sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Fulano deixa Angola rumo ao Leste da África

Fulano, na primeira visita ao nosso antigo local de trabalho: 
ele vai deixar saudades em Luanda

Na semana passada, deixou Angola para fazer uma viagem de cinco meses entre a África do Sul e o Egito o nosso querido Fulano, uma verdadeira instituição dentro do círculo de amigos que transitam na órbita deste blog. 

Foi com ele, juntamente aos morados da Casa Branca, que vivi os momentos mais engraçados nesse país. Cafés na pastelaria Nilo nunca foram válvulas de escape tão boas quando ele resolvia destilar todo o veneno que na maioria das vezes sua educação britânica tolhia.

Rico, branco, bem nascido, falante de diversas línguas e morador de um dos bairros mais ricos de uma das cidades mais ricas do mundo, ele tinha tudo para nunca passar sequer calor, mas escolheu a África e mais particularmente Angola para dar o pontapé numa carreira profissional de sucesso.

Fulano foi a primeira pessoa que, no primeiro dia de Luanda, me levou até aos bares da Ilha, ao alto da Fortaleza de São Miguel, me mostrou as luzes da baía a partir da perspectiva do Miramar e disse, com sua voz pausada: "esse é o lado turístico de Luanda, amanhã vamos ao Roque Santeiro". 

Nesse tempo todo - um ano! - transformou-se na maior autoridade expatriada em Catorzinhas que eu conheci. Sabia tudo ao pormenor do que elas gostam ou não. Nesta festa, atingiu o pico da tietagem. Deve ter tido por aí umas dez namoradas angolanas e, no meu entender, foi embora com o coração em frangalhos por causa de uma muito bonita. 

Viu Angola talvez com a perspectiva mais interessante de todos nós, o grupinho que transita na órbita do blog. Tal qual um São Francisco de Assis, despiu-se de toda riqueza e ajudou muito, mais muito, todos aqueles que sentaram ao seu lado durante 365 dias.

Segue bem, Fulano, nessa longa jornada pelo lado leste da África.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Malanje

Passei o carnaval no coração de Angola...

Fomos pra Malanje 450km de Luanda, fica bem no meio de Angola, outro mundo! As estradas estão sendo arranjadas então em muitos pedaços tem desvios e buracos, mas dá para ir tranqüilo. Demoramos 6 horas para chegar por causa do trânsito para sair de Luanda.

Chegamos em Malanje que é a capital da província, lá tem praticamente duas ruas, uma que vai e outra que volta. Não há muito que se fazer por lá, tirando a pracinha principal toda florida a cidade ainda está meio abandonada.

No domingo fomos até kangandala que é uma aldeia mais ou menos 20km da cidade em estrada de terra, lá disseram que tem um parque onde existem as Palancas Negras.

Para chegar no parque são mais 25 km após a aldeiazinha em lama pura. No caminho encontramos várias pessoas de bicicleta que estavam levando mantimentos e pediram para a gente levar pra eles e fomos enchendo o carro... fomos indo, indo, indo até que chegou num ponto onde não podia mais passar pq a estrada ainda tinha minas (mais de 6 anos após o fim da guerra). Deixamos um menino com seus mantimentos pra quem nós tínhamos dado carona.

Nessa aldeia bem pequena tinha umas crianças que nunca tinham visto brancos e ficaram com medo da gente. Todo mundo da aldeia saiu para ver e tirar foto com a gente. Lá descobrimos que a entrada do parque era há uns 15 km atrás...

Voltamos a estrada péssima, super tensão durante vários momentos o carro saiu do controle, deslizando na lama... Mas finalmente achamos o caminho certo a estrada ainda péssima até que aconteceu o inevitável. Atolamos!!!

O lugar é maravilhoso parece que você está andando no meio da mata atlântica, um verde incrível... Bom a sorte foi que começou a passar gente de bicicleta um aqui outro ali e fomos angariando ajudantes. Mão na lama, madeira daqui, mato dali e uma formiga africana me mordeu.. Olha doeuuuuu muito!!!!!

Depois de mais ou menos 2 horas e 5 anjos que pararam para nos ajudar conseguimos desatolar o carro e o jeito foi voltar sem ver palanca nenhuma.

Na segunda fomos até as quedas de Kalandula, uns 80km da cidade. O lugar é muito bonito, ficamos o dia todo lá e arrumamos um hotelzinho simples, mas limpinho, aliás, o único da cidadezinha. Essa cidadezinha é ainda menor que Malanje só tem uma rua que vai e volta. Ai vc chega num mirante para ver as quedas espetaculares, dá para andar nas pedras em cima das quedas, vc anda e vê as mulheres lavando roupa e tomando banho (banho de verdade com direito a sabonete e tudo o mais). Mas infelizmente não da para descer ainda para a parte de baixo da cachoeira pq no caminho tinha uma ponte que foi destruída na guerra e ainda não foi refeita.

Na terça fomos para as Pedras de Pungo Andongo, umas formações rochosas que aparecem no meio da planície. O caminho inteiro é só verde, verde, verde. Muita terra fértil e nenhuma plantação. Num país tão pobre onde tanta gente passa fome não dá para entender isso... Mas enfim, as pedras são muito bonitas e tem uma lenda que a Rainha Ginga quando fugiu dos portugueses deixou uma pegada numa das pedras de lá, então o lugar tem uma áurea meio mística também.

No caminho achamos uma plaquinha perigo que havia minas (não na estrada, mas nas matas ao lado da estrada), e depois cruzamos com um macaco enorme atravessando a estrada.

Uma experiência única!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Praia na Índia

Mais especificamente em Cherai, no estado de Kerala, no sul do país.

O cara mais esquisito do lugar era eu, usando bermuda e camiseta.

Razões para voltar

Da Namíbia enviei cinco cartões postais com fotos de animais. Um para cada criança da família. Todos chegaram, menos o da F., minha afilhada tão querida que faz sete anos hoje e curte feliz a banguelice própria da idade.

Quando o postal da irmã dela chegou e o dela não, F. tratou logo de ir culpando o carteiro:

- Essas pessoas de hoje em dia acham que as famílias só têm um filho. Por isso não entregaram o meu postal.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Carnaval de São Paulo homenageia Angola

Desfile da Tom Maior em 2008: o maior espetáculo da Terra vira os olhos para Angola

E tem mais Angola no Brasil essa semana!

Nada menos do que a Escola de Samba Tom Maior, representante máxima da minha querida Zona Oeste, em São Paulo, vai ter o país da Palanca Negra, do funge, do Kinaxixi, do Elinga, da Ilha de Luanda, das Quedas de Kalundulo, das Zungueiras, dos Kotas, Putos, Damas e Kambas como tema do desfile que vai colorir o sambódromo do Anhembi às 2h da manhã (hora local) do próximo sábado. Martinho da Vila vai ser homenageado também. A TV Globo Internacional transmitirá ao vivo (ou "em directo", ehehe).

De Luanda, fiquem com os dedos cruzados para a Tom Maior, que ficou em quinto lugar no ano passado, levar o título. E lembrem-se que no carnaval brasileiro tudo é estilizado. Os carnavalescos, esses verdadeiros poétas do asfalto, são livres para narrar o que querem. "Só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor", já cantou Gilberto Gil.

Patrulhas ideológicas, por favor, fiquem todas sentadinhas vendo o desfile! Nada de criticar as alas que falam da corte da Rainha Ginga ou das alegorias que retratam Agostinho Neto e outros vultos da Pátria, ok?

As informações abaixo são do jornal Folha de São Paulo.

Segundo o carnavalesco da Tom Maior, Marco Aurélio Ruffin, a sugestão do tema do enredo foi dada pelo cantor Martinho da Vila, que também será homenageado devido a sua canção "Tom Maior", que inspirou o nome da escola. O músico também é destacado por ser o embaixador cultural de Angola no Brasil.

Enredo

O enredo "Uma Nova Angola se Abre Para o Mundo! Em Nome da Paz, Martinho da Vila Canta a Liberdade" aborda a história, a cultura e, principalmente, a reconstrução de Angola após a guerra civil que devastou o país durante quase 30 anos.

"Angola tem muitas coincidências com o Brasil em relação à religião, à música e à espontaneidade do povo. Na verdade, a origem do samba se deu com o semba, uma música típica angolana que veio para o Brasil com os escravos e se transformou no samba", diz o presidente da Tom Maior, Marko Antônio da Silva.

O abre-alas da escola vai apresentar Angola destruída com o término da guerra civil. "Esse momento marca a destruição de Angola, mas também representa o início de um novo capítulo, um novo trajeto para o país. É um momento muito festejado por lá", afirma Silva.

Depois, a escola apresenta elementos da etnia angolana e da cultura do país africano, com destaque para a religião, que inclui a umbanda e a macumba.

As riquezas de angola também serão destacadas com um carro alegórico que representa o petróleo e outros minério explorados no país africano.

O último setor da escola vai fazer uma homenagem ao samba. Martinho da Vila deve desfilar neste último carro alegórico.

"A expectativa é superar o resultado do ano passado, em que ficamos em quinto lugar. Pelo nosso projeto acredito que estaremos disputando o titulo com certeza", diz o presidente da escola.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ricco entra no Big Brother Brasil 9

Ricco, vencedor do último Big Brother África: agora, no Brasil

Lembram do Ricco, o angolano que ganhou a última edição do BBB África, tornou-se um dos rostos mais conhecidos do país, e cuja vitória frente aos 12 concorrentes foi marcada pela polêmica se entregaria ou não o prêmio de 100 mil dólares a uma instituição de caridade de Luanda?

Pois então: no próximo dia 28, Ricardo David Ferreira Venâncio, 21 anos, entrará na "casa mais vigiada do país" durante numa festa que terá DJs (será o meu amigo Malvado? Ou o Bruno M?) e comidas típicas de Angola no cardápio. Ricco ficará apenas 4 dias no programa, como já aconteceu com um argentino "noutra altura". 

Será, certamente, uma oportunidade ótima para nós, os "retornados", matarmos a saudade do sotaque daí, vermos se o comportamento de Ricco para com as brasileiras será o mesmo dos "kambas" que atacam as brazukas no Chill Out - e, last but not least, se o moço sabe dançar kuduro de verdade, e não essa dancinha que uma banda baiana anda por aí difundindo como original de Angola.

Fico imaginando como essa notícia vai causar um frenesi na imprensa angolana, nomeadamente na coluna Gente, de Alberto Pegado, do Jornal de Angola. Não falará-se-á noutra coisa no país da Palanca Negra durante semanas a fio...

PS: Dica preciosa do leitor paulistano AM

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Taj Mahal

"Foi a mais linda história de amor
Que me contaram e agora eu vou contar
Do amor do principe Xá-Jehan pela princesa Num Mahal
De de, dederede, de de, dederede, de de ... Taj Mahal"

(Jorge Ben Jor)

Ele é um símbolo internacional do amor eterno (no Brasil, virou até tema de samba-rock do Jorge Ben Jor). Maior complexo funerário do mundo, totalmente construído em mármore branco e adornado com pedras semipreciosas, o Taj Mahal ganhou essa fama porque, segundo a lenda, teria sido construído pelo imperador Shah Jahan como túmulo de sua esposa Mumtaz Mahal, que morreu ao dar à luz o seu 14º filho. Isso em 1632, numa sociedade onde a mulher, até hoje, tem um papel secundário.

História bonita e tal mas a verdade é que o Taj Mahal está se transformando, hoje, num símbolo de como a vida moderna destrói os sonhos românticos.

O primeiro golpe na lenda dos apaixonados vem da ciência. Historiadores enxergam um simbolismo escondido nas inscrições islâmicas que adornam as paredes do mausoléu. Estão reproduzidos ali 14 capítulos do Corão que tratam sobre o Dia do Julgamento Final e sobre os prazeres do paraíso. Um deles, no portão de entrada, é uma citação em que Alah convida os homens de fé a entrarem no seu paraíso.

Além disso, foi descoberto recentemente um texto em Sufi antigo que descreve como seria o trono de Deus e, adivinhem, a descrição é idêntica à planta do Taj Mahal. O texto constava da biblioteca do pai de Shah Jahan. Associando as duas evidências, os cientistas alegam que Shah podia, sim, ser muito apaixonado pela esposa. Mas que também se considerava Deus e o mausoléu, no caso, teria sido construído para ele mesmo reproduzindo as descrições do paraíso.

De que ela era megalomaníaco ninguém duvida. Basta olhar para o imenso mausoléu.

As flores feitas de pedras semi-preciosas foram engastadas no mármore

Estas foram esculpidas numa longa pedra de mármore branco

Mais adornos engastados nas paredes do palácio


As descobertas da ciência podem abalar o mito, mas não acabam com a magia do Taj Mahal. Esta está sendo destruída mesmo é pela poluição lançada na atmosfera por automóveis e indústrias da região.

A chuva se tornou ácida e já há alguns anos vem correndo o mármore do palácio. Trabalhos de recuperação da estrutura vêm sendo feitos e algumas medidas de contenção da emissão de poluentes têm sido tomadas, mas a verdade é que o palácio está ameaçado.

Além disso, o rio que passa por trás dele foi assoreado, perdeu vazão e baixou. O terreno se tornou instável e os alicerces dos minaretes ao norte estão abalados.

Ou seja, enquanto a ciência especula as intenções românticas de Shah Jahal, nosso estilo de vida está prestes a acabar com a estrutura física da representação do amor eterno.

As cúpulas do Taj Mahal e, abaixo, a mesquita que faz parte do complexo

P.S. – Mumtaz morreu em 1631 e a obra começou em 1632, mas só acabou em 1653. A dúvida é: onde ficou enterrado o corpo da Mumtaz enquanto o Taj não ficava pronto?