segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Ordens são ordens

Aponto minha câmera para a sede do MPLA no Huambo e ouço alguém me chamar. Um homem franzino, rádio-comunicador na mão, se aproxima:

- O senhor não pode tirar foto aqui.
- Por que não?
- Porque esta é uma área de segurança, é preciso autorização.

Eu já havia ouvido falar na dificuldade para fotografar prédios públicos em Luanda, mas nunca sofrera constragimento nas províncias. Ao primeiro homem, junta-se o segundo, mais agressivo:

- Identifique-se.
- Quem é o senhor?
- Mostre o passaporte.
- Eu não sou obrigado a mostrar meu passaporte para qualquer um. O senhor é autoridade?
- Sou polícia. Mostre o passaporte.

Mostro o passaporte.

- Esta é uma área de segurança. O senhor quer tirar fotos por quê?
- Por que sou turista, estou visitando o Huambo e quero fotografar os prédios bonitos da cidade.
- Mas aqui fica o partido, o senhor não pode tirar fotos.
- Do Banco Nacional eu posso tirar fotos?
- Pode.
- E do Palácio do Governador?
- Também. Só não pode tirar daqui.
- E por que aqui seria mais importante do que esses outros? A guerra já acabou, não faz sentido essa proibição. Em todas as províncias eu tiro fotos de todos os prédios, inclusive o do partido, e ninguém nunca reclamou.
- Essa é a ordem que eu recebo. Ordens são ordens. Eu não discuto. Vai ter de apagar as fotos.
- Se o seu superior ordenar que o senhor dê um tiro na própria cabeça, o senhor vai atender?
- Ahn? (com cara de perplexidade).
- Ordens são ordens, foi o que senhor acabou de dizer.
- O senhor está a confundir. Basta apagar as fotos e estará tudo resolvido.
- Vamos fazer o seguinte. Eu apago as fotos, mas o senhor vai lá dentro e explica que eu sou um turista brasileiro. Explica que estou a fotografar a cidade e quero fazer uma foto deste prédio. Se o seu chefe não autorizar, eu vou embora.

O marrento aceitou. Apaguei as fotos, ele mandou o colega entrar para falar com o chefe e cinco minutos depois, recebi um polegar positivo.

P.S. - Questão de semântica. No português do Brasil, barreira tem uma conotação negativa. É algo que impede alguma coisa de acontecer, algo que precisa ser superado, vencido, para que algo bom aconteça. Pelo cartaz acima, plantado na porta da sede pelo próprio MPLA, devo acreditar que a palavra tem um significado diferente por aqui. Ou seriam militantes da Unita infiltrados os responsáveis por essa placa?

Lembranças amargas

Hoje o palácio do governador é assim. Mas num passado bem recente, esse prédio era o maior escombro histórico de Huambo. As ruínas do palácio do governador, no coração da cidade, eram as piores lembranças dos piores anos que Huambo viveu, nem faz tanto tempo assim, ali entre 1992 e 1994.
As estruturas atingidas por obuses não impedem as pessoas de continuarem habitando este edifício

Naqueles anos, quando a guerra civil recomeçou, a cidade ficou em poder da Unita. Todos que eram do MPLA tiveram de fugir. A maioria foi para Benguela, alguns se esconderam no mato, como é o caso do Pedro, o motorista que nos conta esta história triste.


Edifício destruído, na principal avenida da cidade
Pedro era militante do MPLA. Quando Huambo caiu nas mãos da Unita, ele fugiu para aldeia onde o sogro, militante do Galo Negro, era soba. E lá ficou escondido durante dois anos.


Marcas de artilharia na parede lateral

- A reação veio mesmo de Benguela, com o MPLA armado com artilharia moderna. Huambo foi cercada e severamente bombardeada até a expulsão da Unita. Do palácio do governador só sobraram as estruturas. Foi o prédio mais castigado da cidade.


Casa destruída por bombardeios ostenta bandeira da Unita
As lembranças amargas foram apagadas dos prédios públicos pelas reformas nos últimos seis anos, mas ainda permanecem em vários edifícios privados pela cidade, como se pode ver nas fotos deste post.

A parede crivada de balas mostra que os combates foram muito intensos

A revoada dos retornados

Dezembro começou anunciando um frenesi silencioso em Luanda. Dezenas de pessoas estão fazendo as malas e voltando de vez para a terra natal ou tomando um avião para passar as festas de final de ano com os seus. “Quando você viaja?” ou “Vai passar o reveillón em Angola?” são as questões mais discutidas por esses dias em celulares ou MSNs da vida.

Quase todas as noites há uma festinha de despedida dessas pessoas. Tenho comparecido a algumas com um aperto no peito, pois uma rede sólida de amigos, geralmente criada com muito esforço em qualquer cidade do mundo, é um dos principais fatores para agoentarmos a saudade daqueles que deixamos longe. E, quando ela vai se desfazendo, parece que um punhado de areia se esvai pelos dedos abertos das nossas mãos.

Há um misto de felicidade e tristeza no olhar e semblante das pessoas que vão embora por esses dias.

Felicidade porque fecharam um ciclo da vida, concluíram um projeto que os trouxe para cá há dois ou três anos, juntaram algum dinheiro que pouco provavelmente ganhariam em outro lugar e vão poder, de novo, viver a sensação de estar em casa, com os seus, no seu país de origem, sem ter que ficar levando o passaporte para lá e para cá todos os dias - de todos, talvez o aborrecimento mais básico.

E tristeza, certamente em maior quantidade do que a felicidade, porque Angola vai estar para sempre no coração delas como uma experiência única, inesquecível e imensurável, pelo menos nessa altura da vida.

Os expatriados, em geral, chegam aqui com uma idéia equivocada de que são “consultores”, de que vão ensinar muita coisa aos angolanos, mas a verdade é que esse povo, desconfiado à primeira vista e simpático por natureza depois, é quem no ensina, todos os dias, à maneira dele, a “quebrar um concreto” que nem sabíamos existir nas nossas cabeças.

Fecham-se as malas, ficam de fora muitas vivências, amizades, “yá, tás fixe?”, amores, aventuras, choros, crises de depressão, lugares, pôres-do-sol, calor, cacimbo, novos desafios profissionais, medo do futuro e um consolo para todos: Angola, como experiência de vida e de trabalho, estará para sempre em nossos corações. E como um país onde muitos poderão muito bem viver para sempre, também.

Boa viagem para aqueles que voltam para casa!

PS: relendo este texto, passei a concordar com os amigos portugueses e angolanos que sempre nos dizem: brasileiro usa muito o gerúndio. 

Mas o modo infinitivo dos verbos não foi feito para nós, definitivamente. Ficamos muito ridículos ao usá-lo ou tentar imitar quem o usa, combinado?

domingo, 7 de dezembro de 2008

De Pauling Town a Nova Lisboa

Praça da Cultura, Huambo
Huambo é hoje uma cidade de jardins bem-cuidados, com prédios históricos preservados. Tem um clima ameno, graças à altitude, e estima-se que tenha algo entre 700 mil e 1 milhão de habitantes, ninguém sabe ao certo.

O jogo de damas improvisado

Tem amplas avenidas bem sinalizadas, parques arborizados e bairros inteiros de largas vivendas que lembram os tempos em que os portugueses a conceberam para ser a Nova Lisboa.
Banco Nacional de Angola em Huambo
Prédios históricos na praça central da cidade
A história desta cidade está ligada à construção dos Caminhos de Ferro de Benguela, no início do século 20. O empreiteiro inglês Pauling estabeleceu um acampamento no km 370 e passou a receber correspondência da Inglaterra destinada a "Pauling Town".

Palácio do governador, na praça central

Em 1912, o General Norton de Matos, recém-empossado como Governador-Geral da Colônia de Angola, viu aí uma tentativa de apropriação britânica. Deu então ordens aos correios para que devolvessem as cartas destinadas a Pauling Town e criou a cidade do Huambo. Em 1927, o então governador Vicente Ferreira rebatizou o lugar como Nova Lisboa, pretendendo que a cidade se transformasse na nova capital de Angola, o que, de fato, nunca aconteceu.

Em 1975, com a independência, Nova Lisboa virou novamente Huambo. Hoje, na praça central, está sentada uma estátua do poeta libertador, Agostinho Neto, de frente para o Palácio do Governador e cercado por prédios históricos.

Em agosto passado, pouco antes das eleições, o presidente José Eduardo dos Santos esteve aqui, nesta mesma praça, onde foi ovacionado por um milhão de pessoas, segundo as contas da mídia oficial. A euforia foi grande, pois Huambo sempre foi marcado como um reduto da Unita e chegou a ser de fato ocupada pelo grupo inimigo durante a guerra civil.
A recepção a José Eduardo foi comemorada pelo MPLA. No dia seguinte, a capa do Jornal de Angola trazia a foto e a manchete abaixo, que hoje ilustram um outdoor na praça.

Outdoor na praça principal da cidade, com a foto do presidente

Dorotéia vai ao Huambo

Inconformada por ter sido deixada de fora da aventura ao Namibe, Dorotéia encarou de capô aberto 600 quilômetros de estradas até o Huambo.

Foi uma viagem cansativa para uma senhora idosa. No caminho, Dorô enfrentou com obstinação uma tempestade na altura da Kibala. E depois chegou ao Huambo com o céu armado em tempestade - que afinal, não caiu. Pelo menos não naquele dia.
Do alto de seus 11 anos de vida, Dorotéia parecia nem sentir o esforço. A paisagem, cercada pro vales verdes e montanhas rochosas compensava o esforço da velha guerreira.

Não que fossem exatamente novas para ela aquelas paisagens. Dorotéia é uma veterena da guerra civil, quando cumpria missões de paz rodando por este país, inclusive nesta província, onde aconteceram algumas das piores batalhas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Os Deuses de Ébano

Leitoras da Casa de Luanda, peguem os seus leques. Este post, sobre aqueles que são considerados os dois homens mais bonitos de Angola, é um presente do X. para vocês. Os leitores, por seu turno, podem evitar a leitura do texto ou se conformarem com o facto de que a genética construiu esses deuses de ébano e depois jogou a fórmula fora, dada a harmonia perfeita entre altura e musculatura.
Kelcy, o modelo mais bonito de 2008: ele deixou para trás 400 candidatos (Foto: Kota 50)

Kelcy Manuel, 21 anos, 1,83 de altura e 90 cm de tórax, é o modelo número 1 do país, galardoado há um ano no primeiro concurso do género organizado por uma agência local. Venceu 400 candidatos e, como seus colegas de passerelles, guarda a sete chaves os segredinhos para manter a forma. “Apenas corro pela orla de Luanda na altura em que o sol nasce”, despista o manequim. Kelcy já representou o país em desfiles em Espanha, São Tomé e Príncipe e começa a aparecer frequentemente em revistas como Caras Angola e Chocolate (a Nova daqui).

Jelson Avelinho, Mister Angola 2009: da Rússia para Luanda (Foto: Zé Template no Funge)

Já Jelson Avelino é o novo Mister Angola 2009, eleito no último dia 22 num concurso onde 18 moços desfilaram, entre outras variações, de fatos de banho azul e sandálias Havaianas. Tudo teve lugar no Bar Sulo, na Ilha do Mussulo. Nascido na Rússia, Jelson tem 18 anos, 1,90 de altura, é do signo de peixes e voltou a residir em Angola há quatro anos. “Ainda troco algumas palavras em português, mas estou a me esforçar”, confessa, com aquele traquejo típico de quem estreia-se no mundo da fama.

A fina estampa Jelson mantém jogando basketbal. Em Abril, ele vai representar Angola no Manhunt Internacional, concurso badalado que ocorrerá em Taiwan. Como prémios, o novo Mister Angola ganhou uma viatura 0 km, uma bolsa de estudos numa universidade local, salão de beleza e ginásio de borla por um ano e, preparem-se tietes verde-amarelas, uma viagem ao Brasil.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

É branco? Paga.

Dia desses, tranquilamente estacionado numa rua de Luanda, aguardava a P. sair de uma embaixada quando reparei numa luta que se desenrolava bem atrás da Dorotéia.

Tudo começou com um pneu furado. O dono do carro não conseguia trocar porque o macaco estava com problemas. Foi chegando gente, mais gente, uns a dar palpites, outros mesmo a sujar as mãos, e daí a nada já eram cinco angolanos, entre eles um policial fardado, a brigar com o macaco.

Desci da Dorotéia para assistir a peleja já disposto a oferecer o meu macaco e imediatamente colou-se ao grupo um bêbado. Vinha meio tropeçando, falando alto, deixa lá comigo, eu troco esse pneu. E se jogou embaixo do carro, mexeu daqui, fuçou dali... milagrosamente o carro começou a subir, para espanto de todos os outros.

Enquanto fazia força, o bêbado ia dizendo, como se fosse um mantra: vai me dar 2 mil kwanzas, vai me dar 2 mil kwanzas.

Os outros se riam , 2 mil kwanzas? E gritavam, Xé, trabalha mais e fala menos. O bêbado continuava o seu mantra, vai me dar 2 mil kwanzas, vai me dar 2 mil kwanzas, até que o policial perguntou:

POLICIAL: - Quem é que vai lhe dar 2 mil kwanzas?
BÊBADO: - O branco.

Gargalhada geral.

POLICAL: - O branco? Qual branco?
BÊBADO: - Esse branco aí.
EU, percebendo que ele se referia a mim: - Eu vou lhe dar 2 mil kwanzas? Mas esse carro nem é meu. Estou aqui só assistindo.

O bêbado esbugalhou os olhos, que já estavam arregalados:

BÊBADO - Como não é seu? Então eu venho ajudar a trocar o pneu e o carro não é seu? É de quem? Eu só vim porque o kota estava aí parado, achei que o carro era do kota. Agora tem de me dar 2 mil kwanzas.

Todos riam de se matar, trabalha mais e fala menos, oh.

Com o serviço quase pronto, o dono do carro tirou 100 kwanzas do bolso e deu ao policial. O senhor agente, naturalmente, ficou com 50 kwanzas, sem ter feito força nenhuma. Deu os outros 50 ao bêbado, que saiu quietinho, sem uma reclamação.