sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Encontro com Mumuílas

Era um passeio sem maiores pretensões até Chibia, município a 42 quilômetros de Lubango. Com a estrada reparada recentemente, um pulinho.

A área urbana é pouco mais do que uma cidade pendurada numa estrada, embora já existam por ali algumas casas novas, vistosas, sedes de direções municipais. Mas aí esticamos até Havailo, uma comunidade rural cerca de oito quilômetros a frente. E foi lá que as encontrei, as mulheres da tribo dos Mumuílas.

Elas usam adereços de miçangas e panos coloridos na cintura. Não cobrem o peito. Enfeitam os cabelos com uma pasta feita a partir da mistura de gordura do leite com cascas e sementes de algumas árvores.

Diz-me a senhora que nos acompanha que elas fazem isso para evitar os piolhos, já que não lavam a cabeça.

Não tenho como confirmar a história, porque nenhuma mulher Mumuíla fala a minha língua, nem eu a delas. Só sei que foi muito giro esse encontro inesperado com um povo que ainda sabe preservar tão bem a sua cultura.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Muitos cinemas, nenhum filme

Júnior é brasileiro, mora em Angola há 11 anos. Aqui casou-se com uma luso-angolana e no ano passado mudou-se para Lubango.

Fotógrafo e documentarista, o sogro de Júnior mantém um complexo cultural na capital da Huíla, onde funcionam um bar, uma pista de autorama e um sala de cinema para 82 pessoas.

A sala de cinema, infelizmente, está fechada. Falta público. “Chegamos e enviar 200 convites chamando as pessoas para assistirem filmes de graça”, lembra Júnior. “Voltaram 27. Por isso fechamos a sala. O povo aqui não tem o hábito do cinema.”

A cidade já teve lugar na cena cultural. Funcionavam aqui o Cine Odeon e o Cine-Teatro Arco-Íris, essa jóia da arquitetura dos anos 50, que está na foto abaixo.
O Odeon virou templo da Universal do Reino de Deus. O Arco-Íris está fechado, corroendo-se nas lembranças do tempo em que o arco da fachada era iluminado por lâmpadas de néon nas sete cores do fenômeno de refração da luz.

E o cinema do sogro de Júnior? Terá futuro? “Estamos estudando a construção de um hotel no lugar”, admite o brasileiro. “Mas ainda não tem nada certo.”

A fenda da Tundavala

Um dos pontos turísticos a se visitar em Lubango é a Tundavala. Localizado nas montanhas ao redor da cidade, o sítio tem águas muito boas – e é delas que se fabrica a cerveja N’Gola, premiada na Bélgica pela qualidade.

As estradas de chão podem ser vencidas com um carro de passeio, mas um 4x4 cai melhor para o terreno que você vai ter de enfrentar.

A paisagem verde no caminho é uma introdução para o que promete o horizonte que se divisa da fenda, um despenhadeiro famoso que atrai muitos turistas.

Fomos até lá cheios de curiosidade, vencendo as dificuldades da estrada – que é longa. Mas as nuvens chegaram antes de nós.

E tudo o que conseguimos ver, além do grupo de jovens que fazia um retiro religioso no local, foi um paredão de nuvens.

Dica: leve agasalhos, porque venta muito e faz frio por estes lados.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Braços abertos sobre o Lubango

Do alto da montanha, ele vê o verde da Huíla e as casinhas pequeninas lá embaixo. Divisa as montanhas imponentes que limitam os horizontes de seus irmãos a transitar sossegados pelas ruas calmas de Lubango.

Ele não freqüenta a praça central, onde estão o Governo Provincial, a sede do Partido e o Banco Nacional, todos assistidos pelo busto de Agostinho Neto.

Também nunca entrou no Shopping Millennium, templo construído há pouco tempo, onde os frequentadores expiam os pecados rendendo tributo ao consumo.

Prefere a tranquilidade da igrejinha de Palanca, ali perto da sua morada mesmo.

Nunca se hospedou no Grande Hotel da Huíla, embora ainda se lembre de quando ele começou a ser construído, em 1938. As fundações levaram dez anos para ficar prontas, só então começaram a subir as paredes dos salões, a piscina. Mas os primeiros hóspedes só puderam inaugurar os 78 quartos muito depois, nos anos 50.

O ar europeu dos salões do Huíla Café, que o homenageiam com uma foto, também jamais experimentou.

Gosta muito de estar ali, no alto, a assistir tudo. Se fosse se queixar de algo, seria apenas do vento e das noites frias de inverno. Não pode sequer cruzar os braços para se aquecer. Afinal, de braços fechados, ele deixaria de ser o Cristo-Rei de Lubango.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Luanda fica no Quênia



Essas duas fotos são de uma cidade chamada Luanda, só que no extremo Oeste do Quênia, quase na fronteira com Uganda.

Como uma sina, Luanda estava no meu caminho todos os dias, entre Kisumu (a cidade onde eu estava hospedado) e Kogelo (a vila onde mora a avó emprestada do presidente eleito dos Estados Unidos).

Por isso o meu longo silêncio nesta Casa, ao longo desta semana. Eu até gostaria de contar algumas histórias dessa aventura, mas como a Casa é de Luanda, eu preciso pedir autorização aos demais moradores - e também aos leitores - para fugir do tema.

Vocês me autorizam?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sim, nós podemos

Hoje acordei com aquela sensação de ano-novo. Dormi pouco, acompanhando a votação americana, e acordei com aquela injeção de esperança e otimismo que os anos-novos sempre me despertaram. Lá do outro lado do Atlântico, Barack Obama me encheu de entusiasmo.

Mas o que o novo presidente-eleito dos Estados Unidos representa para Angola?

Com seu slogan de campanha ("Yes, we can!"), Obama já conseguiu, antes mesmo de começar a governar, a incrível façanha de convencer as pessoas de que "sim, elas podem". E convenceu pessoas-chave:

-Os negros (americanos e não americanos), de que é possível um mundo onde as cores se misturam e pesam o mesmo na balança das oportunidades;
-Os jovens, de que política é coisa deles sim, e que há um mundo inteiro esperando por eles pra ser mudado.
-Os idealistas, de que sua batalha não está vencida e que a democracia nem sempre serve aos interesses dos poderosos;
-E finalmente a África, que pela primeira se vê representada nos genes e nas preocupações de um presidente americano, de que o continente tem tudo para deixar de ser o patinho feio do mundo.

Obama me emocionou com seu discurso dessa madrugada. Lembrou-nos de como um país deve ir muito além de uma coletividade de individuos. Deve ser uma unidade de pessoas que olham umas para as outras. Lembrou que temos histórias diferentes, mas um mesmo destino. Que enquanto respiramos, temos esperança.

E, principalmente, convocou os americanos e o mundo para um novo espirito de trabalho, baseado na responsabilidade, nas alianças, na esperança, na liberdade e na paz. Espero que o discurso ecoe em Angola, pois este país precisa como ninguém de todos esses valores.

Repito sua pergunta: Que mudanças veremos daqui a 100 anos?

E parafraseio também sua resposta: Cada um de nós é responsável por cada uma dessas mudanças, a cada dia, em cada ato.

Posso ser idealista, mas ainda acredito que a arma mais poderosa que temos é o BOM EXEMPLO. E é de exemplos como Obama que o mundo mais precisa neste momento.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

E quando não tem limão?


Outro dia saí de casa com o seguinte desafio: comprar limões. Simples assim.

Pois fui a 5 supermercados, tentei umas 10 zungueiras (vendedoras de rua)... e nada. Só não desisti porque não queria decepcionar os gringos do churrasco lá de casa, sedentos por uma caipirinha.

Depois de toda uma manhã ensolarada de busca, encontrei 5 limões murchinhos, meio esquecidos numa prateleira de uma mercearia. Paguei 6 dólares pela raridade, e voltei pra casa com aquele ditado na cabeça: "Se tens limão, faças limonada". Certamente quem criou a frase não conhecia Angola... Aqui, às vezes nem o limão a gente encontra!

E então me lembrei de uma piadinha que me contaram outro dia:

"Um tipo morre e vai parar no Inferno. Chegando lá perguntam-lhe para onde quer ir: para o inferno americano, europeu ou angolano. Fosse como fosse teria de comer um balde de merda todos os dias...

O tipo pensa, pensa, pensa e acaba por escolher o inferno angolano. Perguntam-lhe então o porquê de tal escolha... Apesar de tudo na América há liberdade, cidades limpas e organizadas... A Europa tem cidades charmosas, cheias de história e cultura...

E o tipo responde: Pois, mas em Angola quando há merda não há balde, e quando houver balde não há merda!"

Moral da história: Em Angola, se tens limão, fica feliz da vida e enche logo o carrinho, que pode levar semanas até baixar o próximo carregamento!