da noite no escritório para não pegar o trânsito.
De banho tomado, percebemos que são 8h e a P. não chegará a tempo na reunião dela se me levar ao trabalho. Ela segue com a Doroteia para a Baixa, eu vou a pé para o escritório, que é mais perto. Basta caminhar uns 10 minutos cruzando o parque entre a Sagrada Família e o Alvalade.
Ando algumas quadras na rua e chego ao portão do parque que alguma mente iluminada trancou com uma corrente. Não há maka. O que é um cadeado no meio do caminho num dia como esse? Pulo o portão.
No escritório, ninguém chegou. A porta da minha sala está trancada e não tenho a chave. Mas, vamos ver o lado positivo das coisas, vou aproveitar para tomar o café da manhã na pastelaria ao lado.
No caixa da pastelaria para o pré-pagamento, descubro que o Multicaixa não está a funcionar. Grande novidade. Pergunto os preços, faço as contas. Faltam-me 10 kwanzas. Posso trazer mais tarde? Venho aqui todas as tardes. Desculpa lá o amigo, mas o caixa é novo, não me conhece, não pode deixar assim.
Ok, volto já. Vou até o Multicaixa mais próximo, uns 50 metros abaixo, para retirar o dinheiro. Está quebrado. Há outro Multicaixa 100 metros adiante. Caminho até lá. O visor informa: “Procure o Multicaixa mais próximo”. Qual? Aquele que está quebrado?
Volto ao escritório sem mata-bicho. A faxineira já chegou, ela tem a chave da minha sala. Abre a porta, ligo o computador, a Internet do escritório também não funciona.
Tudo isso, antes da 9 da manhã.
Tem dias em que eu acho que Luanda preferia que eu fosse embora.
Tem dias em que eu tenho certeza.
A P. sugere banho numa academia da cidade. Não somos associados, mas é possível pagar uma aula avulsa. Por 10 dólares, dispensaremos a malhação e aproveitaremos os chuveiros.
Mochilas feitas, montamos na Doroteia e uma hora e meia depois chegamos à academia. As regras mudaram. Agora paga-se um pacote de 10 aulas a módicos 150 dólares. E eu só quero um banho.
A P., sempre ela, lança o plano C. Liga para a nossa irmã Flávia e consegue uma ducha free.
Enquanto a P. toma banho, tento me conectar à Internet para adiantar alguns e-mais, mas a Movinet não está a trabalhar. Ok, pra que pressa? Vou ter de ficar até as nove da noite no escritório para não pegar o trânsito.
De banho tomado, percebemos que são 8h e a P. não chegará a tempo na reunião dela se me levar ao trabalho. Ela segue com a Doroteia para a Baixa, eu vou a pé para o escritório, que é mais perto. Basta caminhar uns 10 minutos cruzando o parque entre a Sagrada Família e o Alvalade.
Ando algumas quadras na rua e chego ao portão do parque que alguma mente iluminada trancou com uma corrente. Não há maka. O que é um cadeado no meio do caminho num dia como esse? Pulo o portão.
No escritório, ninguém chegou. A porta da minha sala está trancada e não tenho a chave. Mas, vamos ver o lado positivo das coisas, vou aproveitar para tomar o café da manhã na pastelaria ao lado.
No caixa da pastelaria para o pré-pagamento, descubro que o Multicaixa não está a funcionar. Grande novidade. Pergunto os preços, faço as contas. Faltam-me 10 kwanzas. Posso trazer mais tarde? Venho aqui todas as tardes. Desculpa lá o amigo, mas o caixa é novo, não me conhece, não pode deixar assim.
Ok, volto já. Vou até o Multicaixa mais próximo, uns 50 metros abaixo, para retirar o dinheiro. Está quebrado. Há outro Multicaixa 100 metros adiante. Caminho até lá. O visor informa: “Procure o Multicaixa mais próximo”. Qual? Aquele que está quebrado?
Volto ao escritório sem mata-bicho. A faxineira já chegou, ela tem a chave da minha sala. Abre a porta, ligo o computador, a Internet do escritório também não funciona.
Tudo isso, antes da 9 da manhã.
Tem dias em que eu acho que Luanda preferia que eu fosse embora.
Tem dias em que eu tenho certeza.
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terça-feira, 29 de julho de 2008
Mais um morador
Casa de Luanda tem o prazer de receber mais um morador.
X. é conterrâneo, acaba de chegar a Luanda e trouxe na bagagem uma câmera fotográfica e uma entrevista com Pepetela, feita lá no Brasil. (O Agualusa ele até tentou, mas parece que o moço tem uma corte inteira na barriga).
Seja bem-vindo, X.
X. é conterrâneo, acaba de chegar a Luanda e trouxe na bagagem uma câmera fotográfica e uma entrevista com Pepetela, feita lá no Brasil. (O Agualusa ele até tentou, mas parece que o moço tem uma corte inteira na barriga).
Seja bem-vindo, X.
O invasor
Quem acompanha este blog sabe das dificuldades que enfrentamos para conseguir uma casa. Já foram várias as vezes em que nos mudamos e nossos amigos, neste momento, dividem-se em dois grupos: aqueles em cujas casas já moramos e aqueles que ainda não nos receberam.
No último fim de semana, nos mudamos para o que, acreditamos, será a nossa casa definitiva. Poderia ser o fim da novela, não fosse a quantidade absurda de problemas que surgiram nas instalações hidráulicas e elétricas. Neste momento, um batalhão de trabalhadores está lá, tentando solucioná-los.
Hoje só quero relatar um episódio. Não faz muito contei aqui uma invasão que o escritório onde trabalho sofreu. Pois bem, ontem foi a minha vez de lidar com situação semelhante. Estava eu me preparando para o sono quando a P., que havia ido buscar água na cozinha, me chama com uma voz típica, que já conheço. Fui até lá e a encontrei parada na sala:
- Tem um rato na cozinha. Eu vi um vulto passar correndo. Não pode ser uma barata, era muito rápido.
Para baratas eu não ligo. Basta pisar sobre elas e está resolvido o problema. Mas, como eliminar um roedor? Armei-me de uma vassoura, cheio de receios, confesso, e planejei abrir a porta da cozinha para espantar o intruso para fora. A P., mais esperta, pediu auxílio ao "senhor Proteção" (como sempre lembra o meu amigo A.).
O vigia entrou, achou o rato, e iniciou uma perseguição. O bicho tentava fugir para a sala, eu o espantava com a vassoura; ele voltava para o outro canto, o senhor Proteção tentava acuá-lo. Depois de um certo baile, o senhor Proteção voou sobre o roedor e o aniquilou. Com a próprias mãos.
Como se nada tivesse acontecido, recompôs-se em seguida, levantou a vítima - que ainda agonizava - pelas orelhas e a levou para fora. A P. impressionou-se:
- Você não seria capaz de fazer uma coisas dessas.
Não mesmo. Já estou a telefonar a empresas para mandar desratizar a casa.
No último fim de semana, nos mudamos para o que, acreditamos, será a nossa casa definitiva. Poderia ser o fim da novela, não fosse a quantidade absurda de problemas que surgiram nas instalações hidráulicas e elétricas. Neste momento, um batalhão de trabalhadores está lá, tentando solucioná-los.
Hoje só quero relatar um episódio. Não faz muito contei aqui uma invasão que o escritório onde trabalho sofreu. Pois bem, ontem foi a minha vez de lidar com situação semelhante. Estava eu me preparando para o sono quando a P., que havia ido buscar água na cozinha, me chama com uma voz típica, que já conheço. Fui até lá e a encontrei parada na sala:
- Tem um rato na cozinha. Eu vi um vulto passar correndo. Não pode ser uma barata, era muito rápido.
Para baratas eu não ligo. Basta pisar sobre elas e está resolvido o problema. Mas, como eliminar um roedor? Armei-me de uma vassoura, cheio de receios, confesso, e planejei abrir a porta da cozinha para espantar o intruso para fora. A P., mais esperta, pediu auxílio ao "senhor Proteção" (como sempre lembra o meu amigo A.).
O vigia entrou, achou o rato, e iniciou uma perseguição. O bicho tentava fugir para a sala, eu o espantava com a vassoura; ele voltava para o outro canto, o senhor Proteção tentava acuá-lo. Depois de um certo baile, o senhor Proteção voou sobre o roedor e o aniquilou. Com a próprias mãos.
Como se nada tivesse acontecido, recompôs-se em seguida, levantou a vítima - que ainda agonizava - pelas orelhas e a levou para fora. A P. impressionou-se:
- Você não seria capaz de fazer uma coisas dessas.
Não mesmo. Já estou a telefonar a empresas para mandar desratizar a casa.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
"Só quem sabe onde é Luanda..."
Ao ler o post do cacimbo, um amigo quis saber onde, se afinal habitámos a mesma cidade, eu encontrava tanta inspiração? Ele acaba de aportar, logo se vê. Por enquanto tem as vistas magoadas por tantas mazelas que nos saltam à frente à chegada, também a mim sucedeu o mesmo quando cá ancorei minhas mochilas.
Não te respondi na hora, amigo, mas o faço agora: a poesia está nos teus olhos.
Se tiveres paciência, logo vais entender o Gilberto Gil, e então... "saberá lhe dá valor".
Não te respondi na hora, amigo, mas o faço agora: a poesia está nos teus olhos.
Se tiveres paciência, logo vais entender o Gilberto Gil, e então... "saberá lhe dá valor".
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Cacimbo sem ponto final
O dia amanhece completamente em preto-e-branco, prédios, árvores, céu, a P a ressonar ao meu lado, tudo em preto-e-branco, como se o friozinho da madrugada, ao resfriar a cidade, lhe roubasse cores e tons e meios-tons antes que a manhã nasça, tímida, nada de explosão de tintas, nasça mesmo devagar, insinuando pequenos tons pastéis em tudo que era cinza e preto e branco e cinza e branco, e tudo começa a ganhar um colorido suave que, ao longo do dia, o vento fresco vai varrendo em prédios, esquinas, carros, gente, bacias de frutas-verduras-sandálias-o-que-puderes-imaginar nas cabeças, como um pincel a reforçar as cores para que, no final, a tarde termine imprimindo tons de laranja encarnado em tudo que se vira para os lados da baía, como a preparar a tela para a chegada da água raz da noite, a descolorir tudo de novo para o dia seguinte...
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Para Rir...
Imagine-se um local de trabalho com muitas nacionalidades. Imagine-se que nem todos falam português e, nem todos falam inglês. Imagine-se que alguns nem saberão uma ou outra língua. Imagine-se tudo isto e, muita criatividade!

WC em Angola - Luanda, Cacimbo 2007
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