sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Se a Casa não fosse só de Luanda

Tive a oportunidade de sair de Luanda e passar esta semana pré-eleições numa província ao norte do país. Aqui a situação me parece um pouco diferente. A pergunta: “E se o MPLA não ganhar?” faz mais sentido.
A palavra que mais ouço nas ruas é: MUDAR.
As pessoas falam com muito gosto que depois destas eleições Angola vai mudar.
Cheguei também a participar de uma conversa na qual o homem que falava comigo chamou um amigo e apontando para mim disse: “ Depois destas eleições estes brancos não vão mais por aqui ficar, isto também vai mudar”. Diante de tamanha sutileza, provavelmente com os olhos arregalados, tentando ainda esconder o medo, respondi: “Sim, agora Angola vai mudar”.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Coisas para lembrar

Até 1990, Angola era um país comunista clássico. Toda a atividade econômica estava nas mãos do Estado, os cidadãos tinham cotas de suprimentos básicos etc. Eu, que fui criado dentro da cultura diferente, sempre associei esse modelo de organização social a uma coisa triste, desesperançada. Se calhar, fruto da propaganda capitalista.

J., o mesmo do post abaixo, viveu o comunismo na infância e tem uma visão bem diferente do que foi aquilo:

"As pessoas eram mais humanas, havia mais afeto mesmo, entre os estranhos. Se eu parasse na estrada, a caminho da escola, logo parava uma viatura e me oferecia uma boléia. Hoje? Iam é me atropelar. Só vais no carro se der algum dinheiro. As pessoas pensam só em si. Naquela altura, tínhamos os sábados vermelhos, onde todos se uniam para fazer a limpeza dos bairros, das ruas, eram momentos em que as pessoas se ajudavam umas às outras. Quase não existiam gatunos, você podia deixar a viatura aberta na rua. Mas, agora que somos uma economia de mercado, todo mundo só pensa em si próprio, em acumular riqueza passando por cima dos outros. Não estou a dizer que aquele modelo económico era melhor, tinha muitas falhas. Mas, do ponto de vista da união entre as pessoas, epá, isto aqui era outro país."

Coisas para esquecer

O Diário da África publicou esses dias um relato sobre o movimento de volta que a população oriunda do sul do país estaria fazendo antes das eleições. Precaução, por causa da memória do que aconteceu em 1992.

J. trabalha comigo. Ele nasceu em Viana, na província de Luanda, mas os pais são de Benguela. Na capital, sempre foi identificado como uma pessoa do sul, por causa do sobrenome e das origens.

Em 1992 ele ainda era criança, mas se lembra bem do que aconteceu:

"Meu pai era do MPLA, sempre foi. Mas era do Sul. Nós morávamos já aqui em Luanda quando a guerra voltou. Os comandos das FAPLA e dos Ninjas* saíram às ruas matando todas as pessoas oriundas do sul, como represália pela opção do Savimbi de voltar à guerra. Meu pai foi arrancado de casa, levado para um paredão e nós ficamos de longe, olhando, eu tinha certeza de que ele ia morrer. Meu pai dizia que era do MPLA, mas eles diziam que era mentira. O que o salvou foi um major que apareceu na última hora e o conhecia do partido. Depois daquilo, ele pegou as três armas que tinha em casa, deu nas nossas mãos e disse: 'Se surgirem de novo, vocês fazem tiro, não importa se for do MPLA ou da Unita. Qualquer um deles vai nos matar'. Por sorte, ninguém mais surgiu. Mas muita gente do sul que era inocente morreu, simplesmente por que tinha nascido no lugar errado."

* Ninjas - Apelido da Polícia de Intervenção Rápida, a divisão de elite da Polícia Nacional

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

E se...

Como perguntar não ofende, tenho colocado esta questão a muitos camaradas do Partido do Coração:

E se o MPLA não vencer? O que acontece?

Baseados em pesquisas secretas, que circulam apenas dentro do partido e que apontam para uma vitória esmagadora que daria 4 cadeiras ao M para cada cadeira da oposição, os camaradas apenas respondem: "Não há hipótese".

A resposta me deixa um pouco preocupado. Não muito, porque poderiam responder "fechamos a Assembléia e adeus democracia". Mas ainda assim um pouco preocupado, porque ninguém disse "Aceitamos o resultado e governamos com a oposição, já que essa terá sido a vontade do povo".

O "não há hipótese" significa que ninguém sequer cogita essa possibilidade. O pior revés que sofremos é sempre aquele que nos pega desprevinidos...

Como nada disso vai acontecer e o MPLA vai ter mesmo uma vitória esmagadora, não faz mal nenhum elocubrar. Pratique o exercício do voto. Responda à questão na enquete ao lado. As urnas fecham amanhã.

Agora entendi porque o trânsito hoje estava tão bom...

"Governo decreta tolerância de ponto

Luanda - O Governo angolano decretou tolerância de ponto na quarta-feira, 3 de Setembro, último dia da campanha eleitoral para as legislativas de sexta-feira próxima.

O despacho divulgado pelo Governo, nos órgãos de Comunicação Social, estipula que a tolerância de ponto abrange todo o país, não contemplando os trabalhadores que laborem em regime de turno.

O Conselho de Ministros, entretanto, havia já decretado tolerância de ponto em todo o país no dia das eleições legislativas, 5 de Setembro.

Fonte: Angop"

Moço, será que dá pra decretar essa tolerância eternamente?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Não há bela sem senão

Eu ando feliz. A sério que ando. Pois a minha mudança de casa vai trazer melhorias para a minha vida em Luanda. Mas, não há bela sem senão. Isso eu ja sabia. Ter água, luz, segurança, sossego, privacidade são factores difíceis de reunir numa só casa. Uma das coisas que trouxe da outra casa, foram os meus vasinhos com ervinhas aromáticas. Nas minhas últimas férias, providenciei uns saquinhos de sementes e trouxe para plantar por cá. No total, plantei 5 espécies: rosmaninho, salsa, cebolinho, tomilho e oregãos. Comprei os vasinhos em plástico cá. Baratinhos, baratinhos. Após duas noites na nova casa, os vasinhos já andam certamente por outra morada. Deixei-os fora da porta e das grades das janelas. Depois da minha cara de bambi angustiado, o meu querido M. perguntou-me: porque achas que tens grades nas janelas? Ok. Eu sei que não será escolha do arquitecto do tempo colonial. Mas, os meus vasinhos? Tão pequenos, tão insignificantes, tão despidos. Sim, porque as ervas aromáticas nem sequer tinham dado um ar da sua graça. O que eu via eram umas ervitas pequenitas e nem conseguia perceber se eram os filhotes das aromáticas ou, daninhas parvas. Mas a mim tinha-me dado gosto ter plantado e agora ver nascer alguma coisa. Mesmo que eu não soubesse o que era. Humpf. É a vida. Fico sem saber, a razão de terem levado os meus vasinhos mas arrisco nas seguintes opções:
1. Foi pelo valor? Nãããã... Mas então os vasos custaram 30 Kwanzas cada!

2. Foi por curiosidade? Para saberem o que era teriam de fazer uma análise profunda, lá em casa deles?
3. Foi para entregar à polícia? Será que pensam que sou vendedora de ervas ilegais, daquelas que se fumam?
4. Foi por maldade?
5. Foi uma espécie de praxe para os novos moradores do prédio?
6. Foi por prazer? Por vício? Para lixar o pula?
À uns tempos em Caboledo, depois de o M. virar costas para abrir a carteira e pagar aos pescadores, o moço disse-lhe: pode estar à vontade, isto não é Luanda. Há gestos insignificantes que me fazem pensar que por vezes, isto é muito mais complicado do que me parece. Ainda se fosse algo caro, que pudessem vender e fazer dinheiro, ficava chateada mas, compreendia. A sério de compreendia. Ainda se fosse uma plantação de bananas, de alfaces ou batatas, também compreendia. A sério que compreendia. Agora uma merdita que nem sequer eu sabia bem se algum dia me iria dar utilidade! Quanto mais a quem os levou, que nem deve saber do que se trata. Desculpem-me os leitores que consideram que estes episódios também acontecem noutros países mas eu, definitivamente inclino-me para a última opção: é já vício e, deve dar um prazer danado, roubar o pula. Ao senhor ladrão de vasos um conselho: vá regando com frequência mas sem encharcar, ok?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Advinhe qual era o partido?

Esta é da série "acredite se quiser".

Resolveram fazer, no fim de semana, um comício lá onde Judas furou as meias (sim, as botas ele perdeu muito antes), que por acaso é também o lugar onde habita este signatário. Montaram palco para o show, barraquinhas, bandeirinhas e aí descobriram que o Posto de Transformação da região não dava conta de iluminar a praça onde seria a festa.

Como resolveram o impasse? Desligaram a energia de metade do bairro para garantir a festa.

Resultado: minha casa está sem luz desde sexta-feira. O comício foi no sábado, mas como os técnicos não pretendiam trabalhar no fim de semana, desligaram já na sexta.

Só devem religar hoje. Ah, essa democracia...