terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pelas Províncias - Benguela

Como já disse uma vez a Flávia, "se esta casa não fosse só de Luanda..." Pois esta semana resolvi botar a mochila nas costas para conhecer as províncias de Angola. E a primeira é Benguela.


Praça do Governo Municipal

Localizada a 692 quilômetros de Luanda, Benguela é considerada a segunda economia do país. Estima-se que tenha 600 mil habitantes (faz muito tempo que não se realiza um censo por aqui) e tem o Porto de Lobito, o segundo mais importante, que está passando por uma reforma avaliada em 1,8 bilhão de dólares.

Praia Morena, na orla da cidade de Benguela, capital da província

A capital da província também se chama Benguela e tem como principal ponto turístico a Praia Morena, que atrai milhares de pessoas nos finais de semana. Durante a semana, sua areias ficam vazias, apenas com alguns garotos a jogar futebol, ou crianças a tomar banho no mar gelado no intervalo das aulas. O sol é forte em Benguela, mas a brisa fresca que sopra do mar (pelo menos nesta época do ano), diminui a sensação de calor.

Alpendre do restaurante GMX, na beira da Praia Morena

Comparada com Luanda, Benguela parece um lugar mais arejado. As ruas são mais largas, mais limpas, existem ainda mais casas com quintais do que edifícios. O trânsito é mais disciplinado e bem mais leve, os carros param para os peões atravessarem e há sinalização de trânsito. Até os candongueiros estão mais bem conservados.

Fonte numa das rotundas: motoristas bem mais disciplinados

Há uma quantidade enorme de motocicletas que fazem o serviço de Cubabata. A palavra, em umbundo, significa "a rascar", como tentaram explicar-me alguns angolanos a quem pedi ajuda. Como brasileiro, fiquei na mesma, claro. Na prática, é o que chamamos no Nordeste de mototáxi.

A sede do MPLA, num dos largos (praças) principais da cidade

As sedes do Tribunal Judicial (esq.) e do governo municipal

As praças são ornamentadas com palmeiras imperiais gigantescas e os prédios históricos estão bem conservados. São usados como sedes das instituições públicas. Infelizmente não pude fotografar o Banco Nacional, na mesma praça do início do post e vizinho do Governo Municipal (acima), nem a sede do Governo Provincial. Mas não por causa da neurose que impera em Luanda, onde é proibido fotografar prédios públicos. O problema foi a luz. Os dois estavam contra o sol.

Rosa, vendedora de abacates, com seu bebê, João, de apenas um ano e meio

O que há de melhor em Benguela, porém, é seu povo. As pessoas são mais fraternas, mais tranquilas. Dizem bom dia aos estranhos nas ruas, gostam de ser prestativos, de dar informações, de ajudar os estrangeiros. Ninguém me pediu dinheiro na rua até agora!

As pessoas aqui, acreditem, estão sempre sorrindo. Algo difícil de se ver nas ruas de Luanda.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Pele
Anacleto Dias é morador do “Hotel Cave”, conjunto de casarões em ruínas ocupado por muitas famílias. No dia em que nos encontramos, passávamos eu e João, jornalista e amigo brasileiro, pela Mutamba, região central de Luanda, quando nos deparamos com a precária subida de cascalho que leva até as moradias. Do alto do morro um grupo acenava em nossa direção, aparentemente fazendo algum convite. Entre hesitantes e curiosos, resolvemos subir.
Todos tomavam cerveja e nos ofereceram. Foram muito receptivos.
Conversamos sobre política e esportes. Anacleto era dos mais entusiasmados. Demonstrando ser bastante informado, deu-me uma verdadeira aula sobre basquete e futebol. Conhece a trajetória de todos os atletas brasileiros desses esportes pelos times dos EUA e Europa. Fala de cada um com intimidade. Digo a ele que estou muito impressionado com o grau de informação que revela. Ele, tímido e sorridente, diz que sente o mesmo, mas pela minha ignorância. “Nem parece brasileiro”, diz. Falo que me deixou envergonhado. Não se contém e dá muitas risadas.
Quando o assunto é política fica sério. Diz ser partidário da Unita, como a maioria dos moradores do local. A Unita é o principal e praticamente único partido de oposição. Travou sangrenta luta contra o MPLA, logo após a independência do país, em 1975. Foram 28 anos de guerra, mortes e muita destruição. Por histórias semelhantes passaram quase todos os países da África negra.
É muito raro encontrar em Luanda quem assuma simpatia pela Unita. A polaridade entre os dois partidos, para muitos, ainda significa sangue. O MPLA, partido que governa o país desde a fundação do Estado angolano, cujo governo mantém total controle sobre os meios de comunicação, faz intensa campanha para demonizar o rival. O Jornal de Angola, único periódico diário do país, é estatal. O presidente José Eduardo dos Santos, no poder há 29 anos, está quase todos os dias na primeira página. Recebe tratamento entre messiânico e faraônico.
Quando cheguei ao cortiço, Anacleto estava sem camisa. Ao pedir para fotografá-lo tratou rapidamente de por uma camiseta. Disse-lhe que continuasse como estava. Achava mais bonito. Com olhar de estranhamento, aceitou.Durante a sessão de fotos indaguei sobre a ausência de material visual da Unita. Lenços, camisetas, bonés, chaveiros e bandeiras do MPLA são moda pelas ruas de Luanda. Respondeu-me que MPLA é para fora e, batendo com o punho fechado no peito, que “a Unita é aqui dentro”.

domingo, 28 de setembro de 2008

Raquete elétrica



Esta é da série "Maravilhas que conheci em Luanda". Pelo menos, nunca tinha visto nada igual no Brasil.

Trata-se de uma raquete elétrica fabricada na China (claro) para uma função bem mais divertida do que rebater bolinhas amarelas: matar mosquitos. A idéia é simples. Você a carrega na tomada da parede e ela fica pronta para a "caçada" aos "anjos do paludismo", como diz um amigo meu.



A tela da raqueta é elétrica. Esse botão vermelho, da foto acima, aciona uma descarga de energia . Você só precisa apertá-lo quando dirigir a raquete contra o mosquito. Uma vez preso na tela, seu inimigo alado frita soltando faíscas. Quando existem muitos mosquitos, a raqueta fica parecendo um daqueles pisca-piscas de Natal.

Impossível descrever o prazer proporcionado pelo cheiro de queimado e pela libertação definitiva das palmadas desnecessárias no ar e das paredes manchadas de sangue. Tudo por menos de 300 kwanzas (USD 4) na AgroSantos.

A raquete elétrica, certamente, estará entre os pertences que me acompanharão na volta ao Brasil.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Luanda e os seus Amores (Ficção)

"Era uma vez, um rei e uma rainha que viviam num castelo. O rei, conheceu a rainha, quando visitava um serviço público do seu reino. Ficou impressionado com a beleza da donzela e sempre que podia passava por lá. Começou a gostar dela e resolveu que seria a sua princesa. Namoraram, fizeram filhos, mas continuava cada um no seu cantinho. Um dia, o rei decidiu assumir a relação e fez dela a sua rainha. Festa no palácio, tudo florido, muita música. Mas, a paixão desapareceu, ficou o amor, e mesmo este, virou rotina. O rei já não olhava para a sua rainha com olhos de ver e esta começou a ser cortejada por vários cavaleiros do reino.Era muito bonita, alta, com presença mesmo de rainha. Ainda procurou que o rei se interessasse por ela como mulher, mas aquele olhava mais para as outras, galanteava as suas súbditas. As flores começaram a murchar, a relva surgiu seca, a alegria, o riso, a harmonia começou a desaparecer do palácio. Um dia, a rainha fartou-se, enamorou-se de um dos cavaleiros e foi embora. Foi um choque, no reino, o rei ficou muito abalado, as opiniões dividiam-se, uns diziam, como é possível fazer isso a um rei que fez dela uma rainha, dava-lhe tudo o que precisava, mas outros, afirmavam, as coisas materiais não são tudo na vida de uma pessoa, o coração dela pedia mais.
O rei não se conformava, fazia tudo para se vingar, mandava os seus pagens com cartas de ameaça em vez de missivas de perdão, estava a perdê-la cada vez mais, quando o que queria era reconquistá-la. Só quando viu que já a tinha perdido para sempre, é que despertou para a realidade da sua situação.O amor por ela era mais forte que o seu reinado e o facto de ser rei não lhe dava o direito de tratar a sua rainha como se fosse uma qualquer, era também, a mãe dos seus filhos. O rei ficou sozinho, todas as noites ao deitar olhava para o lado e não via a sua rainha, acordava, estendia o braço e encontrava um vazio. O sofrimento era o castigo de ser intolerante, não ter dado o valor que devia à sua rainha. Ás vezes, ainda pensa que o tempo apaga tudo e que a sua rainha vai voltar, mas o seu tempo já não é longo e a impaciência tolda-lhe o raciocínio. Fica na janela do seu palácio olhando o horizonte e chorando o seu amor, a dor no seu coração não se vai embora e a imagem da sua rainha o acompanha para sempre. É um castigo muito forte para quem gosta tanto de uma pessoa. Tem a esperança que melhores dias virão, tenta mudar esses seu gostar tanto, por uma amizade ainda mais forte. Seria de certeza menos penalizante, a dor não seria tão dura de sofrer, o coração deixaria de chorar e a amizade limparia as suas lágrimas"

P.S.:Não é uma estória com um final feliz, mas quem sabe, se não virá um outro narrador, que resolva modificar esse fim.

Como tirar-me do sério # 1

O que realmente “guardam” os seguranças? Os bancos, as empresas ou casas que lhes pagam os salários ou, o meu carro? Desde que moro na cidade tenho de explicar aos guardas do banco do lado que eu não vou dar 200 TODOS OS DIAS. Dou ÀS VEZES, como lhes explico. Ora uma vez dou a um. Ora outra vez dou a outro. Diziam eles que havia muitos bandidos, naquela zona. Ya... e eu, sou o monstro das bolachas. Por vezes, quase que preciso pedir desculpa por ter o meu carro estacionado à porta do prédio. E explicar que hoje, não vou dar nada. Já dei anteontem. Ora, tentar explicar isto, é tarefa difícil. Ao mesmo que dei 200 kwanzas anteontem, explicava hoje que não lhe daria todos os dias e que já lhe tinha dado anteontem. Além do mais o M. tinha dado ontem. A cara de rambo em cuecas mantinha-se à espera de que eu sacasse de 200 kwanzas e lhe desse, já agora, com um abraço e um beijinho.
Eu: Já te dei anteontem 200 kwanzas. Não tenho hoje. Hoje não dou.
Guarda, com cara de rambo em cuecas: ah?
Eu: Já te dei ANTEONTEM 200 KWANZAS. HOJE NÃO.
Guarda, com a mesma cara de rambo em cuecas: onde, onde?
Eu: ANTEONTEM. ANTEONTEM. ANTES DO DIA DE ONTEM.
Guarda: Onde, onde?
Eu, com cara de sapo cocas com vontade de espancar a miss piggy: HOJE NÃO.
E fui à minha vidinha. Acrescente-se isto ao facto de ainda não serem 7 horas da manhã e eu estar mesmo capaz de cuspir fogo ao rambo em cuecas que acha que eu sou mãezinha dele. Luanda cansa. E hoje, ainda nem comecei o meu dia e, já estou cansada.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

agora, em Angola...

Cota 50

Paulino Damião, repórter fotográfico, 35 anos de carreira, todos no Jornal de Angola. Agora, no Jornal de Economia e Finanças. Meu inseparável guia pelas ruas de Luanda. Não há lugar onde não seja reconhecido e festejado. Expliquei-lhe por que digo sempre nessas situações que ele é mais conhecido do que nota de um real. Fica orgulhoso.

Em 1963, o pai caminhando pelas matas de Nambuangongo, província do Bengo, deparou-se com as tropas coloniais portuguesas. Foi fuzilado. Ele, feito prisioneiro aos 14 anos. Ainda em poder dos portugueses, teve a mãe morta por bombardeios aéreos dois anos depois. Certa vez, estávamos nós fotografando na Fortaleza, edificação histórica de onde se avista toda a baía de Luanda e hoje abriga um museu da luta pela independência, pedi a ele que subisse num dos velhos aviões militares ali expostos para fotografá-lo. Subiu, e sorridente disse-me que um daqueles matara boa parte de sua família.

Separado, mora na Chicala, área de ocupação sobre aterro feito junto à baia. Com ele vivem os quatro filhos (“nunca tive filhos fora”, diz) , nove netos e três sobrinhas. Entre os filhos, o artista plástico Lino Damião, convidado para participar da bienal de Cape Town, África do Sul. Pergunto quantas namoradas tem. Tímido, se enrola na conta. Damos muitas risadas.
Sua chegada é sempre muito esperada na redação. Traz “jinguba” (amendoim) torrada todos os dias.

Durante o tempo em poder do exército português, por ser ainda “miúdo”, ficava entre os militares que ele chama de artistas – músicos, pintores, redatores, fotógrafos. Ironicamente, foi no campo de guerra que descobriu sua paixão. Nunca mais parou de fotografar.

Em 65, como ainda não tinha idade para ir para um presídio regular, foi enviado a Luanda aos cuidados de um tio que logo em seguida também morreu. Só reencontrou os familiares sobreviventes em 75, com o fim da guerra pela independência.

Estudou fotografia por correspondência no Instituto Universal Brasileiro e na Escola Álvaro Torrão, de Portugal. No auge do P&B teve estúdio e laboratório no Largo da Portugália, centro de Luanda. Sem saudosismos, gosta muito da instantaneidade da foto digital. Adora mostrar o resultado no visor de sua câmera.

Em 80 foi enviado a Moscou para cobrir a olimpíada. Era o único fotógrafo negro credenciado para os jogos olímpicos, conta. Conhece quase toda a África subsaariana.

Eu desembarquei em Luanda numa manhã de segunda-feira. Ao meio dia já estava na redação (ou o que viria a ser a redação do Jornal de Economia). Foi o primeiro angolano a quem fui apresentado. Estava ansioso pela minha chegada. Em seguida saímos. Foi ao seu lado que fiz minha primeira foto em Angola, no Largo do Kinaxixe, centro de Luanda. Quando a luz caiu fomos à Fanta, localidade onde se encontra um grande edifício inacabado, ainda da época dos portugueses, ocupado por moradores carentes. Um grande cortiço vertical. Lá, no bar da Marli, uma birosca bem simpática onde numa TV empoeirada passava novela brasileira, fui por ele apresentado à Cuca, cerveja nacional e popular, orgulho dos Angolanos, mas tida como bebida sem sofisticação. Suave, levemente adocicada, adorei. Só tomo outra quando não há Cuca.

O codinome “50” ganhou no começo da carreira. Cobria jogos de futebol apenas com uma lente de 50 mm, pois era a única que possuía, quando os outros fotógrafos, já nesta época, usavam longas teleobjetivas. “O fotógrafo da “50”, assim se referiam a ele aqueles que não sabiam seu nome”. Assim ficou.

O “cota” do título é uma expressão muito usado em Angola como pronome de tratamento. Algo como o nosso “senhor”. Sr. 50.

Ardoroso defensor do MPLA (“Empélá”, como dizem aqui), partido majoritário e que está no poder desde a fundação do Estado angolano, em 75. O atual presidente é apenas o segundo e já está no poder há 29 anos.

Hoje é metodista.

Abstêmio, a todo momento pergunta-me: “Queres uma Cuca?
Quando viu minhas primeiras fotos para uma matéria do jornal, uma sessão de retratos da diretora de uma empresa de locação de veículos de luxo, disse que era foto publicitária.

Conversamos longamente sobre os cada vez mais tênues limites entre a foto jornalística e a publicitária. Convenci-lhe de que me sentia em paz com o leitor, já que tudo o que fica aparente nas minhas fotos é verdade. Apenas agrupo os elementos de composição numa ordem própria. Achou divertido, na sessão de fotos, a “bagunça” que causamos na empresa com a movimentação dos carros.

Recentemente, confidenciou-me que aprendera muito comigo. Devolvi dizendo que eu, sim, é que aprendera muito com ele. Incrédulo, desafiou-me a dizer o que. Perdi um precioso tempo tentando lembrar-me de algum aspecto propriamente fotográfico, técnico, em vão, quando veio-me à alma o entendimento de que ele havia restaurado em mim não só o desejo pela fotografia, como pela vida.

Foi o que eu lhe disse.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Gangues juvenis em Luanda II

A política, em Angola, está a ficar mais pobre e a bandidagem não pára de aumentar. Se antes, só ameaçavam matar, agora já matam, se antes só levavam os carros, agora violam, também. Vamos ficar mais atentos, todo o cuidado é pouco, acabou a festa das eleições, os polícias desapareceram das ruas. Penilson e Yano são dois especialistas em roubar óculos graduados que depois os entregavam a um tio do primeiro, enfermeiro com alguns conhecimentos de oftalmologia, que lhes tinha ensinado a forma de distinguir um par de óculos graduados dos outros não graduados, pois a graduação diminuia o tamanho do olho. Depois é só chegar perto da vítima e arrancar-lhe os óculos da cara. Trinta ou quarenta dólares estavam no papo, que depois eram gastos em bebida e na compra de liamba. O Gi e o Papy, são peritos no roubo de telemóveis, eram cidadãos dos países fronteiriços que controlavam as encomendas, receptores, que depois os descodificavam e os vendiam. Baleavam quem lhes oferecesse resistência. Estiveram presos mas rapidamente sairam. Hoje, felizmente, já não estão no crime organizado, vendem nas ruas os produtos dos libaneses, ás vezes estão tentados a voltar atrás, pois os fiscais, muitas das vezes lhes roubam os artigos e ainda por cima levam. Já se lamentaram, que quando eram mesmo bandidos, nunca lhes bateram e agora que viraram honestos(?), levavam porrada. Zua e o Ladinho, fazem parte de um gangue que trafica tranças brasileiras, vulgarmente conhecidas por tissages", muito em moda na cidade de Luanda.As raparigas eram o seu alvo preferido, que lhes arrancavam e cortavam o cabelo, ficando algumas delas com feridas na cabeça, quando opunham resistência. Tinham a protecção de duas cabeleireiras da Baixa da cidade, que pagavam cinquenta dolares por cada embalagem de extensões e cobravam das clientes cem doláres. As brancas e as mulatas que se cuidem, como alguém já referiu, podem virar karibalas(carecas). Assim vai a nossa linda Luanda.