domingo, 31 de agosto de 2008

Imbondeiro


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Prostituição

Luanda não é Surabaya, na Indonésia, a cidade das prostitutas, mas para lá caminha. Ali têm quase nove mil prostitutas recenseadas, na nossa terra, haverá muito mais?. De certeza que sim, apesar de não haver qualquer registo. Lá, em Surabaya estão confinadas aos bordeis e ruas de determinados bairros. Em Luanda, é vê-las por tudo que é canto:Marginal, Baixa de Luanda, bairros periféricos, discotecas, nos carros, mercados (Roque Santeiro e outros), resumindo, em toda a parte, de manhã, de dia e de noite. Kitatas (prostitutas) de baixa renda a concorrer com kitatas de luxo. Talvez, contando a odisseia de uma rapariga angolana, ficaremos a conhecer melhor o fenómeno.
"Katiana tinha 16 anos e estava em recuperação de um segundo aborto que correu muito mal. Vivia em casa de um tio e ficou grávida de um namorado, ainda disseram que tinha sido o próprio tio, mas ela desmentiu. Este levou a moça, ao Bairro dos Kilombos, emViana, a um posto de saúde cujas instalações não tinham as mínimas condições de higiene e onde se faziam toda a sorte de consultas, inclusivé, até operações cirurgicas, bem como abortos a bom preço. Um senhor com bata branca, com ar de conhecer do ofício, nome de origem francesa, mediante o pagamento adiantado de 200 kwanzas, iniciou a operação para interromper a gravidez. Mas tudo correu mal, forte hemorragia que teimava em não parar. Felizmente, o tal senhor que se dizia médico, teve o bom senso de pegar na rapariga e levá-la a uma Maternidade do Estado. O estado era grave, mas conseguiu salvar-se.
Viemos a saber do primeiro aborto, contado pela própria, feito numa clínica de coreanos que actuam às claras, apesar da legislação em vigor, condenar o aborto clandestino com prisão que pode ir de dois a oito anos de prisão maior. Foi um militar que a levava muitas vezes a passear à ponta da Ilha no seu jeep que lhe pagou esse aborto. Dizia que queria casar com ela, que mulher virgem, em Luanda, era coisa rara, e só casaria com mulher que lhe desse a virgindade. Ela cedeu, uma tarde, ali mesmo nos areais da praia ao pé do Farol. Mas, quando mais tarde, lhe disse que ficou grávida, o homem assustou-se, levou-a aos coreanos e nunca mais apareceu. Saíu de casa e para sobrviver, virou prostituta de rua. Andou uns tempos a bater o corredor Marginal/Ilha de Luanda, correndo os riscos que a profissão acarreta, clientes que não pagavam e ainda davam surras muito fortes. Foi levada por clientes para a Fortaleza de S. Miguel, chamada "Fortaleza do Sexo"; bateu também o parque do Miramar, quando estava em obras, a quem deram o nome de Maitre Beye e que devia tapar os olhos e dar saltos no túmulo, sempre que um carro entrava dentro dos taipais que cercavam o dito jardim, tais eram as orgias sexuais que ali se passavam, dentro e fora das viaturas. Chegou mesmo a ser levada um dia por um policial para a zona do Mausoléu, onde com a conivência de um guarda, lhe trataram da saúde. Outra vez, a moça, na Ponta da Ilha, onde muita gente já chama a "O Ponta da Fodélia", tal é a quantidade de gente que ali vai para "tchacar", enquanto aguadava por um cliente, três jovens com a ameaça de uma faca, a arrastaram para os pontões e a violaram várias vezes, tendo sido, em seguida, espancada violentamente. Ainda chegou a pensar arranjar um protector, mais conhecido por chulo, mas desistiu da ideia, voltou para casa do tio, arranjou namorado fixo, como vimos, engravidou outra vez, abortou e o namorado fugiu."

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Tempo de Antena

A Rádio Nacional de Angola resolveu o dilema de como distribuir a cobertura eleitoral entre todos os partidos que disputam a Legislativa do próximo dia 5.

No noticiário da manhã, ela intercalava uma reportagem (4 a 5 minutos) de alguma atividade do MPLA com outra (2 minutos) de outro partido. Era uma do MPLA, uma da oposição, outra do MPLA, outra da oposição, e assim por diante.

Entre as notas da oposição, duas davam conta da adesão de membros dos respectivos partidos citados, no caso a Unita e a PSD, que haviam se bandeado para o MPLA.

E que ninguém ouse acusar a RNA de tomar partido, pois não.

domingo, 24 de agosto de 2008

Racismo em Angola

Temos vindo a constatar um aumento do racismo em Angola, sobretudo na cidade de Luanda. Não é só com o aproximar das eleições, o seu crescimento tem vindo a sentir-se desde as primeiras eleições em 1992. Brancos e mulatos angolanos têm vindo a ser hostilizados, sobretudo pelos colegas de trabalho que desejam o lugar de chefia que ocupam, sem que para o efeito tenham as aptidões necessárias. Na rua, são olhados com desconfiança, "vai para a tua terra, seu tuga, kangundu da tuji" ou " vai para a terra do teu pai, seu mulato". Os expatriados levam pela mesma bitola, não escapam aos insultos, ameaças. Para a população em geral, todos os brancos são ladrões. Como não podem se virar contra o poder instituido há que descarregar a sua frustação na côr da pele do outro. Nos musekes, temos muito demagogo, a insuflar os ânimos das populações contra os brancos que nos vêm tirar as nossas riquezas, todos vivem bem, têm água, luz, carros e o nosso Povo, tem o quê? A nossa esperança é que depois das eleições a coisa passe a serenar, os ânimos acalmem, mas se não se fizer mais pelo bem estar das populações, aumentando a qualidade de vida da maioria do povo angolano não sabemos onde esta onde de racismo vai parar.
Há uns anos atrás tinha escrito uma crónica, onde referia que quinhentos anos de opressão a um povo são difíceis de apagar. A nível da intelectualidade as diferenças tendem a atenuar-se, a diluirem-se mais facilmente, mas nas populações a integração é mais complicada. Por muito que se queira ou explique, o branco é sempre olhado como parente do antigo colono. Dizia, eu, que esperava que o tempo conseguisse fazer esquecer tudo isto e a verdadeira harmonia entre estas duas raças fosse possível a médio prazo, a curto prazo era mais o meu desejo, mas uma coisa é gostar e outra é acontecer. Pelo andar da carruagem, parece que, nem a longo prazo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Kixiquila

Funciona assim. Um grupo de amigos, ou vizinhos, ou colegas de trabalho, se une numa espécie de cooperativa informal com um objetivo comum. Todos aceitam dar na mão de um deles um percentual alto do salário do mês. A cada mês um deles recebe a bolada para satisfazer o objectivo comum. Vamos a um exemplo concreto.

Quatro amigos querem comprar carros no valor de 6 mil dólares. Eles se unem e três deles dão 1.500 dólares ao primeiro, que compra o carro este mês. No mês seguinte, quem recebe é o segundo e assim sucessivamente, até que todos comprem os próprios carros.

Se um deles pegar o dinheiro, comprar o carro e depois falhar na hora de pagar, o pau come. Mas parece que dificilmente acontece quando organizado entre amigos.

É uma prática tão comum que, no escritório, todos os angolanos já fizeram pelo menos uma vez na vida.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Banana Angolana X Banana do Resto do Mundo

Na linha de nacionalismo que começa com B e termina com E, com um URRIC pelo meio, como disse a Migas no post abaixo, vale a pena dar uma lida nesta pérola. Foi publicada num grande jornal de circulação diária em Luanda. Quem não souber qual é e ficar realmente interessado no assunto, pode clicar neste link.

Com vocês, a reportagem de alto da página de economia de hoje:

Consumidores preferem banana de produção local

Os consumidores angolanos preferem a banana produzida localmente, numa altura em o mercado angolano regista a presença de múltiplas variedades de banana, cujo diferenciador principal é a origem, conforme afirmou o director do Programa de Desenvolvimento Agrícola e Financeiro (ProAgro Angola) e director da Clusa.

“A maioria dos consumidores nacionais prefere a banana proveniente das plantas locais” - afirmou Estêvão Rodrigues. Apesar disso, continuou, a banana importada, principalmente da África do Sul, constitui uma séria concorrente. “Para conseguir bons resultados nos mercados interno e externo, os produtores nacionais devem apostar fortemente numa estratégia que privilegie fornecimentos de alta qualidade a tempo, aos preços mais baixos”.

Por exemplo, explicou, “ao pensarmos estender o mercado da banana do Vale do Cavaco à SADC, é preciso ter sempre presente que a banana produzida em Moçambique pode chegar à África do Sul a um preço mais competitivo do que a banana produzida em Benguela. Assim, para competir, o produtor benguelense deve aumentar a produtividade investindo em tecnologias adequadas para, em vez de obter, por exemplo, 25 toneladas por hectare, conseguir 50 toneladas de boa qualidade por hectare, que poderão ser escoadas de forma regular para um mercado garantido”.

Segue por muitas linhas mais, acreditem. Mas vou poupá-los do maravilhoso tratado bananeira.

E eu, que nem sabia que a nacionalidade da banana que compro pelas ruas, devo declarar, como expatriado: prefiro a banana das zungueiras.

Vai-te embora Satanás!!!

Eu sou uma pessoa discreta. Não aprecio discussões com gente que não conheço. Mesmo que sejam discussões sobre temas banais. Muito menos quando as discussões incluem temas mais ou menos quentes. Um destes dias, numa conversa entre conhecidos e desconhecidos, a personagem era nitidamente pró-Angola. Nada contra, tendo em conta que ou era angolana (branca) ou já cá tinha estado em criança. Ou então, era a defensora das causas impossíveis. Digamos que me inclino mais para a última. O tema era: Angola não precisa de expatriados. Não precisa ou não quer expatriados. Nem percebi muito bem qual das duas, a alminha defendia. Sim. E juro que não é uma das minhas brincadeiras. O tema era mesmo esse, tendo à frente mais de 10 expatriados nas mais diferentes áreas. Haja coragem! Ora, calma como sou (e porque parece que não se deve contrariar malucos) bico calado e fiquei a ouvir os argumentos. Ah, e fiquei também a contorcer-me para não rir às gargalhadas, deixando apenas escapar um daqueles sorrisinhos marotos pelo canto da boca. Então vejamos: os argumentos da mente iluminada eram de que Angola fornece um nível de formação muito elevado. Aqui há prática. Em Portugal é tudo teoria e o pessoal lá não percebe nada. Quem diz Portugal, diz outro país cujos cursos não incluam começar a trabalhar na área, ao fim do primeiro ano. E, para reforçar a ideia, a mente iluminada ainda fez questão de começar por um exemplo fabuloso. A medicina. Sim, aqui a medicina é muito avançada porque eles, devido à falta de médicos no país, começam desde cedo a praticar. Medo. Muito medo. Ao fim de um ano de aulas já praticam os ensinamentos em pacientes reais. Ora, o que é que eu posso dizer, perante uma afirmação destas? Ia dizer-lhe: ah sim? Então e quando tu estás doente, deixas-te tratar por um desses alunos num qualquer hospital público? E os pobres coitados que não têm dinheiro para as clínicas privadas, como tu, acharão divertido ser tratados por um aluno borbulhento do 1º ano da faculdade? Ora, eu não gastei a minha beleza com estas perguntas mas, houve quem gastasse. Mas, não ainda contente com este exemplo maravilhoso, decidiu falar nos engenheiros civis. Oh yeah! Mais uma vez, não podia ter escolhido melhor. Ou não estivessem na mesa uns três (ou mais), representantes dessa espécie maldita. Vai-te embora satanás! Bico calado, como sempre, lá ouvi as suas (mais uma vez) brilhantes explicações. Ora, a “inteligência”, bem via que em Portugal os cursos eram todos teóricos. Via, porque vivia ao lado de uma faculdade com esse curso. E acrescentava: ah, eles aprendem a calcular pilares e mais não sei quê e depois na prática, não percebem nada. Ainda estou para aqui a pensar sobre o facto de ela “ver”, porque morava ao lado da faculdade. Será que lá na terra as casas e faculdades são em tendas? A modos que a tenda dela ficava mesmo ao lado da tenda da disciplina de mecânica dos solos. Ou então, será que as aulas são registadas por altifalantes, daqueles que o Manel das farturas usa nas feiras para chamar a clientela? Eu até arriscaria dizer que, na terra dela devem ser todos engenheiros civis, porque eles bem vêm as aulas lá na faculdade. E assim sendo, é bem capaz que muitos dos que cá andam, tenham tirado o curso através dos tais altifalantes. Pelo meio também acrescentou que a polícia é muito melhor treinada do que os de Portugal pois muitos tiravam as formações nos Estados Unidos. Ai é? Eles afinal aprenderam nos EUA? Eu vi logo que a culpa das gasosas era do Bush! Só podia ser!!
Brincadeiras à parte, eu fico mesmo contente com estas afirmações completamente desprovidas de inteligência (isto, para não mencionar aquela palavra que começa por “b”, acaba em “e” e tem urric pelo meio). Oh, se fico. Até porque, ainda à pouco tempo andamos à caça (sim, este é o melhor termo que posso utilizar, face à dificuldade para encontrar a espécie) de engenheiros civis angolanos. E eis que, para além de aparecer a módica quantia de 3 exemplares à entrevista, um tirou o curso em Portugal (vá lá, também andou por Inglaterra, pode ser que lá comecem ao fim do primeiro ano a construir prédios de vinte andares, pontes e barragens) e o outro tirou o curso no Congo. O terceiro nem sei porque acabamos por contratar os dois primeiros. Hã, e então? Será que não precisam de expatriados? Assim sendo, vou já fazer as malas e rumar para outro país onde precisem de mim porque parece que Angola, seguramente não precisa de engenheiros civis (e consta que de médicos também não).

* A autora não tem conhecimento sobre a veracidade das afirmações desta mente brilhante, sobretudo relativamente aos alunos de medicina, isto é, se praticam com doentes reais os ensinamentos obtidos logo após o primeiro ano de curso. Não tem conhecimento também, do nível de formação das faculdades angolanas, nas diferentes áreas.
* E não. A autora também não se acha a última coca-cola do deserto. Considera apenas que, o país não tem quadros suficientes para responder ao desenvolvimento actual e, se não fôr um português, há-de ser um brasileiro, sul africano, filipino, espanhol, etc, etc, etc.