quinta-feira, 30 de julho de 2009

Xuxa fará show em Angola em outubro e mobiliza aspirantes a atrizes em filme sobre feiurinha


O sonho dos angolanos em ter um show de Xuxa será realizado. A "rainha dos baixinhos" se apresenta junto com o cantor local de maior sucesso, Maya Cool, no dia 10 de outubro, na festa da Amizade Brasil-Angola. O mestre de cerimônia será, pelo segundo ano, o apresentador Luciano Huck.

Agora vem a melhor parte disso tudo:

O programa ‘Revista África’, da TV Globo, acompanhará, durante todo o mês de agosto, a disputa de duas angolanas ao papel de fada no filme “Xuxa e o mistério da Feiurinha”, de Tizuka Yamazaki, diretora de outros filmes da apresentadora como “Xuxa Popstar” e “Xuxa Requebra”.

No programa que irá ao ar esta semana, dia 01, uma reportagem mostrará os primeiros dias das atrizes no Rio de Janeiro, onde estão para fazer os testes, e o encontro emocionado com a apresentadora.

No dia 8 de agosto, será exibida a reunião do elenco para as leituras do texto do filme. Já no dia 15 de agosto, o programa mostrará um making of do “TV Xuxa”, e fará suspense com o nome da vencedora, que será anunciado no “Revista África” da semana seguinte, 22 de agosto. Só então os telespectadores verão a volta da escolhida a Angola e a festa que os amigos farão para recepcioná-la.

A TV Globo Internacional exibe o “Revista África” todos os sábados, logo após o “Jornal Hoje”.


quarta-feira, 29 de julho de 2009

O Elinga não vai mais ser demolido

O celular tocou quando ainda era madrugada no Brasil, coisa de 8 da manhã em Luanda.

-- Yá, tás fixe? Tenho uma notícia boa para si, que sei que gostas tanto daquele sítio.

-- Aié?, respondi, brincando, uma vez que no Brasil a gente sempre diz: "não diga!" (quando na verdade quer é que o interlocutor continue a falar, no Brasil é tudo ao contrário).

-- Uma fonte do Ministério da Cultura me garantiu ontem que o Elinga Teatro não será mais demolido para dar lugar a um prédio de oito andares em formato de parque de estacionamento.

Nem o anúncio do que seria o final da crise financeira internacional me deixou tão feliz, confesso a vocês, porque só quem já viveu as noites frenéticas do Elinga (Zé, Ju, Xuxis, Fulano e cia. sabem bem) sabe que ali é "a balada" de Luanda.

--- Pois então, volte para cá pois, depois que "vocês" partiram, Luanda voltou a ser um deserto...

Ai, ai, ai, ai....

terça-feira, 28 de julho de 2009

O mundo virá abaixo, certamente...

...porque vocês não fazem a menor idéia de quem será a atração musical do show do Dia da Amizade Brasil-Angola, em novembro...

sábado, 25 de julho de 2009

Foi assim, em Luanda

Ao arrumar alguns papéis, daqueles que se guardam ao longo do tempo com afecto, encontrei este desenho. Decidi partilhá-lo hoje convosco. Talvez porque esta imagem fala de uma Luanda antiga, relembra-me tempos em que se anunciaram sonhos e desafios.

Foi há 34 anos. Havia a guerra. E desenhos. Porque havia crianças e vida também. Assim, foi naquele tempo em que grupos de desalojados povoaram durante semanas o então Liceu D. Guiomar de Lencastre.
Nzinga Mbandi ainda não chegara. Naquele espaço, erguia-se o Liceu Feminino, nascido em 1954, que se orgulhava da educação que proporcionara a jovens e futuras mulheres durante duas décadas.
Em Junho de 1975, o liceu abriu as suas portas para servir de abrigo temporário a quem vinha fugido da guerra. Nas salas de aulas escutaram-se, pela primeira vez, outras línguas e viram-se panos de todas as cores.
Na cerca, nos jardins interiores, na sala de Lavores e até perto do tanque onde se ia espreitar os jacarés (lá, ao pé da sala de Canto Coral) cuidava-se de gente. E procurava-se cuidar por inteiro. Os espaços exteriores encheram-se de alegria com os sorrisos e cantorias dos grupos de crianças que se distribuíam por diferentes actividades e, assim, iluminavam, sem saber, o cinzento de muitos dias daquele cacimbo quente.

Campanhas de limpeza, acções para angariar alimentos, organização de espaços e refeições constituíram algumas das inúmeras tarefas diárias que ocupavam os dias de todos os que tentavam preservar rotinas e vidas. Novos vocábulos ouviam-se nos corredores da escola e o léxico crescia e enriquecia a par de cada vivência. Dividir era a operação principal e a mais difícil daquele tempo. Era preciso dividir espaços, horas, pensamentos, tarefas, alimentos. Dividir sem apenas subtrair, fazendo os restos virar ganhos. Nos muitos nadas descobriram-se parcelas e assim se partiu para novas operações.

Julho, 1975. Tempo de partidas bruscas. De fugas, perdas, lutos. De sonhos, alegrias, esperanças e celebrações de vida. Tudo coube nesse cacimbo. Misturavam-se prazeres e dores, nascimentos e despedidas, despiam-se as vestes da ingenuidade trazida da infância e das ilusões exponencialmente romanceadas pelo sonho vivido intensamente.
Depois da dipanda, o Guiomar de Lencastre deu lugar ao Nzinga Mbandi. Hoje, nas suas instalações recuperadas em 2000, vejo partilhar outros saberes e gosto de saber que se fala de outros reis e rainhas, também. Já não há portões fechados no Liceu, nem cartões de saída, nem vendedores de picolés. Há zungueiras que por ali passam e tudo é possível comprar, no meio do barulho de vozes de uma nova geração que marca a saída do Nzinga agora.

Luanda apresenta-se transfigurada, mas guarda silenciosamente os seus mistérios. Neles encontro a generosidade e coragem de quem soube morar por baixo dos traços destes desenhos. Aqueles que guardo, junto com o brilho dos olhos e sorrisos daquelas crianças.

Luanda merece. E esta é uma das estórias que se podia contar!

terça-feira, 21 de julho de 2009

35 páginas sobre a economia de Angola


A revista País Económico - que eu sempre comprava ali na Africana, uma livraria vizinha ao Três em Um, café charmosinho na rua António Barroso, na Maianga - publicou na edição de julho um dossiê de 35 páginas sobre a economia angolana.

Tem pano para todas as mangas: banca, construção, automóveis, empresariado, transportes e acessibilidade, energia e indústria.

Leitura obrigatória para o grupo de amigos datilógrafos transformados em economistas de um dia para a noite no ano passado, de acuerdo?

domingo, 19 de julho de 2009

"Somo todos farinha do mesmo saco"


Como tínhamos dito aqui, começou há um mês um intercâmbio muito interessante entre Natal, onde moro hoje, e Lisboa. Desde sábado, os portugueses estão por aqui retribuindo a visita que a comitiva potiguar fez à "Tuga" no final de junho.

Dentro da programação, ontem aconteceu um show maravilhoso com Carminho, uma das novas vozes desse gênero musical tão triste e tão bonito que é o fado. Dizem que é preciso ter mais de 40 anos e ter sofrido uma grande decepção amorosa para cantar o fado, mas Carminho quebrou todas essas regras, pelo visto. Tem apenas 24 anos e no quesito voz é um assombro. Aqui você pode vê-la cantando a lindíssima “Marcha de Alfama”.

Completaram o show o magistral saxofonista Carlos Martins, cuja versão de “Maio Maduro Maio” arrancou lágrimas de um certo revolucionário amigo meu que estava na platéia e trabalhava pra RTP quando da libertação de Lisboa e Luanda e – como não dá mais para falar de Brasil e Portugal sem falar da África – colocou os pés do lado de cá pela primeira vez junto com a comitiva de tugas a caboverdiana Nancy Vieira, que mandou embora toda a chuva que caía em Natal há dias com seu vozeirão ao entar mornas, coladeiras e batuques, nomeadamente o lindíssimo “Vadú”, que encerrou o show.

Tudo isso vem à guiza de introdução para falar de Mário Ivo, um jornalista potiguar que conheci em janeiro e que me concedeu a honra de publicar, em dois sábados seguidos, um “pequeno dicionário” com cerca de 15 verbetes tentando explicar para quem está do lado de cá o que é Angola (tal qual aquele que causou tanta polêmica aqui no blog por causa do verbete "portugueses"). No final, Mário, que batizou essa sessão de “Adivinhe quem vem para o café-da-manhã”, amarrou as pontas de tudo e, brilhantemente resumiu Brasil, África e Portugal com um ditado popular que não deve ser só brasileiro: “somos tudo farinha do mesmo saco”.

Dono de um texto elegantíssimo, ele publicou dia desses a crônica abaixo, sobre Lisboa, e me autorizou a reproduzi-la no blog, para deleite de quem vive nessa ponte aérea e sentimental, saudosista e reflexiva, de amor e ódio para com as duas cidades (Luanda e Lisboa) e que, nos momentos mais difíceis, só precisam lembrar disso: “somos farinha do mesmo saco”. As fotos são todas deste datilógrafo, feitas quando da última "aterragem" por lá. Para acompanhar a leitura, que tal ouvir Amália Rodrigues cantando "Uma Casa Portuguesa" nesse videoclipe cafonérrimo e, por isso mesmo, maravilhoso?

***

Embriaguez em Lisboa, Mário Ivo Cavalcanti

Nunca dei muita importância à Lisboa. Me pareceu mais interessante vista do alto, ou quando, pousados os pés na pista do aeroporto, manhã outonal de mil e novecentos e muitas décadas, ainda não tinha meus pés pousados realmente nela.

Depois, aquela profusão de praças, carros, ônibus – atulhando a visão. Diante de Madri, que eu só conheceria depois, Lisboa era uma cidade velha, caquética, mal-ajambrada – quase como uma daquelas favelas, fedendo a bolor e urina, esse tipo de lugar que a gente tem vergonha de assumir que tem nojo, mas evita a passagem com certo cinismo, mas não impunemente, porque a moral, porque a consciência, porque etc.

Mas, três meses sem ver o mar e foi Lisboa quem me reconduziu ao encanto que é ver o mar e saber que existe um momento na vida em que não ver o mar é um desencanto a mais na solidão. Inda mais quando se assiste ao mar engolfando rio e virando oceano e horizonte infinito. Inda mais quando é o Tejo, o rio particular de todos nós, aldeões, a ser engolido por um Atlântico ainda remanso, antes de virar, tormenta, onda, vagalhão. Um rio inteiro, grande por magnífico, magnífico por secular. Secular porque sim.

Do que ainda me lembro, e tão pouco me lembro, Lisboa a partir de um automóvel não é a mesma de quando percorrida – melhor dizendo, tateada – a pé. Passo miúdo, passo apressado, passo junto ou desconjuntado, a pé.

Talvez eu diga isso, agora, quase outra encarnação da memória, por um atalho brusco e sem sentido na direção do ensaio sobre a cegueira do senhor Saramago, o português moderno por excelência e distinção. Não pelo livro em si, que de Lisboa tem pouco, mas pela importância do tato diante da visão, da definição exata das pontas dos dedos frente ao esboço do olhar.

Todos modos, acredito piamente que sabe-se mais de Lisboa no interior do elevador de Santa Justa do que olhando o Tejo e suas pontes, que na verdade são apenas duas e que na verdade é apenas uma e haverá quem diga que se parece com a Ponte de Todos e não o contrário. (Mas que, verdade-verdadeira, são muitas pontes, milhares delas, centenas delas, dezenas dela, uma única, enfim, porque muitos são os pontos de onde guardá-la, mas sempre unitário é o olhar.)

Em Lisboa (e também creio piamente, que hoje acordei quase devoto), ou você passa a mão pela rachadura das paredes, ou você sente o entalhe do tempo no madeirame das casas, ou você fere os dedos no ferro trabalhado do Santa Justa – ou então, você não sente nada e se ilude com uma indigestão de paisagens abertas.

Porque, dizem, a visita primordial é ao Mosteiro dos Jerônimos, e à Torre de Belém, mas aquilo sempre me pareceu uma espécie de Disneylândia Gótica, um épico arquitetônico, enfim, grandiloqüente por demais, sonoro por demais, ruidoso por demais, fake por demais.

Houve um tempo, também, em que o que mais me incomodava em Lisboa era sua língua. O rumor da sua língua. A entonação da sua língua. A língua de suas ruas, carregadas de insinuações verdes, de prosódias amarelas. Com esse arremedo de identidade comum, de berço comum, de lugar comum, de decadência comum – reino e colônia amalgamados numa tristeza, saudade sem fim. Porque quando se é jovem queremos, desejamos, almejamos, exigimos, enfim, a incompreensão.

Quando eu desci em Lisboa, naquela manhã de outubro-outono, um dos passageiros estava bêbado. Da mesma embriaguez do cônsul britânico em Cuernavaca no Dia dos Mortos, como se saído direto das páginas de “À sombra do vulcão” para um tête-à-tête com Almada-Negreiros – em frente a A Brasileira. Era um homem realmente bonito e já dava seus primeiros passos para o dia em que chegaria à velhice onde, talvez, perderia também parte do fascínio dos habituados a pôr à mesa a própria beleza. Por enquanto, estava vestido elegantemente, ainda mais com a gravata elegantemente desconjuntada como se desejosa em combinar com a embriaguez do seu proprietário. Tinha, explicitamente, a elegância dos que se destacam naturalmente do rebanho, dos que optam alçar a cabeça no prumo das nuvens e não enterrar o focinho na providência segura do pasto. Desconfio que misturou pastilhas medicinais com álcool, tão irresistível era sua bebedeira. Desconfio que tenha passado a mão na bunda de uma aeromoça, a mais bonita, a mais madura, a mais magra e alta. Desconfio que ela gostou, mas é das aeromoças a cobrança de respeito pelos passageiros, pois. Por isso o rosto amuado da menina – aliás, toda a equipe estava visivelmente irritada com o sujeito. Que, ainda no ônibus que nos levaria da pista para a alfândega, pegou o chapéu de uma senhora, colocou na própria cabeça, continuou rindo, indiferente à raiva que provocava no mundo, sem se preocupar se seria preso, algemado, interrogado, sem se importar, inclusive, se havia desembarcado em Lisboa ou alhures. Porque, como em qualquer cidade, desembarcar em Lisboa pode ser desembarcar em lugar algum, voltar ao ponto de partida, de onde nunca se parte realmente.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

E Kimalanga , de F. Baião, ganha o mundo

Recebi anteontem, com muita alegria, o novo livro do amigo virtual e vizinho dessa Casa, o Fernando Baião (cuja notícia publicada na Revista África 21 reproduz-se abaixo). Foi uma felicidade imensa chegar em casa e encontrar o volume, acompanhado de outro, de histórias bem escritas sobre Angola (e tudo que diz respeito a esse país interessa imenso a nós todos da Casa), depois de uma epopéia que levou uns 15 dias para atravessar o Atlântico.
Por isso, não sei como e onde (em Lisboa deve ser fácil encontrar, no Rio de Janeiro Baião informa que o livro já está à venda nas livrarias Kitabu e Leonardo da Vinci), mas se eu fosse você corria agora para comprar Kimalanga. Do que li até agora, é bwé, bwé fixe. Viva Baião!

Kimalanga, novo livro de FBaiao

Com a devida circunstância e alguma pompa, foi lançada na Casa de Angola, em Lisboa, a última obra do escritor angolano FBaião, Kimalanga, respigos da história recente de Angola, «destes trinta e três/trinta e quatro anos de independência, naquilo que esses anos têm de mais sério, de mais profundo, (…) mais “estruturante” do que somos /ou não somos/ ou fomos/ ou nunca fomos e das diversas etapas que percorremos até hoje», como diz no prefácio Carlos Ferreira (Cassé). O prefaciador vai mais longe e afirma mesmo peremptoriamente: «O Fernando Teixeira, o Baião, dá-nos um retrato literariamente implacável de um quadrante social claro da nossa Angola de hoje. Porém de uma forma tão encantada, tão sui generis, tão simples

e tão desconcertante, que o lemos de uma só penada, de um só jorro».

Utilizando um estilo coloquial que vai enriquecendo com um crescendo de informações e apartes, sem abandonar uma linha narrativa que encontra na linearidade o seu encanto, FBaião agarra realmente o leitor através da utilização de uma estrutura de texto onde o diálogo é substituído eficazmente por uma narração directa, tão dúctil como fluente, enriquecida por um fino humor que tem tanto de cáustico.

Revista África21– julho 2009