As fotos se sucedem no portão de entrada desta Casa, assinadas por mim, como se quisessem provar que foi tudo verdade, que sim, durante um ano eu estive lá, a viver Luanda, a sofrer Angola como os melhores angolanos... Não há outra explicação para os 4 gigabytes de imagens e filmes guardados dentro de um ficheiro inequivocamente denominado "Angola 2008".
Por vezes me pego pensando, porém, e tudo o que vivi me parece tão distante, tão irreal. Como se tivesse sonhado esse ano inteiro, ou apenas me apropriado de histórias de outras pessoas que nunca chegaram a ser minhas num continente distante em que jamais pisei. Ainda não completei três meses no Brasil e África já me soa misteriosa, insondável; como se uma eternidade tivesse passado desde que saí de Angola.
Como relatou o X. aqui outro dia, também já me foge da escrita o sotaque angolano que tanto me custou conquistar (exceção honrosa ao "desculpa lá" e ao "telemóvel", que continuo a usar para espanto geral dos interlocutores brasileiros).
Luanda me abandona aos poucos e só me salva a pasta de fotos e filmes que traz no nome o ano, 2008, como se estivesse a me dizer que se hoje está só, aguarda ansiosa a companhia de outros ficheiros com o nome de Angola.
Sonata "Ao Luar", de Beethoven
Há 2 dias



