domingo, 11 de janeiro de 2009
Prêmio Dardos
Eu demorei para sentir as espetadas, porque a Namíbia é um país maravilhoso, cheio de atrações para descansar os olhos, e nos deixa pouco tempo para a internet nos cybercafés que fecham às 17h. Mas agora, finalmente, veio reparar minha demora e agradecer aos queridos amigos acima a indicação.
"Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. Este prémio obedece a algumas regras:
1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;
3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos."
Além dos amigos citados acima, que já foram contemplados, indico os seguintes blogs para o prêmio:
1. Migas com Gindungo
2. O Silêncio da Kianda
3. Menina de Angola
4. Terapia Zero
5. Aerograma
6. Nos cus de Judas
Revéillon na Namíbia
sábado, 10 de janeiro de 2009
Do lado de cá, saudades do de lá
Esta ponte, chamada de Newton Navarro (um grande pintor potiguar) liga a cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, Brasil, a Luanda, capital da República d´Angola, de uma forma sentimental e poética, por sobre as águas do Oceano Atlântico.sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Roque Santeiro Voador
Uma dessas "banquinhas" estacionou bem ao nosso lado. E começaram as negociações de produtos. Uma passageira mais afoita pedia em português mesmo:
- Eu quero três diquinay. Três diquinay pra mim.
Fiquei a imaginar o que seria o tal produto, dúvida que sequer passou pela cabeça do comissário de bordo, pois que imediatamente saiu-se com três frascos de perfume DKNY.
- It is 135 american dólars - ele disse em inglês.
- Tem aqui 200 dólares - respondeu a passageira em português.
O hospedeiro devolveu 50 dólares e pediu a ela que esperasse, pois não tinha mais troco. Ela continuou ao lado, a revista na mão. Outros passageiros chegavam comprando, um tentando ser mais rápido que o outro. A passageira diquinay pediu mais alguns produtos, deu mais algum dinheiro, no fim das contas, o hospedeiro continuava a lhe dever USD 20. Pelas contas dele. Pelas dela, eram 30 USD.
- Me dá mais um diquinay e fica certo.
- You have 20 dolars back, this costs 45 dolars.
- Não, me dá só mais um diquinay e tá certo.
Começaram a debater os valores, tentando um acerto de contas. Nisso chega a tia da "diquinay", gritando do outro corredor.
- Oh minha sobrinha, dá só 20 dólares à tia.
- Eu não tenho 20. Só 100. O troco aqui não chega.
Pelo auto-falante, outra comissária começa a anunciar que o vôo está se preparando para aterrisar em Luanda. O Free Shopping vai ser encerrado... O quê? Encerrado? Bateu o desespero nos outros passageiros que ainda não estavam satisfeitos com suas compras. E a banquinha do hospedeiro foi cercada por mão cheias de notas de dólares que pediam mais um perfume, mais um uísque, mais não sei quê. Nossa fileira, àquela altura, já era uma sucursal voadora do Roque Santeiro.
A passageira diquinay finalmente chegou a um acordo com o hospedeiro. Foi pedindo mais um diquinay, e mais outro, e mais outro, até que a conta chegasse a um número inteiro e ele não precisasse lhe dar troco. Quando parei de contar, ela já tinha seis fracos de perfume na sacola, mas é possível que tenha levado mais.
Foi a primeira vez na vida que vi uma tripulação ter de implorar para que as vendas fossem encerradas. Depois de várias tentativas pelo sistema de som, a comissária chefe decidiu meter ordem na confusão, com o Airbus 340 já apontado para a pista, na reta final de aterragem. Mandou o carrinho de volta para o fundo do corredor, no que foi prontamente seguido por um senhor gordinho, de terno, que não terminara as compras.
O auto-falante continuava anunciando a chegada, pedindo a todos que voltassem aos seus assentos, mas o senhor gordinho só passou de volta segundos antes da aeronave tocar a pista, com um sacola que mais lembrava a do Pai Natal.
Com o avião já aterrado e as portas abertas, os sinais da guerra de consumo podiam ser vistos por todos os lados. Restos de plásticos das embalagens, de caixas de papelão, de revistas do free shopping picotadas, além de latas de bebidas, copinhos, guardanapos e lixo de todo o tipo espalhado pelos corredores e entre as poltronas.
Parecia mesmo o Roque Santeiro depois de um dia de comércio intenso.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Direto da Namíbia
Mas voltaremos logo, com muitas histórias pra contar. Aguardem.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Chegou a hora de deixar Angola

Foi sensacional morar em Luanda durante os últimos quase 180 dias, com um intervalo de 15 na minha casa. Nunca, absolutamente nunca, passei por nenhum dos aborrecimentos que tanta gente se queixa aqui ou na mesa de bar, tais como pagamento de gasosa, assalto, falta de água, preconceito racial, grosserias, paludismo (valeu, Flavinha!), violência etc. etc. etc.
Ao contrário: comi muito bem e em quantidades próximas da de um glutão, dancei ritmos maravilhosos, fui em festas inesquecíveis, conheci personagens singulares que transitam do lixo ao luxo, fiz amigos e amigas angolanos, brasileiros, portugueses, espanhóis, uruguaios, americanos, sul-africanos, descobri baladas incríveis e festas privadas muito mais incríveis, vi gente rir e chorar sem saber o que dizer, assustei-me e encantei-me com os ritmos e ritos das ruas e, como sou humano, fui naturalmente me anestesiando com tanta miséria nestas latitudes que um dia foram de Ginga.
Na bacia das almas, o que pesar na hora da partida? Muy leoninamente, em primeio lugar, a certeza de ter feito o melhor que pude fazer, dentro da minha área de atuação e dos meus princípios éticos, para dar, eu também, o meu “contributo” a esta Nação que está a crescer, só não exerga quem não quer. Prestei a minha “consultoria” e, na minha ausência, tenho certeza de que pelo menos dois dos angolanos com quem aprendi um bilhão de coisas vão fazer, na medida das condições oferecidas e da realidade em que cresceram e hoje vivem, igual ou melhor o trabalho que eu faço. Essa é a maior felicidade: saber, lá do outro lado do mar, que um pouquinho do que você acredita como sendo a melhor coisa para se fazer na vida vai ser a profissão desses rapazes.
Pelo meu lado, também vou agarrar-me a outro desafio profissional que, por pouco, quase não me deixou ter vivido essa experiência triliardária de ser brasileiro e estar em Angola por algum período da vida. Porque não fui em quem disse, mas ninguém menos que o Padre Antônio Vieira, que no século XVI essas duas nações formavam um “agregado único”. O convite repetiu-se e, voilà, aqui vou eu. E aqui também estarei eu, em pensamento e em saudades.
Tenho consciência de que não fui o morador que mais despertou simpatia por parte dos leitores desta Casa de Luanda por causa dos meus relatos de frivolidades e, “noutra altura”, do incidente diplomático vivido com Portugal, hoje devidamente contornado, inclusive no sentido bíblico, se é que vocês me entendem.
“De qualquer das formas”, deixo aos visitantes e colaboradores que conheci pessoalmente – e também aos outros, os de contatos virtuais – o meu abraço saudoso e o pedido de que façam o que puderem para ajudar no desenvolvimento de Angola e do seu povo. Quero voltar aqui em 2010 para ver a Trienal de Luanda e a cidade, que deverá estar bem diferente da de hoje. Para muito melhor do que já é!
Felicidades a todos!

