domingo, 7 de dezembro de 2008

Dorotéia vai ao Huambo

Inconformada por ter sido deixada de fora da aventura ao Namibe, Dorotéia encarou de capô aberto 600 quilômetros de estradas até o Huambo.

Foi uma viagem cansativa para uma senhora idosa. No caminho, Dorô enfrentou com obstinação uma tempestade na altura da Kibala. E depois chegou ao Huambo com o céu armado em tempestade - que afinal, não caiu. Pelo menos não naquele dia.
Do alto de seus 11 anos de vida, Dorotéia parecia nem sentir o esforço. A paisagem, cercada pro vales verdes e montanhas rochosas compensava o esforço da velha guerreira.

Não que fossem exatamente novas para ela aquelas paisagens. Dorotéia é uma veterena da guerra civil, quando cumpria missões de paz rodando por este país, inclusive nesta província, onde aconteceram algumas das piores batalhas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Os Deuses de Ébano

Leitoras da Casa de Luanda, peguem os seus leques. Este post, sobre aqueles que são considerados os dois homens mais bonitos de Angola, é um presente do X. para vocês. Os leitores, por seu turno, podem evitar a leitura do texto ou se conformarem com o facto de que a genética construiu esses deuses de ébano e depois jogou a fórmula fora, dada a harmonia perfeita entre altura e musculatura.
Kelcy, o modelo mais bonito de 2008: ele deixou para trás 400 candidatos (Foto: Kota 50)

Kelcy Manuel, 21 anos, 1,83 de altura e 90 cm de tórax, é o modelo número 1 do país, galardoado há um ano no primeiro concurso do género organizado por uma agência local. Venceu 400 candidatos e, como seus colegas de passerelles, guarda a sete chaves os segredinhos para manter a forma. “Apenas corro pela orla de Luanda na altura em que o sol nasce”, despista o manequim. Kelcy já representou o país em desfiles em Espanha, São Tomé e Príncipe e começa a aparecer frequentemente em revistas como Caras Angola e Chocolate (a Nova daqui).

Jelson Avelinho, Mister Angola 2009: da Rússia para Luanda (Foto: Zé Template no Funge)

Já Jelson Avelino é o novo Mister Angola 2009, eleito no último dia 22 num concurso onde 18 moços desfilaram, entre outras variações, de fatos de banho azul e sandálias Havaianas. Tudo teve lugar no Bar Sulo, na Ilha do Mussulo. Nascido na Rússia, Jelson tem 18 anos, 1,90 de altura, é do signo de peixes e voltou a residir em Angola há quatro anos. “Ainda troco algumas palavras em português, mas estou a me esforçar”, confessa, com aquele traquejo típico de quem estreia-se no mundo da fama.

A fina estampa Jelson mantém jogando basketbal. Em Abril, ele vai representar Angola no Manhunt Internacional, concurso badalado que ocorrerá em Taiwan. Como prémios, o novo Mister Angola ganhou uma viatura 0 km, uma bolsa de estudos numa universidade local, salão de beleza e ginásio de borla por um ano e, preparem-se tietes verde-amarelas, uma viagem ao Brasil.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

É branco? Paga.

Dia desses, tranquilamente estacionado numa rua de Luanda, aguardava a P. sair de uma embaixada quando reparei numa luta que se desenrolava bem atrás da Dorotéia.

Tudo começou com um pneu furado. O dono do carro não conseguia trocar porque o macaco estava com problemas. Foi chegando gente, mais gente, uns a dar palpites, outros mesmo a sujar as mãos, e daí a nada já eram cinco angolanos, entre eles um policial fardado, a brigar com o macaco.

Desci da Dorotéia para assistir a peleja já disposto a oferecer o meu macaco e imediatamente colou-se ao grupo um bêbado. Vinha meio tropeçando, falando alto, deixa lá comigo, eu troco esse pneu. E se jogou embaixo do carro, mexeu daqui, fuçou dali... milagrosamente o carro começou a subir, para espanto de todos os outros.

Enquanto fazia força, o bêbado ia dizendo, como se fosse um mantra: vai me dar 2 mil kwanzas, vai me dar 2 mil kwanzas.

Os outros se riam , 2 mil kwanzas? E gritavam, Xé, trabalha mais e fala menos. O bêbado continuava o seu mantra, vai me dar 2 mil kwanzas, vai me dar 2 mil kwanzas, até que o policial perguntou:

POLICIAL: - Quem é que vai lhe dar 2 mil kwanzas?
BÊBADO: - O branco.

Gargalhada geral.

POLICAL: - O branco? Qual branco?
BÊBADO: - Esse branco aí.
EU, percebendo que ele se referia a mim: - Eu vou lhe dar 2 mil kwanzas? Mas esse carro nem é meu. Estou aqui só assistindo.

O bêbado esbugalhou os olhos, que já estavam arregalados:

BÊBADO - Como não é seu? Então eu venho ajudar a trocar o pneu e o carro não é seu? É de quem? Eu só vim porque o kota estava aí parado, achei que o carro era do kota. Agora tem de me dar 2 mil kwanzas.

Todos riam de se matar, trabalha mais e fala menos, oh.

Com o serviço quase pronto, o dono do carro tirou 100 kwanzas do bolso e deu ao policial. O senhor agente, naturalmente, ficou com 50 kwanzas, sem ter feito força nenhuma. Deu os outros 50 ao bêbado, que saiu quietinho, sem uma reclamação.

domingo, 30 de novembro de 2008

Docinhos brasileiros

Aprendi a fazer este fim de semana. Esta bandeja, que ornou uma feijoada importante na Embaixada Brasileira, foi toda feita por mim e pelo meu professor.

São deliciosos e muito bonitos, como vocês podem ver, mas já vou avisando: dá um trabalhão danado.

sábado, 29 de novembro de 2008

Os sonhos da nossa angolana de fibra

Nina jamais se contentou com o salário da embaixada. Mas em lugar de ficar se lamentando, foi à luta para melhorar de vida. E veio parar aqui em casa. Bateu no portão oferecendo-se para trabalhar das 13h às 19h. Conseguiu dobrar seus rendimentos.

- Eu queria muito ter tempo para estudar, mas neste momento a prioridade é a educação dos meus filhos. Por isso arrumei este emprego, pra poder lhes pagar uma escola boa.

A mãe enche a cabeça dela para comprar uma casa. Acha que precisam se libertar do aluguel, que sobe a toda hora em Luanda. Chegou a ver um terreno no Benfica, mas Nina está insegura.

- É muito distante, vai ser difícil chegar na hora no trabalho. Depois, que escola boa meus filhos poderão freqüentar lá?

O pai das crianças não ajuda Nina com o sustento dos meninos. Ela sabe que tem direito a isso, mas não quer recorrer à Organização das Mulheres Angolanas, uma entidade partidária do MPLA que poderia ajudá-la a enquadrar o aldrabão. Nina é orgulhosa, prefere conquistar a pedir.

O irmão mais velho dela mora na Alemanha e já falou em levá-la para lá. Ela teria que deixar as crianças, porém, coisa que ela não aceita. Um tio, que já viveu na Europa, diz que a vida no velho continente está muito difícil. Melhor seria ir para o Canadá. Mas teria de levar as crianças, porque aí as pessoas teriam pena dela e lhe dariam emprego.

Eu explico que isso é tolice. Ela jamais conseguiria entrar legalmente no Canadá. Como imigrante ilegal, ficaria exposta a toda sorte de perigos, sem direito aos serviços de saúde e educação.

Nina não sabe o que fazer. Ela tenta enxergar um futuro, mas sente-se acuada. Nos últimos tempos nem dorme direito, preocupada com a responsabilidade que lhe pesa sobre os ombros. Sonha com tantas coisas boas para os filhos, mas tudo lhe parece inalcançável.

Numa novela, ela encontraria um princípe encantado e rico, que acabaria com todos os problemas dela. Mas como isto é vida real, a novela da nossa heroína angolana termina pesada, cheia de pontos de interrogação que lhe pesam no estômago.

Só posso lhe desejar sucesso e dizer uma coisa, Nina: seus filhos têm sorte de tê-la como mãe.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A emancipação da nossa angolana de fibra

Com o fim do casamento, Nina não aceitou mais permanecer na casa dos sogros. E com os dois filhos pequenos, teve de enfrentar a dura tarefa de encontrar uma casa e um trabalho ao mesmo tempo em que a mãe, que conhecera havia pouco tempo, apareceu doente em Luanda para lhe pedir ajuda.

- Ela ficou diabética, engordou muito, não podia mais trabalhar. Estava já separada do meu pai e eu assumi essa responsabilidade de cuidar dela também.

Nina foi bater no Miramar, bairro nobre onde ficam as embaixadas em Luanda, a procura de um emprego como doméstica na casa do embaixador americano. Os seguranças avisaram que ali era impossível. Mas mostraram outra casa onde, naquele exato momento, dois brancos faziam uma visita. Provavelmente alugariam a vivenda.

Ela foi lá bater lá e conversou com a senhora estrangeira que mal falava português. Estavam a alugar a casa para estabelecer uma embaixada. Mas ainda demoraria algum tempo até que tudo fosse resolvido e eles realmente precisassem de uma empregada. A senhora quis guardar um contato, mas Nina não tinha telemóvel na época.

- Ficou combinado que o policial que trabalha na embaixada americana ia mandar me avisar. Ele sabia a rua onde eu estava morando. Mas como o aviso estava demorando muito e eu precisava sustentar meus filhos, comecei a vender pedras.

Nina fez contatos nas diversas obras que começavam a surgir em Luanda com o fim da guerra civil. Ficou amiga dos pedreiros e eles a chamavam quando precisavam de cascalho. Ela alugava um caminhão, ia até Viana buscar pedras e as entregava nas obras, cobrando por isso.

- Estava a dar algum dinheiro, o suficiente para o aluguel e o sustento das crianças. Foi quando o policial apareceu lá em casa, dizendo que aquela senhora estava mandando me chamar.

Nina voltou ao Miramar e conseguiu o emprego no mesmo dia. Trabalharia como doméstica para a embaixada das 9h às 13h, ganhando USD 250 por mês.

Amanhã, no último capítulo: Nina não se acomoda com o emprego novo e parte em busca melhores dias.

Semana de TV na Casa de Luanda - IV

Cantar é uma das coisas que aqui em África se faz muito bem. Eu trombei por acaso com o Coral Feminino de Simulambuco em Cabinda, quando filmava o Oito Actos, e elas gravaram a música de abertura para aquele filme. O grupo, porém, tem uma particularidade que não pude contar naquele filme e que revelo agora, neste pequeno vídeo de dois minutos.