quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Coisas para esquecer

O Diário da África publicou esses dias um relato sobre o movimento de volta que a população oriunda do sul do país estaria fazendo antes das eleições. Precaução, por causa da memória do que aconteceu em 1992.

J. trabalha comigo. Ele nasceu em Viana, na província de Luanda, mas os pais são de Benguela. Na capital, sempre foi identificado como uma pessoa do sul, por causa do sobrenome e das origens.

Em 1992 ele ainda era criança, mas se lembra bem do que aconteceu:

"Meu pai era do MPLA, sempre foi. Mas era do Sul. Nós morávamos já aqui em Luanda quando a guerra voltou. Os comandos das FAPLA e dos Ninjas* saíram às ruas matando todas as pessoas oriundas do sul, como represália pela opção do Savimbi de voltar à guerra. Meu pai foi arrancado de casa, levado para um paredão e nós ficamos de longe, olhando, eu tinha certeza de que ele ia morrer. Meu pai dizia que era do MPLA, mas eles diziam que era mentira. O que o salvou foi um major que apareceu na última hora e o conhecia do partido. Depois daquilo, ele pegou as três armas que tinha em casa, deu nas nossas mãos e disse: 'Se surgirem de novo, vocês fazem tiro, não importa se for do MPLA ou da Unita. Qualquer um deles vai nos matar'. Por sorte, ninguém mais surgiu. Mas muita gente do sul que era inocente morreu, simplesmente por que tinha nascido no lugar errado."

* Ninjas - Apelido da Polícia de Intervenção Rápida, a divisão de elite da Polícia Nacional

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

E se...

Como perguntar não ofende, tenho colocado esta questão a muitos camaradas do Partido do Coração:

E se o MPLA não vencer? O que acontece?

Baseados em pesquisas secretas, que circulam apenas dentro do partido e que apontam para uma vitória esmagadora que daria 4 cadeiras ao M para cada cadeira da oposição, os camaradas apenas respondem: "Não há hipótese".

A resposta me deixa um pouco preocupado. Não muito, porque poderiam responder "fechamos a Assembléia e adeus democracia". Mas ainda assim um pouco preocupado, porque ninguém disse "Aceitamos o resultado e governamos com a oposição, já que essa terá sido a vontade do povo".

O "não há hipótese" significa que ninguém sequer cogita essa possibilidade. O pior revés que sofremos é sempre aquele que nos pega desprevinidos...

Como nada disso vai acontecer e o MPLA vai ter mesmo uma vitória esmagadora, não faz mal nenhum elocubrar. Pratique o exercício do voto. Responda à questão na enquete ao lado. As urnas fecham amanhã.

Agora entendi porque o trânsito hoje estava tão bom...

"Governo decreta tolerância de ponto

Luanda - O Governo angolano decretou tolerância de ponto na quarta-feira, 3 de Setembro, último dia da campanha eleitoral para as legislativas de sexta-feira próxima.

O despacho divulgado pelo Governo, nos órgãos de Comunicação Social, estipula que a tolerância de ponto abrange todo o país, não contemplando os trabalhadores que laborem em regime de turno.

O Conselho de Ministros, entretanto, havia já decretado tolerância de ponto em todo o país no dia das eleições legislativas, 5 de Setembro.

Fonte: Angop"

Moço, será que dá pra decretar essa tolerância eternamente?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Não há bela sem senão

Eu ando feliz. A sério que ando. Pois a minha mudança de casa vai trazer melhorias para a minha vida em Luanda. Mas, não há bela sem senão. Isso eu ja sabia. Ter água, luz, segurança, sossego, privacidade são factores difíceis de reunir numa só casa. Uma das coisas que trouxe da outra casa, foram os meus vasinhos com ervinhas aromáticas. Nas minhas últimas férias, providenciei uns saquinhos de sementes e trouxe para plantar por cá. No total, plantei 5 espécies: rosmaninho, salsa, cebolinho, tomilho e oregãos. Comprei os vasinhos em plástico cá. Baratinhos, baratinhos. Após duas noites na nova casa, os vasinhos já andam certamente por outra morada. Deixei-os fora da porta e das grades das janelas. Depois da minha cara de bambi angustiado, o meu querido M. perguntou-me: porque achas que tens grades nas janelas? Ok. Eu sei que não será escolha do arquitecto do tempo colonial. Mas, os meus vasinhos? Tão pequenos, tão insignificantes, tão despidos. Sim, porque as ervas aromáticas nem sequer tinham dado um ar da sua graça. O que eu via eram umas ervitas pequenitas e nem conseguia perceber se eram os filhotes das aromáticas ou, daninhas parvas. Mas a mim tinha-me dado gosto ter plantado e agora ver nascer alguma coisa. Mesmo que eu não soubesse o que era. Humpf. É a vida. Fico sem saber, a razão de terem levado os meus vasinhos mas arrisco nas seguintes opções:
1. Foi pelo valor? Nãããã... Mas então os vasos custaram 30 Kwanzas cada!

2. Foi por curiosidade? Para saberem o que era teriam de fazer uma análise profunda, lá em casa deles?
3. Foi para entregar à polícia? Será que pensam que sou vendedora de ervas ilegais, daquelas que se fumam?
4. Foi por maldade?
5. Foi uma espécie de praxe para os novos moradores do prédio?
6. Foi por prazer? Por vício? Para lixar o pula?
À uns tempos em Caboledo, depois de o M. virar costas para abrir a carteira e pagar aos pescadores, o moço disse-lhe: pode estar à vontade, isto não é Luanda. Há gestos insignificantes que me fazem pensar que por vezes, isto é muito mais complicado do que me parece. Ainda se fosse algo caro, que pudessem vender e fazer dinheiro, ficava chateada mas, compreendia. A sério de compreendia. Ainda se fosse uma plantação de bananas, de alfaces ou batatas, também compreendia. A sério que compreendia. Agora uma merdita que nem sequer eu sabia bem se algum dia me iria dar utilidade! Quanto mais a quem os levou, que nem deve saber do que se trata. Desculpem-me os leitores que consideram que estes episódios também acontecem noutros países mas eu, definitivamente inclino-me para a última opção: é já vício e, deve dar um prazer danado, roubar o pula. Ao senhor ladrão de vasos um conselho: vá regando com frequência mas sem encharcar, ok?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Advinhe qual era o partido?

Esta é da série "acredite se quiser".

Resolveram fazer, no fim de semana, um comício lá onde Judas furou as meias (sim, as botas ele perdeu muito antes), que por acaso é também o lugar onde habita este signatário. Montaram palco para o show, barraquinhas, bandeirinhas e aí descobriram que o Posto de Transformação da região não dava conta de iluminar a praça onde seria a festa.

Como resolveram o impasse? Desligaram a energia de metade do bairro para garantir a festa.

Resultado: minha casa está sem luz desde sexta-feira. O comício foi no sábado, mas como os técnicos não pretendiam trabalhar no fim de semana, desligaram já na sexta.

Só devem religar hoje. Ah, essa democracia...

domingo, 31 de agosto de 2008

Imbondeiro


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Prostituição

Luanda não é Surabaya, na Indonésia, a cidade das prostitutas, mas para lá caminha. Ali têm quase nove mil prostitutas recenseadas, na nossa terra, haverá muito mais?. De certeza que sim, apesar de não haver qualquer registo. Lá, em Surabaya estão confinadas aos bordeis e ruas de determinados bairros. Em Luanda, é vê-las por tudo que é canto:Marginal, Baixa de Luanda, bairros periféricos, discotecas, nos carros, mercados (Roque Santeiro e outros), resumindo, em toda a parte, de manhã, de dia e de noite. Kitatas (prostitutas) de baixa renda a concorrer com kitatas de luxo. Talvez, contando a odisseia de uma rapariga angolana, ficaremos a conhecer melhor o fenómeno.
"Katiana tinha 16 anos e estava em recuperação de um segundo aborto que correu muito mal. Vivia em casa de um tio e ficou grávida de um namorado, ainda disseram que tinha sido o próprio tio, mas ela desmentiu. Este levou a moça, ao Bairro dos Kilombos, emViana, a um posto de saúde cujas instalações não tinham as mínimas condições de higiene e onde se faziam toda a sorte de consultas, inclusivé, até operações cirurgicas, bem como abortos a bom preço. Um senhor com bata branca, com ar de conhecer do ofício, nome de origem francesa, mediante o pagamento adiantado de 200 kwanzas, iniciou a operação para interromper a gravidez. Mas tudo correu mal, forte hemorragia que teimava em não parar. Felizmente, o tal senhor que se dizia médico, teve o bom senso de pegar na rapariga e levá-la a uma Maternidade do Estado. O estado era grave, mas conseguiu salvar-se.
Viemos a saber do primeiro aborto, contado pela própria, feito numa clínica de coreanos que actuam às claras, apesar da legislação em vigor, condenar o aborto clandestino com prisão que pode ir de dois a oito anos de prisão maior. Foi um militar que a levava muitas vezes a passear à ponta da Ilha no seu jeep que lhe pagou esse aborto. Dizia que queria casar com ela, que mulher virgem, em Luanda, era coisa rara, e só casaria com mulher que lhe desse a virgindade. Ela cedeu, uma tarde, ali mesmo nos areais da praia ao pé do Farol. Mas, quando mais tarde, lhe disse que ficou grávida, o homem assustou-se, levou-a aos coreanos e nunca mais apareceu. Saíu de casa e para sobrviver, virou prostituta de rua. Andou uns tempos a bater o corredor Marginal/Ilha de Luanda, correndo os riscos que a profissão acarreta, clientes que não pagavam e ainda davam surras muito fortes. Foi levada por clientes para a Fortaleza de S. Miguel, chamada "Fortaleza do Sexo"; bateu também o parque do Miramar, quando estava em obras, a quem deram o nome de Maitre Beye e que devia tapar os olhos e dar saltos no túmulo, sempre que um carro entrava dentro dos taipais que cercavam o dito jardim, tais eram as orgias sexuais que ali se passavam, dentro e fora das viaturas. Chegou mesmo a ser levada um dia por um policial para a zona do Mausoléu, onde com a conivência de um guarda, lhe trataram da saúde. Outra vez, a moça, na Ponta da Ilha, onde muita gente já chama a "O Ponta da Fodélia", tal é a quantidade de gente que ali vai para "tchacar", enquanto aguadava por um cliente, três jovens com a ameaça de uma faca, a arrastaram para os pontões e a violaram várias vezes, tendo sido, em seguida, espancada violentamente. Ainda chegou a pensar arranjar um protector, mais conhecido por chulo, mas desistiu da ideia, voltou para casa do tio, arranjou namorado fixo, como vimos, engravidou outra vez, abortou e o namorado fugiu."